i O Homem na Concepção de Homero
20 A CULTURA GREGA E AS ORIGENS DO PENSAMENTO
Também a terceira qualidade atribuída por Heráclito ao espírito é | que contrasta com as qualidades que se podem atribuir ao órgão físico, é-j ignorada pelo pensamento e pela língua homérica. D iz ele (fr. 115): á \|A)%fÍç ècm Xòyoq éa w ò v ao^cov “é próprio da alma o logos que por si | m esm o cresce” Qualquer que seja o significado que se queira dar à * frase, Heráclito aqui atribui à alma um Xòyoq que pode estender-se e* aumentar. Vê-se, portanto, na alma, a possibilidade de um desenvolvi- ; mento, enquanto seria inoportuno atribuir ao olho ou à mão um logos 5
que “cresce”. Decididamente, Homero não conhece28 uma possibilidade ■ de desenvolvimento do espírito. Todo aumento das forças físicas e espi- ; rituais vem do exterior, sobretudo por intervenção da divindade. No li vro XVI da Ilíada, Homero fala de Sarpédon, que, moribundo, pede socorro ao amigo Glauco que não pode vir, pois está ferido. Glauco implora então a Apolo que lhe tire a dor do ferimento e lhe devolva a força do braço. Apoio atende a seu pedido, faz cessar a dor e pévoç 8é oi epßocte 0opcp: “põe força em seu Gupóç” Também aqui, como em outras passagens, o fato motivado por Homero com a intervenção da divindade nada tem de sobrenatural ou de antinatural. Para nós seria mais natural que Glauco ouvisse o chamado de Sarpédon e, superando sua dor e reu nindo suas forças, voltassse ao combate. Mas o que iríamos introduzir na descrição, isto é, o fato de que Glauco reúne suas forças ou, dizendo de outra maneira, se concentra, jamais aparecem em Homero. N ós inter pretamos esse fato imaginando que um homem supere seu estado por suas próprias forças, com um ato de vontade, mas quando Homero quer explicar-nos a proveniência dessa nova massa de forças, só sabe dizer que foi um Deus que as concedeu. O mesmo vale também para outros casos. Toda vez que o homem faz ou diz algo a mais do que dele se poderia esperar, Homero, para explicar o fato, atribui-o à intervenção de um deus29 E é o verdadeiro e autêntico ato da decisão humana que Homero ignora; daí porque, m esmo nas cenas em que o homem reflete, a intervenção dos deuses sempre tem uma parte importante. A crença nesta ação do divino é, portanto, um complemento necessário às represen tações homéricas do espírito e da alma humana. Os órgãos espirituais
Tétis a Aquiles, II., I., 363: èÇauSa fj.ii keuGevócü, 'iva eiôopEV âp.(pco: “dize-me da tua dor, não a escondas na tua mente, para que ambos saibamos dela”. - Uma exceção é repre sentada pela frase de Nestor, y 127: èycb m l 5Toç ’OÔuaoEÚç oike nox' eív àyopq ôí%a páÇogEV o u t’ évi ßovXfi, ccXV eva Gujiòv exovte - com que se entende “toda vez o mesmo impulso”, isto é, toda vez a mesma opinião, baseada no discernimento.
28. Confrontem-se a respeito, sobretudo as locuções das quais Heráclito deriva pro vavelmente as dele: //., XVII, 139: MevéXaoç péya rcéuGoç àéÇcov, XVIII, 110: xóXoç àé^etai; Od.y II, 315: Kai 8rj poi àéÇexai Gopóç (forma passiva!) onde ele se refere a sentimentos.
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0opóç e vóoç não passam de simples órgãos, tanto que neles não se pode ver a origem de nenhuma emoção. A alma entendida no sentido de Típcoxov Ktvonv, de primeiro movente, tal como a concebe Aristóteles, ou com o ponto central do sistema orgânico, ainda é estranha a Homero. A s ações do espírito e da alma desenvolvem-se por obra das forças agentes do exterior, e o homem está sujeito a múltiplas forças que a ele se impõem e conseguem penetrá-lo. Daí a freqüência com que Homero se refere às forças, e daí porque dispõe de tantos vocábulos todos eles traduzidos por nós com uma única palavra: “força” (pávoç, oOévoç, ßirj, k i k d ç , í ç , K p ctxoç, dcÃKfi, Súvapiç). Essas palavras, porém, têm um significado concreto, de rigorosa evidência, e estão bem longe de indicar a força sob forma abstrata, como mais tarde as palavras ôbvapaç (dynamis) ou è ^ o w ía (iexousía) que podem ser atribuídas a toda e qualquer função. E cada uma das formas assim indicadas recebe, da maneira particular da ação, o seu modus particular, o seu caráter próprio, pévoç é, por exemplo, a força que a pessoa experimenta nos membros, ao sentir o impulso de agregar-se a uma ação, àÃKij, a força defensiva que serve para manter o inimigo à distância; oGévoç, o pleno vigor das forças físicas, mas tam bém a potência do dominador; KpócTOÇ, a violência, a força de opressão. Em algumas expressões pode-se ainda detectar o primitivo significado religioso de tais forças, como por exemplo quando Alcinoo é designado com a expressão “a sagrada força de Alcinoo”: íepòv pévoç ’Aãkivóoio e, similarmente: ßvq ‘HpaKÃrjdri, lepri íç TqÃepá%oio. É difícil exararmos um juízo sobre essas exp ressões visto serem elas exp ressões já cristalizadas, das quais nem m esmo cabe dizer se, exatamente, ßirj ou íç ou pévoç seria a forma originaria. Muitos pensam, e com toda a razão, terem sido elas escolhidas em parte por necessidade métrica. Nom es próprios, como Telêmaco e Alcinoo, não podem estar no nominativo em fim de verso, onde Homero costuma colocá-los; daí o poeta valer-se, neste caso, de uma circunlocução. Também se tem observado que for mas adjetivadas com o ßvq ‘HpctKÃrieíri também se apresentam com no mes que não fazem parte do mundo troiano e, com razão, concluiu-se terem sido eles extraídos de épicas mais antigas. E visto que, em tempos passados, deviam ter tido um sentido particular, foi lembrado30 que, nos chamados povos primitivos, era frequentemente atribuída ao rei ou ao sacerdote uma especial força mágica que o elevava acima dos homens de sua estiipe. É provável que essas expressões tivessem servido origi nariamente para indicar reis e sacerdotes dotados de tal força. Mas é um erro acreditar que tais forças mágicas ainda estejam vivas nos poemas homéricos, porque só o fato de que as formas de circunlocução, às quais nos referimos, têm uma forma rígida e são evidentemente usadas por razões métricas, já nos faz entender que seria absurdo aí buscarmos