Objetivos Específicos
64 CAMINHOS PARA A SUSTENTABILIDADE
natureza. Esta visão procurava a “otimização da superioridade humana sobre a natureza não através do uso da força bruta mas como um esforço criativo na exploração e uso da mesma. Nesta perspetiva, o desenvolvimento sustentável é visto como uma noção inner-directed ” (Baker et al., 1997: 10), isto é, guiada por um pensamento e comportamento que se rege por um conjunto próprio de valores, descurando as regras e normas da sociedade. Esta perspetiva desempenhou um papel importante na discussão da operacionalização do conceito, visto que a aproximação desta corrente, de uma maneira extrema, ao comportamento económico (em termos de força bruta de industrialização económica e desenvolvimento tecnológico) permitiu compreender que o otimismo do Homem em compreender e controlar processos físicos, biológicos e sociais no presente e no futuro das gerações constitui-se como uma utopia.
c) As múltiplas dimensões do desenvolvimento sustentável: Como medir a sustentabilidade?
A definição de indicadores para medir a sustentabilidade resulta da dificuldade de se tentar operacionalizar o conceito normativo de desenvolvimento sustentável. A título de exemplo, remete- se para a complexidade de se desenvolver uma estratégia política de desenvolvimento baseada na análise custo-benefício. Neste âmbito, remeto para o pensamento de Robinson (2004: 370) que evidencia essas dificuldades. O autor alerta para a contradição que muitos autores encontram de conjugar “imperativos opostos de crescimento e desenvolvimento, por um lado, e ecológicos (e, talvez, sociais e económicos) de sustentabilidade, por outro”. O referido autor faz mesmo uma pequena analogia, onde realça que, para os críticos ao conceito, “tentar obter valores de desenvolvimento sustentável é a mesma coisa que tentar alcançar a quadratura do círculo, no sentido de tentar alcançar o impossível” (idem, ibidem). No cerne do problema da quadratura do círculo reside a tentativa de conciliar duas áreas “consideradas incomensuráveis, que não podem ser expressas em termos de si, usando o equivalente algébrico de uma régua e compasso” (idem, ibidem). Porém, e apesar da complexidade encontrada, o ser humano “intuitivamente usa indicadores para monitorar sistemas complexos que procura cuidar ou de que precisa controlar” (Meadows, 1998: 1). Na perspetiva deste autor, o Homem vulgarmente utiliza palavras que, só por si, já servem como indicadores, como sinal, sintoma, presságio, dados, ponteiro, mostrador, luz de aviso, instrumento, entre outras. Os indicadores constituem-se, desta forma, como condição necessária ao fluxo de informações que usamos para compreender o Mundo, tomar decisões e planear as nossas ações. Mas para o fazer é fundamental, como referem Spangenberg e Bonniot (1998: 4), dotar todos os atores com dois novos tipos de ferramentas que ajudem a humanidade a tomar decisões. Por um lado, uma visão de uma sociedade sustentável guiada como uma bússola, “não como um mapa ou rota (ou, pior ainda, um plano)” e, por outro, a elaboração de indicadores que permitam “medir a o progresso, a distância para o objetivo e as falhas de planos ou as suas implementações” (idem, ibidem). De acordo com este último pressuposto, Bossel (1999) coloca duas questões: “Como reconhecer o desenvolvimento sustentável?”; “Quais os indicadores?”.
Para dar resposta a estas perguntas, Niu, Lu e Abdullah (1993: 185) consideram ser necessário estabelecer, desde logo, um modelo teórico-conceptual aceitável que forneça “sistematicamente, alguns valores analíticos ou modelos matemáticos para fundamentar ou enriquecer a teoria do desenvolvimento sustentável”. Por outras palavras, é necessário “estabelecer uma sustentabilidade global relacionada com um sistema de informação e de análise para aferir, comparar, monitorar e prever o estado do desenvolvimento sustentável” (idem, ibidem). Ainda por outras palavras, era imprescindível operacionalizar o modelo de desenvolvimento sustentável baseado em indicadores padronizados e legitimados pela credibilidade e rigor e que fomentassem o exercício do diagnóstico da sustentabilidade, a nível global.
Com a formulação desses indicadores para “medir” o desenvolvimento sustentável, surgiu o despertar para uma nova situação: Qual o melhor indicador para quantificar, de forma credível, o desenvolvimento sustentável? Segundo Pearce, Markandadya e Barbier (1989: 22), “o que temos vindo a reivindicar como “crescimento económico”, no passado, tem sido medido por indicadores muito enganadores”, como é o caso do mais grosseiro e familiar indicador de desenvolvimento utilizado, o PNB. Este conceito de desenvolvimento/crescimento era definido, usualmente, apenas em termos de crescimento económico, isto é, desenvolvimento era igual a crescimento económico. De acordo com as palavras de Redclift (1997: 15), as limitações deste “instrumento de medida” de desenvolvimento são facilmente identificadas. “Primeiro, o PNB mede a atividade produtiva de forma muito restrita, excluindo por exemplo, as atividades domésticas produtivas devido ao facto destas serem basicamente realizadas por mulheres e crianças. O “setor informal”, nos quais mercados existem mas não são plenamente historiados estatisticamente, e nos quais as pessoas que produzem para o seu próprio consumo, não são referidas na “figura” do PNB. Estas atividades informais são particularmente importantes quando se considera o ambiente no Sul: recolha de lenha, cozinhar alimentos, alimentação, vestuário e atividades domésticas. Nenhuma destas atividades é adequadamente representada nas estatísticas do PNB”. Acrescenta, este autor, que o PNB também se revela um “indicador inadequado quando mede a forma como atividade produtiva é implantada. Ao considerar todas as atividades produtivas iguais não distingue, por exemplo, entre as atividades canalizadas para despesa com armamento ou para um sistema de saúde primário para as populações” (idem, ibidem). Assim, países com aplicação de políticas nacionais divergentes podiam ser encarados de igual forma, de acordo com a análise do PNB, pois a avaliação estatística dos números não é reveladora do real desenvolvimento de uma nação. Por último, mais uma vez se “verifica a fragilidade deste indicador quando através dos mapas estatísticos do PNB sobre a utilização produtiva dos recursos, não se consegue distinguir se os recursos utilizados são ou não renováveis”, mais ainda, “se a produção da atividade produtiva está associada a custos no crescimento económico, através de atividades poluidoras, por exemplo” (idem, ibidem).