i O Homem na Concepção de Homero
16 A CULTURA GREGA E AS ORIGENS DO PENSAMENTO
ção”, “sem cabeça”, a0t>poç, indicam a ausência da função. O uso “me-.t tafórico” das palavras que indicam o órgão, uso que se poderia consider rar uma abstração, verifica-se nas línguas mais primitivas, pois é na língua primitiva que o órgão não é encarado como coisa material, mor ta, e sim com o portador da função.
Se quisermos com os conceitos de “órgão” e de “função” determi nar a concepção que Homero tem da alma, iremos de encontro a dificul dades terminológicas, contra as quais se chocam todos aqueles que que rem definir as particularidades de uma língua estrangeira com os ter mos da sua própria. Se digo: o 0t>)ióç é um órgão da alma, é o órgão que suscita os m ovim entos da alma, recorro a frases que contêm uma
contmdictio in adiecto, visto que, segundo nossas concepções, as idéias de alma e de órgão não podem combinar. Se quisesse falar com maior precisão, eu teria de dizer: o que chamamos de alma, é, na concepção do homem homérico, um conjunto de três entidades que ele interpreta por analogia com os órgãos físicos. As perífrases com as quais buscamos definir xi/oxq, vóoç e fiopóç com o órgãos da vida, de representação e dos movimentos do espírito, são, portanto, abreviações imprecisas e inade quadas, decorrentes do fato de que a idéia de “alma” (mas também de “corpo”, com o ficou visto) é dada somente na interpretação concreta da língua: e nas diversas línguas essas interpretações podem, por conse guinte, diferir.
Houve quem acreditasse que afirmar que para Homero ainda mui tas coisas eram desconhecidas seria diminuir-lhe a estatura; daí porque se procurou explicar a diversidade que existe entre a concepção homérica da alma e a nossa, imaginando que Homero tenha estilizado proposital- mente seu pensamento e que, por razões estéticas ou outras, tenha evita do pôr em relevo a interioridade dos seus heróis, pois isso teria podido menoscabar-lhes a inquestionável grandeza. Mas terá Homero, na ver dade, preterido propositalmente as representações de “espírito” e “alma”, além daquela relativa a “corpo”? Isso suporia no velho poeta um refina mento psicológico que se estenderia até as mais diminutas particularida des. Além do mais, aquilo que Homero “ainda não conhece” é tão bem completado pelo que nele sobeja em relação ao pensamento moderno, que, certamente, não se pode falar em estilização propositada, embora, na verdade, essa estilização nele exista em outras circunstâncias. Por ventura querem ver em Homero um Senhorzinho Microcosmo, semelhante ao que foi alvo dos motejos de Goethe?
Não se trata aqui de estilização, mas mais precisamente de uma fase primitiva na evolução do pensamento europeu, e sobre isso também podemos apresentar outras provas. Quão próxima está a concepção que tem Homero de fiDpóç, vóoç e \j/Dxq da dos órgãos corporais, evidencia se exatamente onde essa analogia foi superada.
Os exemplos que nos fazem conhecer o uso das palavras ccop.a e yn%Tì, no período que transcorre de Homero ao século V, são obviamen te demasiado escassos para permitirem-nos acompanhar em minúcia a evolução dos novos conceitos de “corpo” e “alma” E provável que te nham surgido como conceitos reciprocamente complementares, deven do, precedentemente, ter ocorrido a evolução da palavra \[/t>xfl, na qual deve ter influído a idéia da imortalidade da alma. Pois, se justamente a palavra que indicava a alma do morto passou em seguida a definir a alma em geral, e a definição usada para a alma do morto passou a indi car a do corpo vivente, isso significa que o que dava ao homem vivente emoções, sensações e pensamentos era considerado com o sobrevivente na y o x f f4 Daí pressupor-se a idéia de que no homem vivente existisse algo de espiritual, uma alma, embora esta não pudesse num primeiro momento ser definida com uma palavra correspondente. E nessa altura que surge a lírica grega arcaica. Atribui-se ao morto um acopia com o contraposto à \j/uxf), e quase espontaneamente se passa em seguida a usar essa palavra também em relação ao vivente, para contrapô-la a W Í -
Mas qualquer que tenha sido o desenvolvimento do processo em suas particularidades, o fato é que, com essa distinção entre corpo e alma, “descobriu-se” algo que se impõe de modo evidente à consciência, algo que passa doravante a ser considerado com o óbvio, fazendo com que a relação entre corpo e alma e a ausência da alma se torne objeto de sempre novos problemas.
Foi Heráclito o primeiro a dar-nos esta nova concepção da alma. Ele chama a alma do homem vivente de xj/^xf]; para ele o homem é constituído de corpo e alma e a alma possui qualidades que se distin guem substancialmente das qualidades do corpo e dos órgãos físicos. Essas novas propriedades da alma diferem tão radicalmente do que Homero podia pensar, que lhe faltam até mesmo as formas lingüísticas adequadas para exprimir as qualidades que Heráclito atribui à alma: essas formas lingüísticas formaram-se no período que vai de Homero a Heráclito; mais precisamente, na lírica. D iz Heráclito (fr. 45): yu xfjç 7ieípaxa icbv ovk a v è^ebpoio, n ã ca v èTtutopeuópievoç ó5óv. orneo ßaöbv Ãóyov êxei (“Não poderias encontrar os confins da alma nem m esmo 24
24. C f o mais antigo documento da doutrina da metempsicose de Pitágoras (Xenófanes, fr. 7, ed. Diehl) e que é, ao mesmo tempo, o mais antigo e seguro exemplo da interpretação particular dada por Homero à palavra Até porque não se poderá negar que Pitágoras use essa palavra neste sentido. (Cf. também Arquil.,r. 21 ;epigramade Eretria do século VI [Friedländer n. 89]; Sim., 29,13; Hipon., 42; Safo, 68,8; Alem., 110,34; Aristea, fr. 1,4; Anacr. Fr. 4; cf., sobre esse ponto, O. Regenbogen, Synopsis, 389). - acopa no novo significado também em Senofi, 13,4. - Walter Müri, Festschriftfur Eduard Tièche, Bema, 1947, observa que os escritos mais antigos do Corpus