III CONSIDERAÇÕES INTERMÉDIAS
OS ESTATUTOS DO PENSAMENTO E DA REPRESENTAÇÃO
Discernir o alcance da maqueta na constituição do pensamento projectual do arquitecto implica confirmar se a compreensão de uma maqueta poderá determinar a compreensão daquilo que esteve na sua origem e, confirmando-se essa possibilidade, precisar por que razão o determina. Radica-se nessa razão o alcance da maqueta que se pretende discernir.
É útil retornar ao âmbito lato da representação. Genericamente, a possibilidade de a compreensão da representação poder determinar a compreensão do pensamento que esteve na sua origem parece ser confirmada pelo modo como têm vindo a ser revistas as relações que o pensamento, em particular o pensamento projectual, estabelece com a representação. Esse modo fica claro, por exemplo, nas observações propostas por Gänshirt (2007) num texto sintomaticamente intitulado ‘Tools for Ideas’: não só as “ideias, pensamentos e visões não podem ser transmitidos directamente; apenas podem ser expressos com a ajuda de ‘ferramentas’, ‘instrumentos’ ou ‘média’” 150 (Gänshirt, 2007: 81), o que desde logo manifesta que, ao constituírem-se como condição para a sua transmissão, estes têm um alcance naqueles, como ainda as “[f]erramentas configuram não apenas as nossas acções concretas mas também o
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Tradução do autor. No original: “ideas, thoughts and visions cannot be conveyed directly; they can be expressed only with the aid of “tools”, “instruments” or “media”” (Gänshirt, 2007: 81).
nosso pensamento” 151 (Gänshirt, 2007: 90), denotando que, além da sua transmissão, esse alcance atinge a própria definição do pensamento que assim é transmitido. Por ferramentas, Gänshirt (2007) entende, por exemplo, o gesto, a fala, o desenho, a escrita, a maqueta, a fotografia mas também o cálculo, a crítica e a teoria. O duplo significado de ‘compreender’, ao implicar, em simultâneo – foi já referido –, ‘entender’ e ‘abarcar’ (Machado, 1991, vol. II: 195) confirma a oportunidade das observações de Gänshirt (2007). Adoptando a expressão que propõe, a representação configura a compreensão do pensamento. Parece pois confirmar-se que a representação tem no pensamento algum alcance. Há que discernir porquê.
A partir das observações de Gänshirt (2007) – tomando-as, mais uma vez, como reflexo das revisões há pouco referidas –, a representação configura o pensamento na medida em que o pensamento depende da representação para poder ser transmitido. O facto de o processo de representação se constituir como uma transcrição (Eco, 2005) e, portanto, de assentar numa necessária codificação de informação, parece confirmá-lo. Mas imputar em exclusivo àquela dependência essa configuração não esclarece por que razão essa configuração ocorre. Isto é: o pensamento tem na sua dependência da representação a razão da sua configuração, mas essa será uma razão superficial e, portanto, de importância relativa. De algum modo, ao considerar-se apenas essa razão, as relações entre ambos parecem ser observadas a partir apenas dos seus efeitos, não dos seus fundamentos. Mas a perspectiva sobre essas relações deverá ser outra. Não está em causa, ao se discernir a necessidade dessa outra perspectiva, a oportunidade das revisões antes referidas – o jogo de reenvios entre pensamento e representação que tem vindo a ser considerado é consentâneo, aliás, com as observações de Gänshirt (2007). Está em causa antes o entendimento das relações estabelecidas entre o pensamento e a representação que parece permeá-las. Apesar de se reconhecer que o pensamento é configurado pela representação, essas revisões permanecem marcadas por uma distinção entre os estatutos de ambos, à qual subjazerão uma precedência ontológica do pensamento face à representação e, portanto, uma subsidiariedade da representação face ao pensamento. A verificação de que “[h]á o perigo com qualquer uma das possíveis “ferramentas” de que possam falsear as nossas ideias” 152 (Gänshirt, 2007: 81) confirma quer essa distinção de estatutos, quer os termos em que essa distinção foi formulada. Isto é: reconhece-se
151 Tradução do autor. No original: “Tools do not only shape our concrete actions, but also our thinking” (Gänshirt, 2007: 90).
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Tradução do autor. No original: “There is a danger with any of the possible “tools” that they could falsify our ideas” (Gänshirt, 2007: 81).
que a representação não faz transparecer apenas o pensamento ao transmiti-lo – o facto de o configurar assim o não admite –, mas não se questiona quão radical será esse não transparecimento. A constituição do pensamento parece continuar a ser tomada como autónoma da representação – é a transmissibilidade, não a constituição, que a representação lhe proporciona, e é ao transmiti-lo, não ao constitui-lo, que a representação o configura. Daí a sua precedência ontológica face à representação. É precisamente a oportunidade dessa distinção de estatutos que deve ser questionada. Desse questionamento, resultará a possibilidade de esclarecer por que razão a representação não faz – não poderá de todo fazer, porventura até – transparecer o pensamento ao transmiti-lo. Importa retomar alguns dos argumentos aduzidos aquando da discussão da noção de ‘modelo físico’, em particular aqueles ponderados ao se equacionar os objectos como formulações significativas (Janeiro, 2010: 16). Considerar a existência de um objecto implica considerar – foi então observado – que o sujeito dotou esse objecto de significado. Por não deterem significado próprio, pois não se dotam de significado, é o sujeito quem os significa. Ao serem enfrentados, os objectos são submetidos a processos de interpretação, culturalmente determinados, em função dos quais surgem como imagens (Janeiro, 2010). É como imagem – como imagem mental – que os objectos são compreendidos e é ainda como imagem que os objectos se perpetuam na memória. De outro modo, não surgindo como imagem, os objectos não poderiam sequer ser operados pelo pensamento, já que não lhe seriam sequer acessíveis. E “[o] pensamento pode lidar com objectos e eventos apenas se estiveram de alguma maneira disponíveis para a mente” 153 (Arnheim, 1969: 98). O surgimento dos objectos como imagem não será porventura evidente quando se os enfrenta na sua actualidade, já que essa actualidade fará sucumbir a oportunidade de qualquer imagem. A impressão de uma maior saturação da realidade (Janeiro, 2010), quando comparada com uma sua eventual representação, confirmará a dificuldade de assim considerar os objectos. Na memória, pelo contrário, por persistirem além das suas presenças, o surgimento dos objectos como imagens será talvez mais evidente. Mas há que questionar a oportunidade de assim distinguir a compreensão directa dos objectos de uma sua memória. E isso implica questionar a oportunidade de distinguir a constituição dessa compreensão directa da constituição de uma memória. Mais uma vez, é necessário reiterar a abstracção implicada na percepção dos objectos, mesmo que essa abstracção tenda aí a ser imperceptível. Apesar das suas aparentes diferenças, aquilo que é retido na memória, que serão afinal apenas alguns traços dos
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Tradução do autor. No original: “Thinking [...] can deal with objects and events only if they are available to the mind in some fashion” (Arnheim, 1969: 98).
objectos, “corresponde talvez a tudo aquilo a que a experiência visual original em primeiro lugar somou. […] É como se, para efeito da imaginação, uma pessoa possa evocar traços da memória da mesma maneira que evoca estímulos materiais na percepção directa” 154 (Arnheim, 1969: 105) – e imaginação será a produção de imagens (Machado, 1991, vol III: 380). O poder generativo que Arnheim (1969) reconheceria na abstracção, pelo qual se estabelece – recorde-se – uma unidade do objecto que é confrontado, isto é, se conceptualizam e, portanto, se imaginam as suas propriedades estruturais, confirma a oportunidade desta equiparação entre a memória dos objectos e uma sua compreensão directa. Por isso, as imagens memorizadas conseguem substituir as imagens constituídas no confronto directo com os objectos. E nunca a constituição de uma imagem a partir do confronto directo com os objectos poderá ser dissociada das imagens memorizadas resultantes de experiências prévias com esse objecto ou com outros considerados análogos (Arnheim, 1994). “Nenhuma linha limite clara separa uma imagem puramente perceptiva – se é que tal existe – de uma completada pela memória ou de uma de todo não percebida directamente mas fornecida na sua totalidade por resíduos da memória.” 155 (Arnheim, 1969: 84). Será sempre como resultado de um processo contínuo de actualização e, portanto, de ajustamento que qualquer uma dessas imagens deverá ser equacionada. Em síntese, compreender um objecto, independentemente quer da sua concretude, quer da possibilidade de se o confrontar, é constituí-lo como uma imagem segundo a qual adquire um significado. Por isso, e porque ao significá-los o sujeito confere-lhes uma presença, os objectos – foi ainda observado aquando da discussão da noção de ‘modelo físico’ – surgem para o sujeito como representações.
As ferramentas referidas por Gänshirt (2007: 81) não deverão nisso distinguir-se dos outros objectos. Também essas ferramentas deverão por isso ser discernidas como constituindo-se como imagens. A pertinência desse discernimento é confirmada quer pelo facto de o uso e de a compreensão de todas essas ferramentas assentarem num processo de codificação e, portanto, de interpretação a partir do qual adquirem um significado, quer pelo facto de nenhum objecto poder a priori ser considerado uma representação. O estatuto de representação, como se verificou, sobretudo a partir de Goodman (1976), é conferido em função de um determinado sistema simbólico a partir
154 Tradução do autor. No original: “correspond perhaps to everything the original visual experience
amounted to in the first place. [...] It is as though, for the purpose of imagery, a person can call on memory traces the way he calls on stimulus material in direct perception” (Arnheim, 1969: 105).
155 Tradução do autor. No original: “No neat borderline separates a purely perceptual image – if such there
is – from one completed by memory or one not directly perceived at all but supplied entirely from memory residues” (Arnheim, 1969: 84).
do qual os objectos adquirem esse significado. E se, no quotidiano, essas ferramentas são, de modo genérico, designadas como ‘representações’ – e assim tem sucedido ao longo deste trabalho –, é contudo necessário reiterar que isso não implica que se as distinga, naquilo que concerne à sua constituição como imagem, dos outros objectos. Pelo contrário, essa designação sublinha até a evidência que nesse caso terá a condição de formulação significativa (Janeiro, 2010: 16) e o surgimento como imagem subjacentes à compreensão de qualquer objecto. Assim, aquilo que distingue essas ferramentas de outros objectos será não o modo como adquirem significado – esse será afinal o mesmo, baseado sempre num processo contínuo de codificação e de interpretação –, mas o significado que adquirem, que permite, num dado contexto, aceitar as imagens segundo as quais se tornam presentes como imagens dos objectos que substituem, sendo considerados, nessa designação quotidiana, como uma sua representação.
E tal como parece não ser sustentável distinguir os objectos que são tomados como representações dos outros objectos, pois todos se constituem como imagem, pela mesma razão parece não ser também sustentável distinguir essas representações das imagens – as ideias, os pensamentos e as visões referidas por Gänshirt (2007) – cuja transmissibilidade devem assegurar. Aquilo que distingue uma representação de uma dessas imagens será não a concretude – ou a abstracção –, mas a identidade que, enquanto imagens, uma e outra possuem. Nesse sentido, será necessário verificar que mesmo os comummente designados “[c]onceitos teóricos [– a ‘modéstia’, a ‘gravidade’ e o ‘orgulho’ são os exemplos considerados por Arnheim –] não são manuseados no vazio. Podem ser associados a uma situação visual” 156 (Arnheim, 1969: 111), isto é, portanto, a uma imagem mental. Radica-se nessa associação, aliás, a possibilidade de se aferir a representação desses conceitos. A insustentabilidade da oposição entre as constituições de um modelo físico e de um modelo conceptual já observada encontra aqui uma renovada confirmação: porque ambos se constituem como imagens, possuindo assim uma mesma natureza, as designações ‘conceptual’ e ‘físico’ devem ser consideradas não como designações opostas mas, mais uma vez, como designações concomitantes.
Assim, poder-se-á confrontar a complexidade e a completude do pensamento com a complexidade e a completude dos objectos que o representam. Poder-se-á também discutir a adequação de uma representação para transmitir um dado pensamento, mas
156 Tradução do autor. No original: “Theoretical concepts are not handled in empty space. They may be
essas discussões serão possíveis precisamente porque se constituem ambos – o pensamento e o objecto que o representa – como imagens. Ao invés de ontológica, como parece resultar das observações de Gänshirt (2007) já referidas, a precedência do pensamento sobre a representação parece assim ser apenas cronológica: porque a representação é elaborada para transmitir o pensamento, o pensamento deverá por isso antecedê-la. Mas até essa precedência deve ser questionada. Se os objectos se constituem como imagens e se essas imagens se encontram num permanente ajustamento resultante do confronto com outras imagens, será difícil considerar as existências quer de uma imagem primeva, anterior, portanto, a todas as outras, quer de uma representação, mesmo que reivindicada por um dado propósito, que não ecoe as presenças de outras representações, isto é, afinal, a presença de outras imagens. A IMPOSSIBILIDADE DO TRANSPARECIMENTO DO PENSAMENTO
Importa então esclarecer, tendo sido revista a distinção dos estatutos de ambos, por que razão a representação não faz transparecer apenas o pensamento ao transmiti-lo. Se ‘transparecer’ significa “[a]parecer, avistar-se como através de um véu” (Machado, 1991, vol. VI: 390), implicando isso que, por meio de alguma coisa, alguma outra coisa chega ao sujeito, está em causa o pensamento que, por meio de uma representação, chega ao seu pensador. Não deixa de ser paradoxal, desde logo em relação ao âmbito lato deste trabalho, pôr em causa o pensamento que chega ao pensador, já que isso implica admitir que esse pensamento possa ser outro que não aquele que suscitara a representação.
Há que retomar o significado da representação. Representar – tem vindo a ser referido – significa tornar presente (Ferreira, 1983: 594). Por meio de um objecto, considerando sempre que os objectos se constituem como imagens, confere-se presença a algo, também uma imagem, que assim poderá ser enfrentado e, portanto, compreendido. Mas que imagem adquire presença por meio da representação? Aparentemente, aquela que se pretende representar. Será, aliás, o desejo de fixar essa imagem que motiva a representação, como será ainda em função dessa imagem que serão avaliadas a adequabilidade do sistema representacional a adoptar e a proficiência da representação proposta. A recorrente identificação do objecto que representa como o objecto representado – isto é, por exemplo, a identificação de um retrato apenas como o seu retratado e não como uma sua representação – confirma a eventualidade de se apreender em ambos a mesma imagem. Apenas a distinção que sempre existirá entre a representação e o seu objecto inibirá a afirmação de uma plena coincidência entre as imagens de ambos. De qualquer modo, uma coincidência parcial será até mais
consentânea com a noção de ‘transparecer’ (Machado, 1991, vol. VI: 390), ao comportar esta um aparecimento que poderá ser velado ou até incompleto. Assim, a compreensão do pensamento poderá não ser imediata, poderá requerer esforço, poderá até ser falseada, isto recordando o alerta de Gänshirt (2007: 81), mas todas estas observações parecem afinal pressupor que tenderá a ser o pensamento inicial aquele que será recuperado na representação. De algum modo, a imagem que se pretende representar aparecerá ela mesma, nalguma medida, na imagem constituída na sua representação. A coincidência parcial entre ambas não será suficiente para invalidar essa convicção. E assim parece de facto acontecer, sobretudo se se aceitar – e é sedutor fazê-lo – que a representação permite desvelar o pensamento. É assim, aliás, que Fraser e Henmi (1994) parecem compreender o desenho, mesmo depois de o terem observado como sendo “não […] uma tradução transparente do pensamento numa forma” 157 (Fraser e Henmi, 1994: viii), mas um meio que estabelece com o pensamento uma influência recíproca. “Um desenho é como um tule de teatro, um ecrã similar a uma gaze cujas propriedades se alteram em função das condições de iluminação. Como um tule, o desenho é opaco e translúcido, um filtro entre o desenhador e o espectador, desenhador e objecto, entre ideias concebidas e a sua manifestação bidimensional” 158 (Fraser e Henmi, 1994: ix).
Mas será a imagem que se pretende representar a imagem formulada ao se confrontar o objecto elaborado para representá-la, mesmo reconhecendo alguma latitude nessa possibilidade? Poderá sequer ser formulada essa imagem ao se compreender esse objecto? O facto de uma representação ser distinta sempre do seu alvo – ou não poderia sequer representá-lo, foi já observado – sustentará uma necessária resposta negativa a ambas as questões: não só a imagem formulada ao se compreender uma representação não é a imagem que a determinou, nem mesmo parcialmente, como, sobretudo, não poderá sequer sê-lo. Se um objecto é “uma constituição subjectiva” (Janeiro, 2010: 31) – e essa noção terá ficado já clarificada –, a compreensão dos objectos não pode ser dissociada das circunstâncias nas quais está imersa. E essas
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Tradução do autor. No original: “is not a transparent translation of thought into form” (Fraser e Henmi, 1994: viii).
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Tradução do autor. No original: “A drawing is like a theatrical scrim, a gauzelike screen whose properties change dependent on lighting conditions. Like a scrim, a drawing is both opaque and translucent, a filter between the drawer and the viewer, drawer and object, between ideas conceived and their two-dimensional manifestation” (Fraser e Henmi, 1994: ix).
Um tule de teatro [scrim] constitui-se como uma superfície plana elaborada em tule que se encontra suspensa sobre o espaço de cena dividindo-o. Devido à sua malha, um tule torna-se translúcido se a cena na sua retaguarda for iluminada sem no entanto o atingir. Se a cena à sua frente for iluminada e o atingir, o tule torna-se opaco, impedindo a visão daquilo que está na sua retaguarda. Se se projectar uma imagem na superfície anterior de um tule, essa imagem será observada quer no tule, quer em qualquer objecto que esteja atrás do tule no enfiamento dessa projecção (Correia e Cabral, 2007).
circunstâncias não são reproduzíveis. E não o são precisamente porque têm no sujeito – na sua memória, no seu contexto, nas suas expectativas (Goodman, 1976) – o seu vértice. Essa é a consequência dessa constituição subjectiva, porque estabelecida pelo sujeito, dos objectos. Por isso se reconheceu – recorde-se –, e volta agora a reconhecer-se com maior ênfase ainda, que “[n]ada é visto a nu ou nu” (Goodman, 1976: 8). Mesmo as aparentemente intrínsecas propriedades materiais dos objectos são afinal também assim formuladas, já que resultam da sua inscrição numa ordem circunstancial – física, geométrica, química, por exemplo – em função da qual esses objectos são compreendidos. “É que, na verdade, a imagem que se constrói […] não é construída com as propriedades do objecto que essa imagem pretende substituir. Na verdade, nada daquilo que é percebido pertence ao objecto enquanto sua propriedade (propriedade do objecto). Somos nós, afinal, que o investimos com certos atributos, de modo que ele passa, por mais paradoxal que isto nos possa parecer, a ser para nós aquilo que para nós é. […] O objecto para nós mais não é do que uma forma investida de subjectividade” (Janeiro, 2010: 217). Em síntese, procurando discernir aquilo que aí se torna presente, e porque – como foi já observado – os objectos tomados como representações não se distinguem dos outros objectos, naquilo que à sua constituição como imagem diz respeito, há que concluir que numa relação de representação, ao invés de uma mesma imagem, são afinal postas em confronto duas imagens distintas: aquela que se quis representar e aquela como a qual se constitui a sua representação. E assim sucederá sempre, pese embora o convincente realismo – isto é, a aparente coincidência com a imagem do seu objecto – de algumas representações. Revela-se aí um nem sempre reconhecido sortilégio da representação.
Por que razão, então, a representação não faz transparecer apenas o pensamento ao transmiti-lo? O esclarecimento desta questão foi, de algum modo, já apontado: se transparecer significa aparecer através de (Machado, 1991, vol. VI: 390) e se a constituição de qualquer imagem não pode ser dissociada das circunstâncias nas quais está imersa, não sendo essa imagem, por isso, reproduzível, a representação não faz transparecer apenas o pensamento porque o pensamento e a representação, constituindo-se como imagens, constituir-se-ão sempre não só como imagens entre si distintas, mas, também, como imagens reciprocamente independentes. É pois de outra natureza que não a de um transparecimento a relação que se estabelece entre a representação e o pensamento.
Aceitar que a representação poderá fazer transparecer o pensamento, mesmo que se creia que nunca constituirá uma sua tradução cristalina – é isso que permeia quer as
reflexões de Gänshirt (2007) em relação à representação, quer as reflexões de Fraser e Henmi (1994) em relação ao desenho –, significará considerar que o pensamento não só é autónomo da representação, como ainda, de algum modo, que lhe sobrevive: é autónomo da representação já que se encontra num plano outro que não o da representação, ou esta não poderia transparecê-lo; sobrevive à representação já que, pese embora interpondo-se-lhes, a representação não impede que o seu pensador o divise. A comparação quer com um tule de teatro, quer com um filtro, isto conferindo à compreensão do desenho de Fraser e Henmi (1994: ix) maior latitude, confirma-o: o pensador revê o seu pensamento através da representação ou, de outro modo, ainda que filtrado pela representação, o pensamento retorna ao seu pensador. Ficam, pois, latentes as existências de uma continuidade e, portanto, de uma partilha, ou seja, de uma natural semelhança entre o pensamento que convocou a representação e aquele