O Hino Pindàrico a Zeus
108 A CULTURA GREGA E AS ORIGENS DO PENSAMENTO
da representação viva do fato, esse sentimento assuma um grau de intensidade mais alto.
Pelasgo revela o caráter equilibrado do grego diante dos Egipcios^ que agem com o bárbaros, e diante da passionalidade oriental das* Danaides. Também nas outras tragédias de Ésquilo, o contraste entre q| que é estrangeiro e o que é helénico é concebido no sentido de que tudo- o que há de excessivo, de complicado, de afetado, é estrangeiro; grego á o que é simples. Nessa distinção, reflete-se o advento do estilo classico?! a exuberância arcaica é superada pela severidade e pela simplicidade^ de tal modo que a procura daquilo que é grego não pressupõe apenas? uma oposição ao Oriente, mas também ao passado nacional recente: é: uma volta ao original e genuíno mundo grego. M esmo aquilo que sé:, ap resen tava com o uma n ova con q u ista, isto é, a seriedad e da*, autoconscientização, a essencialidade e a simplicidade do comporta^ mento, nada mais era do que uma volta à verdadeira essência grega. ;
Nas cenas dos poemas homéricos em que o homem medita sobre o que deverá fazer, falta exatamente aquele elem ento que caracteriza a cena de Pelasgo em Esquilo; isto é, o elem ento que transforma ^ decisão em ação verdadeira: em Ésquilo, a escolha torna-se um pror blema que o homem só pode resolver sozinho, e que se sente mesmq no dever de resolver. Em Homero, as cenas em que o homem deve refletir e tomar uma decisão têm uma forma típica; de alguém que reflete, diz-se primeiro: “pensou se deveria fazer esta ou aquela outra coisa” ; e em seguida: “enquanto estava refletindo sobre isso...”, e a solução pode ocorrer de dois modos; às vezes, Homero diz: “Pareceu- lhe que seria melhor fazer esta ou então aquela outra coisa” ; às vezes, ao contrário, fala da intervenção de um deus que determina a decisão do homem (com o acontece na Ilíada), ou então (com o às vezes na
Odisséia) é a aparição de uma segunda pessoa que provoca a decisão. Nas fórmulas “pareceu-lhe ser melhor”, ou seja, traduzido literalmente: “pareceu-lhe que seria mais conveniente, mais vantajoso”, a decisão ocorre na medida em que uma das possibilidades se apresenta àquele que reflete como a mais útil. Não existe aqui, portanto, uma escolha subjetiva e muito menos uma luta para a decisão: é, pelo contrário, um dos objetos que se apresenta com o mais vantajoso. E se é a divindade; quem dá o empurrão decisivo, então não se trata mais de uma ação do sujeito; nesse caso, o homem é determinado por uma força externa9.
Ö grande interesse que Ésquilo apresenta em suas tragédias pela ação humana com o fato interior, e, portanto, não reduzido a pura reação ou a estímulo, ou a uma determinação externa, fica também patente em outro de seus fragmentos, recentemente encontrado, e que,
9. Cf. Christian Voigt, Überlengung und Entschiedung. Studienzur Selbstau
pela primeira vez, nos faz conhecer mais de perto uma tragédia onde Ésquilo trata de um tema homérico. Esse fragmento de um papiro dos
M irmidões foi achado no E gito, junto da citada cena do drama satiresco. Aquiles irritou-se com Agamêmnon e m antém-se longe do combate. Assim , os troianos conseguem vencer os gregos e avançar até os navios. Na cena de Ésquilo, o navio de Nestor já está em cha mas, e por isso, o filho de Nestor, Antíloco, é enviado a Aquiles para implorar-lhe que aplaque sua ira e retome as armas. Entrementes, os guerreiros de Aquiles, os mirmidões, haviam-se rebelado contra seu chefe e, na aflição, acusam-no de traição por sua recusa em participar da luta, chegando m esm o a am eaçá-lo com a pena dos traidores, a lapidação. Esse tema foi introduzido pela primeira vez por Ésquilo no mito e nos foi revelado, para surpresa nossa, pelo papiro recentemente descoberto. O diálogo entre Aquiles e Antíloco aí contido explica-nos o porquê de Ésquilo ter inventado o episódio da ameaça dos mirmidões; agora Aquiles está verdadeiramente decidido a não combater pelos gre gos. Deveria, talvez, ceder “por medo dos Aqueus”? Acusam -no de traição a ele, o mais nobre dos príncipes, e de todos o mais operante. Ésquilo consegue, assim, atingir seu escopo: Aquiles persiste em per manecer longe do combate, por decisão consciente e espontânea. Seu desprezo por Agamêmnon, que na épica representa o único motivo de sua inação é, em Homero, com o se observou acertadamente, quase um poder estranho, mais forte que ele, que o domina e contra o qual ele não consegue opor resistência10 11 Ésquilo, ao contrário, apresenta a ação de modo que Aquiles não possa, por uma razão interior, voltar ao comba te: por decisão consciente, ele permanece em sua tenda.
Sabemos que, em Ésquilo, A quiles voltará ao campo de batalha para vingar a morte de Pátroclo, obtendo, assim, glória e morte pre coce ao invés de vida longa e inglória. Mas, m esm o antes, fora p ossí vel supor que Ésquilo encenaria uma escolha e uma decisão conscien te por parte de A quiles e tivesse sido, portanto, o descobridor desse tema. Em Homero, de fato, nenhuma alusão se faz a essa livre escolha de Aquiles e é som ente o destino que decide se A quiles deverá morrer jovem e glorioso ou ter vida longa e permanecer desconhecido; mas Platão, mais tarde, fará com que Aquiles escolha para si, em ato con s ciente, o destino mais nobre11 Para Ésquilo, com o nos revela o seu Pelasgo e com o podemos deduzir também das suas outras obras, essa autodecisão é um tema central e, do momento em que a nova cena dos
Mirmidões nos fazer ver com o, desde o princípio da trilogia, dá-se
10. W. Schadewaldt, Hermes, 7 i , 1936, pp. 25 e ss.
11. Antes de mais nada, Apologia* 28 D. Que isso não acontece em absoluto por acaso fica sublinhado acertadamente por Friedrich Mehmel, em “Antike und Abendland”, 4, 1954, 28.