O Hino Pindàrico a Zeus
106 A CULTURA GREGA E AS ORIGENS DO PENSAMENTO
O senso de im potencia é o tema predominante da primitiva lin i ca pessoal; ela levou os primeiros líricos a falar de sua vida inteiior^ da alma, da profundidade de seus sentim entos. O coro da tragédidl intensifica esse sentido de debilidade e im potência. E soa aqui beitíf mais pungente o canto, pois em Frínico e em Ésquilo não se trataf apenas de esperanças desfeitas, de dor e de renúncia, mas sim da vida. Essa intensificação do sentim ento deriva naturalmente do fato! de que as situações desesperadas que se apresentam no drama n ã o í são acessíveis à lírica, visto que os líricos falam da angústia de suas*! próprias vidas, mas quando esta se in tensifica a ponto de ir-se aj própria vida, já não mais se pensa em escrever poemas. E no dramaM
a representação do m edo e da angústia é muito mais intensa do que o | pode ser na épica. V isto que, no drama, o homem apresenta-se a nós;;| de forma imediata, com sua dor vivida. Pode, assim, a arte assumir, no drama, um caráter de maior seriedade. À angústia do coro nem^ m esm o é útil o pensamento que confortava o poeta lírico arcaico em ;f sua dor: o de que a eterna vicissitude da vida humana traz consigo:! ora dor, ora alegria. Quando a própria vida está ameaçada, não tem | mais sentido a esperança de que um dia a sorte possa mudar. A ssim ,/ o sentido da presença da morte que nos é dado também pelos líricos, ; faz-se, no drama, mais real do que na lírica, na medida em que de- , terminadas formas da vida só se podem representar com o experiên- ; cias do homem quando nos afastamos da realidade. Mas o sentimen- ' to de angústia do coro não se distingue do senso de im potência do poeta lírico apenas pela intensidade; Esquilo dá-nos, aqui, algo de novo em relação a Frínico.
A s Danaides são jovens frágeis; os filhos de Egito ameaçam-nas em seus direitos com violência brutal. E assim esse coro suscita um sentimento que é algo mais que a piedade que podiam despertar os coros de Frínico, mais que a simpatia e a participação espiritual e sentimental suscitadas pela poesia lírica. O fato de que o direito tenha sido ofendido é coisa que atinge o ouvinte numa m edida bem diferen te da de uma dor ou de uma desgraça. Aqui se verifica algo que não pode ser permitido, que deve ser elim inado se se quer manter robusta a fé na ordem do mundo: algo que nos im pele à ação. Também essa dor leva o homem a meditar sobre sua vida interior e a considerar-lhe as profundezas, a descobrir nela algo que vá além do puramente indi vidual; mas não se trata aqui apenas de descobrir ou de reconhecer esse mundo espiritual: o valor espiritual que aqui encontramos, isto é, o direito, exige a ação.
Essa ação ocorre nas Hiketídes (As Suplicantes), de Ésquilo, e é exatamente isso que causa o surgimento da cantata lírica na tragédia. Quando as Danaides ameaçam matar-se e assim incitam Pelasgos a ajudá-las, diz o rei:
107 Sei toi paBeíaç tppovxíôoç acoxripíou
Síktjv Ko^pßrixfipoc; èç ßt>00v jioXeív SeSopKÒç oppa ppÔ’ âyav cbvcopévov7
E Pelasgo põe-se a refletir. O coro acompanha sua meditação com os versos:
(ppóvtiaov Kal yevoí) 7ravStKC0ç eijoeßriq 7rpóÇevoç8,
que, com o marteladas, inculcam -lhe o pensamento de que deve d eci dir-se, Depois de haver assim refletido, o rei desce para a cidade a fim de entregar a decisão ao povo. Embora a cena não tenha valor imediato para a ação, Ésquilo enobreceu-a com todos os recursos do alto estilo, e esse contraste entre a solenidade pomposa e as proporções m odestas da ação, poderia imprimir à cena um leve toque de com icidade (chega quase a lembrar certas cenas do teatro de marionetes), caso não nos déssemos conta da novidade e da importância do fato aqui apresentado para a história do espirito grego e m esm o do espírito europeu. Jamais na poesia dos primeiros séculos o homem luta tanto para tomar uma decisão, vai tão “a fundo” com o pensamento antes de resolver-se; aqui, pela primeira vez, alguém luta pela responsabilidade e pela ju s tiça, para afastar o mal. Surgem, assim, novos conceitos em torno dos quais futuramente se concentrará o drama e que, m esm o fora da tra gédia, assumirão importância cada vez maior. N essa cena, da situação do coro nasce, com o conseqüência, o senso do direito ofendido, ou melhor, a situação foi criada a fim de ser resolvida com a intervenção de uma ação consciente. A ação é conduzida de m odo que Pelasgo venha a encontrar-se diante de duas obrigações: deve escolher entre o bem de sua cidade e ajusta demanda das suplicantes. Cabe-lhe, assim, refletir para decidir por sua conta de que lado se acha a obrigação maior, o direito. O pouco que conhecem os das tragédias de Frínico demonstra-nos que sem elhante ação, que nos parece tão natural e necessária (pelo m enos que emerge de forma tão imediata e elementar a nosso pensamento teorético), ainda não existia em sua obra; nos dois dramas de Frínico que con h ecem os, a catástrofe irrompe de improviso no curso da ação e, diante dela, o coro só pode ter reagido com cantos de angústia e lamentação. N ão há lugar para uma ação direcionada para a salvação nem é possível encarar o problema do direito: o espectador limita-se, portanto, à com paixão, isto é, àquele sentimento também provocado pela lírica arcaica; embora aqui, diante
7. “Convém agora, com profundo pensar, buscar salvação, qual nadador que às profundezas desce, com visão clara, sem incerteza.”