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CAPÍTULO VIGÉSIMO

No documento livro2 (páginas 70-78)

CAPÍTULO VIGÉSIMO

DOS CAPITÃES, FILHOS E NETOS, E MAIS POSSUIDORES E GOVERNADORES DA JURDIÇÃO DE MACHICO ATÉ A VINDA DE TRISTÃO VAZ DA VEIGA (119)

Partida a jurdição de Machico, que foi primeiro descoberta, Tristão povoou a sua capitania e comarca, que será de quatro léguas de comprido da parte do Sul, pouco mais ou menos, e o melhor de sua jurdição, e catorze da parte do Norte (como tenho dito), que, se não é de tanto proveito, é de grande jurdição e tem muito arvoredo, donde se faz muita madeira, grossos eixos, grandes madres, e muita lenha vem para os engenhos, casas e provimento de toda a jurdição do Funchal (120). E, além disto, se recolhe muito trigo, da banda do Norte, em muitos e bons lugares, como é São Vicente, o Porto da Cruz, São Jorge e a Ponta Delgada.

Depois que o Infante Dom Henrique mandou as canas de Sicília para se povoarem na ilha (121) e de Candia mandou trazer bacelos de malvasia para se prantarem, deu-se tudo tão bem nela, que, depois de se prantar no Funchal, trouxeram a pranta a Machico, que prendeu de maneira que, do primeiro açúcar que se vendeu na ilha da Madeira, foi na vila de Machico, onde se começou a fazer; recolheram treze arrobas dele, que se vendeu cada arroba por cinco cruzados, e mais se comprou por mostra, para se ver a formosura dele, que por mercadoria. O vinho malvasia é o melhor que se acha no Universo e leva-se para a Índia e para muitas partes do Mundo; e por estes frutos é a ilha mui célebre por toda parte. Nesta jurdição de Machico há só duas vilas da banda do Sul, Machico e Santa Cruz, donde se colhe muito proveito de açúcar e vinho, trigo e gado.

Este capitão de Machico, Tristão, foi tão estremado por seu esforço, naquele tempo que servia o infante Dom Henrique, que comummente lhe chamavam Tristão, sem mais sobrenome, por honra de sua cavalaria, porque el-Rei, por ele ser tal, lhe deu por armas em um campo azul uma ave fénix ardendo em uma fogueira, dando a denotar ser ele um dos melhores cavaleiros de seu tempo; e por essa razão o nomeavam por seu nome, somente, que era Tristão, porque era um fénix na cavalaria, e, assim como esta ave é uma só no Mundo, assim ele era um só cavaleiro de seu nome Tristão. Isto davam a demonstrar muitas provisões e cartas, que el-Rei lhe escrevia e os Infantes, e sempre o nomeavam por Tristão da Ilha, cavaleiro de sua Casa, e ele em seu testamento assim se nomeia, sem mais ornato de cognome, porque desta maneira se divisava em suas armas, que era (como tenho dito) uma ave fénix, a qual seus descendentes sempre trouxeram em suas armas, quarteadas com outras que ajuntaram da parte feminina, dos Teixeiras, que são uma cruz aberta e uma flor de lis, que hoje estão esculpidas no arco de sua capela, que se diz de São João Baptista, que está na igreja mor de Machico (122).

Alguns querem dizer que veio este capitão à ilha da Madeira com sua mulher e filhos na era de mil e quatrocentos e vinte e cinco anos, no mês de Maio, mas, ou viesse então ou quando tenho dito atrás, ele foi casado com Branca Teixeira, mulher fidalga, que procedia da casa de Vila Real, e dela houve quatro filhos e oito filhas: Tristão Teixeira, que disse das Damas, que herdou a casa, e Henrique Teixeira, que foi casado com Breatiz Vaz Ferreira. Foi este segundo filho grande lavrador e homem dado muito a agricultura, e, por essa inclinação, foi bem rico e enobreceu a vila de Machico, assi de muitos engenhos de açúcar como de canaviais, gado e pão, montados, que mandava roçar e aproveitar. Houve este Henrique Teixeira de sua mulher os filhos seguintes: João Teixeira, o Velho, e Pero Teixeira, e Henrique Teixeira, e Maria Teixeira, que foi casada com João de Abreu, e Breatiz Teixeira, que foi mulher de João do Rego, cavaleiro do Algarve.

O terceiro filho deste capitão Tristão se disse João Teixeira, casado com Filipa de Mendonça Furtada; foi grande caçador e inclinado a montear, e por essa causa havia na vila de Machico uma coutada sua, no Caniçal, de tanta caça de coelhos, perdizes, pavões e muitos

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porcos javaris (sic), que se afirma que era a melhor coutada de todo Portugal, o que dá a entender uma carta que hoje em dia está na Câmara de Machico, que escreveu El-Rei Dom Manuel aos oficiais dela, em que lhe encomenda muito que tenham estreita conta com a coutada dos filhos do primeiro capitão, que ninguém entre nela, porque lhe inculcavam e afirmavam que, se ele acertasse vir à ilha, em nenhumas outras terras podia montear e caçar senão nesta do Caniçal e campos de Santa Caterina. E, por ser esta jurdição de tanta caça, havia em Machico homens desta nobre geração, tão caçadores de gaviões, lebreus e cães de filha, que foi uma das nobres coisas do Regno, e dia se fazia que matavam duzentos coelhos, afora muitas perdizes e porcos monteses e outra muita caça, e todos vinham e entravam na vila a cavalo, com os gaviões na mão, que mais parecia uma nobre corte que vila de tão poucos vizinhos. Teve João Teixeira de sua mulher os filhos seguintes: João Teixeira e Tristão de Mendonça, e Dona Solanda, que foi casada com o terceiro capitão do Porto Santo (como já tenho contado), e Policena de Mendonça, que dizem que morreu de paixão, por não casar com um certo fidalgo, e Dona Filipa de Mendonça, que foi casada com Diogo Moniz Barreto, e Dona Luzia de Vasconcelos, que morreu sem casar.

O quarto e último filho do capitão Tristão se chamou Lançarote Teixeira; foi um dos melhores ginetairos da ilha, porque, além de por sua inclinação ser mui bom cavaleiro, tinha mui grande mão para domar cavalos e era dado muito a isso, em tanto que em seu tempo se ajuntavam na vila de Machico sessenta cavaleiros, de esporas douradas, mui bem postos, e encavalgados por indústria deste Lançarote Teixeira, que, quando vinha um dia de São João ou de Corpo de Deus, eram os cavaleiros tantos para jogos de canas e escaramuças, que mais parecia exército de guerra que folgar de festa; e, além de todos serem mui destros nesta arte, ele, todavia, se divisava antre todos, que se pode com razão dizer que foi luz e ornamento de Machico.

Foi casado este Lançarote Teixeira com Breatiz de Goes, da qual teve os filhos seguintes: António Teixeira, detrás da ilha, e Francisco de Goes, o Velho, e Augustinho de Goes, e Lançarote Teixeira de Gaula, e Dona Joana, mulher de Vasco Martins Moniz, e Dona Caterina, mulher de Garcia Moniz, do Caniçal, e Judite de Goes, que casou no Algarve, e Helena de Goes, que casou com Fernão Nunes de Gaula, e Ana de Goes, mulher que foi de Gonçalo Pinto, e Iria de Goes, que foi casada com seu primo João Teixeira, e, ultimamente (123), houve Breatiz de Goes, que não foi casada.

Das filhas deste primeiro capitão de Machico, a primeira houve nome Tristoa Teixeira, que foi casada com um fidalgo genoês, por nome Micer João; houve mais Isabel Teixeira, que foi mulher de João Fernandes de Lordelo; e outra, que se chamava Branca Teixeira, que morreu sem casar, a que comummente chamam a Mestra, pela virtude que tinha em curar, a qual foi instituidora da capela dos Reis, que está na igreja mor de Machico, a que deixou sua fazenda, onde hoje em dia há missa quotidiana. Houve outra filha, que se disse Caterina Teixeira, mulher que foi de Gaspar Mendes de Vasconcelos; houve mais Guiomar Teixeira, que (como já disse) foi casada com o segundo capitão do Porto Santo. Teve mais outra filha, que se chamou Solanda Teixeira, e outra, que chamavam Caterina Teixeira, que seu pai levou ao Regno e em Lisboa casou com um homem fidalgo; e outra que se chamou Ana Teixeira (124).

Este capitão Tristão, por uma desgraça que aconteceu em sua casa a um Tristão Barradas (125), homem havido por fidalgo, o qual este capitão castigou em sua casa e o teve aferrolhado

com uma braga, moendo em um moinho farinha, el-Rei o mandou ir à corte e que levasse consigo sua filha Caterina Teixeira (como fica dito); esteve preso em Lisboa, pelo castigo que fez ao Barradas, e, por sentença, foi degradado por certos anos para a ilha do Príncipe; e, antes que fosse, casou el-Rei sua filha mui honradamente. Alguns anos esteve neste desterro, no fim dos quais el-Rei o mandou vir e o restituiu outra vez na capitania; e governou ainda muitos anos depois disso (126).

Depois que foi restituído na capitania, por certos negócios que tinha no Algarve, se foi este Tristão, primeiro capitão, a Silves, onde faleceu da vida presente, deixando povoada sua jurdição com filhos e filhas e tão nobre geração, como ficou dele, tendo de sua idade mais de oitenta anos, dos quais governaria cinquenta, pouco mais ou menos.

Morto Tristão, primerio capitão, sucedeu na casa seu primogénito filho, Tristão Teixeira das Damas, primeiro do nome e segundo capitão de Machico. Chamou-se das Damas, porque foi mui cortesão, grande dizedor e fazia muitos motes a damas e era muito eloquente no falar; foi mui valido, presado e ufano de sua pessoa, e de bons ditos, e sobretudo bom cavaleiro (127).

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Foi casado com Guiomar de Lordelo, dama da Excelente Senhora; dela houve Tristão Teixeira, que se disse governador, que herdou a casa, e Guterre Teixeira, que foi casado com uma filha de Antão Álvares, de Santa Cruz, e Dona Violante Teixeira, que foi mulher de João Rodrigues Negrão, filho de Garcia Rodrigues da Câmara, a qual casou segunda vez com Vasco Moniz Barreto, filho de Vasco Martins Moniz.

Este Tristão Teixeira das Damas foi casado segunda vez com Alda Mendes, irmã do Bispo da Guarda, de que não houve filhos, e, por capítulos que dele deram falsamente a el-Rei, foi chamado por ele e deixou seu filho morgado por governador da jurdição e foi-se livrar ao Regno, onde andou alguns anos limpando-se do que lhe punham invejosos e, ainda que teve nisto muito trabalho e gastou muito do seu, todavia se livrou muito bem e com muito sua honra, tirando sua fama a limpo, e trouxe uma sentença que fosse preso ao Regno quem falsamente o acusava (128). Em vida deste segundo capitão de Machico foi o doctor Álvaro Fernandes por

corregedor com alçada a toda a ilha da Madeira, onde esteve e ministrou justiça alguns anos, e depois dele foi por corregedor a toda a ilha Fernão de Perada.

Depois que Tristão Teixeira das Damas, segundo capitão de Machico, veio livre do Regno e governou algum tempo, o levou a morte, que a todos leva, e jaz enterrado na capela da invocação de São João, que ele mandou fazer para jazigo dos capitães e sucessores seus, que está na igreja mor de Machico, onde se diz missa quotidiana da renda, que para isso obrigaram os capitães desta jurdição e andou anexa sempre ao morgado, de que é hoje em dia ministrador Tristão Castanho (sic) (129), que descende do tronco destes capitães. E no arco desta capela estão esculpidas as armas desta casa.

Por morte de Tristão Teixeira das Damas, sucedeu na casa Tristão Teixeira, governador, segundo do nome, e terceiro capitão de Machico, o qual se disse governador por razão que na vida de seu pai, estando ele no Regno livrando-se, governou a capitania alguns anos. Foi casado com Grimaneza Cabral, filha de Diogo Cabral, sobrinha do capitão do Funchal, da qual houve Diogo Teixeira, que herdou a casa, e Dona Maria Cabral, que foi casada com Chirio (sic) Catanho, irmão de Rafael Catanho e de Frederico Catanho, capitão da guarda de el-Rei Francisco de França; houve dela Hierónimo Catanho, muito afamado por sua gentileza, arte e discrição. Houve mais este capitão Tristão Teixeira, governador, Caterina Teixeira, que morreu moça, e Maria Teixeira e outra sua irmã, que foram freiras no convento do Funchal.

Na vida deste capitão, terceiro de Machico, foi por juiz de fora da cidade do Funchal e ouvidor desta capitania o bacharel Rui Pires, que serviu os ditos cárregos três anos e mais. E depois dele foi por corregedor de toda a ilha da Madeira o doctor Diogo Taveira, no qual tempo morreu o dito capitão Tristão Teixeira, governador, e jaz sepultado na capela de São João com seu pai.

Morto Tristão Teixeira, sucedeu na capitania Diogo Teixeira, seu filho, primeiro do nome e quarto capitão da jurdição de Machico; foi homem imperfeito do juízo, porque, sendo menino, lhe caiu de um telhado uma telha na cabeça, estando no colo de sua ama, de que ficou alienado do juízo e quase mentecapto. Contudo, porque na casa não havia filho barão que herdasse a capitania, governava tão mal, que em seu tempo se perdeu, como vemos muitas vezes perderem-se grandes coisas pelo mau governo delas. Foi casado com Dona Ângela Catanha, filha de Rafael Catanho, e dela houve duas filhas (se a corrupta fama o consente); uma delas se chamou Dona Margarida, que foi casada com António Vieira, meirinho da jurdição de Machico, e outra se chamou Dona Maria, que ainda vive.

Por este capitão não ter juízo para governar, el-Rei D. Manuel e el-Rei D. João, terceiro do nome, lhe quiseram tirar a capitania, e sobre isso o mesmo Diogo Teixeira trouxe demanda com el-Rei até o ano de mil e quinhentos e trinta e seis, e neste tempo, que durou esta demanda antre el-Rei e o capitão Diogo Teixeira, foi por corregedor à capitania de Machico o doctor Francisco Dias, que esteve nela com o dito cárrego nove anos, e, depois deste, foi por corregedor à mesma capitania de Machico o licenciado Antão Gonçalves, que esteve nela perto de três anos.

E depois deste licenciado ser ido para Portugal, foi por corregedor à dita capitania o licenciado João da Fonseca, o qual esteve nela com o dito cárrego três anos, e neste tempo ele foi tirar a devassa (130) do profeta do Porto Santo, como já tenho, atrás, contado.

Depois de acabados os três anos do licenciado João da Fonseca, foi por corregedor a esta capitania o licenciado Afonso da Costa. E todos estes tempos dos corregedores se arrendaram

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as rendas da dita capitania de Machico por el-Rei, da qual renda se davam cada ano duzentos mil réis para mantimento e sustentação do dito Diogo Teixeira, que estava em Portugal, em poder de Rafael Catanho.

E no ano de mil e quinhentos e trinta e seis, por dia do Espírito Santo, este Diogo Teixeira, quarto capitão da dita capitania, foi ter à vila de Machico, por lhe ser julgada a capitania por sentença da Relação, levando consigo Dona Ângela Catanha, filha de Rafael Catanho, e lhe foi entregue a capitania e rendas dela, contanto que a justiça pusesse el-Rei à custa das rendas do dito Diogo Teixeira, por ele não ser para mandar justiça, nem fazer ouvidor.

Esteve este capitão na posse da dita capitania até o ano de mil e quinhentos e trinta e oito, no qual tempo pariu sua mulher, Dona Ângela, as duas filhas, que tenho dito, Dona Margarida e Dona Maria; e el-Rei Dom João, terceiro do nome, lhe tirou a capitania e rendas dela, por lhe afirmarem alguns o que, porventura, suspeitavam e de certo não sabiam, mandando o mesmo Rei entregar Diogo Teixeira a João Simão de Sousa, que em aquela capitania fora escrivão, o qual Simão de Sousa teve o dito Diogo Teixeira, capitão, em seu poder, assim na vila de Santa Cruz como na cidade do Funchal, até o ano de mil e quinhentos e quarenta, em o qual tempo estava na ilha da Madeira o doctor Gaspar Vaz, desembargador, com alçada em toda a ilha (131).

No mesmo ano de mil e quinhentos e quarenta faleceu na cidade do Funchal, onde estava, este Diogo Teixeira, quarto capitão da jurdição de Machico, sem lhe ficar filho macho, nem irmão, nem herdeiro que lhe sucedesse na casa; e foi levado seu corpo à vila de Machico, por mandado do dito desembargador, e foi enterrado na cova e capela de seu pai e avós, sendo homem (segundo diziam) de cinquenta e cinco anos.

Por morte deste quarto capitão, Diogo Teixeira, ficou a casa e herança à Coroa, por não lhe ficar sucessor varão.

No ano de mil e quinhentos e quarenta e um fez el-Rei Dom João terceiro mercê desta capitania a António da Silveira, capitão que foi de Diu, na Índia, por serviços que lhe tinha feito (132). E no mesmo ano foi Diogo de Frágoa tomar posse por ele, e por seu logotente (sic); levou

por ouvidor ao licenciado Luís Manriques, que nela serviu de ouvidor seis anos, e, acabados, serviu o licenciado António Gramaxo um ano e mais, e no ano de mil e quinhentos e quarenta e nove o dito António da Silveira, com licença de el-Rei Dom João, vendeu esta capitania ao Conde do Vimioso, Dom Afonso Portugal (que foi cativo em África na batalha sem ventura pouco há passada), a retro por seis anos, por trinta e cinco mil cruzados; e no mesmo ano foi à capitania de Machico Paulo Pedrosa, criado do Conde do Vimioso, a tomar posse dela, e com ele por ouvidor o licenciado Luís da Rocha, que serviu de ouvidor três anos, até o ano de mil e quinhentos e cinquenta e dois, em que faleceu António da Silveira, sem tirar a capitania, pela qual razão ficou com o Conde do Vimioso, que a governava por seu logotente (133).

No ano de mil e quinhentos e cinquenta e quatro foi por ouvidor a esta capitania Bernardim de Sampaio, que esteve por ouvidor e logotente até o ano de mil e quinhentos e cinquenta e seis anos, em que o prenderam no mês de Fevereiro do dito ano, e esteve preso na cadeia da vila de Santa Cruz por uma querela que uma mulher dele deu, e foi levado a Portugal e lá se livrou. Depois de Bernardim de Sampaio, serviu de ouvidor e logotente na dita capitania Tomé Álvares Usademar um ano e mais, após o qual, no ano de mil e quinhentos e cinquenta e sete, foi com os mesmos cárregos o licenciado Francisco do Amaral, que serviu até o ano de mil e quinhentos e sessenta, no qual ano foi à ilha da Madeira por desembargador com alçada o licenciado Simão Cabral e prendeu o dito ouvidor Francisco do Amaral, tirando devassa do ferimento de Jácome Dias, corregedor que foi na cidade do Funchal, e levou o dito licenciado Francisco do Amaral preso a Portugal, por rezão deste ferimento, e lá se livrou; o qual Jácome Dias, corregedor, feriram na vila de Machico uma noite à porta da casa do Conselho, onde pousava, então, vindo ali fazer umas diligências por mandado de el-Rei.

Logo sucedeu por ouvidor e logotente nesta capitania Sebastião Coelho, que serviu perto de três anos, até o ano de sessenta e dois, em que se foi para Portugal, e não houve nela ouvidor e, se alguns foram depois, eu não sei os nomes deles. E por falecimento do Conde do Vimioso, Dom Afonso Portugal, foi capitão de Machico o Conde seu filho, Dom Francisco, que em batalha naval foi morto junto desta ilha de São Miguel, vindo na armada francesa; e também por sua morte vagou esta capitania e ficou à Coroa (134). E em tal estado esteve, que nem se

achava nesta populosa jurdição de Machico pessoa que, boamente, pudesse sustentar um cavalo (excepto duas ou três pessoas); toda esta monarquia se converteu em pobreza e foi um

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sonho passado para os trabalhos que depois padeceram toda a gente desta tão nobre geração e tão próspera capitania. E, se tudo sobejou aos progenitores, bem o pagaram depois os descendentes, que estão postos no extremo grau de pobreza, porque nunca foi coisa sobeja que por tempo não faltasse. Estas voltas dá o Mundo, em que tanto confiamos, sem jamais nos acabarmos de desenganar de seus enganos (135).

Capítulo Vigésimo Primeiro 64

CAPÍTULO VlGÉSIMO PRIMEIRO (136)

EM QUE A VERDADE COMEÇA A CONTAR A PROGÉNIA E HERÓICOS FEITOS DE

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