– NATT-NATT – ANNA GAGUEJOU, tentando dar o aviso.
Mas era tarde demais.
Ela observava a areia verter dos olhos de Sorenson para revelar não íris castanho-escuras como Anna lembrava, mas olhos da cor da carcaça de uma vespa. E então a areia rodopiou até o coração de Sorenson. Um lugar para Nattmara empoleirar-se até o pôr do sol. Os trolls tremem com o uivo de Nattmara, enquanto Nattmara foge do sol como uma sombra. Mas pesadelos ainda podiam doer, mesmo durante o dia.
– Nattmara! – Anna finalmente berrou, e foi seu grito que quebrou algum tipo de encantamento estranho. Momentos atrás, ela se sentia totalmente suspensa, como se estivesse fora de si mesma, e agora ela se movia mais rápido do que conseguia pensar. – Corram!
Mas Kristoff e Elsa já tinham visto o que Anna não tinha sido capaz de dizer. Kristoff correu e se posicionou no assento do trenó em um pulo, e Elsa segurava a mão de Anna e a puxava para dentro.
– Vai! – Kristoff gritou, e Bjorn, já profundamente infeliz com o intervalo da corrida e nervoso ao redor do homem que não parecia muito confiável, disparou.
– Vai! Vai! Vai! – Anna gritou quando conseguiu fazer sua boca se mover novamente. Ela se virou a tempo de ver Sorenson mostrar os dentes e, então, ele enfiou a mão no bolso do casaco e puxou um frasco brilhante de pó violeta: Pó de Combustão Altamente Inflamável e Muito Perigoso.
O cientista, agora um fantoche de Nattmara, levantou o frasco no ar.
– MAIS RÁPIDO! – Anna gritou, enquanto uma explosão se deslocava para perto deles, passando muito perto do trenó.
Eles seguiram fora de controle. O percurso estava longe de ser tranquilo, pois ainda era início do outono e o chão estava apenas duro o suficiente para as lâminas do trenó funcionarem. Qualquer outro trenó não seria capaz de atravessar o terreno repleto de vegetação rasteira, arbustos e rochas, mas um trenó feito por Elsa era o mais escorregadio possível e duas vezes mais rápido.
Outro frasco de pó sibilou pelo ouvido de Anna e ela virou a cabeça pouco antes de o fogo violeta a engolir. Pelo canto do olho, ela viu Elsa levantar as mãos.
– Não! – Anna gritou. – Você não pode! Nattmara só ficará maior e mais poderosa!
Elsa abaixou as mãos e Anna olhou para a frente.
– O que é aquilo? – Anna perguntou, apontando para uma linha escura na terra se aproximando.
– Aquilo – disse Kristoff engolindo em seco – é um desfiladeiro. Um cânion muito, muito, muito largo.
Outro som sibilante cortou o ar. Outra explosão.
– Temos que despistá-lo! – Anna gritou. – Mais rápido! Mais rápido!
Podemos atravessar o cânion!
– Não, não podemos! – Elsa gritou – Somos muito pesados!
A linha escura estava mais grossa agora; o abismo estava mais próximo e mais amplo. Seriam necessários apenas mais alguns segundos até que eles pudessem atravessá-lo, tentando voar sobre a vala profunda.
– Elsa, aqui! – Kristoff entregou as rédeas nas mãos de Elsa antes de se virar para Anna. – Acho que posso segurar Sorenson até o pôr do sol – disse ele, olhando diretamente nos olhos dela. – Diga a Sven que ele deve ouvir você. – Suas palavras vieram muito rápidas e o significado veio muito lento.
Anna balançou a cabeça.
– Espere, o quê?
Mas então Kristoff a estava beijando. Seus lábios pressionaram os dela, quentes, leves e tão fortes quanto uma promessa… mas uma promessa de quê? Antes que Anna pudesse reunir seus pensamentos e organizar os pedaços de informação do que ele estava dizendo, seus lábios estavam subitamente frios novamente. O beijo tinha acabado.
E Kristoff estava se afastando dela, equilibrando-se na beira do trenó…
– Não! – Anna arfou e suas palavras ficaram claras.
Mas era tarde demais. Kristoff havia pulado do trenó. Anna gritou.
– O que está acontecendo? – gritou Elsa, tirando os olhos do abismo e olhando para trás no instante em que Kristoff aterrissava com força no chão, com os joelhos dobrados para absorver o impacto, de alguma forma conseguindo ficar de pé. E então ele partiu, correndo em direção a Sorenson.
– KRISTOFF! – Anna gritou. Mas sem o peso adicional, o trenó deslizou mais rapidamente.
As patas pesadas do urso lançavam lama para longe enquanto ele avançava para o abismo, levando Anna cada vez para mais longe de Kristoff.
– KRISTOFF! – Anna gritou novamente. – KRISTOFF, VOLTE!
Mas Sorenson o tinha visto agora. O velho ergueu a picareta de Kristoff, com as duas pontas em gancho brilhando como dentes de lobo, enquanto se aproximava dele, armado apenas com um galho de árvore caído.
Em qualquer outra circunstância, o vencedor dessa luta seria inquestionável. Kristoff era jovem, forte como um touro e cheio de energia devido aos verões em que ele subia e descia a montanha carregando blocos de gelo e fazendo trabalhos manuais ao redor do castelo, enquanto Sorenson estava enrugado pela idade; seu rosto assemelhava-se a um mapa amassado, seus membros eram curtos e finos por conta dos anos que passara estudando, tornando-o sedentário.
No entanto, a Nattmara emprestara a Sorenson sua graça predatória e seu instinto implacável. Sorenson se movia como óleo quente, rápido e crepitante, causando dor e deslizando tão rápido que era difícil dizer se Sorenson agora era homem ou lobo, ou ambos. Seu tornozelo inchado não o atrasou de forma alguma.
Sorenson lançou a picareta roubada no ar e Kristoff quase foi cortado em dois. Mal teve tempo de erguer os olhos antes que Sorenson avançasse mais uma vez. A picareta balançou várias vezes com a destreza de uma agulha de costura. Ainda assim, Anna podia ver o cabelo amarelo e desgrenhado de Kristoff mergulhando e se esquivando, dobrando e rolando, exatamente como os trolls o haviam treinado. Anna queria pular do trenó e correr para o lado dele mais do que qualquer coisa.
– Devemos voltar? – Elsa disse, a irmã mais velha perguntando à irmã mais nova o que fazer. E de todas as formas, Anna refletiu.
A capa de Elsa estalou ao vento e, embora parecesse abalada, ela ainda segurava as rédeas com a mesma firmeza de quando segurava o cetro da coroação. Estavam quase no abismo.
– Você precisa me dizer agora!
Sim. Com todo o seu coração, Anna queria pegar as rédeas das mãos de Elsa e puxar o urso de volta para Kristoff e Sorenson possuído pela Nattmara. Mas ela não podia. Ela não iria.
As sombras já aumentavam. A noite logo estaria ali – e então viria o amanhecer. O terceiro amanhecer, o último amanhecer, se Anna não conseguisse a Revoluta primeiro. Kristoff havia lhe dado um presente, uma chance de desfazer o que ela havia feito. E ela não podia desperdiçá-la.
– Continue – Anna resmungou, enquanto seu coração se partia.
Lágrimas quentes escorriam por suas bochechas, misturando-se às cinzas do céu enquanto Elsa apertava as rédeas e Bjorn saltava.
O coração de Anna caiu em seu estômago à medida que elas voavam sobre o abismo.
Por um longo momento, elas pareciam pairar no ar, suspensas por nada mais grosso que a seda da aranha sobre a boca aberta da terra. Se elas não conseguissem atravessar, as pedras afiadas centenas de metros abaixo estariam prontas para rasgá-las e cortá-las em pedacinhos.
Anna tentou se agarrar às laterais do trenó, mas a criação de Elsa era impecável. Não havia gelo áspero que ela pudesse agarrar. Nenhum nó irregular que ela pudesse se segurar. Então se agarrou à única coisa que podia: sua irmã.
Segundos se passaram e o outro lado ainda parecia muito distante. Até que, com um baque estridente, as patas do urso tocaram o chão, e o trenó e as irmãs se chocaram com força. Elas tinham conseguido.
– Anna, eu não consigo respirar! – Elsa gritou.
Anna soltou sua irmã, virando-se para ver o que havia acontecido com Kristoff. Ela conseguia apenas distinguir duas figuras do outro lado do abismo, mas não sabia mais dizer qual borrão era a picareta e qual era o galho. Eles ficaram cada vez menores à medida que o urso aumentava seus passos e o chão voava sob seus pés, mas ela manteve os olhos nas figuras em luta.
Anna sabia que essa dança não poderia durar tanto tempo. Em apenas algumas horas, o sol cairia no horizonte e, em seguida, Nattmara deixaria de se esconder no corpo de Sorenson e retomaria seu poder total como o lobo temível.
Ou talvez possuísse Kristoff antes disso? Será que ele seria sufocado por uma realidade de pesadelo? Ele viveria em seu próprio cenário de terror, em que não havia trolls ou renas, nem consolo em montanhas tranquilas, nem Anna? Um mundo de pesadelo que poderia durar para sempre, a menos que ela e Elsa pudessem detê-lo primeiro.
– Podemos ir mais rápido? – A garganta de Anna estava tão apertada que sua pergunta foi quase um sussurro. Na verdade, ela não tinha certeza de ter dito algo. Ela se sentia tão significativa quanto uma sombra e igualmente inútil. Não sabia se Elsa a ouvira até sentir a mão da irmã apertando a dela.
– Iremos tão rápido quanto o vento – prometeu Elsa, com as duas mãos nas rédeas.
Elas deslizaram pelo terreno rochoso das montanhas, avançando a um ritmo vertiginoso, até a corrida selvagem de Bjorn terminar em um penhasco. Um rio corria por perto, ganhando velocidade e volume enquanto seguia pela beira da montanha. Elas alcançaram as cachoeiras – e a entrada para a Passagem dos Gigantes da Terra, para o túmulo de Aren.
– Chegamos. – Elsa saiu do trenó. – Depressa!
Olhando para baixo, Anna conseguiu distinguir a forma do castelo de Arendelle. A bolha de gelo que Elsa fizera com tanto cuidado e beleza havia se quebrado, deixando fragmentos afiados de gelo ao redor do terreno tão perigoso quanto vidro quebrado. Ao lado, Anna podia ver a aldeia, a cor de suas casas ainda era alegre, apesar do terror que agora abrigava. Mas, pelo menos, ela viu com alívio a cúpula de gelo que Elsa havia feito para a aldeia ainda de pé.
Ela olhou em direção ao porto. O navio real não estava mais lá, e Anna esperava que Sven, Olaf e os aldeões estivessem longe e seguros. Ela não aguentaria se mais uma alma se machucasse por causa dela. Porque Kristoff… Não. Ela não conseguia pensar em Kristoff. Não agora.
Escorregando para fora do trenó, ela ajudou Elsa a libertar o urso de neve de seu cinto. Sem isso, Bjorn parecia dez vezes mais feroz e selvagem, e Anna sabia que, com apenas uma pata, ele poderia esmagá-la tão facilmente quanto ela poderia esmagar uma flor de açafrão. Mas, então, o urso se sacudiu, seu pelo ondulando como algas marinhas, e enfiou o nariz frio na mão de Anna. Ele fungou, e ela passou os braços em volta de seu pescoço de neve.
– Obrigada – disse, apertando Bjorn e permitindo-se um momento de admiração. Estava abraçando um urso. Ela estava abraçando um urso!
Elsa assentiu.
– Sim, obrigada, Bjorn.
Bjorn esperou o último aperto de Anna e olhou para Elsa. Ele pareceu acenar com a cabeça na direção dela. Em seguida, se afastou – e correu na
direção de Nattmara. Anna entendeu.
Ele ajudara da melhor maneira possível e agora tentaria segurar Nattmara longe delas enquanto procurassem pela Revoluta.
– Vamos – disse Anna, a emoção subindo em seu peito enquanto se dirigia para a cachoeira. – Se estivermos certas, estamos prestes a consertar tudo!
Elsa enrolou o cachecol com mais força nos ombros.
– Mas se estivermos erradas, então…
Anna estava feliz por Elsa não ter terminado seu pensamento, porque não suportaria ouvi-lo.