Joyce já dizia que o escritor nacional e nacionalista tinha dificul- dades para escapar do "amor da ilusão", outro nome do realismo, que ele oferecia ao povo. E de fato hoje deve-se falar de uma verdadeira hegemonia do "realismo" sob todas as suas formas, avatares e deno- minações
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neonaturalismo, pitoresco, proletário, socialista...
-nos espaços literários mais desprovidos, isto é, mais politizados. Essa im- posição progressiva de uma estética literária quase única apareceu no cruzamento de duas revoluções, uma literária e outra política. Por isso, apesar de algumas variações, o mesmo pressuposto "realista" ou "ilu- sionista" é comum aos espaços literários em via de formação e aos sub- metidos a forte censura política: o neo-realismo - em sua versão nacional ou popular-
exclui qualquer forma de autonomia literária esubmete as produções literárias a um funcionalismo político. Prova suplementar da heteronomia essencial do realismo literário: é encon- trado também em todas as produções literárias ou paraliterárias mais sujeitas às leis comerciais do mercado editorial (nacional e sobretudo internacional). É de certa forma a vitória do que Roland Barthes cha- mou o "efeito de real", e Michael Riffaterre, a "mitologia do O naturalismo é a única técnica literária que proporciona a ilusão da coin- cidência entre a coisa escrita e o real. O efeito de real produz desse modo uma crença que explica em grande parte sua utilização política seja como instrumento de poder, seja como instrumento crítico. Con- cebido como o derradeiro ponto de coincidência entre o real e a ficção, o é a doutrina mais próxima dos interesses e metas políticos. O "romance proletário" pontificado pelos soviéticos será a encamação dessa crença literária e políticas0. O engajamento nacional que conjuga a estética neo-realista o uso de uma língua "nacional", "popular", "operária" ou "camponesa" é a forma por excelência da heteronomia literária dos escritores nos espaços literários sob tutela política.
O escritor espanhol Juan Benet descreve com muita clareza uma situação comparável na Espanha franquista. Uma literatura totalmente submetida à ditadura e cuja própria dependência, tanto entre os inte- lectuais que colaboravam com o regime quanto entre os que tentavam a ele se opor, podia ser medida pelo monopólio da estética neo-realista: "Nos anos para dizê-lo em poucas palavras, era uma literatura
'de direita', uma literatura 'beatífica' que sustentava o regime uma unanimidade sem nenhuma oposição dos anos 50, começa o realismo social, realismo 'de esquerda' que imitava o romance soviético ou o existencialismo francês. Fizeram, muito timi- damente, uma literatura de oposição, mas sem nenhuma crítica aberta ao regime, é claro que devido à censura. Abordavam temas um pouco tabus na época: os novos-ricos, as dificuldades da classe operária
47. C. Achebe, Londres, Heinemann, 1958; Le monde Paris, Présence africaine, 1973.
48. André Burguière e sublinharam também o papel da narrativa histórica na construção da França como entidade. A. Burguière, I. Revel, de
p.
49. Cf. R. Barthes, L. Bersani, Ph. Hamon, M. Riffaterre, Paris, Éditions du 1982.
50. et
Paris, 1985. 51. Benet, Entrevista B.
PEQUENAS
É quase nos mesmos termos que Danilo evoca os pressupos- tos literários da Iugoslávia de em uma revista de Belgrado dos anos 70: "Não há dilema em nossa subprefeitura, tudo está claro como o dia: basta sentar-se mesa de trabalho e pintar o homem da rua, o tipo honesto e simples de nosso país, descrever como ele bebe, bate na mulher, como se vira ora do lado do poder ora para a oposição, e tudo correrá bem. Isso se chama então literatura viva e engajada, essa arte primitiva neo-realista que reproduz os usos e costumes da província, núpcias, velórios, enterros, assassinatos, abortos, tudo isso
mente em nome do engajamento, de uma vontade civilizadora e de um Renascimento literário sempre
Nesses universos literários muito ligados às instâncias e às problemá- ticas políticas, o formalismo é considerado na maioria das vezes um luxo para uso dos países centrais que não têm mais de se colocar o problema nacional nem o do engajamento: "Pois essa concepção", escreve ainda "que nós próprios também pontificamos muitas vezes
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que a litera- tura será engajada ou não - mostra a que ponto a se por todos os poros da pele e do ser, tudo invadiu, como um pântano, a que ponto a poesia bate em retirada e se tomou o privilégio dos ricos e 'deca- dentes'-que podem permitir-se esse luxo-, enquanto nós, os outros..."" Descreve assim, na Iugoslávia, a evidência de uma estética literária nacio- nal imposta ao mesmo tempo pela tradição literária, pelo regime político e histórico e pelo peso político da União Soviética. Para ele, o realismo socialista reitera o domínio russo sobre os sérvios: "Dois mitos, portanto, se encontram em nossos dias: o (a ortodoxia) e o mito re- volucionário. O Komintem e Essa dependência estrutural que submete as práticas literárias a instâncias políticas é sobretu- do pela repetição e reprodução dos mesmos pressupostos narrativos con- vocados como exclusivamente nacionais. Em outras palavras, esse realismo praticado em nome do engajamento político é, realidade, um naciona- lismo literário ocultado como tal: um realismo nacional.53. D . p. 13-i4. Extraído de prêchons dans in: Contemporaint), Belgrado, xvii, 4.
54. Ibid., 27.
55. Essa submissão declarada dos i Rússia que os se destaquem e escolham Paris como intelectual. Ibid., 20.
Na Coréia, por exemplo, onde toda a literatura é nacionals6, gran- de parte da poesia afirma-se como "realista". Assim, o poeta Sin Kyongnim publica ao mesmo tempo coletâneas de poesia realista nas quais se identifica com todos os que a palavra "povo" ou "massas" poderia designar - "É um deles, e forja para si a convicção de que seu papel", escreve Patrick "seu dever, é dizer seus cantos e his- tórias, seja qual for a dor que exprimam" -, e estudos e coletâneas de cantos populares que coleta no gravador a fim de difundi-los e neles se inspirar para a sua própria escritas7.
Carlos Fuentes descreve em termos bem próximos, pelo menos segundo uma configuração semântica próxima
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nacionalismo, realis- mo, antiformalismo -, a literatura mexicana dos anos 50. No México, escreve em sua Geografia de novela, o romance devia corresponder a "três exigências simplistas, três dicotomias inúteis, mas erigidas como obstáculo dogmático à própria possibilidade do romance: 1-
Realis- mo contra fantasia, até contra o imaginário. 2 -Nacionalismo contra cosmopolitismo. 3-
Engajamento contra formalismo, contra a arte pela arte e outras formas de irresponsabilidade literáriaMs8. A primeiracoletânea de contos de Fuentes, Os dias mascarados, foi condenada como não realista, cosmopolita e irresponsável.
É assim que é possível compreender como o próprio conteúdo dos textos literários está ligado ao lugar na estrutura mundial do espaço nacional do qual saíram. A dependência política dos espaços literários em emergência é pelo recurso a uma estética funcionalista e formas romanescas ou até poéticas mais conservadoras com relação aos critérios da modernidade literária. Ao contrário, como ten- tei mostrar, o grau de autonomia das regiões mais literárias é medido principalmente pela despolitização das questões literárias, isto é, pelo
56. "Na Coréia esse nacionalismo é um termo globalizante, primordial. Todo discurso é nacionalista. As pessoas são nacionalistas - ou mais exatamente naciona- listas-messianistas - antes de serem 'de esquerda', ou de se referirem i s 'massas', ou de se afirmarem liberais ou budistas". Sin Kyongnim,
de Paris, Gallimard, 1995. 10 (traduzido, apresenta- do e anotado por Patrick relido por Yun).
57. Ibid.,
AS PEQUENAS LITERATURAS
desaparecimento quase geral do tema popular ou nacional, pelo apareci- mento de textos ditos "puros", sem "função" social ou política, liberados da necessidade de participar da elaboração de uma identidade ou de um particularismo nacionais e, simetricamente, pelo desenvolvimento de uma pesquisa formal, de formas desvinculadas de qualquer questão não específica, de debates livres de qualquer visão não literária da litera- tura. O papel do próprio escritor consegue desdobrar-se fora do campo do profetismo inspirado, da função de mensageiro coletivo, de vate nacional que lhe é conferido nos espaços pouco autônomos.
As preocupações formais, ou seja, especificamente literárias e au- tônomas, só aparecem nas "pequenas" literaturas em uma segunda fase, quando, tendo sido acumulados os primeiros recursos literários, uma vez a especificidade nacional estabelecida, os primeiros artistas inter- nacionais conseguem questionar os pressupostos estéticos ligados ao rea- lismo e apoiar-se nos modelos e nas grandes revoluções estéticas que se reconhecem no de Greenwich.