i O Homem na Concepção de Homero
18 A CULTURA GREGA E AS ORIGENS DO PENSAMENTO
que os buscasses por todos os caminhos, tão profundo é o seu logos”).| Para nós, essa concepção da profundidade da alma humana é coisa co- 1
mum, e nela há algo de totalmente estranho a um órgão físico e à suai função. Não tem sentido dizermos que alguém tem mão profunda, ore- ' lha profunda e, se falarmos de olhos “profundos”, teremos um significa- j do distinto (relativo à expressão, não à função). A representação da pro- \
fundidade surgiu exatamente para designar a característica da alma, quefj é a de ter uma qualidade particular que não diz respeito nem ao espaço nem à extensão, ainda que em seguida sejamos obrigados a usar uma im agem espacial para designar essa qualidade anespacial. Com ela 1
Heráclito quer significar que a alma se estende ao infinito, exatamente ao contrário do que é físico. Essa representação da “profundidade” do mundo espiritual da alma não surge apenas com Heráclito, mas já na lírica p reced en te25, com o o dem onstram as palavras ßaötKppcov; |kx0u^f|Tr|ç, “de mente profunda”, “de pensamento profundo”, usadas na lírica arcaica. Geralmente encontramos com freqüência, na Era Ar caica, a expressão “profundo saber”, “pensamento profundo”, “sentido profundo”, mas também “profunda dor” e, em toda parte, a idéia de “profundidade” refere-se àquela “ilimitação” do mundo espiritual que o distingue do mundo físico. A língua de Homero é ainda estranho esse uso da palavra “profundo”, que é algo mais que uma metáfora consueta, e por meio do qual a língua busca sail* de seus confins para entrar num campo a ela inacessível; e estranho lhe é, por conseguinte, o conceito propriamente “espiritual” de um saber profundo, de um profundo pensamento, e assim por diante. As palavras ßaötxppoov, ßa0opf|Tr|£ são certamente formadas por analogia com as palavras homéricas, só que estas significavam ícoMxppcov e 7roMpqTtç (“de muito sentido”, “de muitos pensamentos”) e assim como são carcterísticas da lírica as palavras compostas com ßa0o-, também características de Homero são aquelas compostas com tcoàa)- para indicar uma intensificação do saber ou do sofrim ento: 7toMn8piç, TtoÀupfixccvoç, 7iofo)7TEv0fiç, e assim por diante (“muito sábio”, “muito astuto”, “muito aflito”).
Também em outros casos, em lugar da intensidade expressa-se a quantidade. “D evo superar mil dores”, diz Príamo (//., XXIV, 639) ao chorar por Heitor, noXkà ai/ueív, noXkà òxpúveiv (“exigir muito”, “esti mular muito”) também se usam quando alguém suplica ou admoesta somente uma vez26. Jamais encontramos uma expressão que transmita a particularidade do que não se apresenta apenas com o extenso, nem no campo das representações nem no dos sentimentos. As representações
25. A esse propósito, cf. Friedrich Zucker, “Philologus”, 93,1948,52 e ss. 26. Cf. H. Frankel, Homerische Gleichnisse, 55,2. Além disso, cf. a interpretação
19 sao dadas pelo vóoç, e esse órgão espiritual é concebido com base na analogia existente entre ele e o olho; dai porque “saber” é expresso por eiôévoa: a palavra deriva de íôeiv, “ver”, e significa propriamente “ter visto” Também nesse caso é o olho que é usado como modelo, quando sé quer falar de recebimento de experiências. N esse campo, a intensidade coincide verdadeiramente com a extensão: quem viu muito e repetida mente possui um conhecimento profundo. Tampouco no campo do 0\)póç existe a representação da intensidade. Esse “órgão da em oção” é, por exemplo, sede da dor; ora, às vezes se diz, em Homero, que a dor rói ou dilacera o Oepóç, ou então que uma dor aguda, violenta ou intensa atinge O0\))IÓÇ.
Prontamente vemos aqui em quais analogias se baseia, neste caso, a língua para chegar a tais expressões: assim como uma parte do corpo pode ser atingida por uma amia cortante, por um objeto pesado, assim como pode ser corroída ou dilacerada, o mesmo acontece também com o ôupóç. Também aqui a representação da alma não se diferencia da do corpo, nem se dá relevo à característica da alma, a intensidade. -
O conceito da intensidade não aparece em Homero nem m esm o no significado original da palavra, com o “tensão”. Não se fala, em Homero, de um dissídio da alma, assim com o não se pode falar de um dissídio do olho ou da mão. Também nesse caso o que se diz da alma não sai do campo do que se pode dizer dos órgãos físicos. Não existem, em Homero, sentimentos opostos em si: apenas Safo irá falar do “doce-am argo” Eros; Homero não podia dizer “queria e não queria”, e em vez disso, diz ek X ò v àéKovxí ye 0upcp, isto é, “querente, mas com o ÔDjióç não- querente”. Não se trata aqui de um dissídio interno, mas de um contras te entre o homem e seu órgão, com o se disséssemos, por exemplo: m i nha mão estendeu-se para agarrar, mas eu a retraí. Trata-se, portanto, de duas coisas ou dois seres distintos, em luta entre si. Por isso, em Homero jamais encontramos um verdadeiro ato de reflexão nem um coloquio da alma consigo mesma, e assim por diante.
Uma segunda propriedade do Ãóyoç em Heráclito é a de que ele
é
um koivóv
:
tem a propriedade de ser “comum”, istoé,
de poder permear todas as coisas e de acolher em si todas as coisas. Esse espírito está em tudo. Também para essa concepção faltam em Homero as formas lin güísticas correspondentes: Homero não pode falar de seres distintos ani mados pelo m esm o espírito; não pode dizer, por exemplo, que dois ho mens têm o mesmo espírito ou a mesma alma, assim como não pode dizer que dois homens tenham em comum um olho ou uma mão2727. A respeito e para as formas iniciais da concepção mais tardia em locuções como òpcxppovoc 0up.òv exovxeç, cf. “Gnomon”, 1931, 84. O que nós chamamos de “simpatia”, “concordância reciproca das almas” surge em Homero sob a forma de ter o mesmo escopo ou saber a mesma coisa; quanto a esta última expressão, cf., por exemplo, as palavras de