CAPÍTULO TRIGÉSIMO
DOS FILHOS E FILHAS QUE TEVE O PRIMEIRO CAPITÃO DO FUNCHAL, JOÃO GONÇALVES ZARGO (169)
Dito tenho da pouca dita que tiveram os primeiros capitães de Machico, pois se extinguiu sua progénia no quarto capitão, que não deixou sucessor seu naquela capitania da parte do Norte desta ilha da Madeira. Agora direi, pelo contrairo, a boa ventura que nisto coube aos capitães do Funchal, da banda do Sul, de quem até aqui não faltou herdeiro. Pelo que notai também, Senhora, que, ainda que as prantas da banda do Norte têm menos dita, ou sorte, pois as açouta o vento em tal maneira, que ficam sem folha, sem flor e sem fruto, como se o fogo se lhe pusera, com que ardem e secam, como estes primeiros capitães de Machico (que tinham da mesma parte do Norte da ilha a maior parte), feneceram e acabaram com a tribulação e mal que sobre eles do Setentrião veio; todavia, a banda do Sul, que não é tanto inimiga de nossa natureza, mas mais criadora e conservadora dela, e conforme e macia à vida humana, de tal modo favoreceu, alimentou, criou e conservou aos ilustres Capitães do Funchal, a quem coube, por sorte mais ditosa, que dês o primeiro João Gonçalves Zargo até o derradeiro deste tempo (que foi o muito ilustre João Gonçalves da Câmara, filho mais velho e herdeiro da casa do ilustríssimo Conde da Calheta, e seu filho, tenra pranta, indo sempre de bem em melhor, se assim for adiante), nunca faltou capitão sucessor de tão alta e ilustre progénia, nem faltaram moradores à sua sombra, que com seus grandiosos e honrosos feitos engrandeceram e engrandecem aquela rica jurdição de felicíssima sorte, cuja alta progénia e sucessão irei, Senhora, contando, não como eles todos juntos e cada um, por si, merecem, mas como a minha fraca e ruda língua o puder contar, conforme ao que deles li em sua história recopilada ou coligida (depois de composta brevemente, primeiro, por Gonçalaires Ferreira) com mais curiosidade e erudição pelo reverendo cónego Hierónimo Leite, capelão de Sua Majestade (170), e como também ouvi de outras pessoas dinas (171), de fé e procurei com grande trabalho
saber na verdade, sem poder minha baixeza chegar ao altíssimo cume dos grandes merecimentos de seus heróicos feitos.
O felicíssimo capitão João Gonçalves Zargo, em tudo quanto tenho contado desta ilha da Madeira, e no que está por contar dela, foi o que, com sua boa e felice ventura, descobriu esta ilha, e com sua prudente diligência a cultivou e povoou, e com seus heróicos feitos a engrandeceu, e com sua valia a ennobreceu, e como manilha deu lustro, graça, preço e valor a todas as figuras e coisas que dela contei e por contar tenho, sendo tronco e raiz felicíssima, donde tão altas, generosas e ilustres prantas procederam, como agora direi, pois já de suas coisas atrás tenho dito.
Era casado João Gonçalves Zargo (172), ao tempo que foi à ilha da Madeira, com Constança
Roiz de Almeida, mulher mui principal, devota, santa e mui virtuosa, como sempre mostrou no discurso de sua vida.
Dela houve este primeiro capitão três filhos e quatro filhas. Houve João Gonçalves da Câmara, que herdou sua casa, e o segundo, que foi Rui Gonçalves da Câmara, que depois foi capitão desta ilha de São Miguel, de quem tratarei adiante, quando dela contar, o qual foi casado com dona Maria Betancor, filha de Micer Maciote de Betancurt, com a qual houve em casamento muita fazenda na mesma ilha da Madeira, além da que tinha de seu património, e não houve filhos dela. O terceiro filho que houve João Gonçalves, o Zargo, foi Garcia Roiz da Câmara, que foi casado com Violante de Freitas, de que houve Aldonsa Delgada, que casou com Garcia Palestrelo, morgado do Porto Santo, como já tenho dito.
As filhas do Zargo, por ser a terra nova e não haver na ilha com quem pudessem casar, segundo o merecimento de suas pessoas, mandou o dito capitão Zargo pedir a Sua Alteza homens conformes à sua qualidade para lhe dar suas filhas em casamento, e el-Rei lhe
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mandou quatro fidalgos, donde procedeu a mais ilustre e nobre geração da ilha. A primeira, que Breatiz Gonçalves da Câmara havia nome, foi casada com Diogo Cabral, irmão do Senhor de Belmonte, de que houve Grimaneza Cabral, que foi mulher de Tristão Teixeira, terceiro capitão da jurdição de Machico, como tenho contado; houve mais um só filho macho, que se chamava João Roiz Cabral, casado com Constança Roiz, a Moça; teve mais Joana Cabral, mulher de Duarte de Brito, e houve mais outra filha, a que não soube o nome, mãe de Tristão Vaz da Veiga, e outra casada com Rui de Sousa, o Velho, e outra casada com Rui Gomes da Gram, guarda-mor da «Excelente Senhora», e a outra, que casou com Vasco Moniz, de Machico.
A segunda filha do Zargo se chamava Isabel Gonçalves da Câmara. Foi casada com Diogo Afonso de Aguiar, o Velho; teve dele os filhos seguintes: Diogo Afonso de Aguiar, o Moço, que se chamou como o pai, e Pedro Afonso de Aguiar, o Raposo, armador-mor do Reino, e Rui Dias de Aguiar, o Velho, e Inês Dias de Câmara, que foi casada com um fidalgo de Évora por nome Foão de Camões, e Constança Rodrigues de Câmara, que nunca casou.
A terceira filha de Zargo se chamava Caterina Gonçalves de Câmara, mulher de Garcia Homem de Sousa, de quem houve uma só filha, que se chamou Lianor Homem, mulher que foi de Duarte Pestana. Estes quatro (173) fidalgos nomeados mandou el-Rei, por lhes fazer mercê, à ilha para casarem com estas senhoras, das quais houveram geração mui principal, que hoje são liados a esta casa dos Câmaras; e Garcia Homem de Sousa, por ter diferenças com seus cunhados, é o que fez uma torre, que está junto da Madre de Deus.
Depois que João Gonçalves Zargo casou suas filhas e fez as povoações de sua jurdição, e aproveitou as terras e as deu de sesmaria, sendo seu filho primogénito já em idade para governar a ilha, foi Deus servido de o levar para si, havendo muitos anos de sua idade, dos quais governou a ilha quarenta.
Era tão velho, que se fazia levar em colos de homens ao Sol, onde estava sustentando a velhice, com muito perfeito juízo e praticando e governando justiça. Tão grande cavaleiro foi e teve tanto nome e fama de esforçado e excelente capitão, que, havendo no tempo de sua velhice guerras em Portugal com Castela, vindo os castelhanos à ilha com suas armadas para destruírem a terra, ele se mandava pôr a cavalo, assim velho; e como os castelhanos sentiam que ele era o que regia sua gente, desistiam de entrar na terra, nem ousavam sair e pôr pé nela. Jaz enterrado este primeiro capitão, João Gonçalves Zargo, na capela-mor de Nossa Senhora da Concepção, que ele mandou fazer para seu jazigo e de seus descendentes, onde ora é o mosteiro das freiras (174).