Um Breve Capítulo da Ética Grega
168 A CULTURA GREGA E AS ORIGENS DO PENSAMENTO
Quando Hom ero diz que um homem é àyocôóç (bom ), não preif. tende dizer que é m oralmente irrepreensível ou de bom c o r a ç ã o ,^ sim, útil, válido, capaz, o que nós dizem os de um bom guerreiro ou^ de uma boa ferramenta. A ssim a palavra à p ern (virtude) não séf-
refere à vid a m oral, m as in d ica nobreza, cap acidad e, êxito im ponência. Com essas expressões, porém, já nos aproximamos dá^ moral, já que elas não indicam , com o “felicid ad e” e “utilidade”^' algo que sirva apenas ao interesse individual, mas sim que tem unl¿, valor mais amplo: àpexfj significa “bravura” e “capacidade”, o quek* se espera de um homem “bom ”, “ativo”, de um àvq p à y a 0 ó ç. Visto ^ que essas palavras, de Homero em diante até Platão e m esm o depois^ deste, servem para indicar o valor do homem e de sua ação; suai mudança de significado é índice da transformação dos valores nq ' curso da história grega. Poder-se-ia demonstrar mais pormenoriza-" damente com o, nas diferentes épocas, formaram-se Estados e gru pos sociais diferentes segundo os diferentes ideais colim ados e se- ' gundo suas diferentes con cepções do “bem ” Mas isso seria escre ver uma história da civilização grega. Ser “virtuoso” e ser “bom” sign ifica para Hom ero ser de m odo perfeito aquilo que se é e que se poderia ser. Com certeza, isso leva também à felicidade e ao útil, mas não são essas aspirações que guiam o homem para a virtude e para a bondade. N essa s palavras tem os em em brião a id éia da
entelequia. Poderá, assim, um herói hom érico “lem brar-se” de que é um nobre ou poderá “experim entar s ê -lo ” “Torna-te aquilo que és por m eio da ex p eriên cia ”, d iz uma m áxim a de Pindaro, que pressupõe esta con cepção da ccpETTj. Quem é “bom ” tòc èccDTOU 7cpccTT£i, d ese n v o lv e o que é próprio de sua natureza, com o diz Platão, isto é, chega à sua perfeição. M as nos prim eiros séculos isso também sig n ifica que ele também passa por bom , que “vale” algum a coisa. E xistem , de fato, nessa época, idéias precisas sobre o que é bom: uma p essoa parecer o que é.
Quando, portanto, Odisseu, por exem plo (//., XI, 404-10), “reflete” sobre o fato de que ele é um nobre e quando disso lhe podem advir dúvidas sobre com o comportar-se numa dada situação, para resolvê- la basta que pense que pertence a uma dada categoria e que deve levar a efeito a “virtude” que lhe é própria. O elem ento universal da propo sição “eu sou um nobre” é dado, portanto, pela casta, e ele, O d issea não se apoia num “bem” abstrato, mas sim num círculo ao qual sabe que pertence3 E com o se um oficial dissesse: “com o oficial devo agir deste e desto m odo”, apoiando-se nas sólidas concepções de honra da sua categoria.
3. Na Odisséia, também a Ôí k t iestá ligada ao grupo a que indivíduo pertence: cf. H.
’ap£TÕv significa “prosperar”; àpern é o que a cavalaria dos pri meiros tempos exige da ação; por m eio da apexrj, o cavaleiro realiza o ¿ ideal da sua categoria, mas ao m esm o tempo distingue-se de seus pares. Por m eio da apexq, o indivíduo não apenas se adapta ao juízo da comunidade, mas também se distingue com o indivíduo. A partir de Jakob Burckhardt, sempre se sublinhou o caráter agonístico de toda empresa grega. A recom pensa na disputa pela àpern é, até a mais tardia idade clássica, a glória e a honra. É a comunidade que dá ao indivíduo o confirmação de seu valor. Por isso a honra, a àp erj, tem uma parte ainda mais importante do que o àpexfi para a consciên cia moral, pois a honra está em maior evidência e nota-se mais do que a habilidade. D esde a meninice, o jovem nobre é exortado a pensar na glória e na honra; deve preocupar-se com o seu bom nome, deve per mitir que os outros dele se aproximem com o devido respeito. A hon ra é planta bastante delicada. Uma vez destruída, com ela se destroça a existência moral do homem. Ela é ainda mais importante do que a vida; pela glória e pela honra, o nobre arrisca a própria vida.
Três são os impulsos motores da ação que até agora identifica mos nas máximas de virtude: a consecução do útil, a busca da felici dade e o desenvolvim ento da capacidade e do valor individual. O próprio Sócrates inseriu, em suas reflexões sobre a moral, esses três estímulos fundamentais para a ação, interpretando-lhes, porém, o sig nificado à sua maneira e transformando-os. Visto que a utilidade, a felicidade e a honra são, no sentido que lhes é com umente atribuído, impulsos egoístas e, portanto, totalmente amorais.
A carência deles é demasiado evidente para que não fosse notada já em tempos mais antigos; a transformação desses motivos, sua adap tação ao elem ento moral buscado, já com eça, portanto, em tem pos longínquos. O pensamento do útil só pode adquirir um certo sentido m o ral e m esmo filosófico quando se considera o útil em relação a um tempo oportuno. Quílon admoesta: “Pensa no fim” ; se com isso ele se refere a um futuro longínquo, então a admoestação transforma-se numa máxima de virtude, particularmente se se trata de renunciar a um útil presente por um útil futuro. N o círculo dos negócios, onde esse cálculo do útil tem um valor muito especial, a constatação de que a honestidade, afinal, dá os frutos melhores, fez surgir máximas como: “a honestidade é a m e lhor astúcia”, “a mentira tem pernas curtas”, “o mentiroso conhecido, nem quando diz a verdade é ou vido” Eu não conseguiria encontrar coisa semelhante no grego, a não ser, talvez, na m áxima de Teógnis: “Procura ganhar honestamente o teu dinheiro; no fim, ficarás contente em ter seguido este conselho” (753 e ss.). É na convicção de que o bem deva ser vantajoso e sobretudo o mal, danoso, que o pensamento da punição encontra suas raízes. Ora, m esm o que a punição se efetue, seja por m eio da vingança pessoal, do Estado ou dos deuses, é sempre, so-
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bretudo nos primeiros tempos, o conceito do útil e do prejuízo que pre^ valece. E isso é demonstrado não apenas pelo fato de que a pena sç& “paga”, mas essa forma de compensação é tomada com o m odelo tanvf bém nas relações jurídicas e penas dos tempos posteriores. Ora, seja elaf
conhecida com o pena de talião ou com o vingança do sangue, a “justa% punição é sempre algo calculável; o quantitativo de dano que o malfeitoíf sofre através da punição deve corresponder ao quantitativo de dano pö'P ele causado: o saber quantitativo e antecipador aqui empregado é cf m esm o que se usa para o cálculo do útil. Naturalmente, não foram; apenas considerações de ordem utilitária que levaram a instituir éí
punição, cujo m otivo primeiro, ao contrário, é dado por profundase necessidades morais. A ação só é possível se o que acontece nestes mundo tiver um sentido definido, e corresponder a um sentido profun do: o pensamento de que a injustiça não triunfe. A convicção de que o bom é premiado e o mau, punido (e se não ele, seus filhos que são a1 continuação de seu eu; e se não neste mundo, no Hades, com o Sisifo e* Tantalo). Está, assim, profundamente enraizada no homem a esperança' (segundo Kant, na Crítica da razão prática, a esperança é-lhe absoluta mente necessária) de que o bem seja premiado e o mal, punido, e já que ê.
evidente que nem sempre isso acontece neste mundo, continuamente sé reacende a reflexão sobre o significado do mundo que parece aniquilado: se o bem não se apresentar, mesmo que a longo prazo, também como útil4
O m esm o vale para a felicidade, que, sendo nos primeiros tem-; pos considerada coisa terrena, ainda está intimamente ligada ao útil, do qual nem sempre se distingue: as m áxim as relativamente rnais^ refinadas dão ênfase à sua duração. A inibição moral é recomendada sobretudo desta maneira: sacrificar uma felicidade passageira por umä: duradoura. A paixão, a cobiça perturbam a felicidade duradoura, e o) prazer, f)ôovfi (,hêdonê), é coisa discutível porque de curta duração. Atribui-se a Sólon o dito: “Foge do prazer que gera desprazer”, e nos; chamados provérbios áureos de Pitágoras encontramos (v. 32): “Pem, sa na tua saúde, e tem moderação no beber, no comer e no exercício; físico ”; ou então em Teógnis (839): “Seria preciso manter o justo meio entre a sede e a embriaguês”, e Erixímaco ensina, no Banquete de Platão; (187 E): “É preciso excitar moderadamente o prazer, para evitarmos a doença” A experiência de que os variados requintes não convêm ao homem, e de que o remédio amargo ou a amputação dolorosa podeni devolver-lhe a saúde são formas continuamente repetidas e variadas da máxima que admoesta a não fazermos apenas aquilo que nos agrada, “O melhor é ser saudável”, diz uma velha canção convivial ática (Platão,
Gorg., 451 E). A saúde é a felicidade “duradoura”, quiçá uma felici dade modesta, mas maior do que todas as outras, justamente porque,
na vida, é a que mais dura. A idéia da medida e do justo m eio provém * dessas máximas sobre a saúde, e essa imagem da saúde já é usada nos primeiros séculos para demarcar os lim ites da vida espiritual do ho mem: a sagacidade é expressa pelos gregos com a palavra acocppovetv : (sophroneín)5, isto é, “ser de m ente sã”, e ao contrário, os intintos e as paixões, com 7tá0r| (páthe), isto é, com o sofrimento. A amcppoawri (,wphrosyne), a sensatez, é aquele saber que vê na saúde a m edida do bem-estar e, portanto, da felicidade; é um conhecim ento da natureza orgânica, que se orienta para a prática, ao passo que o cálculo do útil era um saber ( aplicado na prática) de quantidades determinadas, isto | ré, um conhecimento de coisas mortas e de suas exatas relações mate
máticas. Também na acocppoabuf], o saber é a instância que decide sobre o que é moral. N o contraste entre paixão e sensatez, retorna o tema das palavras de Atena a Aquiles: frear a paixão pensando no futuro. Mas na concepção da a<XKppo<mun, o “freio” moral não é mais interpretado no sentido religioso. Afirma-se aqui a confiança tipicamente grega no espírito e no conhecimento. Se também a sensatez se contrapõe às pai xões e, nesse contraste, revive a antiga distinção homérica entre o espí rito como pensamento e o espírito com o ação, todavia para os gregos da era arcaica e clássica ser “sensato” não significa, em absoluto, conside rar a priori os impulsos e paixões com o irracionais, ou até m esm o com o pecaminosos. A saúde, que serve de modelo para a sophrosyne, tam bém faz uso da ação dos instintos e, portanto, as exortações da sensatez convidam, sim, à moderação mas estão bem longe de proibir o prazer.
D ifícil, pois, é determinar, com o já dissem os, o que é a saúde, ainda que a queiramos conceber, como o faz, por exemplo, Erixímaco em Platão, como harmonia dos diferentes impulsos naturais6. Erixímaco filia-se à doutrina dos elementos de Empédocles: a “justa” mistura dos quatro elementos produziria a saúde, e a prevalência de um deles seria a causa de enfermidade. Quando, porém, considera a tensão harmôni ca dos contrários com o o essencial, é Heráclito que ele repete. A idéia da harmonia em relação ao são e ao justo ganhou muita importância junto aos gregos, tanto que harmonia, ordem e medida têm para os gregos valor de ideais e aparecem repetidamente em muitas m áximas positivas. Mas não é fácil dizer o que é esse ideal, e por isso é que, também aqui, as m áximas negativas são mais eloqüentes do que as
5. Essa palavra, ao que parece, surge pela primeira vez num poema de Alceu encon trado recentemente (24 B, 12 aajocppóvqv em E. Diehl, Rh. Mus.,92, 13). Cf. E. Schwartz,
Ethike der Griechen, 54.
6. Essa idéia remonta a Pitágoras (cf. H. Diels, N. Jahrb., 51,1923,70); encontramo- la formulada pela primeira vez no pitagorico Alcméon, que define a saúde como “isonomia” (isto é, democrática igualdade de direitos) das forças, do úmido e do seco, do frio e do quente, do amargo e do doce etc., ao passo que a doença é “monarquia” de uma força única.