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José da Silva Sarmento Angra do Heroísmo, 1837 – Rio de Janeiro?

No documento Dicionário (páginas 157-160)

Terceirense radicado no Brasil desde os 16 anos de idade, é na imprensa brasileira que aparece ligado à atividade comercial: em 1865 e 1866 como “negociante”; em 1882 como “Guarda- -Livros”; e em 1884 e 1885 acrescenta a função de “jurisperito” à de guarda livros, cargos que exerce sempre no Rio de Janeiro.

No mesmo período, a imprensa maçónica brasileira identifica -o como membro ativo da maçonaria carioca (BOLETIM, 1873, 274) com ascensão assinalada, já que na Assembleia de 23 de fevereiro de 1876 se procede à sua passagem “para a classe dos membros honorários” (BOLE- TIM, 1876, 32).

A visita à ilha em viagem de saudade e, certa- mente, também de negócios, em 1874, dá lugar a uma empenhada participação em projetos filan- trópicos, à semelhança do que muitos indivíduos e associações da comunidade açoriana no Rio de Janeiro desenvolviam ativamente, tendo em vista a (re)afirmação de laços identitários e a constru- ção de representações sociais compatíveis com a ascensão social proporcionada pela emigração.

O “engrandecimento da pátria” é o seu pro- pósito e, para tanto, inicia uma troca de cor- respondência, favores e ofertas simbólicas com o representante local do Partido Progressis- ta – Jácome de Ornelas Bruges de Ávila Paim da Câmara, 2.º conde da Praia da Vitória – que, rotativamente, disputava e exercia o cargo de Governador Civil com o representante local do Partido Regenerador – António da Fonseca Car- vão Paim da Câmara, 2.º barão do Ramalho.

É neste contexto de rotativismo local que sur- girá, por sua sugestão e iniciativa, a primeira experiência museológica levada a cabo na ilha Terceira (e nos Açores): o Museu Terceirense.

Criado por Alvará, de 17 de março de 1877 (RELATÓRIO, 1877, 63 -83v), pelo então Gover- nador Civil de Angra, o regenerador Paim da Câmara, o museu será uma experiência com existência efémera, apesar do empenho e dos contributos dos terceirenses radicados no Rio de Janeiro liderados por Sarmento Júnior, identifi- cado no alvará de criação do museu como o autor da iniciativa.

Na sequencia desse alvará, terceirenses e bra- sileiros amigos do museu, convocados por Sar- mento Júnior, reúnem -se no Imperial Lyceu de Artes e Officios do Rio de Janeiro, a 26 de maio de 1877, com o fim de constituir uma comissão responsável pela coleta de bens para o acervo.

Na ata que então é redigida (Fig. 1), Sarmento Júnior é adjetivado como “iniciador” do museu e, no Relatório que ele próprio redige e que acompa- nha essa ata, esclarece:

“As instituições scientíficas e industriaes são os mais belos marcos d’onde o povo estende a vista para o horisonte sem termo da civilização e do progresso.

Dai instrucção ao povo, animai o artista e abri templos em que a sciencia de mãos dadas com as bellas artes celebrem suas festas, e a civilização consagrará vossos esforços, e a gloria realçará vossos triumphos.

A creação de um Museu na formosa Ilha Ter- ceira teve apenas por ideia o amor da pátria, sendo -lhe o gérmen a saudade profunda do filho que conservará constante na lembrança a imagem querida d’aquelles céos sempre azues e transparentes” (MUSEU, 1877, 2).

É com o mesmo espírito que reafirma, em carta datada de 30 de março de 1879, ao amigo Teotónio de Ornelas Bruges:

“… ao meu bom amigo e aos nossos patrícios faça sentir que o fim único que guiou meus

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passos para tão arriscada empresa foi uni- camente o amor pátrio nada querendo para mim senão a gloria de concorrer com o meu fraco contingente para um fim de elevado alcance, qual o de ter nossa pátria um Museu.” (BPARLSR, Fundo CP).

Defendendo a ideia da ilustração do povo e do progresso social Sarmento Júnior, primei- ro isoladamente e, depois, através da comissão responsável pela angariação de bens, enviará, principalmente, espécies da flora e da fauna bra- sileira, filiando o museu no âmbito dos museus de História Natural, enquadramento consen- tâneo com o interesse naturalista comum ao ambiente intelectual da época.

A colaboração do diretor do Museu Nacional do Rio de Janeiro, Ladislau Neto, abordado pes- soalmente por Sarmento Júnior, testemunha a integração da iniciativa nas redes internacional e

intercontinental de troca e circulação de espécie de História Nque tinha como parceiro principal o Museu Nacional do Rio de Janeiro e, por seu intermédio, o Museu de História Natural de Lon- dres e alguns jardins botânicos europeus (MAR- TINS, 2003:351).

A alternância na chefia do Governo Civil, entre outras dificuldades de vária ordem, condiciona que a inauguração do Museu Terceirense, apenas ocorra a 28 de setembro de 1879, em instala- ções no edifício do Governo Civil, em Angra do Heroísmo. O acontecimento leva o ativo “inicia- dor” a expressar o seguinte desabafo ao amigo conde em carta de maio desse ano:

“Acredito que neste momento estará o meu amigo de posse do cargo de Governador Civil visto as ultimas noticias politicas, e por isso o felicito sinceramente, e a seu cuidado entrego o engrandecimento do Museu Terceirense.”

A imprensa terceirense (Açores, 1880, 3) e brasileira (Jornal, 1880, 1) noticiará a atribuição a Sarmento Júnior, pelo governo português, em 1880, da Comenda da Ordem de Cristo, mas apesar disso o museu virá a ser transferido e integrado no acervo do Museu de História Natu- ral do Liceu de Angra em 1885 (Diário, 1885, 2) esclarecendo -se enfaticamente haver ficado “ao cuidado do guarda do gabinete de física”.

A perda de valor social e simbólico, quer do acervo, quer da instituição, que essa união denuncia, acentuar -se -á com o progressivo esquecimento, dispersão e desconhecimento do acervo inicial. O atual Museu de Angra do Heroísmo conserva ainda duas curiosas caixas- -vitrinas entomológicas, contendo insetos fixa- dos por alfinetes, executadas pela mulher de Sarmento Júnior e enviadas pelo casal; no con- torno de uma das tampas, em vidro, um galão apresenta a seguinte legenda: Ao Museu de Angra oferece Pau(l)ina da S.ª Sarmento; Rio de J(a)nei(ro): 31 de Dezembr(o)de 1876.

A dissolução do Museu Terceirense dilui- rá, também, a presença e a memória do seu FIG. 1 Museu Terceirense. Acta e Relatório da reunião

efectuada em 26 de Maio de 1877.

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MARIA MANUEL VELASQUEZ RIBEIRO Técnica Superior do

Museu de Angra do Heroísmo desde 1995. Chefe de Divisão do Património Móvel e Imaterial da Direção Regional da Cul‑ tura entre 2003 e 2011. Membro do Grupo Trabalho de Sis‑ temas de Informação em Museus da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas (BAD) desde 2013, e do CHAM/Açores, desde 2017. Licenciada em Histó‑ ria (FLL), pós ‑graduada em História Insular e Atlântica e mes‑ tre em Museologia e Património (UAç) com uma dissertação sobre o colecionismo privado no arquipélago, tem participado em conferências e colóquios e publicado artigos da especiali‑ dade. Desenvolve investigação sobre a formação de coleções, privadas e institucionais e sobre a história da museologia aço‑ riana. Responsável pelo projeto Colectio que, no âmbito do Ins‑ tituto Histórico da Ilha Terceira, promove a realização de um atlas do colecionismo açoriano.

criador, cuja data de falecimento, no Brasil, se desconhece.

BIBLIOGRAFIA

AÇORES (Os). Angra do Heroísmo, n.º 35, 22 de abril de 1880

BOLETIM DO GRANDE ORIENTE UNIDO E SUPREMO CON‑ SELHO DO BRAZIL. Jornal Oficial da Maçonaria Brasilei‑ ra. 1873 -1877. 2.º ano, n.º 4 a 6 (abril a junho). Rio de Janeiro, Tipografia do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil

BPARLSR. Fundo do Conde da Praia da Vitória. Corres- pondência: Correspondência de António José da Silva Sarmento Júnior, 1874 -1882

DIÁRIO PORTUGUEZ. Rio de Janeiro, 15 de junho de 1885 JORNAL DO RECIFE. Recife, 29 de abril de 1880 MARTINS, Rui de Sousa. 2003. “Museu Terceirense. Bene-

merência brasileira, Rotativismo e História Natural”. Ernesto do Canto. Retratos do homem e do tempo. Atas do Colóquio. Ponta Delgada: Universidade dos Açores / Câmara Municipal de Ponta Delgada

MUSEU TERCEIRENSE. Acta e Relatório da Reunião effec‑ tuada em 26 de Maio de 1877 no Imperial Lyceu de Artes e Officios do Rio de Janeiro convocada pelo iniciador do mesmo museu…. 1877. Rio de Janeiro

Relatório apresentado à Junta Geral do distrito de Angra do Heroísmo na sua Sessão Ordinária de 1877 pelo Gov- ernador Civil Barão do Ramalho. 1877. Angra do Heroís- mo: Tip. do Governo Civil

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Dicionário Quem é Quem na Museologia Portuguesa JÚNIOR, Frederico Augusto Lopes da Silva

JÚNIOR, Frederico Augusto

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