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Em 1910,24 anos depois que Boas tomou sua importante decisão de permanecer nos Estados Unidos, um jovem intelectual polonês mudou-se de Leipzig para Lon­ dres. Bronislaw Malinowski-havia se doutorado em física e filosofia alguns anos an­ tes em Cracóvia, parte do Império Austro-Húngaro (agora pertencente à Polônia). Em Leipzig ele havia estudado psicologia e economia, e por influência do psicólogo social Wilhelm Wundt (1832-1920) ele se convencera de que a sociedade devia ser entendida holisticamente, como uma unidade constituída de partes entrelaçadas, e que a análise devia ser sincrônicafnão histórica). Nesse mesmo período Malinowski leu The Golden Bough e mudou-se para estudar com Seligman na London School of Economies, então já famosa por oferecer boas condições para trabalho de campo em regiões exóticas.

Quatro anos mais tarde, Malinowski realizou um estudo de campo de seis meses sobre uma ilha na costa da Nova Guiné, por ele considerado um fracasso. Depois de breve estada na Austrália, ocupada com reflexões sobre seus métodos, ele partiu no­ vamente, dessa vez para as Ilhas Trobriand, localizadas na mesma região, onde per­ maneceria por quase dois anos, entre 1915 e 1918. Finda a guerra, ele voltou para a Europa para escrever Argonauts ofthe Western Pacific (Malinowski 1984 [1922]), possivelmente a obra mais revolucionária na história da antropologia. Com o sucesso de Argonauts, ele atraiu para a LSE um pequeno grupo de alunos muito bem prepara­

dos e entusiasmados, os quais, em sua maioria, deixariam suas marcas na disciplina nas décadas seguintes. Malinowski morreu nos Estados Unidos, num momento em que realizava estudos sobre mudança social entre camponeses índios no México.

Argonauts.,., a primeira grande obra de Malinowski, continua sendo também a mais famosa. O livro foi prefaciado por Sir James Frazer, que não poupou elogios ao jovem polonês, claramente inconsciente de que, num sentido acadêmico, ele estava assinando sua própria sentença de morte. O volumoso livro é escrito com fluência. Ele nos conduz por um a análise vigorosamente concentrada e extremamente detalha­ da de uma única instituição entre os trobriandeses, o sistema de comércio kula, em que objetos de valor simbólico circulam por um a extensa área entre as ilhas da M ela­ nesia. M alinowski descreve o planejamento de expedições, as rotas seguidas, os ritos e práticas a elas associados, e estuda as relações entre o comércio kula e outras insti­ tuições dessas ilhas, como liderança política, economia doméstica, parentesco e po­ sição social. Contemporâneo e conterrâneo do romancista Joseph Conrad, Mali­ nowski produziu infonnações do “coração das trevas”, na forma de imagens matiza­ das e naturalistas dos trobriandeses, os quais no fim emergem não como espetacula­ res, exóticos, nem como “radicalmente diferentes” dos ocidentais, mas simplesmen­ te como diferentes.

H á quem diga que Malinowski ficou praticamente confinado nas Ilhas Trobriand durante a I Gueixa Mundial, uma vez que, como cidadão do Império Habsburgo, ele era tecnicamente inimigo da Inglaterra. Essa é uma distorção dos fatos (Kuper 1996: 12). Malinowski não era um romântico confuso que descobriu “por acaso” o princípio do trabalho de campo moderno. Seu aluno, Raymond Firth (1957), o descreve como um etnógrafo meticuloso e sistemático, com um a capacidade excepcional para apren­ der línguas e uma faculdade de observação extraordinária. Outro equívoco comum é dizer que Malinowski “inventou” o trabalho de campo. Como vimos, expedições etnográficas eram comuns muito antes dele, e algumas, como a expedição a Torres, haviam seguido padrões metodológicos rigorosos: O que Malinowski “inventou” não foi o trabalho de campo, mas um método de trabalho de campo específico, que ele de­ nominou obseiyação participante.jA idéia simples, mas revolucionária, que inspirava esse método consistia em viver com as pessoas que estavam sendo estudadas e em aprender a participar o máximo possível de suas vidas e atividades. Para Malinowski, era essencial permanecer tempo suficiente no campo para familiarizar-se totalmente com o modo de vida local e capacitar-se a usar o idioma local como instrumento de tra­ balho. Intérpretes, entrevistas formais e distanciamento social não teriam mais razão de ser. Malinowski morou sozinho numa cabana no meio de uma aldeia trobriandesa por meses a fio - embora mantivesse seu temo tropical e seu chapéu imaculadamente brancos

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e apesar de seus diários publicados postumamente (Malinowski 1967) revelarem que ele muitas vezes sentia saudades de casa e passava por momentos de desânimo, aborre­ cimento e cansaço por causa dos “nativos”.

A “observação participante” de Malinowski estabeleceu um novo padrão para a pesquisa etnográfica. Todo fato, mesmo o mais insignificante, devia ser registrado. Na medida em que fosse praticamente possível, o etnógrafo devia participai' do fluxo contínuo da vida do dia-a-dia, evitando questões específicas que pudessem desviar o curso dos eventos e sem restringir a atenção a partes específicas da cena. Mas Mali­ nowski não se limitou a métodos não-estruturados. Ele coletou dados precisos sobre produção de inhame, direitos territoriais, troca de presentes, padrões de comércio e conflitos políticos, entre outras coisas, e realizou entrevistas estruturadas sempre que julgava necessário. O que ele não fez de forma significativa foi contextualizar os tro- briandeses dentro de um contexto histórico e regional mais amplo. Nisso, ele ocupa uma posição diametralmente oposta à do seu colega fiances, Marcei Mauss, que era um especialista sobre o Pacífico, com um conhecimento mais vasto e mais profundo da história cultural da região do que Malinowski, mesmo sem nunca ter estadalá.

Praticamente tudo o que Malinowski publicou, dos Argonauts... em diante, base­ ou-se extensamente nos dados coletados nas Ilhas Trobriand. Ele escreveu sobre eco­ nomia e comércio, casamento e sexo, magia e visões de mundo, política e poder, ne­ cessidades humanas e estrutura social, parentesco e estética. Suas descrições ocupam várias centenas de páginas e demonstram conclusivamente o potencial do trabalho de campo intensivo e prolongado. O mero número de instituições, crenças e práticas tro- briandesas mostrou além de qualquer dúvida que uma sociedade “primitiva”, “sim­ ples”, quase na base da escada evolucionária, era de fato um universo altamente com­ plexo e multifacetado em si mesmo. De forma mais convincente do que qualquer argu­ mento teórico, a obra de Malinowski revelou o absurdo de um projeto comparativo que se propusesse a comparar características individuais. De agora em diante, contexto e inter-relações seriam qualidades essenciais de qualquer explicação antropológica.

De modo geral, os antropólogos posteriores a Malinowski receberam suas con­ cepções teóricas com menos entusiasmo do que seus métodos e sua etnografia. Sua posição teórica era basicamente eclética, mas seguindo os padrões correntes ele de­ nominou seu programa de funcionalismo. Todas as práticas e instituições sociais eram funcionais no sentido de que se ajustavam num todo operante, ajudando a man­ tê-lo. Diferentemente de outros funcionalistas que seguiam Durkheim, porém, para Malinowski o objetivo último do sistema eram os indivíduos, não a sociedade. As instituições existiam para as pessoas, não o contrário, e eram as necessidades das pessoas, em última análise suas necessidades biológicas, que constituíam o motor

primeirò da estabilidade social e da mudança. Isso era individualismo metodológico sob outro disfarce, e num clima acadêmico coletivista dominado pelos durkheimia- nos, o programa não teve boa acolhida. Durante algumas décadas depois de sua morte a estrela de Malinowski continuou seu ocaso, até que a desilusão com a “Grande Teo­ ria” tomou conta de todos durante a década de 1970, fato que o levou à reabilitação em comunidades antropológicas nos dois lados do Atlântico - às custas do seu colega e ri­ val Radcliffe-Brown. Malinowski chamou a atenção para o detalhe e para a importân­ cia de captar o ponto de vista do nativo, e parte de sua reação contra seus predecessores imediatos nasceu de um profundo ceticismo com relação a teorias ambiciosas. Perce­ bemos aqui a semelhança com Boas, reflexo da educação alemã de ambos. Malinows­ ki se distinguia de Boas, porém, em sua relutância em envolver-se com qualquer forma de reconstrução histórica. Com Radcliffe-Brown ele empreendeu uma campanha an- tievolucionária - e anti-histórica - tão bem-sucedida que o tema ficou mais ou menos proibido na antropologia britânica durante quase meio século.

Malinowski se autodenominava füncionalista, mas suas idéias diferiam funda­ mentalmente do programa rival do estrutural-funcionalismo. Para Malinowski, o in­ divíduo era o fundamento da sociedade. Para os estruturais-funcionalistas durkhei- mianos o indivíduo era um epifenômeno da sociedade e de pouco interesse intrínseco - o que interessava era inferir os elementos da estrutura social. Essas duas linhagens da antropologia social britânica - funcionalismo biopsicológico e estrutural-funcio­ nalismo sociológico - evidenciam uma tensão básica na disciplina entre o que mais tarde foi chamado de agência e estrutura. O indivíduo tem agência no sentido de que ele é um criador da sociedade. A sociedade impõe estrutura sobre o indivíduo e limita suas opções. Como mostra Giddens (1979), os dois pontos de vista são complemen­ tares. Mas isso não foi percebido pela antropologia britânica do período entre as duas grandes guerras. O funcionalismo de Malinowski e o estrutural-funcionalismo de Radcliffe-Brown foram vistos como diametrabnente opostos.

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