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CAPÍTULO 1 O PROCESSO: CONTEXTUALIZAÇÃO E FINALIDADES

1.4 PROCESSO E PROCEDIMENTO

O fenômeno processo é uma unidade, representada pelos atos procedimentais que o exteriorizam e as relações jurídicas que nele se inserem. Desta forma, como antes foi visto, o processo, embora não seja somente uma sucessão de atos, nestes tem o seu procedimento e a afirmação da sua existência, enquanto instrumento do qual se vale a jurisdição para realizar o seu mister.

Por sua vez, a vigente Constituição de 1988, modificou a legislação acerca do processo civil, instituindo competências distintas para a elaboração legislativa do

47Op. cit., p. 292.

48Id. Eduardo J. Couture, oferece melhor conceito, por ajustar o processo à relação jurídica, como se

pode ver: “Proceso – conjunto de relaciones jurídicas entre las partes, los agentes de la jurisdicción y los auxiliares de ésta, regulado por la ley y dirigido a la solución de un conflicto susceptible de ser dirimido por una decisión pasada en autoridad de cosa juzgada.”(obra citada – Vocabulario Jurídico, p. 480).

49Op. cit., p. 479 50Id. obra e p.

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processo e do procedimento.51 O art. 22, I, da CF fez privativo da União legislar a

respeito de processo, enquanto o art. 24, fez concorrente à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislarem sobre procedimentos em matéria processual. Parágrafos deste artigo estabeleceram que, em sede da legislação concorrente, a União limitar- se-ia a produzir normas de caráter geral (§1º) sem comprometimento da competência suplementar dos Estados (§2º); a ausência da lei federal, com o comando geral de específica norma, autorizaria os Estados a legislarem plenamente (§3º). O texto da lei estadual teria eficácia até a superveniência de lei federal, editando normas gerais, quando, então, os efeitos destas normas gerais estaduais seriam suspensos, naquilo que contrariassem a supremacia federal (§4º).

Diante disso, foi oportuna a ideia de traduzir o conceito de processo e procedimento, dispostos no item anterior, como auxílio à compreensão do que efetivamente pretendeu a Constituição Federal, quando estremou competências legislativas distintas ao processo e ao procedimento, abrindo a discussão a respeito (a) do que sejam as normas processuais e as procedimentais e (b) dentro destas quais são normas gerais de procedimento e as normas não gerais de procedimento.

Conseqüentemente, o processo, visto pelo direito de ação; as partes; as provas; a sentença – não devem ser particularizados em normas procedimentais, pela natureza geral que contêm todos aqueles elementos processuais. Argumenta Arruda Alvim52 que estes temas, pela abrangência e significado, estão, pelo menos,

esboçados na Constituição, demonstrando que não podem estar submetidos a uma lei estadual que os reduza ou estreite a expressão que têm para o direito, jurisdição, ação, processo e mérito.

Normas procedimentais, enquanto gerais são restritas à competência da União, que tem a primazia de editá-las à luz da Constituição, sendo melhor identificáveis as normas não-gerais a partir da ideia de que o procedimento é orientado pela forma, tempo e lugar, que podem ter formatos diferentes, em atenção às peculiaridades locais. Sugere-se, como exemplo, a vastidão do Amazonas e a baixíssima densidade demográfica, que podem sugerir procedimentos diferenciados

51“As normas de processo são de exclusiva competência da União, na forma do art. 22, I da CF/88.

Com as normas procedimentais, a mesma coisa ocorria precedentemente a esta Constituição Federal. Com esta, não mais.”(Arruda Alvim, in Manual de direito processual civil – parte geral, v. 1, 7. ed., São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 2007, n. 37, p. 126)

52ALVIM, Arruda. Manual de direito processual civil – parte geral. 7. ed.rev., atual e ampl. São Paulo:

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para compensar este desequilíbrio geográfico-social, ou para facilitar a promoção da Justiça, em áreas longínquas e de difícil acesso a maior parte do ano.

Cita Arruda Alvim a possibilidade de serem instituídas,

novas modalidades de citação ou de intimação desconhecidas da lei processual, desde que respeitados os princípios do art. 5º, XXXV, LIV e LV da Constituição Federal de 1988, principalmente, entre outros; a mesma coisa se diga quanto a cartas precatórias e cartas de ordem. O tema relacionado com o protocolo poderá ser disciplinado por lei local.53

A propósito, acompanha-se o realce dado ao veto integral do Presidente da República ao Projeto de Lei 95, de 1993, do Senado Federal (n. 3.588/89 na Câmara dos Deputados), sob o fundamento da inconstitucionalidade diante do objetivo da lei de adaptar normas de direito processual ao inciso XI do art. 24 da Constituição Federal (DOU, Seção I, 16.06.1995, p. 8.712), a seguir:

Cabe, pois, fixar os conceitos de Direito Processual e de ‘procedimento processual’, de modo a distinguir a competência privativa da União, da sua competência concorrente com os Estados. Direito Processual, segundo informa a doutrina, é o conjunto de princípios e normas jurídicas destinados a possibilitar a administração da Justiça, enquanto que o procedimento processual é o modo pelo qual aqueles princípios e normas devem ser aplicados. Em suma, o Direito Processual constitui um todo do qual o procedimento processual é uma das partes. Assim, tempo e lugar,54 prazos 55 e comunicação dos atos processuais, inclusive recursos, constituem

matéria do Direito Processual, mas não do procedimento processual, e, em conseqüência, matéria a ser disciplinada privativamente pela União,nos termos do art. 22, I, da Constituição, salvo se mediante lei complementar autorizar os Estados a legislar sobre questões específicas de Direito Processual (parágrafo único, do art. 22 da Constituição). Ora, pelos seus arts. 1º. e 3º., o projeto de lei ordinária pretende deferir aos Estados e ao Distrito Federal competência para legislar, precisamente, sobre essas matérias, o que refoge aos mandamentos dos preceitos constitucionais transcritos. Aliás, o Distrito Federal sequer poderia ser abrangido, pois à União cabe a administração da Justiça do Distrito Federal e Territórios. Demais, trata-se de projeto de lei despiciendo, isso porque o art. 24, XI, da CF e auto-aplicável, independentemente de lei federal reguladora, eis que a

53ALVIM, op. cit., p. 131.

54“O que nos parece é que tempo e lugar são matérias próprias da competência estadual, mesmo

porque, do contrário, parece que pouco, ou nada, restaria para se constituir no conteúdo dessa competência constitucional – v. nosso Tratado de direito processual civil, vol. I, p. 256 et seq. O que nos parece é que o veto é correto, nos outros pontos, e, em particular, no de que trata o art. 24, XI, da CF, desnecessita de regulamentação, justamente porque é auto-aplicável.” – Op. cit. p. 132.

55“É com base no que se diz no texto que se legitima o que consta do § 3º. do art. 172 (com redação

dada pela Lei 8.952/94): ‘(...) §3º.Quando o ato tiver que ser praticado em determinado prazo, por meio de petição, esta deverá ser apresentada no protocolo, dentro do horário de expedientes, nos termos da lei de organização judiciária local’ (grifo nosso). Semelhantemente, estabelece o § 2º. do art. 525 que ‘no prazo do recurso [ de agravo de instrumento] , a petição será protocolada no tribunal, ou postada no correio sob registro com aviso de recebimento, ou, ainda, interposta por outra forma prevista na lei local’(grifo nosso).” - Op. cit., p. 132.

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competência dos Estados emana do próprio texto constitucional. Dessa maneira, impõe-se o veto total ao Projeto de Lei 95/93, face à sua inequívoca inconstitucionalidade.

Em suma, as normas de processo são da exclusiva competência da União, consoante disciplina a matéria o art. 22, inc. I, da Carta Federal vigente. Contudo, estes dispositivos precisam de normas procedimentais, que darão funcionalidade as primeiras. As normas de procedimento estão submetidas a uma competência concorrente instituída entre a União, os Estados e o Distrito Federal (art. 24, inc. XI, da CF). Anota-se que, antes da vigente Constituição, as normas de processo e procedimento coexistiam sob a competência exclusiva da União, nada impedindo que ambas estivessem no mesmo texto, como ainda tem ocorrido nos dias atuais.

Ademais, para se instituir o discrímen entre as normas processuais e procedimentais, considerem-se fundamentalmente duas situações: a) O vínculo que ocorre entre normas processuais e outras de natureza material, sendo exemplo os temas relacionados com legitimidade, capacidade, provas, o que impede de o Estado-membro legislar acerca delas, pois, também, estão sob a égide da União, a quem cabe legislar sobre direito civil, donde se conclui que tais temas são processuais. b) A igualdade de todos perante a lei, o que impede de procedimentos produzirem direitos diferentes, entre Estados-membros.56