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GONÇALVES, António Anastácio

No documento Dicionário (páginas 137-140)

Alcanena, 1888 – S. Petersburgo, 1965

António Anastácio Gonçalves nasceu no ano de 1888, em Alcanena (Fig. 1). Filho de uma famí- lia abastada, estuda em Santarém, Coimbra e Lisboa, onde termina a licenciatura em Medici- na, em 1913. No ano seguinte especializa -se em Oftalmologia e com o advento da I Guerra Mun- dial integra o Corpo Expedicionário Português, na qualidade de Tenente Médico Militar.

Médico conceituado, manteve consultório na Avenida da Liberdade n.º 202, lecionou nos cur- sos de Epidemiologia e Medicina Sanitária. Entre os seus pacientes, reconhecemos os escritores Aquilino Ribeiro e Ferreira de Castro, bem como o milionário e colecionador Calouste Sarkis Gul- benkian, com quem viria a desenvolver um con- tacto regular.

Médico, colecionador e filantropo, viaja meto- dicamente, registando em diário, fotografia e noutros documentos as cidades, os museus e as obras que conhece. Da sua lista constam via- gens regulares na Europa: Espanha, Inglaterra, França, Itália ou Grécia; mas encontramos ainda destinos mais distantes ou exóticos, como: Argé- lia, Israel, Líbano, Jordânia, Síria, EUA, China, Japão ou África do Sul. Aposentado desde 1946, intensifica a periodicidade das expedições no ano de 1949 e realiza uma volta ao mundo em 1958 (2010, 132 -153)

Inicia a sua coleção em 1925, com a aquisi- ção de pintura. O crescimento do acervo inclui, a partir de 1927, mobiliário e, desde 1941, por- celana. Estas três linhas originam núcleos for- tes: 1 -Pintura Portuguesa do século XIX e XX:

com 191 obras, onde se destacam os nomes de Miguel Ângelo Lupi, Alfredo Keil, Silva Porto, António Ramalho, Columbano Bordalo Pinheiro ou José Malhoa, autor do famoso retrato do Dr. Anastácio Gonçalves, 1932. Prevalece na cole- ção de pintura o gosto pelo naturalismo e pelos autores do Grupo do Leão (Falcão, 2003, 16). 2 -Mobiliário Português: com 195 obras, onde predomina o gosto por móveis do terceiro quar- tel do século XVIII e mobiliário estrangeiro, com incidência pelo gosto Francês, Inglês e Holandês (Proença, 2002, 67 -87). 3 - Porcelana Chinesa: conjunto com 379 entradas em que se destacam peças provenientes da China, nomeadamente da dinastia Ming (1368 -1644) e Qing (1644 -1911) (Matos, 2002, 45 -67). A coleção total, com cerca de 3000 peças, conta ainda com tipologias tão variadas como pintura estrangeira, ourivesaria, cerâmica, têxteis, numismática ou medalhística (informação gentilmente cedida pela conserva- dora de mobiliário da Casa -Museu Dr. Anastácio Gonçalves, Maria Teodora Marques).

Negociador incansável o Dr. Anastácio Gon- çalves é recordado com comprador difícil. Sem interrupções temporais, adquire a maioria do seu acervo no mercado português, “a um alar- gado número de antiquários, leilões, casas de penhores e marchands intermediários, com os quais mantinha uma relação estreita, e que, muitos deles, se tornariam visitantes habituais da sua casa” (Mântua, 2010, 73). Das relações internacionais, referimos o antiquário Francês Ostins, Quai d’Orsay 31, a quem adquiriu, entre outras obras, uma aguarela de Eugène Dela- croix, em setembro de 1954. Até 1942, privile- giou nas suas compras o mobiliário e a pintura naturalista portuguesa. Dessa data em diante passa a adquirir também, e em quantidades superiores às restantes, porcelana chinesa de exportação. Enquanto colecionador centra -se, portanto, em obras que não estão sujeitas a desvalorização e que são tidas como investi- mento seguro.

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Em 1932 adquire a Casa -Malhoa localizada na Avenida 5 de Outubro em Lisboa, conheci- da como primeira “casa -de -artista” na capital. Anterior residência do pintor naturalista José Malhoa (1855 -1933), foi desenhada em 1904 pelo arquiteto Manuel Joaquim Norte Júnior (1878 -1962), edificada e distinguida no ano de 1905 com o Prémio Valmor de Arquitetura. Morada unifamiliar com dois pisos, a casa com- preendia espaço de habitação, uma zona de ate- liê e escritório com aberturas decoradas a vitral. De acordo com a caderneta predial, com data de 31 de dezembro de 1937, o imóvel consta como “prédio destinado a moradia e museu” (Mântua, 2010, 72). Foi neste espaço que o Dr. Anastácio Gonçalves escolheu viver, preservar e inventa- riar sistematicamente a sua coleção. Os inven- tários que criou servem hoje como matéria de estudo de valor inestimável. Nas suas páginas podemos encontrar: “o número atribuído ao objecto, a designação, a matéria, a descrição rigorosa e desenvolvida, as medidas, por vezes o peso, o estado de conservação e indicações

preciosas para o historial da peça (…)” (Matos, 2002, 12).

Estudioso dedicado, na sua biblioteca encon- tramos os catálogos do Grémio Artístico, da Sociedade Nacional de Belas -Artes, do Museu Nacional de Arte Contemporânea e do Museu José Malhoa. Das publicações periódicas, desta- que para a revista internacional The Connoissour, os catálogos de leilão da Sotheby’s e da Christie’s, (FALCÃO, 2003, 12 -13), diversas revistas de arte e literatura e os boletins da Direcção -Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. Tinha tam- bém gosto por literatura francesa do século XIX, livros de memórias, biografias, religião e política (Pimentel, 2010, 108).

Morre em 1965 na cidade de S. Petersburgo, na Rússia, após a muito aguardada visita ao Museu Hermitage, autorizada pela PIDE. Legou ao Estado a casa onde viveu e a coleção que reuniu. Podemos ler no seu testamento “Esta colecção de Arte, formando assim um pequeno Museu no género do Museu Soane, de Londres, e de tan- tos outros, deve (…) ficar regularmente patente à vista do público para seu recreio e instrução” (2010, 3). Segundo Augusto Borges, é com a Pri- meira República que se desenvolve em Portugal o conceito cultural de promoção e instituição de casas -museu, em articulação com os museus nacionais. Apesar de a tipologia só vir a alcançar expressão mais tarde, o legado do Dr. Anastácio Gonçalves vai ao encontro de ideais republicanos como a fruição contemplativa e educação públi- ca. (Borges, 2010, 95)

A Casa -Museu Dr. Anastácio Gonçalves abre ao público em 1980, disponibilizando aos visi- tantes o acervo e os interiores da residência do seu patrono. Em 1996 foram realizadas obras de ampliação, incluindo a anexação de uma morada concomitante também de Norte Júnior, espaço para exposições temporárias.

Das inúmeras publicações editadas pela Casa- -Museu, sublinham -se os estudos de Ana Anjo Mântua, Isabel Falcão, Maria Antónia Pinto de FIG. 1 José Malhoa, Retrato do Dr. Anastácio Gonçalves

(1932), óleo s/tela, CMAG, inv.Pint. © DGPC

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RITA SALGUEIRO Licenciada em História da Arte pela Facul‑

dade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (2009); mestre em História da Arte Contemporânea pela mesma faculdade, com a dissertação A Arte em Portugal

no Século XX (1911 ‑1961) José ‑Augusto França e a perspetiva sociológica (2012). Tem colaborado como mediadora cultural

em diversas instituições, nomeadamente: MNAC – Museu do Chiado, MUDE – Museu da Moda e do Design, Museu Berardo, entre outras. Coeditora da Revista 4 e da Re.vis.ta, redigiu tex‑ tos catalográficos para a Coleção da Caixa Geral de Depósitos e para o MNAC – Museu do Chiado. Atualmente integra a equi‑ pa das Galerias Municipais de Lisboa – EGEAC.

Matos e Irene Pimentel, bem com a obra Colec‑ cionar para a Res Publica: O Legado do Dr. Anastácio Gonçalves 1888 ‑1965 (2010), coordenada por José Alberto Ribeiro.

BIBLIOGRAFIA

(Coord. José Alberto Ribeiro) Mântua, Ana Anjos; Pimen- tel, Irene Funsler; Borge, Augusto Montinho. 2010. Coleccionar para a Res Publica: o legado Dr. Anastácio Gon‑ çalves, 1888 ‑1965. Lisboa: Instituto dos Museus e Con- servação.

(Coord. Matos, Maria Antónia Pinto de) Proença, José António. 2002. Casa ‑Museu Dr. Anastácio Gonçalves: rotei‑ ro. Lisboa: Casa -Museu Dr. Anastácio Gonçalves. FALCÃO, Isabel. 2003. Pintura portuguesa: Casa – Museu Dr.

Anastácio Gonçalves. Lisboa: Casa Museu Dr. Anastácio Gonçalves.

MORGADO, Raquel. 2012. Contributos para um programa de interpretação e comunicação na Casa ‑Museu Dr. Anas‑ tácio Gonçalves. Dissertação em Museologia, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de Lisboa.

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