CAPÍTULO V – INCENTIVOS FISCAIS: FINALIDADE, REGRA E EFICÁCIA JURÍDICA
5.3 Incentivo-renúncia: finalidade, regra e efeito
5.3.1 Incentivo fiscal como finalidade
5.3.1.1 Quais podem ser as finalidades?
Dizer que a finalidade ou função predominante da norma tributária pode ser induzir comportamentos não é de todo preciso. A indução é antes um meio, não um objetivo. Demanda sempre um complemento: induzir o quê? Ou seja, qual o objetivo pretendido pela indução, positiva ou negativa, que se está a realizar por meio da regra tributária?
Quando mencionamos a arrecadação como finalidade do tributo, está claro o estado de coisas que a norma visa: a geração de receitas públicas. O legislador estrutura a regra de tal maneira que a conduta que dá ensejo a esse resultado, o pagamento do tributo, se faça obrigatória, sob ameaça de uma sanção. No caso da função indutora, cabe ainda verificar qual o comportamento induzido e qual o estado de coisas ideal que, por meio dele, pretende-se alcançar. É disto que tratamos neste tópico: os objetivos que podem ser perseguidos por intermédio das regras de incentivo fiscal. Cuida-se, em última análise, de examinar a vinculação finalística que a ordem constitucional impõe à concessão de benefícios fiscais.
Em geral, parece-nos que as finalidades de incentivo podem ser tão amplas quanto às áreas abrangidas pelo sistema fiscal e os efeitos que podem lograr. Vale aqui tudo o que dissemos em relação ao fenômeno extrafiscal:359 a lista é aberta e indeterminada. Já incluiu no direito brasileiro, e.g., desde o fomento ao esporte (Lei n. 11.438/2011) à formação do mercado de capitais no Brasil (Decreto-Lei n. 157, de 1967).360
Afirmamos que a lista de objetivos admissíveis é aberta, não porque seja matéria integralmente submetida ao alvedrio do legislador, mas pela infinidade de objetivos a que podem servir os benefícios fiscais na ordem vigente. O escopo da regra de incentivo subordina-se à finalidade constitucional a que se relaciona, de sorte a conferir-lhe maior concretude e densidade normativa.361 Há discricionariedade política, não arbitrariedade. O
359
Vide supra, Capítulo III.
360 Sobre o emprego de incentivos fiscais para a formação do mercado de capitais no Brasil no final da
década de 1960, ver: TRUBEK, David M.; VIEIRA, Jorge Hilário G.; SÁ, Paulo F. de. O Mercado de
Capitais e os Incentivos Fiscais. Rio de Janeiro: TN-APEC, 1971.
361
O art. 225, §1o, inciso I, da Constituição Federal, por exemplo, determina que incumbe ao Poder Público “preservar os processos ecológicos essenciais e prover o manejo ecológico das espécies e ecossistemas”. A Lei n. 5.106, de 1966, por sua vez, dispunha: “importâncias empregadas em florestamento e reflorestamento poderão ser abatidas ou descontadas nas declarações de rendimento das pessoas físicas e jurídicas, residentes ou domiciliados no Brasil, atendidas as condições estabelecidas na presente lei”. A primeira diretriz, vê-se, é mais ampla e compreende a segunda, que lhe dá cumprimento e densidade normativa.
objetivo deverá ser sempre público, eleito dentre aqueles que se encontram, explícita ou implicitamente, acolhidos no texto constitucional. Vale aqui o alerta de Maria Sylvia Zanella Di Pietro, a respeito da finalidade dos atos administrativos e legislativos:
Com efeito, o princípio da supremacia do interesse público ou princípio da finalidade pública está presente tanto no momento da elaboração da lei, como no momento de sua execução. Ele inspira o legislador e vincula a autoridade administrativa em toda sua atuação. O legislador, ainda quando estabelece normas para proteger o direito individual, tem o objetivo primordial de atender o interesse público, ao bem estar-coletivo; a Administração Pública não pode desviar-se de fins de interesse público, sob pena de ilegalidade, por desvio de poder.362
Com efeito, ainda que postulemos a vinculação do legislador à finalidade pública e particularmente aos interesses e valores incorporados à Constituição vigente, a abertura principiológica que marca a Carta de 1988 e atribui tantos e tão variados objetivos ao Estado brasileiro oferece rol quase ilimitado de propósitos a que podem servir os incentivos fiscais. A justificativa do “desenvolvimento social e econômico” certamente poderá abarcar ampla gama de medidas jurídicas de caráter positivo, especialmente em matéria tributária. Praticamente, qualquer intervenção positiva, voltada para modificar a realidade social e econômica, como “programa de ação para alteração da sociedade”, 363
estará compreendida no conceito.
Desse modo, declarar a vinculação ao interesse público não acrescenta muito ao debate dos incentivos fiscais, a não ser para excluir as situações extremas, nas quais se comprove que lei volta-se a interesses inconfessáveis e não republicanos. Diante do texto constitucional em vigor, parece correto afirmar que os incentivos fiscais poderão servir a quaisquer finalidades compreendidas entre as competências estatais do ente político que os concede, desde que se mostrem prima facie aptos para lográ-las.
Os fins admissíveis para os benefícios fiscais parecem ser, portanto, amplos e indetermináveis a priori. Confundem-se com os próprios objetivos que devem guiar as políticas públicas e a intervenção do Estado no domínio econômico.364 A título de exemplo,
362 DI PIETRO, Maria Sylvia Zanella. Discricionariedade Administrativa na Constituição de 1988 2a ed.
São Paulo: Atlas, 2001, p.87.
363 Cf. BERCOVICI, Gilberto. Constituição Econômica e Desenvolvimento. Revista de Academia de
Direito Constitucional, Curitiba, vol. 5, p. 203-219, 2004.
364 Tomados os incentivos fiscais como formas de intervenção na ordem econômica, podemos dividir em
duas as classes de justificativas que os amparam, nos termos do que propõe Fabio Nusdeo. As primeiras, de caráter negativo, dizem respeito aos objetivos restritivos, que “referem-se à manutenção de determinados
poderíamos citar, além dos princípios previstos no art. 170 da Constituição, os seguintes: a valorização e a difusão das manifestações culturais (art. 215), a proteção do meio ambiente365, a prática de esportes (art. 217, caput), o desenvolvimento científico e tecnológico (art. 218), o incremento do turismo (art. 217) e a proteção à microempresa (art.179).
Não basta, é claro, a mera indicação retórica e difusa de algum objetivo elencado pelo constituinte para que se justifique a renúncia fiscal. O “fim legal pode estar plasmado na norma legal expressamente, ou nela disposto virtual ou implicitamente” 366, mas, de uma forma ou de outra, estará sempre incorporado à regra de incentivo e há de se verificar concretamente, em cotejo com a providência jurídica que determina e as circunstâncias fáticas a que se refere. Significa dizer que, no caso dos incentivos fiscais, deve-se examinar o elemento ou critério utilizado para discriminar quem é e quem não é favorecido pelo benefício. Sempre que esse critério não revelar elemento intrínseco ao fato tributado e dissociado da capacidade contribuinte, estará aí um forte indicativo do objetivo indutor visado pela regra de exoneração, ou seja, da finalidade jurídica visada.