CAPÍTULO 1 UNIVERSIDADE E SOCIEDADE: A EXTENSÃO
1.3 O modelo de ensino superior brasileiro
1.3.1 Trajetória do ensino superior brasileiro na economia globalizada
1.3.1.2 A dimensão social da universidade e o interesse do capital
A perspectiva de Freitag (2004), que expusemos acima, entende que a transformação das universidades em organizações empresariais foi desencadeada pela predominância da pesquisa sobre as demais funções da instituição. É preciso, no entanto, analisar esse processo desde a perspectiva mais ampla do desenvolvimento das forças produtivas.
Com efeito, o capitalismo é o responsável pelo desenvolvimento das forças produtivas. A busca pelo lucro promove os investimentos em capital constante, isto é, em máquinas e ferramentas capazes de impulsionar a produção. Por consequência, as inovações científicas e tecnológicas em áreas como a informática, telecomunicações, biotecnologia, transportes, entre outras, representaram um avanço que permitiu o incremento da indústria. Desse modo, o itinerário do processo de acumulação do capital está ligado também ao desenvolvimento de um conhecimento capaz de impulsionar o crescimento econômico, de maneira que sua expansão tornou-se essencial. E rapidamente foi possível associar tal conhecimento à dinâmica da pesquisa desenvolvida pelas instituições universitárias.
Para Didriksson (apud Goergen, 2010, p.899) “durante as últimas décadas ocorreu um reconhecimento explícito do caráter econômico que tem a educação superior, por sua
particular relação com a produção de certo tipo de conhecimentos vinculados com a indústria e o desenvolvimento”.
Assim, cresceu a importância da pesquisa em relação às demais funções universitárias. Por outro lado, com os avanços científicos acelerando a produção e aperfeiçoando o sistema, surgiu também a necessidade de qualificar o operariado, por meio de uma formação mais técnica. Foi quando a universidade, instada a atender as exigências da produção especializada, viu-se diante das crises já anunciadas, tendo de abandonar o compromisso com uma formação humanista para promover inovação científica e tecnológica a curto e médio prazo, ao mesmo tempo em que capacitava mão de obra competente. As dificuldades encontradas para adequar-se plenamente aos novos paradigmas possibilitaram ainda o surgimento de outras instituições com essa finalidade. Ocorre, entretanto, que os processos de privatização do ensino superior, a reordenação das universidades para atuarem em colaboração com o capital privado, a
instrumentalização das pesquisas e outras formas de exploração do trabalho dos
pesquisadores não tiveram o êxito esperado, conforme constatou o documento do Banco Mundial, The World Bank’s Economic Growth in the 1990’s: Learning from a Decade of
Reform (World Bank, 2005). O documento reconheceu que as instituições de ensino
superior privadas não alcançaram o aporte científico e formativo demandado pelo mercado e pelas empresas, de maneira que o Estado foi novamente chamado a interferir no setor. Porém, agora, de acordo com a cartilha neoliberal, não se tratava de devolver ao Estado o comando da Educação, mas antes, de trazer o Estado (e a instituição universitária) definitivamente para o comando do mercado, isto é, de reorganizar o Estado e as universidades para atuarem desde uma perspectiva empresarial.
Nesse sentido, o Banco Mundial cobrou uma profunda reformulação das instituições públicas, a fim de que pudessem atender às demandas do contexto social (fundamentalmente vinculadas ao setor produtivo), adequar-se a padrões internacionais na qualidade de seus serviços, assimilarem princípios administrativos e gerenciais em suas práticas cotidianas. As exigências impostas às instituições tentavam superar as resistências e dificuldades encontradas nos processos de pesquisa gerenciados pelo setor privado, de modo que se intensificaram as discrepâncias entre os interesses comerciais das grandes empresas investidoras, de um lado, e a relevância dos trabalhos para as instituições e pesquisadores em suas respectivas localidades, de outro.
Por causa disso, o Estado passou a intervir de diferentes modos para implementar as políticas estabelecidas pelo Banco Mundial, como a transnacionalização da educação,
de forma a garantir os recursos que a organização disponibiliza com esse fim. O país acredita que as novas diretrizes produzirão o desenvolvimento econômico nacional, através da capacitação do operariado e da criação de tecnologias inovadoras para a indústria, mas essa é uma aposta bastante controversa. De fato, os recursos subsidiam majoritariamente a formação desenvolvida por instituições sem vínculo direto com a produção de conhecimento, voltadas à certificação em massa de estudantes ao nível da graduação, atendendo os interesses imediatos do mercado, enquanto que as pesquisas em andamento nas universidades convergem para as instituições dos países centrais do capitalismo, onde se transformam em vantagem competitiva no desenvolvimento de novos produtos e serviços.
Portanto, o conhecimento produzido, comercializado através de artigos científicos, segue a trajetória global do capital flutuante, sem compromissos com as demandas locais. Já os programas de pós-graduação, voltados para a pesquisa aplicada, tendem a oferecer material especializado para o mercado transnacional, através de projetos com resultados práticos imediatos, de modo que se perde de vista a pesquisa de
base e um planejamento estratégico voltado para as necessidades locais. Por fim, a
tendência é que as universidades abandonem a preocupação com o desenvolvimento humano e cultural dos cidadãos, perdendo definitivamente sua relação com a reflexão, a crítica e o diálogo com o conhecimento.
A formação em andamento, seja na esfera privada, seja na pública, vai se alinhando aos novos paradigmas epistemológicos determinados pelo capitalismo financeiro: abertura do mercado ao capital internacional, novo entendimento acerca da ciência e da tecnologia e de sua transnacionalização, novas formas de desenvolvimento de pesquisa (básica e aplicada) e novo papel das instituições de ensino. Trata-se, enfim, de outra configuração da instituição universitária – cuja autonomia acadêmica e institucional é guiada pelo setor produtivo, pelas demandas que orientam a criação de cursos, as pesquisas que devem ser desenvolvidas e a tecnologia que deve ser aperfeiçoada. Agora, o conhecimento produzido só se universaliza pela via do mercado: pela formalização de patentes e comercialização de produtos.
Silva Junior e Spears (2012, p.5) afirmam:
Defendemos que o ensino superior brasileiro está sendo socialmente reorganizado como uma mercadoria (a exemplo de bens, serviços e produtos financeiros) que atende as demandas da economia política global contemporânea, definindo áreas de conhecimento prioritárias pelo governo federal brasileiro com
valores de mercado diferentes, mas, de acordo com o seu valor estratégico e percebido. Essa percepção de valor é o resultado da nova divisão do trabalho no contexto da globalização econômica.
Nesse sentido, as universidades, federais sobretudo, mais sujeitas às ações dos governos, vão “deixando de ser locais de conhecimento construído com base em estudos clássicos (humanidades) para desenvolver produtos de educação que atendam às demandas do mercado global” (Newman e Couturier apud Silva Junior e Spears, 2012, p.4).
Toda essa pressão do capital evidencia uma tendência que, no entanto, não é a única força atuante no cenário universitário. A instituição não deixa de ser constrangida também pela chamada sociedade civil organizada que, por meio de sindicatos e associações, conselhos e movimentos sociais, ONGs e representações de grupos minoritários, entre outros, vai ingressando no ambiente acadêmico cada vez mais consciente da responsabilidade social que a acompanha. E isso vem acontecendo na sequência da abertura institucional às classes populares ingressantes na universidade, a partir das novas políticas de acesso (cotas, vagas remanescentes, Sistema de Seleção
Unificada – SISU). Esse movimento, aliás, apesar de não ter muitas vezes a receptividade
necessária por parte das instituições e de ganhar um direcionamento para os setores institucionais que têm alguma relação com suas demandas, representa a grande chance de a Universidade não se perder definitivamente nas tarefas a ela impostas pela nova World
Class University. Segundo o documento Análise sobre a expansão das universidades federais 2003 a 2012 (Brasil, 2012, p.35):
A universidade é por excelência espaço de produção do conhecimento, de vanguarda, instituição construída a partir do compromisso de promover o desenvolvimento humano e alavancar o desenvolvimento social pela formação
de pessoas, do caráter científico e da promoção de ações para além de seus muros, que cotidianamente buscam expressar seu compromisso social, conectando-a com a vida das cidades e pessoas. Perseguir essa vocação é uma importante tarefa do governo e dos dirigentes dessas instituições. (Grifo nosso)
Assim, a trajetória do ensino superior brasileiro na economia globalizada trouxe para a esfera da educação, e especificamente para o ambiente universitário, as demandas do setor produtivo e as pressões das universidades mundializadas, mas trouxe também os estudantes das classes populares em busca de ascensão econômica e social, além de outros grupos sociais antes excluídos desse espaço de participação, demonstrando que a
instituição tornou-se foco de grandes expectativas por parte de diferentes agentes, entre vários outros interesses ali existentes. As consequências dessa conjuntura teremos que analisar com mais cuidado, pois estruturam a fragmentação responsável pelo processo de
semiformação em andamento.
1.3.2 Desdobramentos da participação nacional no novo ensino superior