O Hino Pindàrico a Zeus
96 A CULTURA GREGA E AS ORIGENS DO PENSAMENTO
mundo real-divino, aquela que, para Arquíloco e Safo, era urna ca-* racterística do mundo da alma, e pela qual este se distinguía do mun-l do físico: a tensão, a profundidade, a faculdade de estender-se parai diferentes coisas. Com isso Pindaro já não capta o D ivino com o uma,; força que se realiza na história, com o algo que põe em m ovimento, de quando em quando, um determinado evento, mas com o sentido e esv plendor que “por toda a parte penetra” - pode-se dizer, usando uma expressão de Heráclito - , que se revela no mútuo jogo dos contrastes.,’ A forma adequada para exprimir essa nova concepção já não é mais a épica mas, como no-lo pode demonstrar esse m esm o Hino a Zeus, a poesia lírica. Enquanto Pindaro desenvolve sua obra em Tebas, esta-,, belece-se, na Ática, uma relação absolutamente nova com o mundo. A tragédia exige que no mundo haja justiça e im põe deveres ao ho m em e também aos deuses, mas com o nem sempre esses deveres são? cumpridos, a louvação acaba silenciando. Pindaro mantém-se conscien temente distante desse pensamento que é, para ele, demasiado audaz%
Transforma, contudo, por vezes, um ou outro pormenor isolado do; mito tradicional que lhe pareça ofuscar o esplendor do D ivino, mas nem por isso duvida da ordem e da beleza da vida, por mais débil é caduca que esta lhe possa parecer, nem sente necessidade de fazer mudanças no mundo existente. Com sentido de nobre serenidade, aceita o mundo com o é, entretecido, não obstante todas as suas obscurida des, com os fios dourados do Divino. Quer apenas “dar realce a essa beleza” que de tão ricas formas já o cercava quando menino. E justa mente nisso reside o valor e a dignidade de sua arte, que talvez nenhum outro, depois dele, tenha sabido exercer com tanta naturalidade.
6. Mito e Realidade na Tragédia
Grega
“O historiador narra o que aconteceu, o poeta o que poderia acon tecer.” Essa famosa afirmação de Aristóteles pressupõe com o já con cretizada a separação entre o mundo da história e o da poesia que se produziu, de fato, no século V. Aristóteles afirma, além disso, que a poesia é mais “filosófica” do que a história, visto que a poesia tende para o universal e a história para o particular. Também essa idéia do “universal” só se formou no século Y. A s afirmações de Aristóteles levam-nos, portanto, exatamente pelo que de verdadeiro contêm , a indagar com o teriam entendido os gregos a relação entre poesia e fato real. A resposta é fácil no que diz respeito à epopéia hom érica e, como se pode imaginar depois do que foi dito, ela não corresponde à opinião aristotélica, visto que o que se exige da poesia épica séria dos primeiros séculos é exatamente a verdade; de fato, quando se quer fazer uma crítica à poesia, diz-se: “os poetas m entem ” (cf. Hesíodo,
Teog.\ Sólon, 21 D; Xenófanes, 1, 22; Pindaro, 01., 1, 28). M as com o é o mito que forma o conteúdo dessa poesia, isso significa que se dá ao mito, até m esm o nos pormenores, valor de realidade. É evidente que não cabe julgar o drama (ao qual, sobretudo, se refere Aristóteles) pela m esm a medida, visto que, pelo sim ples fato de estar ligado às exigências da representação, não podem os considerar com o verda deiro o que se representa nem atribuir realidade ao mito que lhe dá forma: nesse caso seria necessário, com certeza, ver no ator o herói por ele representado! Mas não teriam constituído talvez, no primeiros tempos, ator e personagem uma só coisa? A tragédia grega nasceu do canto coral e são m uitos os testemunhos de que os primeiros cantos corais já continham elem entos do drama, na m edida em que transmi tiam, de forma imediata, um acontecimento m ítico. M as com isso se
98 A CULTURA GREGA E AS ORIGENS DO PENSAMENTO...
estabelecia entre mito e realidade, entre poesia e verdade, uma rela-í ção bem distinta daquela dos poemas homéricos, relação que nos pode! levar ao entendim ento das m ais intrincadas situações da tragédia! Possuímos um peã de Baquílides, recitado em D elos por um coro conterrâneos seus, o coro dos Ceos, durante uma festa instituída por> Teseu. Baquílides conta com o Teseu, enquanto rumava para Creta comi as moças e os rapazes atenienses, tendo no navio brigado com Minos¿ rei de Creta, jogou-se ao mar, submetendo-se a uma espécie de julgai mento divino para demonstrar que descendia de Posídon e dele trouxe-- ra um manto de púrpura e uma coroa. Após haver vencido em Creta &
Minotauro, Teseu havia, segundo o mito, dançado, em sua volta a Delos,^ a chamada dança da grúa, que a partir de então passou a ser executada- solenemente todos os anos. N o final desse poema, diz Baquílides:
As moças (no séquito de Teseu) cantavam hosanas e os mancebos, pouco depois, cantaram o peã com voz melodiosa. Apoio de Delos, alegra teu coração com a canção coral do coro dos Ceos e concede-lhes que alcancem o bem, segundo a vontade dos deuses;
Aqui, portanto, o coro de Teseu funde-se com o coro dos Ceos para os quais Baquílides poetou; nos últimos versos do canto, o coro é; apresentado em situação idêntica à das personagens míticas por ele. cantadas: e assim, o canto do coro mítico identifica-se com o canto do coro presente. Temos aqui, em embrião, um elem ento do drama, da arte de representar. O mito transforma-se em realidade concreta, o quê é um fato dos mais antigos. Mas com o agora já não se executa a dança da grua de Teseu e sua aventura passou a ser “narrada” no canto, a representação coral adquire um caráter épico e, conseqüentemente, transa forma-se sua relação com o mito. O mito já não é um fato que se repita nas cerimônias do culto, não é realidade que possa, nos momentos sole nes, voltar a concretizar-se; é entendido com o um fato que ocorreu uma vez no passado e é relatado “com o história”, m esm o mantendo um valor particular para a solenidade à qual é dedicado o canto. Por tanto, encontramos aqui, entrelaçados, dois elem entos que viviam se parados um do outro, na narrativa épica e nas cerimônias do culto. Todavia, esse canto de Baquílides ainda não constitui um exemplo genuíno da relação do mito com a realidade da poesia coral grega, visto que fala de um acontecimento vivido por Teseu durante sua via gem a Creta, isto é, anterior à sua mítica empresa de Creta. Certa m ente, existiam em D elos cantos corais mais antigos relacionados com essa dança da grúa, e que descreviam, em seguida, a vitória so bre o Minotauro, a libertação dos joven s e das moças e o feliz desem barque em D elos, relacionando, assim, o peã diretamente com Apolqí Essa forma primitiva de relação entre mito e realidade nos é conser vada pelo himeneu de Safo, ele também, sem dúvida, um canto coral; que descreve as núpcias de Heitor, identificando-se, no final, com q
carme nupcial com o qual os troianos saúdam o jovem casal1 E sse mito dá luz e significado ao fato real, e já que o pensamento de que no presente se renova a solenidade celebrada por Heitor infunde uma sensação de segurança e contribui para elevar o sentimento, o mito passa, desse modo, a impulsionar a realidade presente.
A idéia de que o mundo está dividido em dois estratos, um superior e um inferior, e de que o superior dá sentido e valor ao inferior tam bém é herança da poesia épica, herança anterior, que o coro recebeu juntamente com o elem ento narrativo, mas que valorizou a seu modo. De fato, na épica, também o mundo daqui de baixo faz parte do mito, mas quem vela pelas empresas executadas pelos heróis na terra é o mundo dos deuses que dirigem e determinam todas as coisas.
A tragédia compunha-se, na origem, de dança e canto coral em honra a D io n iso , que os cantores execu tavam usando m áscaras animalescas e assim assumindo uma forma primitiva do Divino: des se modo, mundo m ítico e realidade terrena tornavam-se uma só coisa enquanto durasse a dança. A lírica coral e o drama têm, portanto, origens muito afins, mas diferenciam -se essencialm ente pelo m odo como ascenderam às grandes formas literárias, vale dizer, pelo m odo como acolheram os m itos da poesia épica. Se, no final do p eã de Baquílides o coro dos Ceos passa a constituir uma só coisa com as virgens e os mancebos de Teseu, isso é apenas um resíduo da primiti va forma do coro, totalmente sem importância para o restante do poe ma; já o drama baseia-se exatamente na transformação pela qual o coro “representa” as personagens do mito, encarna um papel, torna- se “ator” Se a lírica coral assum e o caráter épico da narração do mito, adquire ela, desse modo, a liberdade de livrar-se de situações rigidamente fixadas. Pode Baquílides, assim, colocar, no centro do seu poema, um episódio da viagem de Teseu e dar-nos uma ligeira descrição que nada tem a ver com o desembarque em D elos e com a dança da grua. D a forma primitiva nada resta senão a narrativa da mítica viagem de Teseu, mas o coro não mais se identifica com as personagens do mito; delas, fala apenas. E a palavra, não mais a pes soa, que representa o fato. M as diferentemente da épica, essa narrati va é feita no presente: todo o grande com plexo da lírica coral do sécu lo V tende a dar valor à realidade terrena, m esm o quando o relato parece distanciar-se dos objetivos da representação coral. A o falar mos do peci de Pindaro, observamos que os mitos ou referem -se a lugares e m anifestações agonísticas, ou a antepassados, ou à pátria do vencedor, ou m esm o, mais freqüentemente ainda, estabelecem cote jos com lugares e momentos do tempo do poeta, de tal modo, que o
presente fique por eles “iluminado”, e isso não só no sentido de que se 1. Ver infra, pp. 72-73.
100 A CULTURA GREGA E AS ORIGENS DO PENSAMENTO...