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Joaquim Agostinho

No documento Dicionário (páginas 99-103)

Mexilhoeira Grande [Portimão], 1886 – Lisboa, 1972 Foi um dos fundadores do Museu José Malhoa (MJM), inaugurado em 1934, nas Caldas da Rainha.

Nascido numa família humilde, no concelho de Portimão, Agostinho Fernandes rumou a Lisboa com 13 anos, passando por diversas casas comer- ciais até se tornar num empresário de sucesso da indústria conserveira. Fundou a Algarve Exporta- dor em 1920, cuja atividade inicial compreendia a pesca e a importação de materiais; nos anos 1930, com a famosa marca NICE, os negócios evoluem para a produção e exportação de conser- vas de peixe, tornando -se a Algarve Exportador na maior empresa nacional do setor.

Não obstante o débil mercado de arte do país e a ausência de uma crítica consistente, no quadro da transição dos agitados anos da I República para a ordem anunciada pelo Esta- do Novo, foram -se constituindo novas fortunas que canalizaram parte dos seus dividendos para a arte que então se produzia, originando novas coleções confinadas sobretudo aos esquemas de um serôdio Naturalismo. Na sua residência na Avenida da Liberdade, em Lisboa, assim como pelas empresas, armazéns e moradias do Estoril, Nazaré e Praia da Rocha, Agostinho Fernandes reuniu uma vasta galeria centrada no Naturalis- mo e na primeira geração modernista, adquirida através de leilões e amizades com artistas, poe- tas e escritores, consagrados ou em princípio de carreira, adquirindo também muitos trabalhos de Almada Negreiros (Santos, 2005, 75 -78). Dentro do parco panorama do colecionismo em Portu-

gal, Agostinho Fernandes singulariza -se como “o primeiro coleccionador de arte contemporânea que deu o salto para o próprio século XX” (Fran- ça, 1991, 107).

Na primeira década de Novecentos, o gosto pela leitura e pelo conhecimento levou -o a fre- quentar o ensino noturno no Ateneu Comercial e a envolver -se nas atividades da Liga Nacio- nal de Instrução, criada por Trindade Coelho. Interessou -se pela edição, patrocinando obras como a de Ribeiro Cristino da Silva, Estética cita‑ dina (1923), que o considerou “criterioso cole- cionador de pintura portuguesa moderna”. Foi editor da revista Contemporânea (1922 – março de 1923), dirigida por José Pacheco, e fundou a Portugália Editora (1942), que teve sucessi- vamente como diretores literários João Gaspar Simões, Jorge de Sena e Augusto da Costa Dias, com ação notável na publicação de autores por- tugueses. Em 1945, abriu a Livraria Portugália, no Porto, a que associou uma galeria de arte.

FIG. 1 José Malhoa, Retrato de Agostinho Fernandes, 1925, pastel, 49 x 38,3 cm. MJM inv. 252. Museu José Malhoa /© DRCC.

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Finalmente, o MJM seria criado a 17 de junho de 1933, por despacho do Ministro da Instru- ção Pública, publicado em Diário do Governo, a 9 de novembro. Mas, apesar do falecimento de Malhoa em outubro desse ano, a ideia não esmo- receu. António Montês apelou à colaboração de Agostinho Fernandes e José Filipe Rodrigues na qualidade de testamenteiros do mestre. Com o pintor caldense José de Sousa, num curto espaço de tempo, conseguiram movimentar entidades, artistas e amigos, reunir um avultado conjunto de obras (cerca de 150) e providenciar a inaugu- ração do Museu no dia 28 de abril de 1934, nas instalações provisórias da Casa dos Barcos, no Parque D. Carlos I.

Nesse momento, foram considerados os quatro fundadores do MJM, tendo sido publicada uma portaria de louvor pela sua desvelada colabo- ração com a instituição, em Diário de Governo, de 31 de maio de 1934.

Não obstante poder ser datado como o primei- ro museu do Estado Novo, a sua fundação não deve ser lida como da iniciativa estatal. O MJM foi constituído graças a uma “Liga de Amigos”, sem a existência prévia de coleção e edifício, num panorama museológico em que a maior parte dos Nos anos 1940, a fundação da Cinelândia,

ligada a Carlos Porfírio, marcou a incursão de Agostinho Fernandes na área da produção cine- matográfica, mas a empresa teve atividade irre- gular e apenas funcionou entre 1943 -58.

Nesta relação privilegiada com os artistas, destaca -se a ligação próxima com o pintor José Malhoa, de quem possuía várias obras e viria a ser testamenteiro com o seu sócio da Algarve Exportador, José Filipe Rodrigues (1886 -1952). De 1925 e 1926, datam respetivamente os retra- tos do industrial (Fig. 1) e da sua esposa, fixados a pastel. Foi a Agostinho Fernandes que o mestre dedicou o seu autorretrato de 1928, ano em que o país lhe rendeu uma homenagem nacional.

É esta qualidade de colecionador e o vínculo a Malhoa que justifica a inserção de Agostinho Fernandes na história da museologia portugue- sa. Desde os anos 1920, a Comissão de Iniciativa das Caldas da Rainha debatia a intenção de criar um “Museu de Artes”, vontade integrada num movimento mais amplo de promoção do desen- volvimento regional, alicerçado numa tradição artística que se alargava a outros domínios para além da categorizada herança cerâmica. O cal- dense António Montês (1896 -1967) era um dos principais obreiros deste propósito que, entre múl- tiplas iniciativas, incluiu homenagens a figuras associadas às Caldas mas de projeção nacional, entre as quais Rafael Bordalo Pinheiro (1846- -1905), a Rainha D. Leonor e José Malhoa (1855- -1933) – as “três figuras caldenses” (Pinto, 1928). O projeto evoluiu de “Museu de Artes (em organização)” (circular de 1929) para a denomi- nação de MJM, conforme requerimento dirigido por António Montês, José de Sousa (1897 -1987), Carlos Neves (1893 -1962) e Paulino Montês (1897 -1988) ao Ministério da Instrução Pública, em 15 de janeiro de 1933, nessa data associando definitivamente ao plano o pintor José Malhoa, nascido na cidade mas com um trajeto pictórico basicamente repartido entre Lisboa e Figueiró dos Vinhos.

FIG. 2 Museu José Malhoa. Sala Agostinho Fernandes. Anos 1950. Arquivo Museu José Malhoa / © DRCC.

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(MJM inv. 44), para além do já citado autorretra- to a desenho (MJM inv. 17).

Integrou a Fundação dos Beneméritos e Doa- dores, constituída nesse ano por ação de Antó- nio Montês, a par de Maria José Malhoa e Silva e Luís Pinto (respetivamente irmã e afilhado de Malhoa), Júlia Paramos Montês (esposa de António Montês), José Filipe Rodrigues e José de Sousa, figurando também entre os membros da Liga dos Amigos do Museu José Malhoa, onde surgia como Sócio Honorário e Benemérito. Os filhos Alice e Filipe da Nazareth Fernandes cons- tavam também da extensa lista dos membros da Liga dos Amigos e, em seu nome, foram realiza- das diversas doações nos anos 1930 -50, que se estenderam aos anos 1980 -90.

Agostinho Fernandes acompanhou igual- mente a ambição de instalar o museu em edifí- cio próprio, suportando um audacioso processo que viria culminar na construção da primeira edificação construída de raiz em Portugal para ser museu de arte e ainda existente. No dia da inauguração provisória na Casa dos Barcos, foi apresentado um anteprojeto do arquiteto Pauli- espólios provinha dos fundos das extintas ordens

religiosas ou de achados arqueológicos, os orga- nizadores do museu caldense primaram pela sin- gularidade de uma iniciativa que só foi possível graças à disposição de artistas, amigos, discípulos de Malhoa e colecionadores (com as reservas com que este último termo tem que ser empregue em Portugal). Para além das pinturas inicialmente doadas por Malhoa em 1932, o primeiro núcleo da coleção seria constituído apenas após o fale- cimento do mestre e resultaria sobretudo de doa- ções, respondendo à convocatória dos mentores do projeto, fiéis às opções naturalistas e à aspi- ração de representar o período artístico coevo do seu patrono (Santos, 2005, 63 -86).

No ano da inauguração, Agostinho Fernandes ofereceu cinco obras da sua coleção, três das quais importantes para a iconografia de Malhoa: Cabeça de rapaz, de Luciano Freire (MJM inv. 69); um retrato a carvão, pela discípula Maria de Lourdes de Mello e Castro (MJM inv. 1); o retra- to do pintor por António Ramalho (MJM inv. 12, doado com a filha Alice Nazareth Fernandes); e Primeiro estudo pintado do natural, de Malhoa

FIG. 3 Museu José Malhoa, Caldas da Rainha. Fotografia de Dóris Santos, 2018.

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BIBLIOGRAFIA

COUTO, Matilde Tomás do; Santos, Dóris. 2013 (coord.). Liga dos Amigos do Museu José Malhoa. Como nasce um museu. Caldas da Rainha: Liga dos Amigos do Museu de José Malhoa.

FRANÇA, José -Augusto. “Colecções”. Chicó, Mário Tava- res; Gusmão, Artur Nobre de; França, José -Augusto (org.). 1973. Dicionário da Pintura Universal. Vol. 1. Lis- boa: Editorial Estúdios Cor, 163 -164.

FRANÇA, José -Augusto. 1991. A Arte em Portugal no sécu‑ lo XX (1911 ‑1961). 3.ª ed. Venda Nova: Bertrand Editora. PINTO, Manoel de Sousa. 1928. Três figuras caldenses. Cal-

das da Rainha: Gazeta das Caldas.

SANTOS, Dóris. 2005. Museu de José Malhoa. Como se faz um museu de arte: imagem e discurso(s). Dissertação de Mestrado em Museologia e Património, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova, Vol. II. SANTOS, José da Cruz (coord.). 2000. Agostinho Fernan‑ des: um industrial inovador, um coleccionador de arte, um homem de cultura: fotobiografia. Lisboa: Portugália Edito- ra Internacional.

[D.S.]

DÓRIS SANTOS Coordenadora do Museu Dr. Joaquim Man‑

so, Nazaré. Foi técnica superior no Museu José Malhoa, entre 2000 e 2009. Doutoranda em História da Arte – Especialidade Museologia do Património Artístico (FCSH/UNL), com o pro‑ jecto Arte, museus e memórias marítimas. Contributos para o

estudo da cultura visual das comunidades piscatórias. Investiga‑

dora do Instituto de História da Arte / FCSH ‑UNL. Mestre em Museologia e Património (FCSH/UNL, 2006), com a dissertação

Museu José Malhoa. Como se faz um museu de arte: Imagem e discurso(s). Licenciada em História, var. História da Arte (Facul‑

dade de Letras da Universidade de Coimbra, 1997). Possui também licenciatura no Ramo Educacional (1999). Autora de publicações e artigos nas áreas da História da Arte, História local e Museologia, destacando ‑se Liga dos Amigos do Museu

José Malhoa. Como nasce um museu (coautora), LAMJM, 2013

e “História, discurso e ideologia. Como se fez o Museu José Malhoa”, in Museologia.pt, n.º 2 (IMC, 2008).

no Montês (1897 -1988), desenvolvido e concluí- do no âmbito das Comemorações Centenárias na Província da Estremadura, pelo arquiteto Eugé- nio Correia (1897 -1987). Com inauguração a 11 de agosto de 1940, no Parque D. Carlos I, inte- grado no conjunto dos pavilhões do certame, de que fora programador António Montês, o edifício resultou em larga medida do financiamento par- ticular, nomeadamente do apoio de Agostinho Fernandes e dos outros três fundadores do MJM. A eles se deveu também o patrocínio da sua pri- meira ampliação na década de 1950.

Em 1940, à entrada do novo espaço museoló- gico, o nome de Agostinho Fernandes figurava na placa com os nomes dos restantes fundado- res, homenagem que repetia o gesto pensado por António Montês para a Casa dos Barcos, seis anos antes: “Foi este museu organizado por António Montês, Agostinho Fernandes, José Fili- pe Rodrigues e José de Sousa, inaugurado em 11 de Agosto de 1940, data em que foi entregue à Junta de Província da Estremadura, presidida pelo major António dos Santos Pedroso”.

Agostinho Fernandes apoiou a instituição ao longo da sua vida, sendo por isso condecorado com o Grau de Cavaleiro da Ordem da Instrução Pública, em 1944, e o seu nome atribuído a uma das salas de exposição, nos anos 1950 (Fig. 2).

Em dezembro de 1959, quando se temia pelo destino do Museu devido à reforma administrati- va que determinava o fim da Junta de Província da Estremadura, que tutelava a instituição desde 1940, Agostinho Fernandes integrou o grupo de artistas e “amigos” que se dirigiu ao Ministro das Finanças, Pinto Barbosa, solicitando que o “Museu José Malhoa nas Caldas da Rainha seja, justamente, considerado Museu Nacional” (Gaze‑ ta das Caldas, 01-03-01960) (Fig. 3).

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FERNANDES,

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