i O Homem na Concepção de Homero
32 A CULTURA GREGA E AS ORIGENS DO PENSAMENTO
divino num sentido infinitamente mais apavorante do que qualquer dosj acontecim entos registrados em Homero. Naturalmente, a divindade! tampouco é entendida com humildade ou amor, o que só acontecerá com o cristianismo. O sentimento particular com que os homens dei! Homero acolhem o divino, quando este vai ao encontro deles, é ressafj tado na cena de Aquiles: “Atena surgiu por detrás e o agarrou pelosi cabelos. Aquiles estremeceu e virou-se; súbito, reconheceu Palas Atena:^ os olhos dela resplandeciam, terríveis.” Surpresa, espanto e admiração! são os sentimentos que o aparecer da divindade desperta no homem dei Homero. Em muitos pontos da ¡liada e da Odisséia, com o aparecer dqf deus, o homem fica pasmo e maravilhado diante da divindade que a ele| se manifesta. E por ventura não será o ato da oração, para os gregos á o 0
séculos mais tardios, também um gesto de admiração?
A surpresa e a admiração não constituem um sentimento especi- ficam ente religioso, nem m esm o em Homero. Também as belas mu- ‘ lheres e os fortes heróis são olhados com admiração; os arneses artis ticamente trabalhados são “maravilhosos de ver”
N o entanto, o sentimento que o grego experimenta diante do belo vem sempre acompanhado de uma espécie de frêmito religioso; para ele, a admiração sempre conservará alguma coisa do seu caráter de horror sublimado. É um sentimento muito difuso em relação ao qual os gregos dos primeiros séculos tinham uma particular receptividade. Experimenta-se admiração não pelas coisas que nos são inteiramente estranhas, mas pelas que são apenas mais belas e mais perfeitas do que o comum. A expressão grega que indica admiração (0ai)pccÇeiv) deriva de 0eôca0ai, que significa “ver” A admiração é contemplação acompanhada de espanto; diferentemente do horror, não se apodera inteiramente do homem. O olho dá distância às coisas e as capta como objetos. Se, portanto, o horror diante do desconhecido é substituído pela admiração pelo belo, o divino torna-se mais distante e, ao mes mo tempo, mais familiar, não se apossa inteiramente do homem, não o sujeita a si, e todavia fica mais natural.
O homem de Homero é livre diante de seu Deus; se dele recebe um dom, orgulha-se disso mas continua m odesto, pois está conscien te de que toda grandeza provém da divindade. E quando o homem tem de sofrer por causa de um deus, com o O disseu por causa de Posídon, não se humilha nem se curva, mas afronta corajosamente essa hostilidade e, apesar da paixão, contém seu sentim ento entre a humildade e a arrogância. Mas não é fácil respeitar essa sutil linha de dem arcação; a divindade grega, diferentem ente da divindade hebraica, indiana ou chinesa, incita à imitação, e os gregos sempre correram o risco de superar lim ites com presunçosa temeridade. Essa am biciosa paixão (isso que os gregos chamam de hybris) a Europa herdou dos gregos (apesar do cristianismo, e m esm o, em certo senti-
33 do, potenciada pelo cristianismo) com o um vício contraposto às suas virtudes que sempre lhe cumpriu duramente expiar. Esses deuses são pétoc ÇcòovTeç (da vida fácil), sua vida é particularm ente “vid a” , porque eles não conhecem as trevas e a imperfeição que a morte in troduz na vida do homem, mas sobretudo porque é uma vida conscien te e o sentido e o fim de ação estão presentes para os d euses de maneira distinta do que estão para os homens. A s contendas, as ad versidades e as desilusões são conhecidas dos deuses apenas por tor narem suas vidas mais intensas. A luta e o prazer exercitam -lhes as forças, e os deuses estariam mortos se eles próprios não conhecessem o ciúme e a ambição, a vitória e a derrota.
A morte e as trevas são relegadas o mais longe possível para os confins do mundo. A morte é um nada ou pouco mais que um nada, no qual eles precipitam os homens. Sobre toda vida terrena paira, como uma sombra, o pensamento de que até as coisas mais prósperas e fortes deverão morrer, e esse pensamento pode lançar os hom ens na mais profunda m elancolia. Mas embora cumpram com fidelidade seus deveres para com os defuntos, o pensamento da morte tem pouquíssima importância em suas vidas. E já que todas as coisas viventes têm um fim, também a livre vida dos deuses encontra um lim ite naquilo que, se não por cego acaso, pelo menos segundo uma ordem preestabelecida, deve acontecer; no fato, por exem plo, de que os mortais devem mor rer. Assim também os deuses procuram moderar os seus recíprocos desejos e, após as querelas e os litígios, Zeus termina restabelecendo a paz e os reconcilia diante do néctar e da ambrosia. A s vezes, ameaça com violência e lembra os selvagens tempos primitivos. Mas Homero evita evocar as lutas que o Olimpo teve de sustentar contra Cronos e os Titãs e contra os Gigantes. N esses mitos da luta dos deuses, reflete-se, sem som bra de dúvida, o fato de que os deuses do Olimpo nem sempre reinaram, de que em tempos passados existia uma outra religião e, embora nesses deuses vencidos não se devam ver simplesmente as divindades nas quais os homens dos tempos antigos acreditaram, permanece o contraste, indi cando no que consiste a essência dos novos deuses. Os derrotados não são espíritos malignos, astutos, sensuais; são selvagens, desregrados, nada mais que pura força bruta. Os deuses do Olimpo fizeram triunfar a or dem, o direito, a beleza. A titanomaquia e a gigantomaquia são o teste munho, para os gregos, de que seu mundo se impôs a algo estranho; juntamente com a luta contra as Amazonas e contra os Centauros, per manecem elas para sempre como símbolos da vitória grega sobre o mun do bárbaro, sobre a força bruta e sobre o horror.
Muitos elem entos da primitiva religião grega sobreviveram até nos tempos mais lum inosos da Grécia, porque o sentido do pavoroso e do espectral, a crença supersticiosa nos espíritos e as práticas de magia jamais cessaram. Se falta esse elem ento na epopéia é porque