DA VIDA E COSTUMES DO BISPO DA ILHA DA MADEIRA, DOM HIERÓNIMO BARRETO (273)
Na era de mil e quinhentos e setenta e três foi consagrado o Bispo Dom Hierónimo Barreto (274) e, como quer que sua virtude era de mais anos que os de sua idade, depois de eleito e despedidas as letras, esperou alguns dias, ou dispensou o Papa com ele na idade, para perfazer trinta anos. E este só argumento basta para julgar o mundo qual era sua virtude, pois, por ela e por seus merecimentos, mereceu ser eleito para tal cargo. E aquele, que não chegava a trinta anos, dava de si mostras, pela prudência e moderação de seu ânimo, gravidade de sua pessoa e, finalmente, pelo exemplo de sua vida, ser homem de cinquenta anos (275).
Este Bispo Dom Hierónimo Barreto era de gente principal dos Barretos do Porto, onde seu pai teve sempre cargos honrosos, assim de el-Rei como da cidade, e a sua família é tida em muita conta, porque o Padre João Nunes, da Companhia de Jesu, e irmão de seu pai, foi coluna da religião e grande servo de Deus, e andou em África em tempo de el-Rei Dom João, terceiro do nome, ocupado no resgate dos cativos, onde os consolava e esforçava. Era letrado e bem entendido e, por sua fama, a instância do dito Rei, foi feito Patriarca do grande reino do Preste com outros dois Bispos da Companhia de Jesu, com o qual patriarcado chegou a Goa, onde, esperando reposta (sic) do Preste, se deteve alguns anos, morando sempre no Colégio com grande exemplo de vida, e, por se dilatar e impedir a ida sua para o Preste, entendendo que el-Rei Dom João o queria fazer Arcebispo de Goa, insistiu muito em o estorvar por todas as vias, dizendo que se aceitara o patriarcado era para trabalhos e martírio, mas que seu intento era acabar em pobreza na Companhia e que per nenhum caso aceitaria arcebispado tão honroso. E assim lhe cumpriu o Senhor seus desejos, porque faleceu em Goa, depois de ter feito grandes obras de serviço de Deus, e deixou grande fama de sua virtude. Este foi o bom tio do Bispo Dom Hierónimo.
Teve também outro tio, irmão de seu pai, por nome Afonso Barreto (276), também sacerdote
da Companhia de Jesu, de muita virtude, teólogo, pregador e bom grego e humanista, que na religião teve muito nome e acabou santamente no Colégio de Santo Antão.
Teve também outro tio, irmão de seu pai (segundo minha lembrança), por nome Mestre Belchior, da Companhia de Jesu, homem de grandes letras e virtude, e de bom púlpito, o qual na Índia foi Provincial e, tendo este cargo, foi a Japão, passando muitos trabalhos pelo aumento daquela cristandade, e sempre nos cargos, que teve, mostrou muita caridade e mansidão, fortaleza nas adversidades e zelo das almas, e de todos era mui amado e estimado. Por vezes foi rector e, sendo-o, depois, de Cochim, acabou santamente, havendo muito trabalhado por espaço de muitos anos naquelas partes, de modo que foi uma coluna da Companhia.
Destes bons troncos e progénia (277) veio o Bispo (278) da ilha da Madeira Dom Hierónimo
Barreto, de modo que daquela nobre família dos Barretos (se é licito) (279) se pode dizer: O
quam pulchra est casta generatio; oh, quão formosa é esta casta geração!
Este Bispo, desde moço, se criou no colégio de Coimbra na doctrina e leite dos padres da Companhia e aí aprendeu o latim, sendo mui casto e recolhido, continuando sempre os Sacramentos com muita devação. Daí se passou aos Cânones, onde cursou alguns anos e se fez bom letrado, sendo mui diligente e curioso; e de todos os estudantes era amado e acatado, por ser afábel (280), alegre e mui honesto em sua conversação e se tratar com muita limpeza e
honestidade, dizendo missa, ordinariamente, todos os dias com grande devação; e, sendo el-Rei Dom Sebastião informado de suas letras e virtude e bons costumes, o chamou per carta sua (bem fora ele de tal imaginar) e o nomeou por Bispo da ilha da Madeira, a qual eleição bem
Capítulo Quadragésimo Primeiro 125
parece que foi de Deus, pelo muito fruto que tem feito; e (como já disse) inda o Papa dispensou com ele na idade para ser Bispo, que lhe faltava um ano, e, contudo, se houve de maneira como Bispo de muita idade na inteireza e prudência, zelo, autoridade e magnanimidade, que sempre mostrou (281). Dele se pode bem dizer aquilo de Salamão (sic) no Livro da Sabedoria,
no capítulo quarto: Senectus venerabilis est, non diuturna, nec numero annorum computata,
cani enim sunt sensus hominis, et aetas senectutis vita immaculata: «a venerável velhice é não
a de muito tempo, nem a contada por número de anos, porque os sentidos do homem são as cans e a idade da velhice a vida sem mácula».
Foi à ilha na era do Senhor de mil e quinhentos e setenta e quatro, em véspera de Todolos Santos, o derradeiro dia de Octubro do dito ano, e achou o bispado, ainda que posto em boa ordem, pela que deixou Dom Jorge de Lemos, não porém naquela que se requere para bom regimento e salvação das almas e proveito dos súbditos, porque lhe faltavam Constituições Sinodais, que é o leme desta nau da Igreja militante e governo dela, as quais ele ordenou e fez com assaz estudo, prudência e moderação, fundadas todas no Sacrossanto Concílio Tridentino e nos Sagrados Cânones, em cuja Faculdade e profissão ele foi assaz perito e eruditíssimo letrado, formado na Universidade de Coimbra.
E, movido mais no serviço de Deus e na salvação das almas e proveito das ovelhas, promulgou as ditas Constituições o ano de mil e quinhentos e setenta e oito (282) juntos todos
os vigairos e beneficiados do bispado, presente o reverendo Cabido e beneficiados da Sé. Aos dezoito do mês de Octubro do dito ano se leu no púlpito da Sé do Funchal a primeira sessão e, recebidas, por elas se rege agora ao presente o clero todo e se julga e guarda conforme a elas, que santas e compatíveis são (283). Entrando no bispado, o visitou e reformou com muito zelo e, por ser grande zelador do culto divino, assim da fábrica de el-Rei, como por outras vias e do seu, ajuntou dez ou doze mil cruzados, que empregou todos em ornamentos para a sua Sé e mais igrejas; foi tão inteiro e constante que, pondo o rosto a alguns negócios de pessoas nobres e poderosas, dizendo-lhe: «Senhor, olhe que o podem matar», ele, com muita alegria, respondeu: «Que mor bem-aventurança poderia eu ter, que morrer por fazer o que devo e sou obrigado?» E, como era conhecido (284) este seu zelo e constância, se renderam (285) muito,
tendo-o em grande conta e crédito assim eclesiásticos como seculares. Tratava (286) todos
como pai, com muita mansidão e caridade. Era (287) contínuo no coro e ofícios divinos, muito largo em socorrer a todo género de pobres, nos quais gastava (288) toda sua renda, de antemão, e ainda do seu património; era (289) grande amigo e favorecedor de clérigos castos e honestos e, se ia algum (290) lá de outro bispado, o retinha com afagos e promessas e logo lhe
dava o que pediam, de maneira que era tido por bispo santo; sua casa sem pompa, sua cama como de um religioso, seu trato e serviço muito chão, e os seus andavam de comprido e todos aprendiam. Todos os dias dizia missa com muita devação e era muito devoto e amigo dos padres da Companhia, onde tinha seu confessor e com eles comunicava suas coisas, que era certo indício e sinal de sempre acertar, pois tinha tão virtuosos e letrados conselheiros. Era tão contínuo e devoto este prelado no que tocava seu cargo e ofício pontifical, que mais parecia nos trabalhos companheiro que prelado e senhor; assistia na Sé muitas matinas do ano para ver com os olhos a modéstia e devação com que se rezavam as horas canónicas, na perfeição das quais tinha especial cuidado. Nas festas principais não perdia missa, que não dissesse em pontifical com muito aparato e devação. Não se lhe passava, por negligência, ano que não visitasse seu bispado, pessoalmente, para conhecer suas ovelhas e elas a ele. Ordenou, para melhor serviço da Sé e regimento dela, dois meios cónegos, além dos outros dois meios que havia, e fez um altareiro, para ter cargo dos altares, conforme ao missal novo. Trabalhava em tudo o que podia dar a execução o Concílio Tridentino.
Era muito amigo da virtude e favorecia e fazia mercês a quem a seguia; pelo contrário, aborrecia e castigava os viciosos, não consentindo no bispado pecado público, e trabalhava por desarreigar da terra vícios ou faltas donde procedesse escândalo. Era muito dado às letras e à virtude, certo em suas palavras, honesto em suas obras, brando na condição, amigo de honrosos trabalhos, imigo de ociosos descansos e ia à mão a seus apetites com tanto recado, que não há dúvida senão que tinha um coração velho e um corpo novo, e que, se não tinha cans na cabeça, que as tinha nos costumes; pelas quais obras tinha ganhado grande fama de virtude e santidade, não somente no regno de Portugal, senão nos estranhos, além do que ganhava para com Deus, por cujo puro amor fazia quanto fazia, e de quem esperava de tudo o verdadeiro galardão (291). Pelas quais razões lhe fez Sua Majestade mercê do bispado do Algarve, que depois regeu como sempre governou o do Funchal, enquanto residiu nele; e faleceu santamente (292).