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126 A CULTURA GREGA E AS ORIGENS DO PENSAMENTO

¡?7 Aristófanes e a Estética

126 A CULTURA GREGA E AS ORIGENS DO PENSAMENTO

unívocos são postos em dúvida, o homem detém -se no desenvolvi^} mento natural de sua ação e tem de decidir por si o que é justiça e 8;| que é injustiça. Uma humanidade nova e uma nova naturalidade n eléf se revelam: a consciência da liberdade e da ação autônoma. A ssim J liberta-se ele, necessariamente, de seus vínculos religiosos e sociais e j chega àquele estado de coisas pelo qual Aristófanes censura tão asp e-í ramente Eurípides.

Isso é o que tentaremos demonstrar através de duas tragédias d e i Eurípides. Num de seus dramas mais antigos (as obras que possuímoá# pertencem, de resto, quase todas, à segunda fase de sua atividade), ò j núcleo dos acontecimentos dramáticos é constituído, com o na O resti téla de Ésquilo, por uma cena que tem com o centro um ato de d ecU i são, e aqui podem os claramente ver com o os temas esquilianos se* transformaram e desenvolveram ulteriormente. A Medéia de Eurípides converge inteira para o m onólogo em que M edéia decide matar seus * próprios filhos. Com grande arte e habilidade, Eurípides construiu as í primeiras cenas da obra de tal m odo que esse m onólogo pudesse reto-. ~ mar todos os temas que interessam o poeta.

Jasão leva consigo, para a Grécia, M edéia, a bárbara da Cólquida : do Mar Negro, que o havia salvo quando ele viera à sua pátria para a conquista do velo de ouro. Surge agora entre eles um conflito, e não ' de natureza heróica. Eles vivem com seus dois filhos em Corinto. Apresenta-se a Jasão a possibilidade de desposar a filha do rei e, como ~ não está casado com M edéia segundo a lei - ela, de fato, não é cidadã grega - , ele se separa dela e dos filhos e casa-se com a princesa. Pode, assim , reconstruir para si uma existên cia regular na sociedade e, possivelm ente, tornar-se, um dia, rei de Corinto.

Eurípides coloca cuidadosamente em relevo o fato de que Medéia - está totalmente desligada dos vínculos que protegem o indivíduo e; que lhe podem servir de apoio. Ela traiu e abandonou pátria e família por uma ligação inteiramente pessoal: o amor que a unia a Jasão. Jasão não pratica injustiça alguma diante das convenções ou da lei mas, em favor de Medéia, fala um direito mais alto: o direito natural; e humano. N ão pode ela apoiar-se em nenhum direito válido, não pode nem sequer apoiar-se numa lei divina com o a A ntígona de Sófocles, para refutar as razões de Jasão. Seu senso pessoal de justiça rebela-se e, nela, irrompe a bárbara de forma passional.

Jasão pode mostrar que sua ação foi sábia e vantajosa para am­ bos, mas diante desse mais profundo e (segundo tudo o que nos deixa entender o próprio Eurípides) mais verdadeiro senso de justiça, sua figura nos parece bastante mesquinha. Medéia revela-se, desde o iní­ cio, com o uma mulher incomum, de sinistros poderes, e, diante dela, o sábio e bem-pensante Jasão não passa de um m iserável. Essa repre­ sentação que Eurípides nos dá do herói do m ito grego e da maga

J ? bárbara, distribuindo luzes e sombras opostamente ao que rezava a veneranda tradição, perm ite-nos com preender por que A ristófanes j,' acusava Eurípides de haver jogado na lama as nobres figuras do mito. ^ Mas Eurípides não o faz pelo infame prazer de demolir toda grande- r za; pelo contràrio (e aqui, N ietzsche viu mais fundo do que Aristófanes " e Schlegel), ele o faz com uma intenção moral: as crenças antigas são > _ desmascaradas e demolidas mas para dar lugar a um sentido de justi­

ça mais verdadeiro e para alicerçar esse novo dever. E quem poderá ; subtrair-se à impressão de que essa M edéia não tenha deveras razão, diante desse Jasão? Quem iria negar a Eurípides a descoberta de algo de novo e de grande? Será que há alguém que queira fazer sim ples­ mente desaparecer da história do m undo esta nova concepção, tão rica de conseqüências para o Ocidente?

A crítica de Eurípides não se limita apenas a esse caso isolado, mas é radical, abarca todos os mitos e a idéia de justiça e injustiça que neles se exprime.

A ação de M edéia é desencadeada pela decisão de Creonte, o novo sogro de Jasão, que, por temor à maga, quer bani-la com os filhos do reino de Corinto. Sábia e reflexiva com o é, M edéia conquis­ ta para si a simpatia do coro e obtém de Creonte que seu exílio seja adiado por um dia ainda: assim poderá ela executar sua vingança.

Inesperadamente, aparece o rei Egeu, que oferece refúgio à exila­ da em sua cidade, Atenas. A ssim , Eurípides pode apresentar a ação de Medéia não com o o ato de uma pessoa desesperada, que não sabe o que fazer em seu abandono, mas com o um consciente ato de vingan­ ça, dirigido contra o inim igo, Jasão. Jasão aparece duas vezes antes do monólogo: na primeira, oferece a M edéia, com um gesto que lhe parece nobre, dinheiro para sua viagem para o exílio e aí M edéia reage com ódio, desprezo e soberano senso de superioridade. N a sua segunda entrada em cena, M edéia simula uma mudança: confia-lhe os filhos e estes dirigem -se à nova esposa oferecendo-lhe presentes e suplicando-lhe que interceda em favor deles. M as os presentes estão envenenados e causarão a morte da esposa. Os m eninos conseguiram ficar em Corinto e assim é chegada a hora de M edéia executar sua terrível vingança. Ela quer matar os próprios filhos para aniquilar completamente Jasão. Já que o pai continua a viver nos filhos, ela, depois de haver elim inado a mulher que teria podido assegurar a Jasão a descendência, levará à morte os filhos que ela próprio dele gerou. N esse ponto, tem os a cena d ecisiva, o grande m on ólogo no qual Medéia, ainda uma vez, dá-se conta da ação que vai praticar e no qual ganha novas forças em sua decisão de matar. Já é singular o fato de que M edéia chegue a essa decisão através de um m onólogo. Só com Eurípides é que temos os primeiros verdadeiros m onólogos na tragé­ dia. Em Ésquilo, Orestes, no momento mais angustiado de incerteza,

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dirige-se a Pílades, o amigo. M edéia está só e sozinha deve decidir dçf

seu destino. N ão se trata, aqui, de executar uma ordem sobrenatural'5/ são os sentimentos do coração que lutam entre si. O sentimento p r e i dominante em M edéia é a vingança à qual é levada pela paixão; mas/ ao lado desse, m anifesta-se um sentimento melhor que, com o ela pró-j pria confessa, opõe-se à ação horrenda (1079 e ss.): ;;

K a i p a v ô á v c o p .e v o t a ôpócv p é X X a ) m m - 0op.òç Ôe Kpelaacov xcov èficiòv povXevp.átcov, ÖG7TEP jlEYÍGXODV aiTlO Ç KaKCÚV ßpOTOl^5

N esses versos, exprime-se pela primeira vez um senso moral mo- r derno, psicológico e individualista, que se imporá mais tarde, e que faz com que a moralidade seja sentida com o um fato puramente inte­ rior, com o freio. Não é por acaso que os filósofos moralistas de épocas posteriores não se cansarão de citar essas palavras. D ep ois desse m onólogo, Eurípides encaminha habilmente a tragédia para a catástrofe. Medéia mata os filhos e afasta-se, triunfante. Jasão fica só, destroçado.

O Hipólito de Eurípides tem em comum com a Orestéia de Esquilo o fato de que o conflito do drama encontra correspondência no conflitot entre duas divindades. Com uma diferença, porém, essencial: o conflito entre os deuses não surge, em Eurípides, para um determinado caso, mas é, antes de mais nada, uma luta de princípios; e não se trata aqui de uma ação julgada diferentemente por duas diferentes divindades, mas são os homens que, ladeados pelas divindades, entram em conflito. Mais ain­ da: na tragédia de Ésquilo, A poio triunfa sobre as Erínias, e uma reli­ gião mais serena prevalece sobre as antigas formas tenebrosas do culto; assim, a conclusão do tenebroso acontecimento adquire um profundo sig­ nificado. Em Eurípides, ao contrário, ambos os protagonistas são ani­ quilados e o conflito das duas divindades permanece inconciliável.

N o proscênio encontram-se os simulacros de Afrodite e de Artemis: a tragédia desenvolve-se até o fim na presença dessas duas divindades. O prólogo é pronunciado por Afrodite: ela quer vingar-se de Hipólito, o caçador de vida casta, que venera Ártemis mas despreza Afrodite. Hipólito volta da caçada. Presta homenagem ao simulacro de Ártemis, mas passa sem um sinal de saudação diante da estátua de Afrodite.

Gravemente enferma, Fedra, a madrasta de Hipólito, é levada para fora do palácio. Seu mal, com o ela própria confessará mais tarde à ve­ lha ama, não é outro senão a grande paixão que nutre pelo enteado Hipólito. Afrodite enviou-lhe esse amor para vingar-se de Hipólito. Eurípides descreve com o um m édico o amor de Fedra e apresenta-o

5. “Sinto quão grande é o mal que quero praticar, mas mais forte que a razão fala em mim a paixão, e ela é para o homem causa dos maiores males”

eomo urna grave enfermidade da alma, capaz de provocar também pro­ fundos sofrimentos físicos. O fato de que esse estado de ânimo seja pro­ vocado pela deusa, seja até mesmo expressão da essência da deusa rai­ nha do amor, esse aspecto, por assim dizer, transcendente do aconteci­ mento é irrelevante para efeito do desenvolvimento da ação. A realidade psicológica da paixão de Fedra por Hipólito, a agitação individual do ânimo, os desejos que daí nascem, os obstáculos que a esses desejos se contrapõem - esses são os elementos de que se vale Eurípides para m o­ tivar a ação dramática. As deusas Artemis e Afrodite tornam-se quase puros símbolos, aptos para fixar as características de um determinado tipo psicológico; mas a figura humana adquire maior interioridade e uma vida espiritual mais mobil, de tal modo que só então é possível falar de “caracteres” e de “indivíduos” Figuras com o Medéia e Fedra fazem-se modelos exemplares para a análise da psique humana.

Assim naturalmente, o mito é profanado e Aristófanes tem razão de protestar. Mas, no fundo, trata-se apenas de uma evolução de ten­ dências mais antigas: já para Esquilo a ação humana não era determi­ nada apenas pelos deuses, ele entregava aos homens a responsabilidade das ações por eles praticadas. Eurípides, mais radical, faz da alma humana o campo de conflitos interiores. N o que diz respeito aos gre­ gos, não se pode nem m esm o chamar essa profanação do m ito de sacrílega - ainda que alguns, com o Aristófanes, protestem contra a destruição de um mundo tão belo - , visto que, entre eles, não existia uma fé, no sentido cristão da palavra, e m enos ainda na religiosidade homérica que reina, quase incontrastada, na grande literatura. N ão foi a oposição da incredulidade ou de uma fé herética que destruiu o mito grego: ao transformar-se, ele nada mais fez do que seguir sua própria lei interior. O divino é substituído por formas cada vez mais naturais (cada vez mais divinas, poderíamos quase dizer, se pensar­ mos no caráter da religião grega); cam pos cada vez mais vastos da existência natural são subtraídos pelos homens aos deuses (à medida que descobrem o D ivino no espírito humano), a esses deuses que já de longa data não m ais conheciam o milagre que se opõe à razão. Se Aristófanes, na maneira realista com que Eurípides representava suas personagens, não via senão o prazer do vício, Eurípides, na realidade, descobria a verdade apenas com escopo moral. O Hipólito não quer analisar a paixão erótica com o tal, e sim investiga o conflito moral que, em Fedra, não difere do de Medéia: a consciência moral opõe-se ao impulso e, de novo, manifesta-se aqui o senso moral em forma de freio e de remorso de consciência. “C onhecem os o bem, mas não o seguim os quando nos assalta a paixão” (380 e ss.):

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