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Proximidade e distância, etnicidade e semelhança: transversalidades

Atualmente, em São Tomé, na cidade e nos subúrbios, mas também nas zonas mais ruralizadas, reinventam-se novas ocupações laborais, investem-se em novas práticas socioculturais, como novos consumos (de comida, de música, de lazer), projetam-se outros «modos de ser», com base em referenciais transnacionais que coexistem a par dos referenciais locais. As entradas dos meus diários de campo apresentam tópicos transversais a pessoas de diferentes estatutos étnicos e socioeconómicos, como a relação com a terra, a casa na cidade, a língua que se fala, o investimento na aparência, as crenças e a fé, a relação com a tecnologia, a comida e outros consumos, as práticas de entreajuda, a política do dia-a-dia, a revolta com o país, que constituem alguns dos tópicos dos diferentes capítulos.

Estas comunalidades levaram-me a refletir sobre a etnicidade enquanto semelhança, recorrendo para isso à análise de Simon Harrison em Fracturing Ressemblances (2007). Este antropólogo, que tem trabalhado entre os Avatip na Papua Nova Guiné (Melanésia), estudou situações nas quais os atores sociais se veem a si próprios como estando em conflito, não por possuírem identificações diferentes e irreconciliáveis, mas por partilharem importantes aspetos das suas identidades. Estas seriam comunalidades identificatórias efetivas ou aspirações - e reivindicações - às mesmas identidades, tal como demonstrarei ao longo desta etnografia: «they are competing to occupy the same regions, or ovellaping regions, of that dimension of social existence» (cf. Friedmam 1992 in 2007:12) (itálicos meus).

Segundo Harrison, seria precisamente a fraca indistinção, que estaria na origem da criação de diferenciação. As pessoas teriam «medo de se verem como iguais, de se fundirem, de se tornarem o mesmo», por experienciarem comunalidades não desejáveis, devido, por exemplo, a uma proximidade estatutária.28 Esta proximidade geraria conflito, uma vez que as semelhanças passariam a ser experienciadas enquanto ameaças, no seguimento de autores como Simmel (1955), Enloe, (1996), Freud29 (1930), Girad (1977) e a sua teoria do being alike (cf. Harrison, 2007:2). Em São Tomé esta «proximidade sentida como perigosa» terá contribuído para o

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Numa análise semelhante à de Eriksen nas Maurícias.

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São vários os estudos em que se demonstra que a grande aposta de diferenciação é feita precisamente entre pessoas com o mesmo estatuto, menos valorizado pela sociedade hegemónica. Relembro aqui o exemplo de um são- tomense residente num bairro nos subúrbios de Lisboa, que apontou «a culpa é dos ciganos!», seus vizinhos, enquanto responsáveis da crise em Portugal, o que ouvi inúmeras vezes, entre pessoas com estatutos sentidos enquanto «perigosamente» próximos.

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Freud escreveu sobre «o narcisismo das diferenças menores»: o facto de certos grupos viverem próximos, provocaria o exagerar na sua distintividade, precisamente porque os seus membros se sentiriam insuficientemente distintos, apresentando somente «diferenças menores» (Freud 1930 in Harrison 2007:2).

Pode alguém ser quem não é

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reforço de etnicizações, nomeadamente por parte dos forros ao longo da história, para se distinguirem dos serviçais e dos angolares, como referi atrás. Ou seja, as comunalidades negadas implicariam, muitas das vezes, processos de identificação com o outro, o que poderia contribuir precisamente para a necessidade de aposta nas «diferenças aparentes» (ibid:12). A rivalidade – que seria identificação30 – geraria imitação, que poderia ser recíproca, processos de «mimese conflitual» (ibid:2), bem como relações de interdependência. Neste sentido, existiriam «comunidades miméticas» nas quais os atores sociais circulariam «among themselves, sometimes, perhaps, impose on one another, common practices and understandings about how to differ […]. Their identities are defined in ways acquired from each other, so that they do not just imagine themselves to be dissimilar, but imagine their dissimilarities in similar, more or less standardized terms» (ibid:49) (itálicos meus). Bhabha realizou um importante trabalho sobre o «debate mimético» (1994:126), bem como sobre os interstícios categóricos e os espaços «in-between», que vão além de relações dicotómicas e antagonísticas. Fundamental é também o trabalho de Taussig, nomeadamente no seu livro Mimesis and Alterity: A Particular History of the Senses (1993), no qual demonstra diferentes práticas subversivas de resistência, e percursos de mobilidade social e identitária, em processos nos quais a «cópia» adquire os poderes do original (cf. Taussig, 1993).

Neste sentido, «o outro» é sentido como «o mesmo», ou seja, a mesmice contém otherness e a otherness contém mesmice, análise que me permite compreender as ambiguidades categóricas que observei, tanto nos discursos como nas práticas, o que se torna exemplificado de forma singular, ao se observarem os rituais de incorporação espiritual, nos quais, por exemplo «os moçambicanos, os tongas, os angolares» visitam o corpo de um forro, em base regular, como pude constatar e como também demonstrou Valverde (2000), o que irei desenvolver.

Segundo a teoria da similitude, não haveria qualquer investimento em relações de base étnica se o «outro» se encontra suficientemente distante, tão distante que quase não é o «outro».31Estes processos levam-me a pensar sobre os modos como se veriam portugueses e africanos, escravizados e contratados, na relação colonial. O investimento na distanciação (por parte dos portugueses) significaria, segundo a teoria da perceção (secreta) de similitude, um reconhecimento de «excessiva proximidade». Deste modo, se terá investido na crença de que o africano seria sub-humano, como alguém que estaria próximo da animalidade, precisamente por haver a necessidade de se criar essa distanciação «rácica», pois só esta legitimaria as atrocidades do colonialismo. Os «outros» seriam assim quase-animais, discurso que legitima o recrutamento para as roças de «seres pouco mais intelligentes que o gorila», como refere

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Para se ser diferente, haveria sempre o reconhecimento – mesmo que inconsciente e, certamente, negado – da semelhança.

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Pode alguém ser quem não é

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Stockler a propósito dos angolares de São Tomé (1883:112).

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