– CONSEGUIMOS! – Anna gritou, esquecendo que precisavam ficar em silêncio e abraçando Elsa.
– Cuidado! – Elsa se esquivou da espada. – Você não quer cortar a gente acidentalmente.
Embora o aviso de Elsa não fosse engraçado, por algum motivo, plantou uma semente de humor em Anna. Uma risada escapou e, então, ela caiu na gargalhada. Em vez de tentar se segurar, Anna se deixou levar por essa sensação, jogando a cabeça para trás e rindo alto. Elsa parecia confusa, o que só fez Anna rir mais ainda.
Então, lentamente, os lábios de Elsa começaram a se curvar enquanto ela sorria. Em seguida, ela também começou a rir alto. As risadas delas ecoaram pela Passagem dos Gigantes da Terra, saltando para lá e para cá, consertando o pequeno rasgo no coração de Anna causado por constantes preocupações.
Porque Anna havia conseguido provar para Elsa que ela ainda precisava da irmã caçula que cometia erros. Ela provara que poderia realizar tudo o que planejava fazer.
De repente, Elsa parou de rir e somente a risada de Anna quicava pelas paredes, soando solitária e abandonada.
– Ei – Anna disse, quase sem ar. – O que aconteceu?
Elsa colocou o dedo no lábio, e Anna escutou. Sem a barreira da risada, ela pôde ouvir outro som saindo de trás da cachoeira e da passagem. Um uivo longo, baixo e bravo.
A Nattmara estava se aproximando.
– Precisamos sair daqui – Anna disse, calçando as botas. – Ou então ela vai nos prender no túnel.
– Certo – Elsa assentiu. Ela já estava prendendo mais forte a sua trança.
– Mas Anna, acho que…
– Precisamos de um plano – Anna disse, terminando a frase de sua irmã, como costumavam fazer. – Sim, você está certa! O plano, o plano, o plano, o plano… Use sua mágica para distrair Nattmara só por um segundo ou
dois! E então vou surpreendê-la com a Revoluta. Essa é uma ideia brilhante, Elsa!
– Mas eu… – Elsa começou, e foi tudo o que Anna conseguiu entender, porque já havia pegado a Revoluta da mão de Elsa e começado a correr pela passagem até a saída, em direção à Nattmara. O medo corria por suas veias, mas ainda assim ela tinha a Revoluta.
Ela tinha esperança.
Anna apertou forte o cabo, com o diamante amarelo pressionando sua mão. Quase machucava, mas continuou correndo, acreditando no poder do mito e confiando que sua irmã a seguiria com uma explosão de gelo ou um turbilhão de vento forte.
A cachoeira ainda congelada brilhava à frente. Anna se espremeu pela saliência estreita e atravessou a passagem, parando em seguida. Porque a terra adiante não era o lar que ela conhecia.
Seu lar tinha uma vila alegre com casas pintadas, um fiorde cheio de ricas águas azuis e uma exibição vibrante de cores outonais que deixariam sua paleta de cores com inveja. Mas a terra diante dela era toda branca, como se a realidade estivesse sendo apagada para dar espaço ao pesadelo que se estabelecia para a eternidade. Como nuvens de tempestade, Nattmara rondava as fronteiras da vila.
Quando Anna vira o lobo no Saguão Principal, ele era maior do que qualquer lobo que ela já tinha visto, mas não de um tamanho anormal.
Depois, ele ficara maior, duas vezes maior do que um lobo normal, e então do tamanho de um touro, e então do tamanho de uma colina. Mas agora os olhos dele eram da mesma altura que as janelas do segundo andar das casas da vila.
Era exatamente como Sorenson havia dito. A cada hora que a Nattmara não fosse banida, ela cresceria, alimentando-se do medo que tomava conta da terra. Cada passo de suas patas parecia cobrir quase dois quilômetros e por onde passava as árvores se contorciam para longe, como se elas também pudessem dormir e sonhar e como se não quisessem nada que a Nattmara oferecia. Era como se álamos, choupo-branco e abetos também quisessem fugir.
Anna pensou que a Nattmara viria direto até ela, quem a havia convocado acidentalmente, mas em vez de seguir o caminho que levaria até a cachoeira e a Revoluta, ela havia virado… em direção à vila.
No tempo que demorou para Anna piscar, o lobo gigante chegou na beira da redoma de gelo que protegia a vila. Apoiando-se nas patas de trás, ele bateu com as patas da frente na redoma.
TUM!
O gelo permaneceu inteiro e liso. A redoma estava funcionando – mas por quanto tempo? A Nattmara atacou novamente.
TUM!
Anna franziu a testa. O som da batida foi seguido por um barulho de rachadura. A Nattmara só precisava fazer uma fissura fina como um cabelo para conseguir passar pela barreira de Elsa na forma de areia negra.
– Anna! – Elsa disse, saindo de trás da cachoeira para juntar-se a ela na saliência acima da vila. – Preciso que você…
– Temos que ajudá-los! – Anna gritou, o desespero deixando sua voz aguda.
Os aldeões não sabiam o tamanho do perigo que estavam correndo. Eles estavam todos dormindo! Ela deu um passo para a frente para correr, mas seu pé ficou parado no lugar, grudado no chão como se estivesse preso.
O quê? Anna olhou para baixo e viu um pouco de gelo saindo pelo chão, juntando-se como elos de uma corrente envolvendo seu pé.
Enquanto Anna ficava boquiaberta, algo puxou a Revoluta e, sem pensar, ela soltou. Tarde demais, ela percebeu o que havia feito. Virando para trás, viu Elsa parada na sua frente, segurando a espada de Aren com as duas mãos. Ela não parecia mais sua irmã mais velha, nem mesmo uma rainha. Parecia uma guerreira.
– Elsa. – Suas palavras soaram baixas até para os seus ouvidos. – O que você está fazendo?
– Sinto muito – Elsa disse, e Anna podia ouvir a verdade em suas palavras. Ainda assim, Elsa não parou. O gelo em volta de Anna a prendia no lugar, movendo-se de um lado para o outro como fios de um tear para formar uma tapeçaria branca, subindo cada vez mais alto. – Falhei ao proteger o reino – Elsa disse –, mas não vou falhar com você também!
Falhar? Anna não sabia sobre o que Elsa estava falando. Ela não falhava em nada.
– Elsa – Anna disse, enquanto os cristais congelados se acumulavam sobre a sua cabeça, formando uma redoma. – Eu não preciso de proteção!
Parecia que todo o ser de Anna tinha se contraído e desmoronado, como um buraco negro ou um abismo escuro. Ela se sentiu tão pequena quanto a
cabeça de um alfinete. O último elo de gelo se encaixou no lugar, terminando não como uma tapeçaria, mas como uma tenda em forma de bolha. Anna percebeu que podia mover os pés novamente, pois a corrente de gelo que a mantinha no chão estava deslizando para se juntar à estrutura. Porém, não importava se Anna podia mexer os pés ou não, porque Elsa não havia feito uma porta.
– Eu te amo – Elsa disse, parecendo mais nova do que Anna ou até mesmo Echo. E então começou a correr, descendo apressada pelo caminho sujo até a vila, com a Revoluta nas mãos.
– Volte! – Anna gritou. – Elsa! – Ela bateu os punhos no gelo, mas as paredes eram tão fortes, tão sólidas, que cada soco parecia uma mordida.
As camadas de gelo permaneceram firmes, mantendo Anna presa.
Não havia nada que Anna pudesse fazer a não ser observar Elsa chegar até o fim do caminho e correr em direção à Nattmara. Observar Nattmara sentir o cheiro de Elsa e se virar para sua irmã, mostrando suas garras terríveis. Observar enquanto Elsa avançava, pronta para ser a governante que Arendelle precisava… assim como Aren. Mas tudo ficaria bem. Tudo ficaria bem, tudo ficaria bem, tudo ficaria bem.
Elsa empunhava o mito que poderia derrotar o mito.
Ela segurava na mão a grandiosa lâmina que havia esculpido o lar deles em Arenfjord. Se a Revoluta podia fazer isso, com certeza poderia derrotar uma Nattmara convocada por uma irmãzinha assustada. Ainda assim, Anna prendia a respiração enquanto assistia, longe demais para ajudar e, ao mesmo tempo, perto demais, porque conseguia ver tudo.
O uivo do vento coincidiu com o uivo do lobo quando Elsa interceptou a Nattmara na base da Ponte dos Arcos. Elsa parecia uma boneca na frente do lobo monstruoso, que tinha ficado tão alto que suas orelhas chegavam até as bandeiras do castelo. Mesmo de longe, Anna conseguia ver o fio de saliva pendurado nas presas de Nattmara ao rondar sua irmã, com os grandes olhos amarelos fixos nela.
Isso era mil vezes pior do que qualquer pesadelo de Anna. Em todos os seus pesadelos, pelo menos, ela sempre tinha um pouco de controle. Ela sempre conseguia, de alguma maneira, fugir ou distrair a criatura tempo suficiente até acordar. Mas, mesmo que Anna conseguisse sair da bolha de gelo, não conseguiria acordar.
O lobo e sua irmã andavam em círculos.
A capa e o cachecol de Elsa voavam com o vento enquanto ela girava uma mão e segurava a Revoluta com a outra. Mas algo estava errado.
Embora Elsa estivesse controlando as rajadas de gelo, em qualquer direção que ela mandasse a neve, o lobo a forçava a ficar de costas para a mágica, para que seu cabelo e o vento gelado entrassem constantemente em seus olhos. Não havia como Elsa ver claramente.
E, então, Nattmara a atacou.
Elsa e a Revoluta saíram voando, e os dentes da Nattmara morderam apenas o ar. Ela parou por um momento e atacou de novo. Dessa vez, um terrível barulho de arranhão tomou conta do lugar quando as presas rasparam na lâmina. Ou talvez o barulho fosse o grito de Anna. Porque Elsa agora estava entre as patas gigantes da Nattmara, esparramada como uma aranha, com o corpo retorcido e a mão vazia.
A Revoluta havia voado pelo ar, deixando um rastro preto-azulado, e foi parar alguns metros atrás de Elsa. Anna viu a mão da irmã se mexendo, tentando alcançar a espada sem tirar os olhos de Nattmara.
– REVOLUTA! – Anna gritou, embora soubesse que Elsa não conseguia ouvi-la. – À SUA ESQUERDA!
A Nattmara lambeu a boca, com as presas posicionadas acima de Elsa.
Por um momento, Anna viu com detalhes surpreendentes o brilho das garras da Nattmara pairando sobre o peito de sua irmã enquanto Elsa respirava fundo.
Então, a Nattmara se lançou para baixo.
Mas, num piscar de olhos de Anna, Elsa também se lançou. Ela agarrou a Revoluta e, em um movimento fluido, segurou-a na frente de si – a antiga lâmina brilhava à luz do sol poente – e a cravou no céu da boca da Nattmara.
Anna esperou que ela caísse e se desintegrasse em pó, finalmente derrotada por um objeto de mito, exatamente como Sorenson dissera.
Em vez disso, o mundo desacelerou e parou quando a Nattmara mordeu a espada. E a Revoluta – a grande e mítica espada do herói mais antigo de Aren, a espada que esculpiu o Arenfjord das montanhas, matou animais e conquistou pesadelos – se quebrou como vidro. Pedaços da lâmina de meteorito cintilaram, enquanto pulverizavam inutilmente no chão, chovendo sobre Elsa, que agora estava completamente indefesa diante da Nattmara.
– ELSA! – Anna gritou, batendo na sua prisão de gelo. – ELSA! Use sua mágica!
Talvez tenha sido um truque do vento, mas Elsa pareceu virar a cabeça na direção da cachoeira. Por um segundo, quase pareceu que Elsa olhou para ela. Olhando para baixo, Anna viu que a bolha de gelo começara a se dissolver no ar – o que não era nada bom! Se a mágica de Elsa estava se dissolvendo, isso significava que ela também estava se tornando mais fraca.
Mas agora Anna estava livre!
Ela começou a correr pelo caminho. Sabia que não chegaria a tempo, mas, ainda assim, tinha que tentar. Provavelmente Elsa faria… não, com certeza Elsa faria o mesmo por ela.
A Nattmara jogou sua cabeça gigantesca para trás e uivou, comemorando sua vitória. E, quando se elevou mais uma vez sobre Elsa, seu pelo branco se transformou em um preto brilhante e a Nattmara se transformou em uma nuvem de areia que se destacava fortemente contra a paisagem desbotada. Os pedaços rodopiaram juntos, formando uma coluna giratória.
E então a areia bateu no peito de Elsa… e desapareceu.
– Elsa! – Anna chorou, com raiva. – Elsa!
A irmã se esparramou no chão, de olhos fechados. Seus cabelos loiros se soltaram da trança e caíram sobre as folhas do chão. Espalhados ao redor dela, como uma auréola quebrada, estavam os fragmentos preto-azulados do que outrora fora a grande espada Revoluta.
E, embora Anna soubesse o que aconteceria em seguida, ainda não estava preparada para ver as pálpebras de Elsa se abrindo para revelar brilhantes olhos amarelos.
O estômago de Anna ficou pesado ao ver os olhos do lobo no rosto familiar da irmã. Ela diminuiu o passo.
– Elsa? – ela chamou, hesitante.
Elsa abriu a boca… e gritou.
E então ela levantou as mãos, explodindo Arendelle com seus poderes, sua neve e gelo normalmente brancos agora substituídos por neve negra e gelo negro.
Não, não era neve negra nem gelo negro. Era areia negra.
Enquanto Elsa gritava, o som varreu Anna, assustando-a tanto quanto o uivo do lobo, até que não sobrou nada, exceto o grito de Elsa dentro dela,
reverberando contra sua caixa torácica, ecoando repetidamente em seu completo vazio. Em sua total solidão.
A Revoluta estava despedaçada, e os olhos de Elsa estavam amarelos.
– Elsa – Anna chorou, sem saber o que fazer. – Elsa… Elsa… Elsa! Mas a figura que tinha sido sua irmã nem sequer se virou para encará-la.
Respirando com dificuldade, Anna juntou os cacos da espada no bolso da capa em uma esperança inútil. Porque a Revoluta, a famosa espada do mito, não foi suficiente para derrotar uma besta mitológica. O mito não era mais um mito. Isso não foi capaz de salvar sua irmã. E o som do grito de Elsa – ou era o uivo do lobo? – chamou sua atenção para os pontos pretos reunidos na borda de sua visão. Anna não sabia qual era qual, mas os pesadelos a invadiram e a arrastaram para baixo.
– Elsa – ela conseguiu falar uma última vez. Sem saber o que era realidade e o que era pesadelo, ou se agora era tudo a mesma coisa, Anna viu Elsa finalmente se virar para ela.
Elsa levantou as mãos, e areia negra saiu de sua palma em direção à Anna.
A escuridão rodou em torno de Anna e, finalmente, não havia mais nada.