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110 A CULTURA GREGA E AS ORIGENS DO PENSAMENTO

O Hino Pindàrico a Zeus

110 A CULTURA GREGA E AS ORIGENS DO PENSAMENTO

relevo à razão consciente de Aquiles, com maior razão nós a considerali remos com o o ponto culminante da tragédia e com o o acontecimentc| decisivo na vida de Aquiles, e até m esm o colocaremos esse ato de deci-4 são na segunda parte da trilogia, ali, onde Aquiles volta ao combate. Nal terceira parte, quando Priamo se apresenta para conseguir de Aquiles q| cadáver do filho, Heitor, Aquiles já devia, portanto, saber que sua morlj te estava próxima, e isso conferia grandeza à sua reconciliação confi Priamo. D e qualquer modo, parece-me indiscutível que foi Ésquilo quem! deu da figura de Aquiles essa última interpretação, viva até hoje12 . í |

Já dissera Aristóteles que a Ilícida dava matéria para uma únicai tragédia. Quando Esquilo usou essa matéria tão rica para compor umái trilogia, teve necessariamente de restringir o andamento largo e v a | garoso dos acontecimentos. Homero pode preparar lentamente cadai evento. Mas todos os pormenores significativos, que conferem à açãòt um m ovim ento tão natural, têm, necessariamente, de desaparecer na' tragédia. Para fazer convergir toda a ação para aquele único gesto de A quiles, Ésquilo não só elim ina m uitos pormenores por m eio dos quais Homero nos encaminhava gradativamente para a virada decisi­ va, fazendo-nos, por assim dizer, deslizar lenta mas incessantemente, junto com Aquiles, para o seu destino, mas cria também temas novos com o o da lapidação. Aquiles mantém, assim, conscientemente, sua atitude de desafio, e a decisão de voltar à luta, que desm ente essa atitude, terá tanto maior relevo, dificultada que é pelo fato de Tétisv sua m ãe, que na segunda parte da trilogia entra pessoalm ente em cena e lhe traz novas armas, admoestá-lo para que não entre em com­ bate, pois aí logo encontrará a morte. Também esse tema foi realçado por Ésquilo em relação à epopéia. M as quanto perde em naturalidade a cena, agora que Ésquilo assim “preparou” a ação de Aquiles! Em que ocasião chega o homem a encontrar-se na necessidade de esco­ lher, conscientem ente, entre uma morte gloriosa e uma vida longa, quando, de acréscimo, a escolha da morte se torna para ele interior­ mente tão difícil? Mas por ventura não são também as outras cenas da tragédia de Ésquilo aguçadas de m odo igualmente pouco natural? E Pelasgo, que deve, num momento, decidir a sorte das suplicantes e da cidade? E Orestes, que tem de assumir a tarefa monstruosa de assassi­ nar a mãe? Mas por ventura não vivem todas as tragédias dessa situa­ ções exasperadas, de parricídios, infanticidios, fratricidios, incestos?

Ésquilo procura essas situações, visto que não se interessa tanto pelo acontecimento quanto pela ação humana e, para ele, a quintes­ sência da ação humana faz-se presente no ato de decisão. A ssim como o químico, para obter uma imagem clara e límpida das reações, junta

12. NaAcfuileida, de Goethe, a Atena-Antíloco diz a Aquiles: “Todos os povos glo­

MITO E REALIDADE NA TRAGÉDIA GREGA 111 na proveta reagentes que raramente ou nunca se apresentam combina­ dos desse modo na natureza, assim também o dramaturgo constrói ações dramáticas para poder representar com clareza a quintessência do agir13. A tragédia não se atém rigidamente aos acontecimentos do mito, não os considera uma realidade histórica com o o faz a epopéia, mas busca os m otivos dos acontecimentos na ação humana e assim põe de lado o fato em si. Mas também pouco se preocupa a tragédia mais antiga com introduzir na ação a realidade da vida quotidiana, que ainda está bem longe de dar-nos com pletas e precisas m otivações psi­ cológicas. Foi Ésquilo o primeiro a conceber a ação humana com o resultado de um processo interior e, desse processo, ressaltou (com o sói acontecer nas descobertas de caráter fundamental) exatamente o ponto essencial; nas situações trágicas, ele procura dar-nos uma re­ presentação o mais possível clara da ação humana na sua essência. Na vida quotidiana, no desenrolar da vida real, o que ocorre é um confluir e um entretecer-se de mil m otivos, e a forma fundamental e genuína da ação, o livre ato da decisão, só aparece através de pálidos reflexos. A tragédia, todavia, pode reconstruir com precisão essa “for­ ma-prima” da ação pondo um homem, que tenha o senso do direito e conheça o seu destino, diante de duas exigências de valor quase igual e fazendo-o escolher uma morte gloriosa.

E verdade que nem m esm o a epopéia acolhe indiscriminadamente todos os pormenores do mito; m esm o a poesia lírica diz apenas o essencial. Mas quando a tragédia enfatiza determinados temas, ocor­ re uma mudança fundamental: a representação do essencial, vale di­ zer, do real, transformou-se.

Se a ação é estilizada na sua forma essencial, isso significa que a verdadeira realidade só existe no pensamento, na idéia. A ação, na forma concentrada em que a entende Ésquilo, é apenas um caso ideal. Aqui, agir não significa apenas reagir a um fato preexistente e sim, fixar um ponto de apoio para o futuro. D ecisão, direito, destino, todas essas concepções tão importantes para Ésquilo (e em geral para a tragé­ dia) apresentam-se ao homem, da forma mais precisa e mais clara, no momento da ação. Visto que o peso da responsabilidade só se sente diante da ação, a justiça apresenta-se, na sua forma pura, apenas com o uma meta, ou seja, na vontade; na ação já efetuada, sempre se poderão também individuar outros motivos; a ansiedade diante do destino ma­ nifesta-se apenas em relação ao futuro. Porém essa ação, que ainda deve ser realizada, não constitui ainda nada de empírico: só pode ser concebida estritamente com o caso ideal. Característico é o fato de que

13. W. Goethe, Maximen und Reflexionen ( 1050, ed. Hecker), diz: “É tarefa e ação do poeta trágico representar no passado, em forma de claro experimento, um fenòmeno psíquico e moral”

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o tema da lapidação introduzido por Ésquilo na sua tragédia não sejá ; para Aquiles um tema a favor de sua ação, mas sim contra eia: foi criad^ para tornar-lhe ainda mais difícil a escolha certa. Visto que a ação nobré;* não tem causas determinantes: é determinada teleologicamente pela meta? Mas existem causas que podem impedir ou tornar mais difícil a e s c o lh i

Pelasgo, Aquiles, Etéocles, Orestes: todas essas figuras esquilianafe não se deixam desviar de suas ações nem mesmo pelas razões mais fori! tes. Poder-se-ia pensar que suas situações inaturais, exasperadas, nãqí interessem ao homem simples e comum, mas toda vez que o homem se>| sente livre diante da ação justa, encontra, nessas figuras, representa!* ções ideais de si mesmo, e, na ação delas, formas “ideais” de sua pró? pria e mais íntima experiência, visto que a situação de quem se defronv* ta com uma ação decisiva é aqui expressa de forma típica e mais clara/ Na tragédia, não é mais possível a subdivisão do mundo em dois estra­ tos, em que um confere sentido ao outro, e sobre as figuras da tragédia; esquilana já não reluz tão naturalmente o esplêndido mundo dos dem/ ses que dava sentido e valor à vida terrena: agora é o homem que ava­ lia os acontecim entos segundo seu próprio senso de justiça. Quando. Homero explica os acontecimentos terrenos através da ação e da pala­ vra dos deuses, essas palavras e essas ações são fatos que se podem descrever objetivamente, e quando ele relata fielm ente esses eventos divinos, os acontecim entos terrenos tornam-se mais ricos de sentido para o ouvinte, que, com o o poeta, atribui realidade e valor ao mundo dos deuses. E visto que para os heróis o divino, o significativo, o maral vilhoso se apresenta de forma univoca e sim ples, também aquilo que o homem tem de nobre e de gentil manifesta-se com reações imediatas: na ação e na palavra. O homem ainda pode encontrar refúgio num mundo que não conhece a dúvida, que lhe fala com voz clara e a que ele responde do m esm o modo, e o divino, que só transcende o humano na medida em que lhe é superior, tem existência certa e estável, inde-? pendente do pensamento humano. Em Esquilo, esse mundo dos deu­ ses já é mais dúbio; na Orestéia, duas divindades propõem suas vonta­ des a Orestes: A polo, que ordena o m atricidio, e as Eum ênides que punem o matricida. E no m eio dessa dùplice exigência do divino está, o homem, solitário, sem ter em quem apoiar-se se não em si próprio. E se Atena, no final das Eumênides, traz a conciliação, com o tudo isso está agora longe daquela sim ples naturalidade do mundo homérico! Para Ésquilo, Zeus é ainda o diligente protetor da justiça, mas já se separa da realidade imediata do mundo. Não é mais o deus que guia os acontecimentos com a ação e a palavra, mas já é quase um ideal, já perto de identificar-se com a imagem da justiça.

Abandonado, assim, às suas próprias forças, o homem encontra ainda em Ésquilo um sólido apoio na justiça, mas já o sentim os one­ rado por um peso que se poderá tornar excessivo: pode ser que o ter-

reno lhe fuja sob os pés. D e distâncias cada vez mais vastas fala o deus; o homem com eça a refletir criticamente sobre o D ivino e, quan­ to mais confia nas próprias forças, mais sozinho fica. Já as figuras de Sófocles são mais solitárias que as de Esquilo. Edipo, Antígona, Ajax são vistos como “homens de ação” Também eles agem segundo idéias pessoais precisas, mas, nesse caso, em contraste consciente com o mundo que os circunda. E assim a ação conduz à ruína.

As personagens de Eurípides, em seguida, soltam -se ulteriormente dos antigos laços, visto que Eurípides procura captar sempre com maior clareza aquilo que, desde os tempos de Ésquilo, era considera­ do como a realidade do homem e de sua ação: a espiritualidade, a idéia, o motivo da ação. Tudo o que na época anterior era honrado através da imagem da luz com o um valor universalmente reconheci­ d o - a glória radiante, a ação luminosa, a esplêndida representação das figuras dos heróis - em palidece cada vez mais diante das novas questões: Que impulso os impeliu à ação? Foi justo o que eles fize­ ram? E esse esplendor divino em palidece tanto mais rapidamente na medida em que Eurípides tem um senso exasperado da diversidade que transita entre substância e aparência.

Os primeiros a estabelecer essa distinção entre substância e apa­ rência haviam sido os poetas líricos arcaicos que haviam reconhecido aos valores espirituais importância maior do que aos valores exterio­ res; mas não tinham eles ainda relacionado essa distinção com a ação humana e seus m oventes. Também os filósofos haviam estabelecido uma distinção entre ser e parecer, criando, assim, um novo conceito de “realidade” que não se referia nem ao mundo do espírito nem ao do sentido nem ao do valor, mas apenas ao mundo exterior, cognoscível. Enquanto buscavam em cada devir, além da “pura aparência”, o ele­ mento essencial e duradouro, revelava-se em traços cada vez mais definidos uma realidade abstraída do sensível, uma realidade não per­ ceptível, mas apenas pensável.

Já em Ésquilo a idéia do ser está ligada à da justiça, a aparência pertence à hybris. A ssim , nos Sete contra Tebas, os vaidosos inim i­ gos de Tebas ostentam insígnias soberbas, ao passo que aquele que pensa retamente prefere “ser” a “parecer” N o tempo de Eurípides, esse contraste reflete-se de vários m odos na crítica do conhecim ento, do mito e da moral; a todo instante vem à tona no pensamento de Eurípides, podendo até mesmo ser observado em sua concepção daqui­ lo que, no sentido mais corrente da palavra, chamamos de realidade.

O pouco apreço que tem Eurípides pelo valor material das coisas e a nenhuma importância que ele atribui à riqueza ainda nada têm de novo: esses “valores exteriores” já eram desprezados pelos antigos poetas líricos. Também o gosto do fausto e da cor, que tão vivo se mantivera até os mais tardios tempos arcaicos, desaparece de todo em

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