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EM UM SEGUNDO, tudo estava gelado e seco.

No segundo seguinte, tudo estava frio e úmido.

A água puxou Anna como se tivesse dedos.

Ela respirou fundo – inalando bastante ar – antes de afundar sob a água.

O mundo debaixo do gelo era escuro e silencioso, até mesmo pacífico, exceto pelos gritos selvagens que tomavam conta de Anna.

Ela estava com frio de novo! Ela iria congelar de novo! Se ela morresse… o lobo ganharia? Anna deu um chute. Ela não podia desapontar todo mundo! Mas não importava o quanto mexesse os pés para tentar voltar para a superfície, as lâminas pesadas de seus patins a puxavam para baixo…

… para baixo…

… para a escuridão.

Ou era para cima? Para o lado? O silêncio escuro e gelado era desorientador, e seus pensamentos começaram a ficar lentos. Então, um raio de luz passou por ela, como se alguém na superfície tivesse cortado o gelo. Anna sentiu a água embaixo de si mover-se como um cavalo gigante e uma onda negra de água surgiu embaixo, empurrando-a para a superfície com toda a força de um gêiser. A água não era quente como a primavera, estava mais para uma lama de neve derretida. Elsa. Momentos mais tarde, depois de balbuciar e tossir muito, Anna estava nos braços de Kristoff e Elsa.

– Obrigada por me salvar – Anna sussurrou, tremendo de frio.

Mas Elsa não respondeu. Em vez disso, disse:

– Kristoff, você precisa levá-la até a loja de Oaken.

– O quê? Não – Anna resmungou –, estou bem. Ficarei bem.

– Mas Anna… – Elsa disse, levantando as mãos em forma de protesto. – Você quase se afogou.

– Quase – Anna protestou. – Eu quase fiz várias coisas. Preciso ajudar dessa vez!

Elsa chacoalhou a cabeça.

– Não tenho certeza.

– Por que você sempre tenta me afastar? – Anna perguntou.

Elsa ficou paralisada.

– O quê? Anna, do que você está falando? Quando eu a afastei?

Anna ficou em silêncio.

– Sinto muito, eu… por favor, eu preciso ir com você. – Por um segundo, Anna pensou que Elsa diria não, mas então algo pareceu derreter dentro dela.

Ela deu um abraço em Anna.

– Eu também sinto muito. Não queria gritar, eu só… só estou chateada, acho.

– Eu não queria lançar um feitiço – Anna disse, precisando desabafar. – Não sabia que o feitiço traria meu pesadelo com o lobo à vida.

Elsa sacudiu a cabeça.

– É só… Quando você começou a ter pesadelos?

– Quando eu era pequena, daí essa semana o pesadelo voltou. – Desde que percebi que você ia me deixar para trás para seguir sozinha na grande viagem. Mas Anna não falou essa última parte em voz alta.

Kristoff riscou um fósforo para acender uma pequena pilha de galhos que havia juntado. Ele fez um gesto para as irmãs se aproximarem do fogo.

– Quando você teve esse pesadelo pela primeira vez? – Elsa perguntou enquanto elas se encolhiam perto do fogo. O vapor emanava das roupas de Anna enquanto elas se secavam lentamente.

Anna pensou.

– Acho que foi na noite que… você sabe. – Ela tocou o cabelo, no lugar em que a mecha branca costumava estar, relembrando quando Elsa acidentalmente a atingiu com mágica quando era mais nova. – Não acredito que você nunca teve pesadelos.

Elsa deu de ombros.

– A última vez que tive um pesadelo, acho que tinha oito anos. Acordei e meu quarto inteiro havia se transformado em uma paisagem de inverno.

– Ela balançou a cabeça. – Eu me senti tão mal! Tudo estava molhado e eles tiveram que trazer móveis e tapetes novos para mim.

– E você nunca mais teve esse pesadelo?

– Não. – Elsa colocou a cabeça para trás e olhou para cima. – O papai me ensinou vários truques para tentar controlar minhas emoções, minha

mágica. Lembro que ele entrou no meu quarto com uma caneca de chocolate quente uma vez…

– Ele também costumava fazer isso comigo! – Anna disse.

Elsa sorriu, e Anna sorriu de volta, gostando da ponte surpresa que as conectava.

– E mamãe juntou-se a ele e me disse para me imaginar reunindo todos os pesadelos e jogando-os pela janela – Elsa disse. – Eu costumava pensar que quando acumulava esses pesadelos e os jogava pela janela, eles serviriam de alimento para as constelações no céu.

– Eu também pensava isso! – Anna disse, sentindo-se mais próxima de sua irmã. – Eu fingia que os dava para Frigg, o pescador. Mas o truque não me impedia de ter pesadelos.

Elsa encolheu os ombros.

– O truque da mamãe funcionou para mim. Não tive mais pesadelos desde então.

– Desculpe interromper – Kristoff disse –, mas, falando de estrelas…

está ficando tarde.

As irmãs sorriram e Anna se sentiu um pouco melhor. Ou muito melhor.

Suas roupas ainda estavam úmidas, mas tinham parado de pingar.

Depois de apagar o fogo, Kristoff deu um passo para trás no gelo, e Anna o seguiu. Mas a esperança que era tão evidente antes parecia ter sido deixada para trás na pilha de folhas nas margens do rio.

Em seguida, o sol começou a se pôr, projetando grandes sombras no gelo enquanto eles continuavam patinando pelo resto do Rio dos Rumorejos. Anna não conseguia parar de pensar que aquelas sombras pareciam pessoas afogadas presas debaixo do gelo.

Eles patinaram em silêncio. Anna não queria acidentalmente acabar com a paz entre ela e sua irmã, e Kristoff estava novamente perdido em seus pensamentos. Os pais biológicos de Kristoff tinham morrido havia muito tempo e, durante a primeira parte de sua vida, Sven fora sua única família – até que ambos fossem adotados pelos trolls da montanha. Quanto mais se distanciavam de Sven, mais calado Kristoff ficava, até que, finalmente, aquilo ficou insuportável para Anna. Ela precisava de uma distração – para todos eles.

– Kristoff, você já conheceu os Huldrefólk? – perguntou, falando a primeira coisa que conseguiu pensar. – Eles já visitaram os trolls?

Ele fez que não.

– Não que eu saiba – ele disse. – Os trolls gostam de se esconder, mas os Huldrefólk… bem, eles realmente gostam de se esconder, certo? Acho que ninguém nunca viu um deles.

– Eles também são conhecidos por encontrar coisas perdidas – Elsa disse, patinando mais devagar para que os outros pudessem acompanhá-la.

Ninguém em Arendelle, ou provavelmente no mundo todo, sentia-se tão confortável no gelo como Elsa. Embora ela sempre se movimentasse com muita graça, quando patinava, era mais do que gracioso. Ela se tornava alguém com vento nas veias e asas nos pés. – Dizem que Aren de Arendelle uma vez foi visitá-los.

– Mas essas aventuras o levaram a várias criaturas de faz de conta – Anna disse, lembrando das histórias. – Como sereias e dragões.

– Isso – Elsa disse, assentindo. – Então talvez os Huldrefólk sejam tipo dragões e não existam. Talvez Aren nunca tenha existido.

Kristoff fez uma careta.

– Então por que vocês duas sabem tanto desse cara se talvez ele nem tenha existido? Ele é só uma lenda, certo? Um mito?

– Possivelmente. Dizem que ele fez grandes coisas para a terra – Anna disse. – Ele mesmo esculpiu Arenfjord. Pelo menos é o que dizem.

Kristoff bufou.

– Ah, claro. Isso foi a coisa mais ridícula que já ouvi.

– Você nunca ouviu a história? – Anna perguntou, surpresa. – Achei que todos sabiam.

Kristoff apontou para si mesmo.

– Criado por trolls, lembra? Alguns de nós não tivemos aulas chiques durante a infância. – Havia algo estranho em sua voz, como se Anna tivesse tocado em uma ferida. Devia ser por conta de sua preocupação com Sven. Ela se virou para Elsa e perguntou: – Você sabe a saga de cor, certo?

Elsa assentiu.

– Era útil para passar o tempo durante a infância. – Ela parou por um momento, se concentrou, e então falou as frases familiares que significavam o começo de uma história: “Há muito tempo, antes que uma grande escuridão tomasse conta da terra…”.

Anna prendeu a respiração enquanto Elsa recitava o antigo conto, descrevendo como uma noite interminável se colocou sobre as montanhas e como a humanidade fugiu em seus barcos buscando segurança. Naquela época, os humanos viviam na água havia centenas de anos, até que um dia

uma doença estranha os atingiu. Assustadas, as pessoas pediram ajuda para o espírito ancião das águas, e ele disse que estavam definhando sem um lugar para plantar suas raízes – eles precisavam voltar para casa. Mas todos estavam assustados demais, com exceção de um jovem garoto.

– Jovem como a manhã, tão feroz quanto um galho, Aren foi em direção à terra firme – Elsa recitou.

Eles patinavam no ritmo da voz de Elsa, uma perna de cada vez, em uma cadência que atravessava Anna e a acalmava. Coisas impossíveis haviam acontecido no passado. Então por que não poderiam acontecer novamente?

Ela se sentia encorajada conforme Elsa descrevia como Aren havia escalado a montanha mais alta para negociar com a noite e trazer o sol de volta, e como quando ele finalmente libertou o sol, foi recompensado com a Lâmina Revoluta. O sol disse como ele poderia trazer seu povo para casa: entalhando um novo caminho para eles, entre as montanhas protetoras.

A voz de Elsa acelerou quando ela atingiu o clímax da primeira missão de Aren, e Anna não conseguiu evitar um sussurro junto às palavras que ela lembrava.

– Lua revoluta e sol giratório forjaram uma lâmina crescente. Da luz e da escuridão dentro do coração, a espada polida foi remanescente. O arco curvado de Revoluto brilhava em sua mão. Ele o ergueu acima da cabeça e bateu na extremidade da terra.

Sem perder uma batida, Elsa estendeu a mão para Anna, gesticulando para ela participar da estrofe final da primeira aventura de Aren, que Anna lembrava com orgulho. Juntas, as irmãs terminaram o conto:

– O mar avançou quando o poder oculto fluiu da espada brilhante e moldou a rocha e a coroa da floresta do primeiro majestoso fiorde!

Suas vozes soaram como uma, as palavras ecoando de maneira triunfante através do gelo.

– Nada de mais – Kristoff disse. – Lembrei de uma música de trolls sobre Dagfinn, o Empoeirado, um troll alérgico às montanhas e que acidentalmente causava avalanches sempre que espirrava pedras pelo nariz.

– Como é? – Anna riu. – Os trolls dizem que pedras são isso mesmo?

Meleca de nariz de troll?

Kristoff deu de ombros.

– É. Posso cantar uma para você, se quiser.

– Talvez mais tarde – Elsa se intrometeu, parando-os com um jato de gelo. – Chegamos. – Ela apontou para uma placa:

MONTANHA DOS MINERADORES PERIGO: MANTENHA DISTÂNCIA NADA DE INVASORES OU CABRAS O POVO DE HULDREFÓLK ESTÁ OBSERVANDO!

Anna olhou para o pico brilhante da Montanha dos Mineradores. Se semicerrasse os olhos o suficiente, conseguiria ver a torre do místico. Mas era tão alta e tão longe de onde estava que parecia mais uma chaminé presa em um telhado do que uma torre em cima de uma montanha. Levaria dias para escalarem tudo aquilo.

Isso para pessoas que não tinham uma irmã mágica, claro.

Elsa esperou Kristoff e Anna saírem do rio congelado. Assim que Elsa subiu para a margem, o gelo se quebrou e a água azul voltou a fluir. Ela girou as mãos e os patins de Anna derreteram, revelando suas botas, mas Anna quase não percebeu por causa do grande turbilhão que a rodeava: a neve subia no ar cada vez mais alto até que se solidificou em uma grande escadaria de gelo.

Elsa fizera uma mágica novamente. A escadaria de gelo era comprida e alta, com nada além de um corrimão fino e curvilíneo, e seria muito mais fácil seguir por ela do que por uma trilha rochosa, traiçoeira e tediosa.

Deveria haver pelo menos mil degraus na escadaria de gelo – Anna não se daria o trabalho de contar. De qualquer maneira, eles subiriam por ela, pois havia respostas esperando por eles no topo da montanha.

– Clássico – Kristoff disse para Elsa.

– Obrigada – ela respondeu.

Um passo após o outro, eles subiram.

Em um primeiro momento, Anna nem se preocupou em usar o frágil corrimão, mas, ao alcançar mais ou menos dois terços do caminho, olhou para baixo e teve que se segurar forte. A escadaria era clara como o gelo, e Anna, embora fosse corajosa, não estava totalmente confortável com a visão de seus pés pendurados acima do ar. A essa altura, os pinheiros pareciam cada vez menores. Conforme subiam, o sol descia.

Finalmente, no escaldante pôr do sol, eles chegaram ao topo. De lá, a torre era muito mais alta do que Anna pensava – e muito mais bagunçada.

As pedras que compunham a torre pareciam estar dispostas ao acaso e certas rochas pareciam estar prestes a deslizar para fora do lugar. Na verdade, a torre assemelhava-se às pilhas de livros que Anna deixara na biblioteca. Elsa foi na frente e parou na porta da torre. Sua mão ficou imóvel, esticada, como se não conseguisse decidir se deveria bater ou não.

Anna puxou a capa para o peito quando o vento cantou em torno deles.

– O que houve?

– O que devo dizer? – Elsa perguntou.

– Você bate na porta e diz oi, e depois seguimos – Kristoff respondeu. – Rápido.

– Isso mesmo que o Kristoff falou – Anna disse, olhando o sol se pôr no horizonte.

Elsa ajeitou os ombros e bateu na porta.

Os três olharam para a porta e esperaram, mas nada aconteceu. Será que não tinha ninguém em casa? O pensamento apavorou Anna. Eles tinham vindo até aqui e Sorenson não estava lá.

Elsa bateu novamente. Nada.

– Vá para trás – Kristoff disse. Ele se colocou na frente de Elsa e forçou o ombro na porta. Mas ela era mais forte do que parecia. Ele ergueu sua picareta bem alto.

– Por que não tenta a maçaneta? – Elsa perguntou.

Kristoff levantou uma sobrancelha e fez isso. A porta se abriu.

– Rá – ele disse, guardando a picareta. Sem dizer mais nenhuma palavra, ele entrou.

Anna trocou um olhar divertido com sua irmã e elas o seguiram pela porta e entraram na torre. Por fora, a construção parecia prestes a cair, mas por dentro parecia bem sólida, feita de pedras, madeira e livros.

Anna sempre imaginou que um místico fosse organizado, um tipo de pessoa que rotulava cada tempero no armário da cozinha, mas tudo parecia estar arrumado de maneira aleatória. Plantas espalhavam-se em cima de livros, e livros em cima de estátuas. Na outra extremidade do cômodo, havia uma escada em espiral. Tinha praticamente de tudo dentro daquele cômodo da torre.

Menos um místico.