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Manuel Coelho Baptista de Angra do Heroísmo, 1920 – Lisboa,

No documento Dicionário (páginas 178-181)

Licenciado em Ciências Histórico -Filosóficas pela Universidade de Coimbra, em 1943, e gra- duado com o curso de Bibliotecário -Arquivista pela mesma universidade, em 1945, Baptista de Lima inicia a sua carreira profissional como bibliotecário arquivista na Biblioteca Pública de Évora, onde permanece entre julho de 1945 e novembro de 1946. Transita posteriormente, por concurso, para a Biblioteca da Assembleia Nacional, onde exerce funções como 1.º bibliote- cário arquivista.

O jovem Baptista de Lima já então se fizera notar pelos intelectuais angrenses organizados em torno do Instituto Histórico da Ilha Tercei- ra (IHIT) e que procuravam criar um arquivo e um museu desde a constituição do Instituto, em 1942, e com os quais Baptista de Lima colabora- rá, redigindo as propostas de decreto de criação dos dois organismos.

Nessa sequência, e dada a especialização téc- nica de recursos humanos de que a então Junta Geral do Distrito Autónomo de Angra do Heroís- mo procurava dotar -se, Baptista de Lima é, em 1948, convidado a efetuar uma comissão de três meses em Angra, ocasião em que se dedica à incorporação e organização dos primeiros núcleos documentais e à sinalização de peças destinadas ao arquivo e ao museu (Fig. 1). De seguida, em março de 1949, é nomeado diretor do Arquivo Dis- trital e, em abril do mesmo ano, diretor do Museu de Angra do Heroísmo, organismos que partilha- rão o mesmo edifício – o Palácio Bettencourt – até 1970, e o mesmo diretor, até 1981 (Fig. 2).

Só em 1967 adquire formação na área dos museus frequentando o curso de Museologia da École du Louvre, em Paris, antecedido, um ano antes, por um curso de História da Arte na mesma instituição. Além dessa formação internacional envolve -se e estabelece uma rede de relações institucionais e pessoais, nacionais e, sobretudo, internacionais, incentivadas em 1971, quando integra a primeira delegação portuguesa a uma conferência geral do ICOM, a IX.ª, participação que repete nas assembleias -gerais e no comité de segurança de 1974, 1977, 1978 e 1979, e também na Assembleia Geral do Internacional Council on Monuments and Sites (ICOMOS), de 1981.

Apesar da centralidade temática em torno da etnografia que constituíra o projeto museal do

IHIT e da heterogeneidade das incorporações que domina as primeiras duas décadas de vida do Museu de Angra do Heroísmo (MAH), o acer- vo e a oferta expositiva vão assumindo, a partir dos anos 60, uma vocação militar e que se afirma mais determinantemente com a transferência do Museu para um novo edifício – o antigo convento franciscano de Angra – em 1970.

Embora condicionada pela exiguidade dos orçamentos disponibilizados pela Junta Geral, a determinação de Baptista de Lima no cresci- mento do acervo, particularmente no da coleção militar, é insuflada pelo oportuno acesso aos FIG. 1 Baptista de Lima e o Presidente da República Craveiro Lopes na inauguração da primeira exposição do MAH, a 28 de julho de 1957 © MAHI20130089

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depósitos de material de guerra obsoleto e pelo robustecimento do orçamento dos museus resul- tante da instauração do regime autonómico nos Açores, em 1976.

O vasto e heterogéneo acervo reunido é tam- bém alimentado por doações e depósitos de personalidades de relevo na hierarquia militar açoriana, incentivados pelo próprio Baptista de Lima, que pretende construir uma representação social dos Açores com base no papel da Tercei- ra, e do arquipélago, nas viagens planetárias dos europeus, desde o século XV.

Paralelamente à programação museológica, Baptista de Lima persiste, então, na proteção dos vestígios materiais dessa memória no território: as construções defensivas que orlam as ilhas. Por seu intermédio, quer enquanto diretor do museu, quer como presidente da câmara (cargo que desempenhou entre 1959 e 1965) ou presidente do IHIT, muitas delas foram objeto de ações de proteção.

O interesse pelo património militar, talvez resultado da proximidade familiar à hierarquia e ao quotidiano do exército, estimularão a precoce intuição de Baptista de Lima quanto à musea- lização da memória de um património que era, então, uma memória construída no âmbito da tutela do exército numa ótica essencialmente corporativa. Daí, o facto de ele próprio se cons-

tituir como um colecionador, sendo que o seu interesse em colecionar objetos e os temas que privilegia serem conhecidos desde os tempos de estudante, quando o carácter compulsivo das aquisições é satisfeito junto de livreiros, alfarra- bistas e antiquários de Lisboa e Porto e, depois, em fornecedores do mercado europeu, que visita assiduamente.

A invisibilidade social da coleção privada, apenas suspeitada na década de 50 aquando do depósito no MAH de um conjunto de 223 moedas, só será ultrapassada em 1984 e 1993, quando algumas peças figuram em exposições temporárias, e em 1995, num programa televisi- vo da RTP Açores.

O conservador e o colecionador tinham, porém, o mesmo intuito de documentação e construção da representação social da Terceira através do seu papel militar na fronteira do Atlântico.

Preocupado com a preservação das espécies recolhidas e com a salvaguarda do património existente nas ilhas, em larga medida sujeito à incúria de tutelas e proprietários, Baptista de Lima dedica especial atenção ao processo de degradação física dos bens, desde a fundação dos organismos que dirige.

Os Relatórios que redige anualmente, des- tinados à tutela, darão conta do progressivo e persistente empenho em dotar o MAH de valên- cias na área do restauro: inicialmente apenas equipado com uma carpintaria (dedicada quer à construção de suportes museográficos, quer à “reparação” e cópia de mobiliário do acervo) o Relatório de 1968 já menciona “as oficinas do museu” entretanto alargadas à marcenaria e serralharia.

No ano seguinte a ambição já é a de proceder a restauro científico para o que propõe a “… conve- niente instalação das (…) oficinas e de um peque- no laboratório com que desejaríamos dotar este estabelecimento, destinado apenas a fotografia e ao exame sumária das espécies, segundo o seu tipo e natureza” (MAH, 1969, 39) e, em 1976 FIG. 2 Baptista de Lima explicando a sala de exposição

de Arreios Ricos em 1981, na ocasião em que foi agraciado com a Comenda da Ordem Militar de Santiago de Espada © MAHI20130412

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de de Letras. Departamento de Ciências e Técnicas do Património, vol. 3: 102 -116.

RIBEIRO, Maria Manuel Velasquez. 2016. “Manuel Coelho Baptista de Lima: um colecionador profissional”. Cultu‑ rAçores. Revista de Cultura. Angra do Heroísmo: Direção Regional da Cultura. N.º 4 [jan. -jun.]:61 -65.

[M.M.V.R.]

MARIA MANUEL VELASQUEZ RIBEIRO Técnica Superior do

Museu de Angra do Heroísmo, desde 1995. Chefe de Divisão do Património Móvel e Imaterial da Direção Regional da Cul‑ tura, entre 2003 e 2011. Membro do Grupo Trabalho de Sis‑ temas de Informação em Museus da Associação Portuguesa de Bibliotecários, Arquivistas e Documentalistas (BAD), desde 2013, e do CHAM/Açores, desde 2017. Licenciada em História (FLL), pós ‑graduada em História Insular e Atlântica, e Mes‑ tre em Museologia e Património (UAç) com uma dissertação sobre o colecionismo privado no arquipélago, tem participado em conferências e colóquios e publicado artigos da especiali‑ dade. Desenvolve investigação sobre a formação de coleções, privadas e institucionais e sobre a história da museologia aço‑ riana. Responsável pelo projeto Colectio que, no âmbito do Ins‑ tituto Histórico da Ilha Terceira, promove a realização de um atlas do colecionismo açoriano.

dá conta, pela primeira vez, de intervenções de conservação e restauro em espécies têxteis bem como em pinturas a óleo sobre tela, gravuras e esculturas.

Este crescendo de ações e contratações de pessoal culminará com a proposta, à Direção- -Geral do Património Cultural de criação “nos Açores, e anexa a este Museu, duma oficina de restauro, destinada ao tratamento de obras de arte e de espécies de arte ornamental, etnogra- fia e interesse histórico” (idem, ibidem:65 -66) de que resultará a institucionalização, nos últimos meses de 1977, da Oficina de Estudo e Restauro de Obras de Arte do Museu de Angra. Autonomizada em 1980 e re -designada como Centro de Estudos Conservação e Restauro de Obras de Arte dos Açores (CECROA), o seu fun- cionamento manter -se -á em instalações anexas ao MAH e só em 1991 passará a designar -se Centro de Estudos, Conservação e Restauro dos Açores (CECRA), adquirindo instalações pró- prias e determinando o fim da relação umbilical com o MAH.

Reformado em 1985, Baptista de Lima con- tinuará a desenvolver intensa atividade em torno da museologia e da história militar, par- ticipando em encontros e conferências. Contu- do, deixará reduzida produção escrita sobre o tema dos museus mas onde se salienta Le mes‑ sage visuel des collections d’armes, armures et arti‑ lierie du XVI siecle d’un musée d’histoire militaire, texto da comunicação que apresenta no Sym‑ posium da International Association of Museums of Arms and Military History (IAMAM) de 1983.

BIBLIOGRAFIA

ORMONDE, Helena. 2001. Sob o signo da Etnografia (Catá- logo). Angra do Heroísmo: Museu de Angra do Heroís- mo.

RIBEIRO, Maria Manuel Velasquez. 2013. “Entre oportu- nidade e novidade. Manuel Coelho Baptista de Lima e o património açoriano (1920 -1996)”. Ensaios e Práticas em Museologia. Porto: Universidade do Porto/Faculda-

Dicionário Quem é Quem na Museologia Portuguesa LOPES, Adriano de Sousa

LOPES, Adriano de Sousa

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