9 As Origens da Consciência
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nos um fragmento das Vespas, no qual se diz que Zeus compadeceu» ; se da terra, vendo-a povoada e oprimida por milhares e milhares dé estirpes humanas, e decidiu que se deflagrasse a grande guerra tr o ia n i para soergué-la com um grande morticínio. Diferentemente da litada;*
aqui a divindade não se limita a intervir, vez por outra, nos eventos^ isolados, mas emerge um tema universal: Zeus misericordioso (nãcí,/, certamente, em relação aos homens) projeta essa grande guerra e põe. em andamento seu gigantesco mecanismo, com a contenda pela maçãêU o julgamento de Páris. Embora importantíssimo para a “historicização”/; do èpos, esse passo à frente constitui, sem dúvida uma grande perda'/ para o conteúdo poético, pois é óbvio que agora os deuses já não podem/ mais desenvolver uma atividade viva e concreta com o na Ufada, e grande forma da épica clássica com eça a dissolver-se. *:~
A lém disso, os poemas mais recentes acentuam, evidentemente, ; a oposição entre gregos e bárbaros muito mais do que a Ufada, pois' ; agora intervém, da parte dos troianos, Pentesiléia e M émmon, as Ama- zonas e os Etíopes, isto é, as populações bárbaras. E bem verdade que na Ufada, os troianos descem a campo com grande estrépito e os gre- . gos, em ordem e com calma, que os troianos feridos lamentam-se mais selvagem ente que os gregos (cf. o uso dos verbos áaôpodvco, ßeßpuxe, íípvye, oipcbooco que têm com o sujeito apenas deuses troianos)8, que só troianos têm a m ente perturbada por obra dos deu ses9, podendo-se fazer muitas outras observações semelhantes; no com junto, porém, mal se percebe qualquer diferença entre as duas partes*. Já na épica mais recente forma-se, assim, a consciência de contrastes n acion ais, que, p osteriorm ente, tanta im portância deverá ter na historiografia de Heródoto.
Quando o historiador quer ordenar contextos de uma certa am plitude, seu trabalho é facilitado se ele já se encontrar diante de d eter minados grupos que contrastem entre si pelos respectivos interesses, características e tendências, e a maioria dos eventos pode ser ordena da em função desse contraste. A história grega mais antiga é extraor dinariamente pobre desses grupos10, e só no decorrer do período ar caico com a formação da pòlis, é que se constituem, paulatinamente, determinadas unidades políticas e sociais (cf., supra, p. 78).
Inicialmente, a única estrutura social é a família aristocrática, e a história política fragmenta-se nas vinganças e alianças das tribos do minantes. É quando uma singular interação entre poesia e vida passa a ser determinada pelo fato de que o antigo mundo m ítico é involun tariamente interpretado à luz das condições presentes, mas, por outro
8. Como afirmou um membro do Seminário de Hamburgo. 9. H. Frankel, Dichtung und Philosophie, 104.
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ä; lado, também a consciência dessa condições se forma com base no que é representado na poesia. A consciência nacional dos gregos não tinha, portanto, nenhum apoio nas instituições políticas, encontrava apenas um fraco suporte nas festas comuns, na veneração do oráculo de Delfos, não podia sequer formar-se sobre a língua, dividida em muitos dialetos, ou sobre o culto, regionalmente diferenciado. O èpos, que descrevia uma expedição panaquéia contra a cidade asiática, con tribuiu, sem dúvida, ampiamente, para que os gregos se sentissem como unidade, e quando, em seguida, os persas atacaram a Grécia, a lembrança mítica pôde reforçar a consciência da solidariedade: o pre sente aparecia com o uma repetição da lenda, mas para tanto era, sem dúvida, em grande parte necessário que o esse m esm o presente fosse interpretado segundo a imagem do passado. Um único exem plo, quase inacreditável, pode ilustrar o quanto era óbvia e natural essa interpreta ção: quando os gregos, antes que estourasse a guerra pérsica, negocia vam com Gélon para conseguir sua ajuda, os espartanos reivindicavam para si, como conta Heródoto (7, 159), o comando supremo invocando Agamêmnon. Esse contraste entre gregos e asiáticos tornou-se, com Heródoto, o tema da primeira obra histórica digna desse nome, e é em função dessa contraposição que ele ordena, sem exceção, toda a sua matéria, desde a guerra de Tróia até a primeira guerra persa. Mas desse modo, categorias que se desenvolveram na poesia épica adquiriram, para a formação de idéias históricas e para a historiografia em geral, uma importância que nunca é demais sublinhar.
Talvez ainda valha a pena determo-nos brevemente nos proble mas que afloram nesse contexto. N a história da Grécia arcaica po dem-se reconhecer determinadas tendências, tais com o a expansão mediante a formação de colônia, o desenvolvim ento econôm ico atra vés do incremento do com ércio e a difusão da moeda, o crescer da
pòlis, o fortalecim ento da burguesia etc. Evidentem ente, Heródoto não tem uma clara consciência disso tudo. A seu ver, os chefes políti cos agem por m otivos inteiramente privados - os m esm os m otivos, no fundo, pelos quais agem os heróis de Homero - , e é por isso que as histórias de Heródoto são aquele grande álbum ilustrado formigante de histórias e personagens. Heródoto coloca-se aqui, evidentem ente, dentro da tradição daqueles contos que circulavam na Grécia entre a idade do èpos e a primeira historiografia. N o século VII, e sobretudo no VI, surgiram, na Grécia, as primeiras personalidades que ficaram gravadas na memória dos pósteros com o indivíduos históricos e aos quais estão ligadas histórias de todo tipo, histórias de respostas agu das, de sábias sentenças, de sagazes iniciativas etc. Essa idade, na qual, pela primeira vez, homens reais tornaram-se, na mem ória dos pósteros, não mais figuras míticas mas protagonistas de anedotas, foi chamada, não sem razão, de a época da novela. N esse período, não
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obstante as numerosas guerras e disputas entre cidades, não havifj grandes eventos políticos capazes de agitar toda a Grécia e, por issòfj a grande política não ocupa lugar de relevo nessas novelas. H eród o® relata-nos grande quantidade delas, gosta sobretudo de inseri-las n ap curvas cruciais do acontecer, e delas se serve para motivar os evento^ m ais importantes. Daquilo que chamaríamos política vê ele p o u cl! mais que a oposição entre Oriente e Ocidente que fora preparada p e ljl
èpos. Só com Tucídides é que as coisas mudam. igj A profunda diferença entre Heródoto e a poesia épica consiste n<J¡ fato de que Heródoto é, como se costuma dizer, fortemente influenciad|| pelo iluminismo. Com ele os deuses não mais intervém no acontece^ terreno e o que ele descreve não é mais um passado lendário. E assim;? tem ele a noção de um tempo unitário que transcorre dos primordios? até sua época, e a única diferença que resta entre os períodos leitv^ dários e o passado mais recente é que aqueles estão envoltos na né^ voa, ao passo que este se acha em plena luz.
Essa nova concepção do tempo já é preparada por Hesíodo, pois* quando H esíodo diz das Musas, na Teogonia (v. 31): “Elas inspiraci ram-me o canto para que eu revele o futuro e o passado”, e mais além * (v. 38): “Elas dizem o presente, o futuro e o passado”, quer ele dizer, ; com essas palavras, que os dois poem as que as Musas lhe inspiraram oferecem um panorama grandioso do período que vai do caos inicial à atual idade do ferro, através das gerações divinas e das diversas esthv pes humanas. Com as palavras por nós referidas, Hesíodo cita, por sua vez, as palavras de Homero a propósito do vate Calcas: “Ele conhecia o presente, o futuro e o passado”; mas Homero quer dizer que o vidente 1 conhece todos os fatos particulares dos diferentes tempos, ao passo que a H esíodo o que realmente interessa é o contexto geral. E no entanto, o que Hesíodo nos dà ainda está bem longe da historia: pois o que ele conta é mito e não so porque as personagens de que fala não são ho mens “reais”, mas também porque a relação com o presente é “mitica”’ os acontecimentos descritos devem iluminar a situação presente, mas não no sentido de que os fatos positivos do presente pareçam determi nados por fatos positivos do passado, e sim na medida em que as forças que agem no presente são mostradas em sua origem mítica.
A noção de um tempo contínuo e unitário também se encontra no precursor de Heródoto, Hecateu. Em suas histórias, Hecateu também se ocupou do tempo mítico, com o Hesíodo, mas não da m esm a ma neira que Heródoto; ele acredita - e nisso se distingue de Hesíodo - poder extrair da tradição lendária uma verdade histórica, expurgan do-a (ou interpretando de m odo plausível) dos aspectos miraculosos que contradizem a experiência cotidiana. Naturalmente, ele destrói, desse m odo, algo que é essencial aos mitos; melhor: priva-os de seu significado mais autêntico. A lém disso, procura, reatando os laços
fc/com a poesia genealógica, reduzir as antigas lendas a um esquem a V cronológico preciso; o continuum temporal em que Hecateu situa to- Vdos os eventos articula-se numa série ordenada de gerações, assim / como o espaço unitário da terra circular se divide, para ele, em claras /superfícies geométricas. Empirismo e racionalismo, que nele se con
jugam num otim ism o iluminista, fazem com que lhe pareçam ridícu- - Ias todas aquelas histórias dos gregos; e a verdadeira novidade em * Hecateu, seu mérito em relação à historiografia e à ciência em geral, está mais na descoberta desse caminho para a realidade e a verdade do que naquilo que ele m esm o achou ao longo desse caminho.
É inteiramente natural (e é o que sempre tem acontecido aos que têm em mira a verdade seguindo as pegadas de Hecateu) que seu su cessor, Heródoto, tenha achado ridículas muitas de suas descobertas, do mesmo m odo que ridículas lhe haviam parecido a ele, Hecateu, as velhas histórias dos gregos. Heródoto deu um grande passo adiante em relação a Hecateu na medida em que operou uma nítida separação entre as histórias míticas e as susceptíveis de investigação, assim com o distingue, em cada caso, a experiência certa da incerta. N os seus rela tos sobre terras estrangeiras, Heródoto sublinha continuamente o que ele próprio viu durante suas longas viagens, e por vezes também dis tingue aquilo que ouviu de testemunhas oculares do que os seus m es mos informantes apenas ouviram dizer. Essa m esm a distinção nós a encontramos já num velho manual para navegação, no qual podem os reconhecer a fonte das descrições das costas da Ásia, e que remonta a perto de cem anos antes de Heródoto. O autor desse livro distingue exatamente o que ele próprio viu, aquilo que viram os próprios habi tantes da cidade de Tartesso (na Espanha ocidental) e aquilo que os tartéssios ouviram outros dizer durante as viagens deles ao norte11; para os fins práticos da navegação, naturalmente, a veracidade da experiência referida pelo livro é particularmente importante, e a ob servação de que o que se viu pessoalm ente é mais confiável do que o que apenas se ouviu, tem certamente muito de primitivo: é o que já encontramos na invocação às Musas no início do Catálogo das Na ves,, na litada. M as Heródoto, comensurando a tradição histórica a essa norma de experiência segura, pode rejeitar com o inconfiáveis as histórias míticas e abrir para a historiografia o campo que lhe é pró prio. A ssim nasce a história com o ciência empírica.
Todavia, visto que Heródoto quis e realizou uma coisa diferente daquilo que hoje entendem os por obra histórica, estaríam os sendo injustos com ele e cercearíamos em nós a possibilidade de compreendê-
11. Baseando-se nesses relatos de marinheiros, também Aristeu distinguía, em seu poema fantástico sobre os Arimaspos, o que presenciara diretamente daquilo que soube ra apenas por ouvir dizer em países estrangeiros; cf. H. Frankel, Dichtung und