O Hino Pindàrico a Zeus
88 A CULTURA GREGA E AS ORIGENS DO PENSAMENTO
é1’ desaparecerem, neste pensamento encontramos o reflexo de antigás? concepções, segundo as quais é na canção que os grandes feitos g |f nham imortalidade. Mas Pindaro vai mais fundo: isto é, a ação terfj! necessidade do poeta “sábio” que ponha em relevo o sentido dos valo-, res terrenos. A beleza e a ordem do mundo não têm certamente neces sidade do canto para se imortalizarem, mas sim do “sábio cantor” qu| delas revele o sentido e o valor. E sse sentido, revelado pelo poeta n | celebração, não se acha além ou acima do mundo das aparências, mal apresenta-se em forma visível. A maioria das pessoas, porém, não 9; percebe e, por isso, é necessário que alguém o torne conhecido delas!
O m odo com o os valores podem ser postos em relevo mediante | louvação nos é mostrado por outros dois fragmentos do Hino a Zeus,T que ainda não examinamos mas que, correspondendo metricamente ao primeiro fragmento, podem ser atribuídos ao próprio hino. Eles contêm sua invocação a D elos, a ilha do mar Egeu na qual Leto dera à luz A poio e Ártemis. Segundo o mito, a ilha ficava outrora girando, no mar sem encontrar paz, mas a partir do momento em que esses deuses nasceram, ela se fixou com sólidas bases sobre 0 fundo. Pindaro, além disso, vale-se do fato de D elos também ter sido, em outros tem», pos, chamada de Astèria, isto é, a ilha-estrela.
A ti saúdo, ó filha das vagas, construída por obra dos numes, mais que todas cara aos filhos de Leto de belas tranças, que imóvel pousas sobre o mar: prodígio admirável! Delôs: chamam-te os mortais; astro longirradiante da cerulea terra, chamam-te os numes... Que outrora vagavas sobre as ondas, impelida pelo embate de variados ventos. Mas quando a filha de Coios, no atroz padecimento das últimas dores, aí chegou, quatro colunas surgi; ram sobre brônzeos pilares, diretos da firme terra e com 0 vértice a rocha sustentaram. Aqui ela gerou dois filhos e sobre a prole bem-aventurada 0 olhar pousava...
Sobre com o esses versos, que pertencem à grande teogonia decla mada pelas Musas nas bodas de Cadmo e que desembocam na descri ção das núpcias de Zeus com Hera, devam ordenar-se na ode, nada se pode afirmar com segurança. E, via de regra, impossível situar os frag mentos do poema de Pindaro na sua disposição primitiva, visto que Pindaro não apresenta os fatos obedecendo a uma ordem cronológica clara, e chega a considerar uma arte o emprego de transições ousadas, A invocação à D ivindade, com a qual inicia o fragmento (Delos é saudada, de fato, com o filha do mar), deve ser colocada no com eço de um poema, com o é de uso para tais invocações em Pindaro e em outros líricos gregos primitivos9. Mas o exordio do Hino a Zeus era constituí do (coisa atestada de modo inconfutável) pela lista das personagens do mito tebano10. Esse, porém, não é um bom motivo para pressupormos
9. Herbert Meyer, Hymnische Stilelemente, 1933.
10. Embora Heféstion não traga aqui para exemplo, como deveria, esse verso, e sim fi. 30, 1.
O HINO PINDÀRICO A ZEUS
que a correspondência métrica vai além do que se poderia atribuir ao paso. Cabe, ao contrário, supor que essa invocação teria início com o canto das Musas; e que m esm o o hino pode ter contido diversas can ções das Musas, pois, também em Homero (//., I, 603 e ss.), as Musas alternam o canto com a lira de Apolo. E com o temos um verso do Hino a Zeus (fr. 147) - “Com o tempo nasceu A poio” - , que combina mal com a celebração de Delos, é possível que se tenha falado duas vezes sobre o nascimento de Apoio; coisas do gênero são possibilíssimas em Pindaro. Mas, com o quer que esteja a coisa e qualquer que seja o ponto do Hino a Zeus no qual se deva inserir esse fragmento, o m odo com o é exaltada a m agnificência de D elos e a maneira nova e grandiosa de observar coisas conhecidas dão-nos um belo exem plo da arte celebrativa de Pindaro. Com poucos traços, ele nos mostra D elos à mercê das on das e dos ventos e o fato de ela finalmente alcançar a paz é transmitido com imediata evidência: quatro colunas saltam do mar sustentando so bre seus capitéis o rochedo. Solene e grandioso espetáculo! E em segui da, sem intervalo, passamos repentinamente a outra imagem: depois de haver dado à luz, Leto contempla sua prole divina. Tanto na descrição do milagre pelo qual a ilha, impelida mar adentro, de repente se fixa ao solo, quanto na narração da história de Leto, Pindaro não segue o tradi cional desenrolar dos fatos mas guia-nos de maneira tal que som os de imediato levados a nos deter diante de uma imagem: a das soberbas colunas, a do olhar feliz com que a mãe contempla seus gêm eos divi nos. As mais variadas relações aproximam as duas imagens (juntamen te com a ilha, também Leto, perseguida pela ciumenta Hera, encontra repouso), e, ao mesmo tempo, elas se contrapõem: de um lado a visão das grandiosas colunas, do outro, o olhar feliz da m ãe11 - ambas, po rém, expressão de um mesmo esplendor divino. Essa riqueza de rela ções estende-se à ode toda, e m esm o a toda a poesia de Pindaro. As Musas, durante as bodas de Cadmo, cantam as bodas de Zeus; isso faz com que o conteúdo do canto remonte ao próprio motivo que lhe deu origem, o que se encontra amiúde nos cantos celebrativos da era arcai ca, por exemplo num epitalamio de Safo, que descreve as núpcias de Heitor (cf. supra, pp. 72-73). Essa é uma forma cultivada com arte perfeita por Pindaro nos seus epinicios (cf. infra, p. 99). Mas aqui a relação é ainda mais importante, já que dos diversos matrimônios de Zeus provieram ordem e beleza para o mundo, e suas núpcias terrenas deram estável morada, na terra, à harmonia. Para os tebanos, com o já dissemos, Pindaro canta um mito tebano; também essa referência à pátria volta com freqüência nos poemas de Pindaro. As Musas cantam o devir dos deuses mas, no final do canto, narram também a origem
11. Sobre essa contraposição de imagens, cf. os exemplos anteriormente citados, pp. 59ess.