Fernando Barbedo Galhano nasceu no Porto, a 9 de setembro de 1904, filho de Fernando Galha- no e de Maria José Couto Barbedo. Incentivado a desenhar e pintar pelo pai, frequentou aulas de desenho e pintura conduzidas pelo mestre naturalista Artur Loureiro, no Atelier -Escola do Palácio de Cristal. Contudo, foi também o pai que, apesar do seu espírito liberal, se opôs ao seu desejo de frequentar o curso de Belas- -Artes, antevendo para ele um futuro a seu lado, e do filho mais velho, na gestão da fábrica NEIC (Nova Empresa Industrial de Curtumes), para a qual Fernando Galhano chegou a trabalhar cerca de três anos.
Um dos motivos que se destaca em Fernando Galhano é uma espécie de dissonância geracio- nal, que o separava dos caminhos e valores bur- gueses da família. Seria, contudo, esse mesmo aspeto – e a situação de incerteza que ele trazia –, que ocasionaria o encontro entre ele e Jorge Dias, na Gralheira, Serra de Montemuro, e o desenvol-
vimento de uma sólida, harmoniosa e inalterável amizade (Galhano, 1989, 190) (Fig. 1). Desajus- tado dos modos de vida na cidade do Porto e, ao mesmo tempo, alimentado pelo ambiente rural que tinha em casa dos avós em Pias, nas mar- gens do rio Bestança – e pelas narrativas que lá tinha ouvido sobre a serra, como um mundo distante e diferente daquilo que conhecia –, Fer- nando Galhano descobriu a aldeia da Gralheira como uma espécie de lugar “pleno de sentido, em todos os aspectos, (…) um pequeno mundo rude e antigo (…) que dava impressão de esforço, mas nunca de miséria ou de penúria” (Galhano apud Rodrigues, 2004, 27).
É esta conceção original da Gralheira como local mítico e idílico que esteve na origem das deambulações que se seguiram pelos locais mais recônditos do norte do país, na companhia de Jorge Dias e, mais tarde, também dos irmãos Eduardo e Ernesto Veiga de Oliveira. Parece ter havido um sentimento de estar diante de algo antigo, que não se queria apenas descobrir, mas também fazer parte. Por volta de 1937 – teria Fernando Galhano cerca de 33 anos –, o sonho dos quatro viverem em conjunto na Gralheira, longe da cidade, sustentando -se por meio de uma empresa agrícola que tinham intenção de criar, ainda é expresso por Jorge Dias como uma “sal- vação” (Dias apud Rodrigues, 2004, 36). Destas deambulações não resultava, portanto, qualquer “formulação científica. Havia uma filosofia livre sobre os modos de vida, mas não ideias cons- truídas em torno de um objecto científico”(Pe- reira apud Leal, 2016, 317); o que se fazia era “vagabundear” (ibid., 311). Entretanto, Fernando Galhano desenvolvia já trabalhos de restauro, por exemplo, na Sala dos Capelos, em Coimbra, e realizava a sua primeira exposição de pintura a óleo no Salão Silva Porto, na cidade Invicta, onde voltou a expor em 1943, 1946, 1951 e 1954.
A dialética que se pode vislumbrar a par- tir daqui, entre Fernando Galhano e Jorge Dias, parece ser fundamental para perceber o FIG. 1 Fernando Galhano e Jorge Dias. Década de 1930
ou 1940. © Arquivo pessoal da família Galhano.
Dicionário Quem é Quem na Museologia Portuguesa GALHANO, Fernando
cesso, uma verdadeira metamorfose do seu tra- balho artístico. É também da sua atividade como investigador no Centro que nasceram os artigos publicados no Comércio do Porto e que se mate- rializaram várias obras, que assinou em conjunto com a equipa, e outras, como a de 1973, O carro de bois em Portugal, cuja investigação partilhou
com a equipa, mas da qual foi, formalmente, o único autor.
Casado desde 1945 com Gerda Pfuderer e habitando no Porto, Fernando Galhano muda -se para Lisboa – onde então Jorge Dias já habita- va –, por altura da criação do Centro de Estudos de Antropologia Cultural, em 1962. O trabalho de recolha e investigação estendeu -se também à organização do Museu de Etnologia. “Fer- nando Galhano desempenhou aí um papel da maior importância, nomeadamente na redação de milhares de fichas descritivas e organiza- ção de livros de Tombo do acervo desse museu. Organizou e assegurou o serviço de restauro e o ficheiro enriqueceu -se com centenas de dese- nhos de artefactos das diversas coleções” (Dias apud Rodrigues, 2004, 60). De facto, a existência momento de viragem, que ocorreu por volta
de 1947. Enquanto em Jorge Dias parece haver um elemento de urgência, de uma paixão que é incapaz de se fixar, como se ele montasse “um cavalo de batalha irrequieto e fogoso” (Dias apud Rodrigues, 2004, 52), Fernando Galhano parece manter -se sempre um pouco “à margem”, algo que Jorge Dias via com algum fascínio e indigna- ção, tentando por isso incitá -lo, constantemente, a desacomodar -se e a “sair da casca” (ibid., 43). De facto, em 1938, Jorge Dias parte para a Ale- manha e, nos anos seguintes, já depois do pro- jeto da empresa agrícola ter sido abandonado, Fernando Galhano parece ter -se isolado cada vez mais na vida bucólica de uma quinta perto de Braga, que o seu pai comprou, em 1942.
Em 1940, Fernando Galhano procedeu a uma recolha de material sobre Vilarinho das Furnas/Vilarinho da Furna – sobretudo ilustra- ções – para a tese de doutoramento de Jorge Dias (Fig. 2). É que, entretanto, este tinha descoberto a Volkskunde – área que, para ele, se diluía entre a Etnografia e a Geografia Humana –, e as ante- riores deambulações pelas serras, agora vistas como uma utopia romântica (Dias apud Leal, 2008, 509), adquiriam um estatuto científico. Como consequência, Jorge Dias começou a deli- near um plano, que só é posto em prática com o seu regresso a Portugal e com a sua direção no Centro de Estudos de Etnologia Peninsular, em 1947, no Porto: o pós -guerra afirmava -se como um tempo de viragem em que o mundo passado desaparecia e, por isso, agora, tornava -se impor- tante recolher, mas de uma forma organizada e sistemática.
Parte deste Centro, com Jorge Dias, Margot Dias, Ernesto Veiga de Oliveira e, mais tarde, Benjamim Pereira, Fernando Galhano vai encontrar na tarefa de ilustrar, tecnicamente, aparelhos, construções, objetos, paisagens – de uma forma clara, fiel, pormenorizada, mas sin- tética – um modo de conjugar o seu gosto pela natureza e o desenho, operando -se, nesse pro-
FIG. 2 Fernando Galhano em Vilarinho da Furna, 1940. © Arquivo pessoal da família Galhano.
130
Dicionário Quem é Quem na Museologia Portuguesa GALHANO, Fernando
gos que escrevera para o Comércio do Porto” (Rodrigues, 2004, 63).
Fernando Galhano volta mais tarde a Lisboa, onde faleceu, a 14 de Agosto de 1995, não sem antes ter visto muitos dos seus desenhos publi- cados na forma de um catálogo de dois volumes, editado a propósito da exposição a eles dedicada, em 1985, no Museu de Etnologia, Desenho Etno‑ gráfico de Fernando Galhano (Fig. 3).
BIBLIOGRAFIA
DESENHO etnográfico de Fernando Galhano. 1985. 2 vols. Lisboa: Instituto Nacional de Investigação Científica. GALHANO, Fernando. 1989. “Evocação”. Estudos em Home‑
nagem a Ernesto Veiga de Oliveira. Lisboa: Instituto Nacio- nal de Investigação Científica.
GALHANO, Fernando. 2005. Páginas de Cultura e Arte. Por- to: Caixotim.
LEAL, João. 2008. “A energia da antropologia: seis cartas de Jorge Dias para Ernesto Veiga de Oliveira”. Etnográfi‑ ca. Revista do Centro em Rede de Investigação em Antropo‑ logia, vol. 2 (2).
LEAL, João. 2016. “Entrevista a Benjamim Pereira”. Os Inquéritos [à fotografia e ao território]: paisagem e povoa‑ mento. Guimarães: Centro Internacional de Artes José de Guimarães.
RODRIGUES, Isabel Galhano. 2004. “Biografia, Memórias e Cartas”. Homenagem Fernando Galhano 1904 ‑1995. Por- to: Câmara Municipal do Porto.
[P. A.]
PEDRO AUGUSTO (Leiria, 1982) é doutorando em Filosofia
na Universidade Nova de Lisboa, onde desenvolve uma tese sobre as relações entre os objetos da Etnologia e uma Filoso‑ fia da História, no estudo particular do vestuário português da segunda metade do século XIX. Mestre em Filosofia pela mesma faculdade, onde concluiu, em 2008, uma tese sobre o conceito de coleção em Walter Benjamin, é licenciado em Artes Plásticas, ramo de escultura, pela Universidade de Évo‑ ra. Membro da equipa do Museu Nacional de Etnologia desde 2006, tem dedicado o seu trabalho ao estudo das coleções de vestuário popular português desse museu e do Museu de Arte Popular, procedendo não só a um trabalho de pesquisa em fontes bibliográficas, arquivos fílmicos e fotográficos, como também ao acompanhamento de novas incorporações, ao apoio a investigadores externos e à tarefa de inventariação e classificação.
e desenvolvimento de um Arquivo de Desenho no Museu de Etnologia – que, entretanto, é for- malmente criado em 1965 –, deve -se a Fernando Galhano. Aí, juntam -se os desenhos etnográficos iniciais como, por exemplo, aqueles feitos para a obra de Jorge Dias de 1948, Os arados portugue‑ ses e as suas prováveis origens, e outros que se lhes seguiram e que conheceram um surpreendente e rápido amadurecimento técnico e artístico. Será, mais tarde, Manuela Costa que seguirá as pisa- das de Fernando Galhano e que continuará a sua missão no registo e restauro dos mais variados objetos do museu.
Depois da morte de Jorge Dias, em 1973, Fernando Galhano trabalhou, ainda por algum tempo, até se reformar em 1974, aos 70 anos. Reinstalou -se no Porto, onde voltou a dedicar- -se à pintura que, com o tempo, se expressou mais “negra, em que prevê o início da destrui- ção da pureza das “suas” serras e paisagens, causada pelas atitudes (…) dos finais dos anos 70 e anos 80, patentes numa construção civil desenfreada com materiais menos dignos, mui- tas casas, estradas e barragens – tudo aquilo que já criticara a partir dos anos 60, nos arti- FIG. 3 Capa do livro de 1985, Desenho Etnográfico de Fernando Galhano.
Dicionário Quem é Quem na Museologia Portuguesa GLÓRIA, António José Nunes da