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LENDA DE TROIA

No documento Hist 7º ano (páginas 149-156)

A LENDA DE TROIA

GUERRA DE TROIA

A Guerrra de Troia tem sido contada e recontada muitas vezes ao longo de séculos. A maioria dos Antigos Gregos acreditava nela como um facto histórico ou, pelo menos, com um fundo de verdade.

Nos tempos modernos, a maioria dos Historiadores considerou, durante muito tempo, que todo este episódio era apenas um mito e que a própria cidade de Troia nunca tinha existido. Tal facto deve-se a não serem conhecidas provas históricas ou arqueológicas que permitissem considerar este episódio como verdadeiro. A única fonte conhecida são os poemas de Homero, A Ilíada (assim chamada porque Ílion era outro nome de Troia) e a Odisseia.

LENDA DE TROIA

Segundo o mito, tanto Zeus como seu irmão Poséidon desejavam a ninfa Tétis. Mas Prometeu, que por vezes conseguia ver o futuro, fez uma profecia: Tétis teria um filho que, quando crescesse, seria mais forte do que o seu próprio pai. A paixão dos dois deuses arrefeceu logo e decidiram fazer com que ela casasse com Peleu, um mortal que, como já era muito idoso, não correria grandes perigos.

Organizaram uma grande festa de casamento e convidaram todos os deuses e deusas excepto Éris, deusa da discórdia, a fim de evitar que ela estragasse a festa ou oferecesse o desentendimento como prenda aos noivos.

A deusa sentiu-se magoada e resolveu vingar-se. Entrou invisível na sala do banquete e atirou para cima da mesa uma maçã de ouro com a inscrição: «Para a mais bela». Claro que isto provocou imediatamente a discórdia que tinham querido evitar.

Éris

Três deusas, Hera, Afrodite e Atena disputaram a maçã e o título de «a mais bela». Zeus, chamado a arbitrar não conseguiu escolher, talvez com medo de desencadear uma crise de raiva e de ciúmes por parte das não escolhidas. Assim, decidiram que iriam pedir a um mortal que escolhesse. As deusas apareceram a Páris, filho de Príamo, rei de Troia, que pastava rebanhos perto do monte Olimpo e cada uma delas ofereceu-lhe um dom, caso ele a escolhesse. Hera ofereceu-lhe o poder sobre

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toda a Ásia e toda a Europa, Atena prometeu torná-lo o mais sábio dos Homens e Afrodite jurou que lhe entregaria o amor da mulher mais bela da Terra. Páris escolheu Afrodite e este episódio, conhecido como o Julgamento de Páris, veio a ser a causa, muitos anos depois, da Guerra de Troia.

Julgamento de Páris

Nota: Se achares estranho que um príncipe andasse a fazer de pastor, fica a saber que, quando estava para nascer, a sua mãe sonhou com uma tocha que destruiria Troia. O pai foi aconselhado a abandoná-lo no monte Ida. Mas foi recolhido e cresceu pastando rebanhos de quem julgava ser o seu pai (em algumas versões Agelau, servo do rei). Apenas já em adulto tudo se veio a esclarecer e ele retomou o seu lugar de príncipe. Tenta saber mais. Pesquisa numa biblioteca ou na Net. Verás que uma história leva a outra, a imaginação dos Gregos era prodigiosa...

Já com todos os deveres e direitos de principe, Páris é enviado por seu pai numa missão diplomática a Esparta. Aí, enamorou-se da esposa do rei Menelau, Helena, que era considerada a mulher mais bela da Terra. Em algumas versões, Páris rapta Helena mas, na maioria dos "relatos, "ela também se apaixonou por ele e fogem ambos para Troia. Menelau, ofendido, pediu a ajuda de todos os outros Povos Helenos, invocando um juramento que, na altura do seu casamento com Helena, todos os reis tinham feito: apesar de todos terem sido seus pretendentes, respeitariam a escolha feita por ela e todos acorreriam a defender o seu marido, em caso de necessidade. E é assim que reuniram uma armada e partiram para Troia, chefiados por Agamémnon, rei de Micenas e irmão de Menelau.

A guerra durou 10 anos e nela se destacam vários herois:

Nota : Um herói, para os Antigos Gregos, era sempre um semideus, isto é, filho de deus e mulher ou de deusa e homem. Como eram capazes de proezas magníficas e superiores aos outros homens a palavra herói acabou por ganhar o sentido que hoje lhe damos. Alguns destes heróis (não todos) ganhavam a imortalidade como prémio dos seus feitos e iam viver com os deuses.

 Aquiles, filho de Tétis e Peleu. A deusa, receosa da fraqueza que a parte humana daria a seu filho, mergulha-o no rio Estige (rio que corre nas terras dos deuses e que torna imortal quem nele entrar) mas, como o segura pelo calcanhar, essa parte não é banhada e torna-se o ponto fraco de Aquiles. É por isso que hoje chamamos «calcanhar de Aquiles» ao ponto fraco de alguém ou de alguma coisa. Aquiles era o herói mais valoroso em batalha.

 Odisseu (chamado Ulisses pelos Romanos), rei de Ítaca, filho de humanos mas neto de deuses. É muito inteligente mas também muito manhoso. Ajuda a vencer Troia pela astúcia o que o torna merecedor da ira divina, como veremos mais tarde.

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 Heitor, um dos muitos filhos de Príamo e, portanto, irmão de Páris.

Também ele era filho de humanos (Príamo e Hécuba) mas descendente de deuses: a tradição considerava que a mãe de Príamo era filha do deus-rio Escamandro. Era corajoso, completamente dedicado a Troia e ao seu povo. Quando a guerra se dá, era ele quem verdadeiramente dirigia a cidade já que o pai estava demasiado idoso.

Aquiles arrastando o corpo de Heitor

Além destes heróis, outras personagens importantes se destacaram na história que Homero nos conta, como: Cassandra, a profetisa que acertava sempre mas em quem ninguém acreditava; Pátroclo, companheiro de armas de Aquiles que, ao ser morto por Heitor, desencadeou a cólera e a dor que levaram Aquiles a matar Heitor e a desrespeitar o seu cadáver; Andrómaca, esposa de Heitor e profundamente apaixonada por ele; Hécuba, raínha de Troia que vai perdendo os filhos um a um; Príamo, o rei, que vai pedir o cadáver de seu filho a Aquiles numa das passagens mais comoventes da Literatura ocidental, entre outros. E, claro os deuses e deusas que vão tomando partido pelos seus protegidos ou ajudando a dominar os que consideram inimigos: Afrodite, Ares e Artemis defendem Troia; Hera, Poseidon e Atena estavam do lado dos Gregos.

(Nota: Um poema que reúne tradições antigas, fala do heroísmo de um povo , conta a sua história de uma forma mitológica e faz os deuses intervirem e tomar partidos, chama-se Epopeia ou Poema Épico. A Ilíada é um poema épico.)

Ao fim de dez anos de lutas e da morte de Aquiles e de Heitor, Odisseu teve a ideia de fingir que os Gregos iam partir. Afastou os navios para alto mar onde não pudessem ser vistos das muralhas de Troia, mas deixou às portas desta um enorme cavalo de madeira dentro do qual estavam escondidos alguns dos melhores guerreiros gregos. Como o cavalo era para os Troianos um animal sagrado, eles pensaram ser um presente para os deuses oferecido pelos Gregos em fuga. Fizeram-no entrar na cidade, apesar dos avisos de Cassandra. De noite, quando os Troianos já estavam completamente bêbedos de festejarem o que julgavam ser a vitória, os Gregos sairam do cavalo, abriram as portas das muralhas aos outros que tinham voltado nos seus barcos pela calada da noite, e atacaram Troia, chacinando, pilhando, incendiando, até destruirem totalmente a cidade.

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Cavalo de Troia

Percebes, agora, porque se chamam «cavalos de Troia» ou «troianos» aos vírus que entram escondidos para fazer estragos no teu computador?

A ira dos deuses caiu sobre muitos dos Gregos por causa da forma como se comportaram. Mesmo os deuses que estavam do seu lado ficaram indignados com tal chacina pois, segundo os mesmos, esta vitória foi conseguida não pela bravura mas pela manha. E os deuses não gostam de soldados que fazem bluff…

Alguns dos reis que cometeram actos indignos, como, por exemplo, o sacrilégio de matar Príamo enquanto este estava refugiado juntamente com esposa e filhas num templo, são mortos ao regressar às suas terras. O que acontece a Odisseu (Ulisses) é diferente. Este não comete esses sacrilégios mas, como já dissemos, venceu Troia pela manha, não pela coragem. Assim, tem de pagar pelo que fez e vagueia pelos mares durante dez anos, exposto a mil perigos enquanto foge à cólera de Poseidon, até chegar finalmente à sua terra. Esta, porém, é outra história. Uma história de viagens e aventura, com gigantes de um só olho, feiticeiras e sereias, que te aconselhamos a ler. Chama-se Odisseia e também é atribuída a Homero.

Nota: A leitura da Odisseia na sua versão completa pode ser muito difícil para a tua idade. Contudo, existem versões que te podem ajudar a conhecer a obra e a preparar-te para a leres quando tiveres mais maturidade, Por exemplo, a versão de João de Barros, Edição Sá da Costa. Também podes pesquisar na Net alguns dos seus episódios.

Odisseu e as Sereia

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Para não ficares com a ideia de que a Ilíada é apenas uma história de guerra eis um pouquito de duas das passagens mais emocionantes e que falam de sentimentos. Na primeira, Andrómaca despede-se de Heitor, seu marido, antes de este ir lutar com Aquiles:

[Andrómaca] veio ao encontro [de Heitor], e com ela vinha a criada segurando ao colo o brando menino tão pequeno,

filho amado de Heitor, semelhante a uma linda estrela. Sorriu Heitor, olhando em silêncio para o seu filho.

Mas Andrómaca aproximou-se dele com lágrimas nos olhos e acariciando-o com a mão, falou-lhe pelo nome:

Homem maravilhoso, é a tua coragem que te matará! Nem te compadeces desta criança pequena nem de mim, desafortunada, que depressa serei a tua viúva.

Pois rapidamente todos os Aqueus se lançarão contra ti

e te matarão. Mas para mim seria melhor descer para debaixo da terra, se de ti for privada.

Compadece-te e fica aqui na muralha,

para não fazeres órfão o teu filho e viúva a tua mulher. A ela respondeu em seguida o alto Heitor do elmo faiscante: Todas essas coisas, mulher, me preocupam;

mas muito eu me envergonharia dos Troianos e das Troianas de longos vestidos, se tal como um cobarde me mantivesse longe da guerra.

Nem meu coração tal consentia, pois aprendi a ser sempre corajoso e a combater à frente dos Troianos,

esforçando-me pelo renome de meu pai e pelo meu. Pois isto eu bem sei no espírito e no coração:

Virá o dia em que será destruída a sacra Ílion

assim como Príamo e o povo de Príamo da lança de freixo.

Mas não é tanto o sofrimento futuro dos Troianos que me importa, nem da própria Hécuba, nem do rei Príamo,

nem dos meus irmãos, que muitos e valentes tombarão na poeira devido à violência de homens inimigos -

muito mais me importa o teu sofrimento, quando em lágrimas fores levada por um dos Aqueus vestidos de bronze,

privada da liberdade que vives no dia a dia:

em Argos tecerás ao tear, às ordens de outra mulher;

ou então, contrariada, levarás água da Messeida ou da Hipereia, pois uma forte necessidade se terá abatido sobre ti.

E alguém assim falará, ao ver as tuas lágrimas:

Esta é a mulher de Heitor, que dos Troianos domadores de cavalos era o melhor guerreiro, quando se combatia em torno de Ílion. Assim falará alguém. E a ti sobrevirá outra vez uma dor renovada, pela falta que te fará um marido como eu para afastar a escravatura. Mas que a terra amontoada em cima do meu cadáver me esconda antes que oiça os teus gritos quando te arrastarem para o cativeiro.

Ilíada, VI, 399-493 (Tradução de Frederico Lourenço)

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Na segunda passagem, Príamo pede a Aquiles que lhe devolva o cadáver de seu filho:

[Príamo] foi direito à casa

onde Aquiles, dilecto de Zeus, costumava estar sentado. […] Despercebido, entrou, acercou-se

e com as mãos agarrou os joelhos de Aquiles e beijou

as terríveis mãos assassinas, que tantos filhos lhe mataram. […] Espantou-se Aquiles ao ver Príamo divino.

Suplicante, dirigiu-lhe então Príamo este discurso:

"Pensa no teu pai, ó Aquiles semelhante aos deuses!

Ele que tem a minha idade, na soleira da dolorosa velhice […] quando ouve dizer que tu estás vivo,

alegra-se no coração e todos os dias sente esperança de ver o filho amado, regressado de Tróia.

Mas eu sou totalmente amaldiçoado, que gerei filhos excelentes na ampla Tróia, mas afirmo que deles não me resta nenhum. […]

E o único que me restava, Heitor, que sozinho defendia a cidade e o povo, esse tu o mataste quando ele lutava para defender a pátria.

Por causa dele venho às naus dos Aqueus para te suplicar; e trago incontáveis riquezas. Respeita os deuses, ó Aquiles, e tem pena de mim,

lembrando-te do teu pai. Eu sou mais desgraçado que ele, e aguentei o que nenhum outro terrestre mortal aguentou, pois levei à boca a mão do homem que me matou o filho."

Ilíada, XXIV, 471-492 (Tradução de Frederico Lourenço)

Nota: Estes dois poemas foram transcritos de HOMERO, Ilíada, tradução de FREDERICO LOURENÇO, Ed. Biblioteca Editores Independentes, Lisboa, 2007

Corpo de Heitor levado de volta a Troia

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A GUERRA DE TROIA EXISTIU? E A CIDADE?

A Guerra entre os Aqueus (Povos Gregos da época de Micenas) e os Troianos é tradicionalmente datada de cerca de 1200 a.C. Homero escreve sobre ela quase 4 séculos depois e, entretanto, os Helenos tinham passado pela Idade das Trevas de que já te falámos. Todos os vestígios ou possíveis fontes tinham desaparecido. Restam os mitos e lendas passados de boca em boca e reunidos na Ilíada.

Quando no século XIX a Arqueologia conhece um forte desenvolvimento, um arqueólogo alemão, Heinrich Schliemann, apaixonado pela obra de Homero, procura Troia e acaba por situá-la na colina de Hissarlik, na Anatólia (actualmente território da Turquia).

Embora a colina não fique perto do mar, foram encontradas provas de que em tempos se encontrava mesmo na costa. Schliemann escavou e encontrou nove cidades que se foram construindo ao longo dos séculos, cada uma em cima das ruínas da anterior. Uma delas parecia ter sido destruída pelo fogo e poderá ser da época de que fala Homero. Nas suas ruínas foram encontradas muitas joias e objectos quer do dia-a-dia quer de luxo e Schliemann achou que tinha encontrado Troia.

Máscara mortuária que Schliemann acreditava ter pertencido a Agamémnon

Embora Scliemann tenha sido muito desacreditado depois da sua morte, uma equipa conjunta de arqueólogos americanos e alemães, chefiada por Manfred Korfmann voltou às escavações em 1982 e, desde então tem descoberto uma série de provas que lhe dão razão.

As últimas descobertas indicam que a cidade deve ter ali existido, que foi grande e rica, fortificada, e que é bem possível que tenha sido destruída devido não a uma mas a várias guerras. Pensa-se que Homero tenha reunido essas guerras em uma só. Mas nada diz que tenha realmente existido cavalo de Tróia ou que as guerras se tenham feito pelo amor de uma mulher. É bem provável que tenham sido por razões económicas. Mas isso não teria sido um bom tema de epopeia, não achas?

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