DO ARCEBISPO E MAIS BISPOS QUE FORAM À ILHA DA MADEIRA E HOUVE NELA ATÉ O TEMPO DO BISPO DOM HIERÓNlMO BARRETO (262)
Neste ano de mil e quinhentos e trinta e oito, porque el-Rei Dom João, terceiro do nome, tinha feito mercê do bispado do Funchal a Dom Martinho de Portugal, e, porque era tanto seu parente, lho deu com título de Arcebispo, por ser também a ilha de grande província de todalas terras descobertas até a China, inclusive, e a esta ilha, metrópole das ditas terras, vinham as apelações e agravos de todalas partes no mar adjacentes.
E, porque havia muito que a sede estava vacante, mandou o Arcebispo, neste mesmo ano, um Bispo à ilha e dois visitadores para visitarem o arcebispado.
O Bispo (que Dom Ambrósio se chamava) crismou e deu ordens e fez todos os ofícios competentes ao cargo pontifical do dito Arcebispo. E, porque ainda neste ano e princípio dele picava a peste na cidade do Funchal, o Bispo Dom Ambrósio saiu e desembarcou com os visitadores (que Jordão Jorge e Álvaro Dias haviam nome) em Machico, onde estiveram até passar o mês de Maio e dia do bem-aventurado Santiago Alfeo, no qual teve Nosso Senhor por bem e seu serviço levantar o mal, por rogos e merecimentos do Santo Apóstolo, sem nunca mais o haver na ilha, como fica dito.
Passado o perigo do mal contagioso, vieram os visitadores à cidade e executaram em toda a ilha seu ofício, não com aquele mimo com que o bispado estava criado, antes com muito rigor e aspereza, porque os calos, que os vícios tinham feito nas almas dos delinquentes, era necessário desfazê-los com a trementina (263) do castigo e não com óleo de brandura e piedade, pelo que estavam malquistos.
O Bispo Dom Ambrósio, antes de um ano acabado, como não teve mais que fazer, foi-se para o Regno, e os visitadores não tardaram muito após eles; porém a caravela, em que ambos embarcaram, se foi perder com eles e os mais, que nela iam, e com quanta fazenda da ilha levavam, na costa de Sines, na ilha Pessegueira, sem escapar viva pessoa.
Todo o tempo que o Arcebispo governou o arcebispado foi mui felice, porque amava muito o seu Cabido e trabalhava pelos acrescentar em rendas e honras e descanso, dando-lhe liberdades e privilégios largos, e constituições compatíveis, reguladas pelos outros bispados; e concedeu aos capitulares três meses de estatuto, que ficou por regimento dos outros bispados, que deste se desmembraram, além de meios dias de barba e dias de hóspedes e lavagens de sobrepelizes, e outras liberdades que gozavam, porque queria o Arcebispo que, ainda que os benefícios fossem de pouca renda (que cada cónego não tinha mais de doze mil réis cada ano), que, no administrar deles e na solenidade e aparato dos ofícios divinos, se regesse tudo pelo melhor e mais nobre arcebispado do Regno (264).
E ainda que haja alguma intermissão de anos, em que aconteceram outras coisas, que adiante contarei, por dizer dos mais prelados todos juntos, sem misturar as coisas sagradas com leigais e profanas, contarei aqui juntamente todos os mais prelados, que à ilha da Madeira foram, e houve e há nela, até o ano presente de mil e quinhentos e noventa (265). E assim ficará dito atrás o que, pela ordem dos anos, se houvera de contar adiante.
No ano de mil e quinhentos e quarenta e sete foi Deus servido chamar para si o Arcebispo Dom Martinho, prelado de tanta virtude e sangue, por cuja morte ficou a sede vacante até o ano de mil e quinhentos e cinquenta e um. E neste meio tempo foram provisores neste bispado, primeiramente, o arcediago Amador Afonso, que o foi dois anos, e depois o tesoureiro Pero da Cunha (266) e o cónego Lopo Barreiros.
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E, logo, no ano seguinte de quarenta e oito, sendo a sede vacante, foi de Canária à ilha da Madeira um Bispo castelhano de anel, que às Canárias fora dar ordens, chamado Dom Sancho, e, porque já havia anos que ao bispado não fora Bispo para crismar e dar ordens e fazer outras coisas necessárias, mandou o Cabido e o convento de São Francisco pedir licença ao Regno para este Bispo castelhano executar nela o ofício pontifical, principalmente para consagrar a igreja do moesteiro do bem-aventurado São Francisco, por ser tão antiga casa e de tanta devação na cidade; a qual licença concedida, deu na mesma cidade ordens a muitas pessoas e correu a ilha toda, crismando comummente a todos os que disso tinham necessidade. O que feito, quando da ilha se foi, por lhe contentar a fertilidade, frescura dela e conversação da gente nobre, foi ter a Lisboa com propósito de pedir a el-Rei aquele bispado, alegando para isso o serviço que nele tinha feito, o que vendo Sua Alteza, e como era castelhano, mandou-lhe satisfazer muito bem seu trabalho e houve por escusada sua petição, visto como não era natural e no Regno havia muitos que o mereciam.
E, porque Dom Gaspar, frade da ordem de S. Augustinho de Nossa Senhora da Graça, era confessor de el-Rei e doctíssimo na Sagrada Teologia, fez-lhe mercê do o fazer Bispo da ilha da Madeira, e neste próprio ano suplicou ao Papa que, por as províncias e ilhas descobertas serem mui remotas daquela ilha, era muito serviço de Deus fazerem em todas estas partes bispos e desmembrá-los do arcebispado da ilha, e que ela ficasse em bispado, como as ilhas dos Açores e a ilha de São Tomé e a Índia. E, porque o Castelo de Arguim estava perto da dita ilha da Madeira mais que de outra parte alguma, que ficasse sujeito ao mesmo bispado com a ilha do Porto Santo, e, daqui por diante, ficou a ilha em bispado da província e metrópoli (sic) de Lisboa, aonde vão apelações dele.
E no ano de mil e quinhentos e cinquenta e dois mandou o dito Bispo Dom Gaspar (que, depois, foi de Coimbra) à ilha, por seu provisor e vigairo geral da vara, António da Costa, licenciado em Cânones, daião que era da ilha Terceira e depois foi chantre do Funchal, e por morte do daião Filipe Rebelo foi daião da mesma cidade do Funchal, servindo sempre de provisor até a vinda do ilustríssimo e reverendíssimo Bispo Dom Hierónimo Barreto, e faleceu na era de setenta e seis (sic); no qual tempo serviu, sempre mui inteiramente o cargo de provisor, visitando por especial mandado dos prelados de seu tempo todo bispado e castigando e emendando os delinquentes com muita prudência, porque era singular letrado, e foi mui temido, e, por essa razão, abstero (267) de sua condição (268).
E, porque o Bispo Dom Gaspar era muito aceito a el-Rei, vagando na era de mil e quinhentos e cinquenta e seis o bispado de Leiria, lhe fez mercê dele e, por sua renunciação, a fez também do Bispado do Funchal a Dom Jorge de Lemos, frade domínico, que dele foi depois tomar posse no ano de cinquenta e oito, que, por haver muito que na ilha não residia prelado, antes ele se podia dizer ser o primeiro que, com verdadeiro nome dele, àquela terra ia, como proprietário.
Foi mui bem recebido e governou o bispado cinco anos, nos quais se houve como prudente e virtuoso prelado, e se soube sair e expedir de muitos trabalhos e enfadamentos, que lhe neste tempo aconteceram, dos quais se desfez com muita sua honra.
Este foi o primeiro Bispo proprietário que foi à ilha e houve de Sua Alteza renda para mestre de capela, que trouxe consigo, em cujo tempo lustrou muito a música naquela terra, porque o Bispo favorecia os cantores e músicos por o ele ser muito de sentido, pelo que fez uns capítulos, para regimento da Sé, dos ofícios de que era mui afeiçoado, e não passava domingo e dia santo que a eles não fosse presente. Fez de novo (para melhor apascentar as ovelhas no grémio e pasto espiritual) na cidade do Funchal duas freiguesias, Nossa Senhora do Calhau, com vigairo e cinco beneficiados e um sancristão (sic) com honesta renda, e outra em S. Pedro (269). E, pela desmembração dos benesses e emolumentos destas freiguesias, houve de el-Rei para o Cabido cinquenta e dois mil réis, com obrigação das missas de todos os dias, que eram da obrigação do daião, que fez dois curas na Sé, com muito boa renda do pé do altar.
Depois de ter postas em boa ordem e reformadas as principais coisas do bispado, como seus espíritos aspiravam a mais subidas coisas, foi-se para o Regno na era de sessenta e três, donde mais não tornou à ilha, assim por que neste tempo vieram os cossairos saquear a terra, como por outros inconvenientes que o moveram renunciar o bispado.
Foi este prelado mui isento de condição e algum tanto áspero dela, por castigar seus súbditos com severidade; porém, sempre fez o que devia, dando o prémio a quem o merecia e castigando os obstinados. Teve grande casa, muitos criados, os quais todos tratava com muita
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polícia. E, sendo no Regno, o fez el-Rei Dom Sebastião seu esmoler-mor. Renunciou o bispado no ano do Senhor de mil e quinhentos e sessenta e nove. E em quinze de Novembro do dito ano foi a renunciação aceita pelo Papa e, em seu lugar, confirmado Dom Fernando de Távora, também frade domínico, e pregador de el-Rei Dom Sebastião (270).
Consagrado o Bispo Dom Fernando de Távora, ao tempo que devia de ir à ilha, veio não gostar dela, nem dos negócios que lhe cresciam do bispado, por ser de sua condição quieto e dado ao estudo das letras sagradas, criado sempre na quietação e recolhimento de sua cela, pelo que veio aborrecer a gente, e não se sabe, se por esse desgosto, se por, na verdade, carecer da vista, tomou por ocasião dizer que era cego e não se atrevia reger o bispado; e, enfim, veio a renunciá-lo e recolher-se em uma quinta no lugar de Azeitão, afastado do concurso da gente, que ainda lá o buscavam sobre negócios da ilha.
Aceita a renunciação, esteve o bispado assim alguns anos, até que Deus foi servido dar-lhe outro prelado que o governasse: este foi também de nobre geração e clérigo da ordem de São Pedro, como agora direi, por dizer logo de todos os Bispos da ilha neste lugar, já que comecei a falar deles (271).
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