4.3 Quais resultados de aprendizagem foram significados por praticantes da estratégia
4.3.1 Valorizando o Compartilhamento de Experiências
A construção desta categoria insere no debate as contribuições oriundas do compartilhamento de experiências para a aprendizagem de praticantes da estratégia, reconhecendo a importância das relações sociais entre os diversos atores envolvidos neste processo. Como tal, a identificação de problemas comuns e a construção de soluções são reconhecidas como decorrentes da atuação coletiva e colaborativa dos atores, mediante a participação em processos transacionais. Neste sentido, foram identificados instrumentos formalmente desenvolvidos para este fim, como a realização de reuniões em diferentes níveis de decisão, mas também foram verificados instrumentos informais de compartilhamento de experiências, como a realização de visitas técnicas não estruturadas.
A realização do estudo possibilitou observar que a maior parte dos praticantes da estratégia no PPE não possui formação específica na área de gestão, sendo nítida a primazia de formação na área pedagógica. Aliando este fato à condição estabelecida pela SEE de que gestores escolares na rede estadual de Educação sejam necessariamente docentes, percebe-se a existência de limitações de formação gerencial na atuação em cargos diretivos por parte desses indivíduos. Uma dessas limitações identificadas ao longo do processo de implantação do PPE reside na questão do desconhecimento sobre a aplicação de métodos e técnicas associadas ao planejamento estratégico e seus desdobramentos. Este pensamento é corroborado pelo depoimento da gerente regional Vera, que afirma: “Para mim é tudo novo! Eu acho que para todos os gestores [da rede estadual] também. A gente não tinha essa prática de planejar estrategicamente. Era algo que praticamente não existia no nosso cotidiano”.
Na opinião da maior parte dos participantes da pesquisa, apesar de serem ofertados cursos voltados na área de gestão, não se percebia, antes do PPE, preocupação com o desenvolvimento de linhas de ação voltadas para o reconhecimento e o compartilhamento das experiências vivenciadas pelos gestores como possibilidade de aprendizagem gerencial. Também foi verificado que a formação superior em muitos casos proporcionava certa discriminação com o uso de instrumentos administrativos oriundos da área privada, associando-as a instrumentos de transformação da escola em mercado, como se verifica no depoimento de Vera:
Nossa formação também foi muito falha, como educadora, como pedagoga. A gente não tinha esse planejamento estratégico como grande foco. Inclusive havia até criticas ao planejamento estratégico. Não pode tirar a escola de dentro de um cenário que é de estratégia, cenário onde o próprio planejamento avançou em outros aspectos.
Em função das lacunas na formação dos gestores, o advento do PPE e de suas premissas evidenciou a necessidade de um maior compartilhamento de experiências entre os praticantes da estratégia atuantes na gestão do PPE como forma de aprendizagem. Cabe ressaltar que isto não significa que não houvesse mecanismos de compartilhamento anteriores ao PPE, mas que estes não eram tão valorizados quanto passaram a ser após a implantação do PPE. A forma mais evidente da realização destes mecanismos tem sido as reuniões realizadas em diferentes níveis de decisão. Neste sentido se apresenta a fala da gerente regional Diva, abaixo transcrita:
Em toda reunião que a gente participa com os gestores tem um compartilhamento de experiências. Eu vejo coisas muito boas acontecendo e vou pegando essas coisas boas e vou compartilhando, assim, informalmente com as outras escolas.[…] A gente vai pegando essas experiências para compartilhar, para socializar. Os próprios gestores socializam a experiência interessante e ele se sente muito valorizado.
Cabe destacar o papel exercido pelos GGPOGs vinculados à SEPLAG neste processo, haja vista participarem efetivamente das reuniões nos diferentes níveis de decisão e terem participado de processos de planejamento e gestão em outros contextos, como na implantação dos demais pactos de resultado implantados nas áreas de saúde e segurança, além deste realizado na SEE. Ademais, os GGPOGs estão sendo continuamente capacitados através de um programa de formação direcionado para a utilização dos instrumentos gerenciais adotados no modelo de gestão concebido pelo Governo do Estado.
Destarte, a participação dos GGPOGs mitiga parcialmente a lacuna existente relativa à formação gerencial de praticantes da estratégia atuantes no PPE. De igual modo, contribui para a redução de resistências ao compartilhamento de experiências, a medida que ocorre um processo de rotatividade de GGPOGs pelas diferentes gerências regionais, possibilitando uma maior disseminação do conhecimento entre os atores. Para o gerente Otto, apesar de haver certa competição entre os gestores em função dos indicadores de resultado, isto não se configura como limitação importante para o compartilhamento de experiências, havendo colaboração entre os praticantes da estratégia. Isto é evidenciado no excerto abaixo transcrito:
Nas reuniões [do CGPPE], em todos os colegiados a gente está lá, muitas vezes anotando, trocando as informações, ouvindo as experiências exitosas de outros gerentes. Então, [o Pacto] dá essa possibilidade de a gente estar visualizando tudo. Estamos sempre trocando as informações e ajudando um ao outro. Cada um tem que cuidar da sua regional, mas a gente não tem esse negócio de [esconder o jogo]...
aquela história de: ‘Oh! Não fala nada para ele não, porque ele pode copiar’. É ao contrário.
Outra forma de compartilhamento de experiências observada ao longo do estudo foi a realização do SBP/ PPE entre as gerências regionais. A realização deste evento foi demandada por diretores de escolas que desejavam um espaço para que pudessem apresentar e debater ações exitosas realizadas no âmbito escolar. As melhores práticas, avaliadas por comissões julgadoras especificamente constituídas para este fim, são merecedoras de prêmios concedidos pela SEE como forma de valorização ao trabalho desenvolvido. A executiva Vânia ressalta a importância do SBP/PPE para a formação dos gestores, conforme se observa em sua fala:
O seminário de boas práticas tem o objetivo dele [diretor de escola] estar vendo práticas de escolas que, de repente, ele pode se inspirar, às vezes com as mesmas condições, com as [mesmas] dificuldades, e que pode dar boas ideias para você estar também desenvolvendo na sua escola e, ao mesmo tempo, você ser valorizado. Tem coisas que você faz, foram vistas por outras pessoas e que deram certo. A questão dessas boas práticas é de você ver experiências positivas que acontecem que têm as mesmas dificuldades que você tem. Potencializar experiências positivas desenvolvidas e disseminar essas experiências.
A adoção destes seminários teve sua versão preambular nos dias 22 e 23 de julho de 2015, quando foi realizado o primeiro evento em Camaragibe. Nesta oportunidade houve o envolvimento de gestores das GREs Metropolitana Norte e Metropolitana Sul que se reuniram com o objetivo de integrar e propiciar a troca de experiências entre gestores escolares e equipes técnicas. Neste evento foram realizadas 36 apresentações orais de trabalhos, exposição de 104 banners e oficinas temáticas, contando com a participação de 600 profissionais de 200 escolas (SEE, 2016).
No ano de 2016 foram realizados outros dois SBP/ PPE, sendo um no dia 21 de julho na cidade de Paudalho, envolvendo as GREs Mata Norte, Mata Centro, Mata Sul e Vale do Capibaribe, e o outro no dia 02 de agosto na cidade de Recife, envolvendo as GREs Recife Norte e Recife Sul. Nestes eventos, que tiveram a participação do pesquisador, foi possível observar que, apesar de se verificar a apresentação de alguns trabalhos que enfatizaram a gestão como tema, a maior parcela dos trabalhos apresentados estava direcionado à área pedagógica. Em Paudalho foram realizadas 36 apresentações orais e expostos 131 banners, enquanto que em Recife foram apresentados trabalhos de 110 escolas. Nesta segunda edição do SBP/ PPE os trabalhos foram distribuídos em cinco dimensões: indicadores e taxas; distorção e aproveitamento; ensino e aprendizagem; gestão; e comunidade escolar. Edu
ressalta a importância do SBP/ PPE para o compartilhamento de experiências ao afirmar: “é um momento muito interessante que acreditamos ser muito produtivo para o funcionamento da nossa rede estadual [de Educação]; é o momento de conhecer e trocar novas experiências e ter a ciência de que é possível inovar nas nossas escolas” (SEE, 2016).
Foi possível verificar outra modalidade de compartilhamento de experiências que é a realização de visitas técnicas. Para uma grande parcela dos praticantes da estratégia entrevistados estas visitas se constituem em uma importante oportunidade para conhecer o trabalho desenvolvido por outros atores. Segundo Vera, “a gente teve momentos de visitar outra regional e conhecer o trabalho desenvolvido por lá [na outra regional], e a gente teve oportunidade de visitar escolas premiadas; foi um momento de muita aprendizagem”.
Estas visitas envolveram gestores regionais, diretores de escolas e técnicos com o intuito de conhecerem as experiências exitosas realizadas em outras gerências regionais. Uma característica dessas visitas técnicas que foi identificada ao longo da pesquisa no discurso dos participantes é que a proximidade geográfica contribui para a sua realização. Os gerentes regionais optam por procurar experiências exitosas em GREs próximas as que atuam. Isto pode se dar em função da limitação financeira para custear um deslocamento maior. Tais visitas não estão institucionalizadas e não recebem apoio direto da SEE, o que restringe a capacidade de sua realização.
Pelo que foi exposto anteriormente nesta subseção, é possível verificar também que houve uma valorização do compartilhamento de experiências e, como tal, esta passou a ser considerada como um importante resultado de aprendizagem de praticantes da estratégia no PPE. As principais evidências que ratificam esta posição residem na realização de eventos destinados especificamente para esta finalidade, aliada à participação de gestores em reuniões e visitas técnicas. A próxima subseção é destinada à discussão sobre a aprendizagem decorrente da participação de praticantes da estratégia em processos de formação com caráter avaliativo.