5.1 Hipóteses denegatórias ao estrangeiro no Superior Tribunal de Justiça
5.1.10 Quebra da igualdade tributária prevista no GATT em desfavor do estrangeiro
O GATT foi um acordo geral sobre tarifas e comércio firmado, em 1947, na tentativa de harmonizar as políticas aduaneiras dos Estados signatários. Uma das suas premissas é impulsionar a liberalização comercial e combater práticas protecionistas, como forma de
261 No mesmo sentido, AgRg no AREsp 620724/SP. Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 01/09/2015, DJe 09/09/2015.
instituir regulamentos mais convidativos às relações comerciais internacionais. Desde a sua primeira rodada de negociações, o GATT implementou relevantes compromissos de não descriminação de origem de mercadorias ao Brasil:
GATT 47, Art. III. Tratamento nacional no tocante à tributação e regulamentação internas
1. As Partes Contratantes reconhecem que os impostos e outros tributos internos, assim como leis, regulamentos e exigências relacionadas com a venda, oferta para venda, compra, transporte, distribuição ou utilização de produtos no mercado interno e as regulamentações sobre medidas quantitativas internas que exijam a mistura, a transformação ou utilização de produtos, em quantidade e proporções especificadas, não devem ser aplicados a produtos importados ou nacionais, de modo a proteger a produção nacional.
2. Os produtos do território de qualquer Parte Contratante, importados por outra Parte Contratante, não estão sujeitos, direta ou indiretamente, a impostos ou outros tributos internos de qualquer espécie superiores aos que incidem, direta ou indiretamente, sobre produtos nacionais. Além disso nenhuma Parte Contratante aplicará de outro modo, impostos ou outros encargos internos a produtos nacionais ou importados, contrariamente aos princípios estabelecidos no parágrafo 1.
Almejando contribuir para a consecução desses objetivos, o acordo assinado pelo Brasil promoveu a ideia de conclusão de obrigações recíprocas e mutuamente vantajosos aos Estados pactuantes, visando à redução substancial das tarifas aduaneiras e de outras barreiras às permutas comerciais e à eliminação do tratamento discriminatório, em matéria de comércio internacional. E em que pese a posterior formulação de novos acordos no seio do GATT e da Organização Mundial do Comércio, esses valores de isonomia, reciprocidade e não- discriminação da origem da mercadoria continuaram norteando tais relações.
Na praxe brasileira, nem sempre o Estado tem observado essas prescrições, a ponto de ter sido condenado pela Organização Mundial do Comércio, no ano de 2017, em razão da adoção de práticas mercantis contrárias à liberdade do comércio internacional, em programas nacionais de subsídios industriais (OMC, 2017)262. No âmbito do Poder Judiciário, a tônica do acolhimento de regras discriminatórias não tem sido diferente:
TRIBUTÁRIO. COFINS-IMPORTAÇÃO. MAJORAÇÃO DE ALÍQUOTA EM 1%. § 21 DO ART. 8º DA LEI Nº 10.865/04. VIOLAÇÃO AO ART. 98 DO CTN. AUSÊNCIA DE PREQUESTIONAMENTO. SÚMULA Nº 282 DO STF. CLÁUSULA DE TRATAMENTO NACIONAL. ART. III DO GATT. NÃO APLICABILIDADE EM RELAÇÃO AO PIS/COFINS-IMPORTAÇÃO. ENTENDIMENTO ADOTADO PELA SEGUNDA TURMA DESTA CORTE NOS AUTOS DO RESP 1.437.172/RS. RESSALVA DO ENTENDIMENTO PESSOAL DO RELATOR. NÃO CUMULATIVIDADE. CONCESSÃO PARCIAL DE CRÉDITO. MATÉRIA DE ÍNDOLE CONSTITUCIONAL. COMPETÊNCIA DO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL.
1. Discute-se nos autos a legalidade ou não da majoração da alíquota de COFINS- Importação em 1% prevista no § 21 do art. 8º da Lei nº 10.865/04, com redação dada pela Lei nº 12.715/12, sem que haja o correspondente reconhecimento do direito ao crédito em etapa posterior em igual percentual, e se tal majoração implica tratamento
262 O painel aberto pela OMC concluiu que programas estabelecidos pelo Brasil taxaram excessivamente produtos importados em comparação com os nacionais. O motivo é que o governo ofereceu isenções fiscais ou vantagens competitivas tendo como base regras de uso de conteúdo local ou desempenho em exportações.
desigual do produto estrangeiro em relação ao nacional, discriminação vedada pelo art. III do GATT que determina a igualdade de tratamento entre ambos os produtos. 3. A Segunda Turma desta Corte, na assentada de 15.9.2015, por ocasião do julgamento do REsp nº 1.437.172/RS, Relator para acórdão, Min. Herman Benjamin, concluiu, por maioria, que a cláusula de "Obrigação de Tratamento Nacional" não se aplica ao PIS/COFINS-Importação, ressalvado meu entendimento pessoal em sentido contrário. Assim, despicienda a análise da existência efetiva de tratamento desvantajoso ao produto originário do exterior decorrente da majoração em 1% da alíquota da COFINS-Importação, visto que, ainda que se confirme tal desvantagem, não há que se falar em violação à referida cláusula, haja vista sua inaplicabilidade em relação às referidas contribuições.
4. O Tribunal de origem, ao interpretar o § 12 do art. 195 da Constituição Federal, conclui pela possibilidade de concessão parcial do crédito de PIS/COFINS decorrente da não cumulatividade, tendo em vista que o referido dispositivo constitucional não estabeleceu a sistemática de compensação a ser aplicada em relação às referidas contribuições, diferentemente da não cumulatividade do ICMS e do IPI, na qual a compensação ocorre em cada operação com o montante cobrado nas anteriores. Dessa forma, não é possível a esta Corte conhecer do recurso especial no ponto, haja vista a índole constitucional que envolve o tema, cuja análise é da competência do Supremo Tribunal Federal.
5. Recurso especial parcialmente conhecido e, nessa parte, não provido (REsp 1513436/RS, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, Segunda Turma, julgado em 01/12/2015, DJe 09/12/2015).
Insta consignar, de resto, que nem sempre a tratativa do Superior Tribunal de Justiça para com a parte estrangeira, na seara tributária, se mostra discriminatória. Uma hipótese referencial para essa afirmação dá-se quando o não-nacional é possuidor de duplo domicílio, um no Brasil e outro no exterior, e possui veículo que transpassa com regularidade a fronteira nacional. Nesse contexto, a Corte Superior tem tendido a reconhecer a não incidência da pena de perdimento em desfavor do estrangeiro:
TRIBUTÁRIO E PROCESSUAL CIVIL. AGRAVO REGIMENTAL NO RECURSO ESPECIAL. PENA DE PERDIMENTO DE VEÍCULO AUTOMOTOR. PROPRIETÁRIO COM DUPLO DOMICÍLIO. NÃO COMPROVAÇÃO. SÚMULA 7/STJ.
1. A jurisprudência do STJ é firme no sentido de que não se aplica a pena de perdimento ao veículo automotor estrangeiro que trafega em território nacional, na hipótese de duplo domicílio do proprietário, em se tratando de país signatário do MERCOSUL.
2. Contudo, o Tribunal de origem concluiu, com fundamento fático-probatório dos autos, que não se trata de internação de veículo em caráter precário, mas definitivo, e que o real proprietário reside apenas no Brasil, não ficando comprovada a residência permanente em outro país do MERCOSUL, o que torna irregular a situação do veículo, sujeitando-o à pena de perdimento que foi aplicada.
3. Nesse contexto, revisar o juízo de valor na instância extraordinária, por seu turno, demanda o revolvimento dos aspectos fáticos da causa, o que atrai o óbice constante da Súmula 7/STJ.
4. Agravo regimental a que se nega provimento (AgRg no REsp 1545697/SC, Rel. Des. Diva Malerbi (conv. TRF3), Segunda Turma, julgado em 10/03/2016, DJe 21/03/2016)263.
Os casos pontuais em que há, em sentido contrário, a decretação da punição administrativa, tem a denegação de justiça pautada, como visto no julgado acima, no não
263 No mesmo sentido, AgRg no REsp 1323198/RS. Rel. Min. Castro Meira, Segunda Turma, julgado em 17/09/2013, DJe 07/10/2013.
reexame de provas cerceado por entendimento sumular do Superior Tribunal de Justiça, o qual será objeto de exame detido no tópico 5.1.13 desta obra. Esse comportamento da Corte Superior, adianta-se, embora prestigie uma teórica celeridade processual, reveste-se de um veraz distanciamento da realidade fática que compromete o mais amplo acesso à justiça.
5.1.11 Citação de estrangeiro por edital válida em processo brasileiro e citação a brasileiro