9 As Origens da Consciência
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fábula ou lenda, foram guindadas à posição de autêntica realidadé- histórica. Tudo quanto se narra na Iliada, porém, continua, apesai^ disso, sendo poesia e mito. Já a relação do que se narra com o present' te do poeta é mítica e não histórica: a expedição de Agamêmnon e as" ; lutas ao redor de Ilion não são eventos que se situem num tempo qued se estende sem solução de continuidade até os dias do rapsodo, mas^ um abism o separa o cantor do objeto de seu canto: é possível que^ ainda existam, com o testemunhas do passado, muralhas ciclópicas ou§ uma tumba de A quiles, mas sobre com o esse passado se liga ao pres sente, ou o que teria provocado tal trespasse, o poeta nada diz. O.l
tempo antigo contrapõe-se, em todo o seu esplendor, ao presente; tem- ele, sem dúvida, um significado para o presente, mas não no sentido'. de poder iluminar a situação histórica atual, e sim porque os heróis e : os acontecimentos são, por assim dizer, m odelos, com base nos quais' compreendemos a nós m esm os e ao nosso agir, e segundo os quais podem os orientar-nos. Isso é típico do passado m ítico não histórico, ao passo que “para a antigüidade, para a Idade Média e também para o Renascimento e o Barroco, objeto da arte historiográfica é simples mente a história de seu próprio tempo, ou, mais exatamente, do pas sado mais recente sentido com o ainda vivo”2.
E no entanto, esse mito grego é mais histórico do que aquele tipo de tradição lendária que amiúde encontramos em outros povos. Quan-^ do, hoje, um cam ponês ou um pastor grego fala das velhas ruínas abandonadas de sua terra, com eça mais ou m enos assim: “Era uma vez um rei que morava aqui e tinha uma linda filha...” Já conhecemos esse tom dos contos alemães. Mas na Grécia antiga, o rei Agamêmnon morava, com sua perversa mulher Clitemnestra, na sinistra cidadela de M icenas, a colina sobre o Helesponto era a tumba de Aquiles, e assim por diante: histórias etiológicas ligavam -se a personagens bem definidas, chamadas pelo nome, das quais se contava este ou aquele fato, e reuniam-se em lendas bem ordenadas. Para explicar as marcas dos tamancos no penhasco da Rosstrappe, no Harz, contava-se: “Era uma vez uma princesa soberba...”, mas, se num rochedo ao longo da estrada que vai do Istmo a Atenas houvesse uma cavidade em forma de baciazinha e, sob o rochedo, uma pedra delineada com o uma tarta ruga, ou se, mais adiante, um nicho na rocha se assem elhasse ao leito de um gigante, contava-se que ali habitavam os monstros Síron e Procusto até que Teseu, filho de Egeu, matou-os durante sua viagem a Atenas. E assim em toda a Grécia, até m esm o nas menores localida des, essas histórias transformam-se, sem exceção, em lendas, que se referem a nomes bem precisos, sobretudo a príncipes dos tempos an tigos e às suas famílias.
Os exem plos que citamos são lendas etiológicas. Nelas, a relação do mito com o presente é mais direta do que quando os heróis e os acontecimentos servem de m odelo ou de guia para os pósteros. Em tais lendas, algo de factual e presente - seja um fenôm eno natural ou üma obra criada no passado pelos homens, um costume ou uma insti tuição - encontra sua explicação na história das suas origens. Trata- se de fatos singulares e maravilhosos, mas ainda em Heródoto pode- $e ver com o a explicação de fenôm enos estranhos e bizarros podia suscitar o interesse histórico.
Em torno das figuras lendárias, também depois se foram acumu lando temas fabulescos de todo tipo, e um rico mundo de fábulas apro- ximou-se, por assim dizer, da realidade histórica, na medida em que as vagas e incertas figuras fabulosas recebiam um contorno nítido e preciso. Joãozinho sem-medo, que partiu para combater os monstros, tornou-se Héracles filho de Zeus e de Alcm ena, rainha de Tebas; o marinheiro que se aventurou pelo vasto mar, o infiel Odisseu, ou Jasão. Os povos fabulosos às margens do mundo confluíram, destarte, para a
Odisséia, para a lenda dos Argonautas ou para as histórias de Héracles e Apoio.
Im possível pensar que esse grande processo abrangente, no qual contos e fábulas transformam-se em lendas, essa primeira fase de gran de desencantamento do mundo, não se tenha consumado sob a influên cia da poesia épica: em todo o caso, também a tradição figurativa - como mostrou magistralmente Roland Ham pe3 - corrobora a tese de que as figuras lendárias tornaram-se, para os gregos, realidade viva só através do èpos; sem dificuldade, os artistas põem -se a representar “his tórias”, que são, na verdade, exclusivamente ou quase, lendas, e está claro que isso ocorre inicialmente sob a influência da poesia épica. Sobretudo a litada bem cedo induz os escultores a dai' também a seus heróis de bronze e de argila uma grandeza heróica. Se houve, portanto, na Grécia primitiva, uma tradição fabulística popular não influenciada pela lenda épica, ela permanece para nós desconhecida e irreconhecível.
Se na llíada os temas que remetem a uma história posterior são particularmente evidentes, é sobretudo porque os elem entos etiológicos centrais da lenda não dizem respeito, nessa obra, a bizarros fenôm e nos naturais, usanças rituais ou outros costum es e hábitos, m as a m o numentos históricos, isto é, a testemunhos de um passado m uito mais grandioso que o presente. A s ruínas das cidadelas da idade m icênia mantinham desperta a memória de um tempo em que haviam eviden temente vivido homens mais fortes e mais m agníficos do que no pre sente incomparavelmente mais modesto, e visto que esses testem u nhos pré-históricos se encontravam em todas as partes da Grécia, e
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até m esm o no além-mar, na costa da Ásia, também os eventos a elei relacionados deviam ter-se desenrolado em escala muito ampla. Poç\
trás deles havia uma grande história. .1 ‘
Mas que a lembrança dos habitantes daquelas antigas muralha^, não se transmitisse no tom fabulístico dos cam poneses e dos pastores; - “Era uma vez um velho rei”, dependeu, ademais, do fato de que a classe aristocrática dominante com eles reatava sua tradição, através da qual nobres e reis viam, nos heróis troianos, seus antepassados, e m emória histórica constituía um todo único com a glória dos avós. É - herança indoeuropéia das m ais antigas que o bem supremo para o ; guerreiro seja a fama imorredoura, o KÀéoç ottpôixov, e que cumpre ao poeta conservar desperta a lembrança da grande empresa ou do he? rói4 A “vasta fama”, a “maior sob o céu”, com o também diz Homero J (eopo, péyioTov ÚTtoopáviov), ou a fama “inextinguível” (öcaßeatov) eleva o homem acima de si m esm o e vence o espaço e o tempo. Porém essa fama, celebrada até em tempos mais antigos pelo canto épico dos banquetes viris, não glorifica apenas o indivíduo, mas toda a sua es tirpe: daí a importância de conhecerm os a cadeia das gerações que liga o avô ao neto. O fato de os heróis homéricos se preocuparem com a fama com que sobreviverão junto aos pósteros (Helena, //., VI, 757; Aquiles, //., IX, 413)5 evidencia o quanto o pensamento e a idéia da fam a favoreceu o su rgim en to de um a c o n sc iê n c ia histórica. A genealogia servia, ao m esm o tempo, para fundamentar e demonstrar as legítim as pretensões das estirpes de origem divina; e era mister não haver lacunas para que se pudesse mostrar que a corrente da legi timidade jamais se interrompera. O uso de enumerar gerações até o primeiro antepassado divino criou, com o mostram Hecateu e Heródoto* o importante palco cronológico da historiografia subseqüente. E ver dade que em Homero justamente essa preocupação de ligar os heróis do passado aos nobres do presente quase não existe, se bem que os heróis amiúde revelem interesses genealógicos, e certas observações, por exem plo, a propósito de Enéias, mostrem que os cantores ainda nutriam um interesse efetivo por essas coisas. E no entanto, não é a empresa do indivíduo ou a glória da estirpe que preenche o espaço da
litada, mas um amplo acontecimento que se desenvolve com o con curso de muitos: a expedição dos gregos contra Tróia, isto é, um grande acontecimento histórico, cuja lembrança os gregos conservaram, em bora confusamente, através dos restos da idade pré-histórica.
D issem os, atrás, que o cantor épico mais antigo está separado dessa pré-história por uma barreira temporal: falta-lhe a consciência histórica de uma continuidade na qual, pouco a pouco, se consumou a
4. Jacob Wackernagel, Pliilologus, 95, 1943, 16. 5. Cf. A. Heuss, Antike und Abendland, 2, 1946, 38.
passagem do velho mundo heróico para o mundo presente, unindo o outrora com o hoje. A glória dos antepassados e a legitim idade da descendência é, poder-se-ia dizer, algo de perenemente presente; tra ta-se, porém, de uma relação com o passado característica do pensa mento m ítico-etiológico: um evento isolado (ou m esm o uma cadeia de eventos, com o a geração dos filhos através dos pais) é “causa” de uma determinada situação ou estado de fato atual. Mas esse evento é projetado retrospectivamente para uma idade mítica e conectado ao mundo divino, e é daí que também a situação presente recebe seu significado. E assim o interesse pelo passado baseia-se na possibili dade de identificar algo presente com algo passado.
Sendo assim, a relação dos gregos com seu passado divergia, por exemplo, da dos hebreus: para estes, o regresso do Egito era um exem plo da preocupação de Deus com o seu povo eleito, de que se alim en tavam suas esperanças sempre renovadas na vinda do M essias; o tem po subseqüente à criação do mundo, ao pecado original e à expulsão do paraíso era ocupado, para eles, pelo laborar de Deus, e os aconteci mentos históricos eram considerados com o outras tantas etapas no caminho de uma meta prometida. Essa concepção do tempo, que exer ceu profunda influência na interpretação cristã e ocidental da histó ria, é estranha à Grécia clássica. Somente na Eneida, de Virgílio, é que, pela primeira vez, se anuncia algo semelhante.
Em contraste com essa interpretação teológico-escatológica, para o pensamento m ítico dos primeiros gregos o presente não se insere num continuum temporal dotado de sentido: um evento m ítico pode ser a “causa”, em sentido pragmático, de algum fato presente, mas para o resto o que aconteceu em tempos passados permanece isolado, sem relação com o presente; é maior e mais glorioso do que o presen te, mas nem por isso menos autônomo.
E no entanto, já a nossa Iliada im plica idéias e atitudes com plexas. Pressupõe que a história da guerra de Tróia já seja conhecida. E vi dentemente, antes já existia toda uma série de poemas que cantavam argumentos extraídos daquela saga, onde provavelmente as empresas dos heróis, considerados individualm ente, tinham uma parte ainda mais relevante do que no poem a que nos restou. A verdadeira novida de da Iliada parece consistir em sua intrínseca unidade: ela, de fato, concentra a ação em torno de um tema bem preciso, a ira de A quiles, reunindo, assim, toda a vasta matéria sob um determinado ponto de vista. Outra novidade da nossa Iliada é que nela o acontecim ento é toda vez motivado com rigor e precisão. Agamêmnon recusa-se a aten der aos apelos do sacerdote de A poio, Crises, e não lhe d evolve a filha, e então, diante das súplicas de Crises, A poio manda uma peste contra o exército dos gregos. N asce daí - e é descrita em todos os pormenores - a contenda entre Agam êm non e A quiles, e A quiles,
156 A CULTURA GREGA E AS ORIGENS DO PENSAMENTO... ff¡ que se sente ofendido por Agamemnon, incita a mãe, Tétis, a pedir a# Zeus que os troianos sejam vitoriosos até que se aplaque a cólera dee Aquiles e enquanto este permaneça longe do campo de batalha; a partirá daí, desenrola-se em seguida, com absoluta coerência, a ação ulteriori Essa motivação concorda com as lendas etiológicas de que falamos, na¿ medida em que é “mítica”, isto é, a iniciativa dos eventos é devolvida^ aos deuses: Apoio manda a peste, Tétis roga a Zeus, e Zeus guia os#, destinos da guerra segundo sua vontade. Mas, enquanto o pensamento^-; mítico divide, por assim dizer, o mundo em duas esferas - a sobrev humana, que encerra em si o início de cada acontecimento e assim lhe^ garante o sentido e o significado, e a terrena, a única que chamaríamos-; de “real” e que só se toma inteligível à luz da esfera superior - , no : poeta da Ufada ocorre uma diferenciação muito importante: a oposição entre divino e terreno não se identifica com a oposição entre ação pas-, sada e estado de fato atual e permanente; o poeta distingue a si próprio e ao seu próprio presente do acontecimento passado; mas nesse mesnu> passado surge agora a antítese entre divino e terreno, no sentido, exata mente, de que o divino é a causa do terreno. Nasce, assim, uma narra tiva sem qualquer relação com o presente, mas na qual os deuses são a causa de todo agir e padecer humano. Mas a motivação do acontecer naf
Ilíada não só é muito precisa e conseqüente, com o também - o que %
talvez ainda mais digno de relevo - o sobrenatural atua de modo abso lutamente natural. A s ações dos deuses e suas intervenções são sempre motivadas de tal modo que seus sentimentos e suas decisões nos pare cem de todo familiares e correspondem plenamente ao que sabemos e ao que esperamos com base em nossas experiências interiores e em nossas relações com os outros homens. Também essa é uma preparação; importante para a “desmagicização”, para aquela explicação “natural” do acontecer que será fornecida pela historiografia subseqüente.
O divino e o humano entram, assim, numa relação característicá. Karl Reinhardt mostrou, num belo ensaio6, que na Ilíada os deuses; são grandes, por assim dizer, a expensas dos homens (são homens,, m as a m orte não os atinge), enquanto os hom ens são grandes a expensas dos deuses: só os homens podem nos com over e interessar,; pois só eles correm perigos reais. Nas duas formas mais antigas de
èpos que devem os pressupor com o anteriores à Ilíada - no mito divi no e no canto heróico - as coisas eram diferentes. O mito divino sério, com o o conhecem os vindo do Oriente, da saga germânica, ou como também o descreveu H esíodo sob a influência do Oriente, nas lutas dos deuses e dos titãs, é absoluta e cruelmente sério, ao passo que a farsa divina, tal com o aparece também na Ilíada, com as histórias, por exem plo, de Ares e Afrodite, de H efesto ou de Hera, não era séria;
AS ORIGENS DA CONSCIÊNCIA HISTÓRICA 157 mas em nenhum dos dois casos os deuses não são nem sérios nem pouco sérios o bastante para conferirem um significado, com sua in tervenção, a um grande acontecimento terreno coletivo, deixando tam bém todo o interesse e toda a participação para o que é terreno. N os mais antigos cantos heróicos, os deuses não podiam desempenhar essa função característica - o que, no fundo, vale também paia a Odisséia - , visto que tinham interesses demasiado particulares (e atitudes dema siado parciais) e deviam limitar-se a perseguir o herói ou a assisti-lo, jamais acontecendo de dois mundos, duas formas diferentes de vida entrarem em contacto e em contraste entre si.
E ssa particular im p o sta ç ã o da Ilía d a é im portan te para o surgimento da consciência histórica, visto que o interesse pela histó ria pressupõe exatamente que o acontecer humano, nas suas conexões mais gerais, suscita interesse na medida em que se crê aí discernir um significado que transcenda os eventos isolados - e não importa que esse acontecer seja concebido com o disposição divina, com o uma cer ta tendência (evolução, por exem plo), com o o agir de certas “forças” históricas ou com o o resultado de lutas entre potências divinas. Roland Hampe, com o já dissem os, atribuiu à influência da primeira poesia épica o aparecimento, no século V ili, de fivelas de bronze, vasos de argila etc., decorados com imagens extraídas do mito. Em particular, atribui ele à influência da Ilíada7 o fato de que, por volta do ano 700, as cenas representadas enquadrem-se e articulem-se numa moldura, que as figuras adquiram proporções definidas e as imagens assumam, as sim, uma grandeza interior - e em seguida também externa - desco nhecida na idade precedente. Pode-se, talvez, fazer um confronto com a Ilíada, onde as personagens ocupam uma posição bem precisa dentro de uma determinada conexão e são grandes nos seus limites, e até m es mo por causa deles, o que permitiu (é bem verdade que só duzentos anos mais tarde) conceber o homem também com o ser histórico.
O èpos pós-hom érico (do qual nos restaram, na verdade, apenas alguns fragm en tos) ap roxim a-se da h istoriografia por d iv er so s aspectos. A poesia cíclica incorporou e com pletou o relato da Ilíada, narrando todos os acontecimentos da grande guerra troiana, a partir de seus antecedentes até as viagens de retorno de cada um de seus heróis; nela se inseriam também as lendas tebanas e outras, que tam bém circulavam, porém em poemas isolados, de m odo que no fim se formou uma espécie de história universal m ítica da idade primitiva. Mas não é só essa matéria universal da épica, essa confluência de diferentes personagens e de lugares muito distantes entre si num úni co grande quadro, que antecipa a história: o sentido histórico também se adianta em traços particulares considerados isoladamente. Restou-