DE ALGUNS FEITOS DO TERCEIRO CAPITÃO SIMÃO GONÇALVES DE CÂMARA, CHAMADO O MAGNÍFICO, E DE ALGUMAS COISAS QUE EM SEU TEMPO ACONTECERAM, E DOS FILHOS QUE HOUVE DE SUA PRIMEIRA MULHER, E COMO FOI
FEITA A VILA DO FUNCHAL CIDADE
O filho deste segundo Capitão João Gonçalves, chamado Simão Gonçalves de Câmara, o Magnífico, por morte de seu pai foi confirmado por Capitão, no mesmo ano, por el-Rei Dom Manuel, sendo em idade de quarenta anos, pouco mais ou menos, o qual foi chamado Magnífico, porque nunca pessoa alguma se chegou a ele pedir alguma coisa que lha negasse, por ser mui grandioso e de singular condição, sem nunca saber poupar o que tinha, despendendo tudo comummente com muita prudência em serviços de seu Deus e de seu Rei, em que foi tão solícito e diligente, que nove vezes foi a África com muita gente à sua custa, com socorro, como adiante se verá. A primeira foi estando el-Rei Dom João segundo em Santiago de Cacém, donde o mandou socorrer a Arzila, que estava cercada, e levou trezentos homens, que tomou a soldo no Regno, onde estava, em vida de seu pai, com a qual gente esteve seis meses à sua custa em Arzila, no fim dos quais, depois de ter feito boas cavalgadas e dado mostras de sua cavalaria, o mandou el-Rei vir.
Depois, no ano de mil e quatrocentos e oitenta e oito, o mandou o próprio Rei D. João em socorro a Graciosa, onde foi com oitocentos homens, e esteve neste cerco com esta gente a maior parte do Inverno, em o qual tempo, tão trabalhoso, tinham os mouros cercado a Graciosa.
Logo no ano seguinte de mil e quatrocentos e oitenta e nove (porque seu pai era já morto) (190), lhe escreveu el-Rei Dom João uma carta à ilha e, por ela, o mandou chamar para as
festas do Príncipe Dom Afonso, seu filho, dizendo-lhe na carta que em vir a elas, como se dele esperava, receberia tamanho serviço como se fora para se achar com ele em uma grande batalha, pelo que se fez prestes o dito Simão Gonçalves, como cumpria para tão grande acto, onde se ajuntavam todos os grandes do Regno. E, como ele era grandioso de coração e generoso de condição, despendeu nestas festas muito de sua fazenda, porque deu de vestir a muitos fidalgos e gente que levou em sua companhia, com muito aparato de criados e librés de brocado, e gastos que fez, mostrando-se tão lustruso, como cavaleiro, nos cavalos, jaezes e outros custos, que foram avaliados em grande soma de dinheiro. que ele não estimava pela grande e larga condição que tinha.
Governando já a ilha Simão Gonçalves de Câmara, por morte de seu pai, no ano do Senhor de mil e quinhentos e oito, el-Rei Dom Manuel, pelos serviços que os Capitães da ilha tinham feito à Coroa e pelo amor que ele a ela tinha (porque antes de ser Rei foi dela Senhor), mandou uma provisão aos moradores do Funchal, que havia por seu serviço, por respeitos que a isso o moviam e por fazer mercê ao capitão Simão Gonçalves e moradores, de fazer cidade a vila do Funchal, confirmando os forais e liberdades que el-Rei Dom Afonso quinto havia concedido a esta ilha e vila, e acrescentando outros, que hoje em dia tem. Donde não pagam direito dos mantimentos, com pacto dos quintos dos açúcares, que são direitos reais.
E mandou el-Rei logo, à custa de sua fazenda, fazer uma Alfândega, que se fez mui grande e mui custosa, e um magnífico e sumptuoso templo, com sua torre muito alta e soberba, que fez acabar para ser Sé Catedral, com dignidades e cónegos, obra tão acabada, como ele costumou sempre mandar fazer nas coisas de que tinha gosto. A qual Sé é tão perfeita e tão lustrosa, que se não sabe agora em Portugal outra, ainda que não grande, melhor acabada e tão bem assombrada. E a cidade, como já disse, será ao presente de dois mil vizinhos, e tem duas freguesias, e na Sé dois curas.
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No mesmo ano de mil e quatrocentos e oitenta e oito (191), tendo Diogo de Azambuja
ganhado a cidade de Safim (quando foi chamado do Castelo Real, que está à terra da ilha Mogador doze léguas de Safim), porque os mouros tinham morto Aldear Rahmão, seu tirano, mandaram os cabeceiras de Safim chamar o dito Diogo de Azambuja que se viesse apoderar da cidade, porque os matadores do tirano queriam ser vassalos de el-Rei de Portugal, temendo os parentes do mesmo tirano. O que Diogo de Azambuja fez, vindo com cento de cavalo, que os mouros (depois de o ter na cidade), arrependidos de os ter metidos nela, determinaram matar. O que sabido por Diogo de Azambuja, se recolheu em sua torre, das mais fortes de Safim, com casa de trato de portugueses, com porta para o mar.
E despachou logo uma caravela para a ilha da Madeira, e, por um cavaleiro, escreveu ao capitão Simão Gonçalves o extremo e necessidade em que ficava, e como os mouros da comarca se chegavam para os tomar às mãos e vinham com pregões de gazua (que é, segundo eles cuidam, como antre nós, indulgência plenária), para os matarem. O que sabido pelo capitão Simão Gonçalves, mandou logo trezentos homens, que fez na ilha dentro em três dias, e, após estes, se foi ele, em pessoa, com novecentos homens em treze navios, com muitos mantimentos, e chegou a Safim com tempos contrairos véspera de Natal do ano de mil e quinhentos e nove, onde esteve três meses com estes mil e duzentos homens à sua custa, além de outras pessoas nobres, que com ele foram a serviço de el-Rei, dos quais foi um João Dornelas; com o qual socorro, não somente assegurou a cidade, mas também pôs os mouros em serviço de el-Rei e fez tributários, estar a obediência do capitão; nem se quis partir dali até tudo ficar seguro e sujeito a serviço de el-Rei Dom Manuel, que estimou este socorro em muito e escreveu ao mesmo Simão Gonçalves de Câmara grandes agradecimentos, mandando-lhe que se viesse para ele, o que logo fez, indo-se a Évora, onde el-Rei, então, estava, que lhe fez muitas honras e mercês, encomendando-lhe muito o socorro do Castelo Real e de Santa Cruz de Gué, o que ele fez com muito cuidado, e por duas vezes o mandou cercar (192), estando por
capitão Diogo Lopes de Sequeira e no Castelo Real Diogo de Azambuja, antes que viesse a Safim. E a cada um destes socorros mandou o capitão Simão Gonçalves trezentos homens, e cinquenta, mui luzida gente, à sua custa, e estiveram lá muitos meses.
Era casado a este tempo o capitão Simão Gonçalves de Câmara com Dona Joana, filha de Dom Gonçalo de Castel-Branco, governador de Lisboa, senhor de Vila Nova de Portimão, e dela tinha os filhos seguintes: João Gonçalves de Câmara, que herdou a casa, e Manuel de Noronha, Bispo que foi de Lamego, um virtuoso prelado, o qual foi camareiro do secreto do Papa Leão décimo, que, se vivera mais tempo, sempre o fizeram grande na Igreja de Deus, e governou seu bispado em Lamego (no qual deu sempre mostras de mui prudente e mui católico pastor) em muita doctrina e exemplo, e foi um dos afamados prelados de seu tempo por sua grande virtude. Enquanto serviu o Papa, houve dele um regresso para as igrejas e cargos que vagassem em Portugal (que pertencessem a data do Papa), para os dar e tomar para si, e para quem quisesse, dos quais alguns vagaram, que deu, primeiramente, a seus parentes, depois a outros de sua obrigação. Deu a Martim Gonçalves de Câmara, seu sobrinho, uma conezia em Silves no Algarve, e o arcediagado de Baldigem, de seu bispado de Lamego, e uma igreja de Santiago de Britidande, e outra de Pina Flor (193), que tudo rendia
quinhentos mil réis em portátiles. Deu a Luís de Noronha uma igreja que anda anexa à sua comenda de São Cristóvão de Nogueira. Foi, finalmente, um mui ilustre prelado e de muito primor. Houve do Papa licença e faculdade para poder testar certa cópia dos bens acquiridos (sic) no bispado e, quando faleceu, deixou uma capela perpétua com seis capelães, de sessenta mil réis de renda cada um ano, e que fossem estes capelães mestres em qualquer ciência, até de Gramática, para ensinarem de graça no bispado, e que fosse ministrador desta capela o Capitão, herdeiro da ilha.
No ano de mil e quinhentos e dezasseis trouxe de Roma este Manuel de Noronha o capelo de cardeal ao Infante Dom Afonso, que lhe mandou o mesmo Papa Leão décimo, a quem ele servia de secretário, e de sua mão o recebeu o Infante em Lisboa, sendo presente el-Rei seu pai, com o título de Bispo Zagitano, Diácono Cardeal de Santa Luzia, e por grande honra o mandou o Papa por ele, com tenção que el-Rei, por isso, lhe fizesse grandes mercês (194).
(195) Era homem Dom Manuel de Noronha, Bispo de Lamego, que viveu com grande conta, peso e medida. Antes que fosse Bispo de Lamego, dotou à Misericórdia da cidade do Porto, onde era cónego, sessenta mil réis de renda para se casarem quatro orfãs cada ano, duas de escudeiros e duas mecânicos (sic), e, depois de Bispo, fez o mesmo no seu bispado e dotou à Misericórdia de Lamego outros sessenta mil réis, que se repartissem pela mesma maneira a
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outras quatro orfãs, as quais saem por sortes e, saídas as sortes, vão o provedor e irmãos da Misericórdia saber de sua virtude e costumes e, achando serem virtuosas, casando, lhe dão esta esmola a cada uma.
Cada ano cinco vezes, ordinariamente, dizia missa em Pontifical, sc. Natal, Páscoa, Pentecostes, Nossa Senhora de Agosto e dia de Todolos Santos, e nestes dias fazia certas e grossas esmolas particulares, a pessoas necessitadas e honradas, de dinheiro, que lhe mandava dar em suas casas; e, ainda que por alguma ocupação, ou por estar absente, (196)
não dissesse missa em Pontifical, não deixava por isso de mandar dar as mesmas esmolas naqueles próprios dias cada ano.
Fez muitas obras boas e grandes, em seu tempo, na Sé de Lamego. Deu-lhe muitos e ricos ornamentos e mandou fazer os órgãos, que são coisa muito para ver, porque era muito inclinado à música, e, por isso, tinha grande capela em sua casa, antes de ser Bispo e depois de o ser, de muitos cantores portugueses e castelhanos, a que dava bons prémios e partidos. Fez as crastas da Sé com suas varandas. Mandou alevantar a torre em grande altura, mais do que era, e fez uma capela para si, em que está sepultado, na crasta da Sé, muito rica e formosa, da invocação de São Nicolau, e deixou nela capelães com honestos mantimentos, que rezam o ofício divino cada dia, e tem missas cantadas de prima e terça, ordinariamente. Fez casas de colégio, muito boas, perto da Sé, em que pousam estes capelães para nelas lerem e ensinarem, como já disse. Trouxe um chafariz de água, de pedra de Estremoz, branca e formosa, que está defronte das suas casas, junto da Sé e do Colégio. Fazia muitas esmolas, outras a pessoas honradas e fidalgas, secretamente, que sabia ter necessidade, e também outras ao mosteiro de São Francisco, que está no meio da cidade. Quando sabia de alguns delinquentes e que viviam mal, mandava-os chamar a sua casa e com amor e caridade os amoestava e repreendia, que emendassem suas vidas e costumes, e, se o não faziam, os mandava prender e castigava. Reformou e alevantou e consertou algumas ermidas fora da cidade, como Nossa Senhora dos Meninos, Nossa Senhora de Santo Estêvão, e fez fazer a igreja do Espírito Santo, pegado com a cidade. E era muito inclinado a coisas do culto divino. Fez seu testamento muito copioso e tão discreto, espiritual e bem ordenado, que diziam homens doctos que era para se imprimir, no qual mandou pagar a seus criados e repartir muitas esmolas, deixando à Sé sua tapeçaria, com que toda se arma pelas festas. No tempo que foi Bispo, que poderiam ser vinte anos, pouco mais ou menos, fez sempre muitos bens e honrou muito a seus criados, a uns dando de sua fazenda e a outros benefícios e casais, e dinheiro.
Teve, finalmente, grande casa, capelães e criados. E foi um dos mais insignes bispos do Regno.
Houve mais Simão Gonçalves (desta primeira mulher) outro filho, que se chamava João Roiz de Noronha, que foi casado com Dona Isabel de Abreu, filha de João Fernandes do Arco, da ilha da Madeira, de quem não houve filhos. Este João Roiz de Noronha foi capitão de Ormuz, na Índia, em tempo do governador Dom Duarte de Meneses, seu cunhado, que foi no ano de mil e quinhentos e vinte e um. E, antes que entrasse na fortaleza, o foi do mar da costa de Diu e serviu bem a el-Rei até ser capitão de Ormuz, onde prendeu o tirano Raes Xarafo e o teve a bom recado na fortaleza até chegar o Viso-Rei, seu cunhado Dom Duarte de Meneses, o qual, chegado, pôs as coisas de Ormuz em paz e sossego.
Houve mais Simão Gonçalves de sua mulher Dona Joana uma filha, por nome Dona Filipa de Noronha, que foi casada com Dom Duarte de Meneses, filho herdeiro de Dom João de Meneses, Conde Prior, que tinha muitos cargos honrosos, sc. era Conde de Tarouca e dom Prior do Crato, capitão de Tânger, comendador de Sesimbra e mordomo-mor de el-Rei Dom Manuel; pelos quais cargos, que tinha, embarcando sua filha, mulher do Conde de Abrantes, Dom Lopo de Almeida, de Lisboa para Abrantes, e perguntando um homem cuja filha era, respondeu outro dizendo que era filha de cinco pais, pelos cinco cargos que tinha. E, ordenando el-Rei Dom Manuel de mandar um homem a Roma a coisas de muita importância, se conta que perguntava a fidalgos quem mandaria, e um lhe disse: eu nomearei a Vossa Alteza cinco homens, que cada um é muito para isso: o Conde de Tarouca, o Prior do Crato, o Capitão de Tânger, o Comendador de Sesimbra e o mordomo-mor de Vossa Alteza. Respondeu el-Rei: tudo isso ele merece e muito mais. Com o qual Dom Duarte de Meneses, (que foi capitão de Tânger e governador da Índia), filho herdeiro deste Conde Prior, casou o capitão Simão Gonçalves sua filha Dona Filipa de Noronha a troco, porque João Gonçalves de Câmara, irmão de sua mulher, casou com sua irmã Dona Lianor de Vilhena. Houve esta Dona
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Filipa de seu marido, Dom Duarte de Meneses, dois filhos, Dom João de Meneses, capitão de Tânger, e Dom Pedro de Meneses.
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