• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO TRIGÉSIMO SEXTO ( 223 )

No documento livro2 (páginas 119-126)

DO QUE FEZ ANTÓNlO GONÇALVES DE CÂMARA, FILHO DA CAMAREIRA-MOR DA RAINHA DONA CATERINA, NA ILHA DA MADEIRA, E DO QUE MAIS LHE ACONTECEU,

CASANDO NELA, E FORA DELA (224)

Contado tenho acima como o Capitão Simão Gonçalves, primeiro do nome e terceiro Capitão da ilha da Madeira, chamado, por suas obras, o Magnífico, de sua primeira mulher, Dona Joana, filha de Dom Gonçalo de Castelbranco, Governador de Lisboa e Senhor de Vila Nova de Portimão, houve um filho, que se chamava João Roiz de Noronha, que serviu bem a el-Rei e foi Capitão-mor do mar na Índia e, depois, Capitão de Ormuz, em tempo do Governador Dom Duarte de Meneses, seu cunhado, no ano de mil e quinhentos e vinte e um. Este João Roiz foi casado com Dona Isabel de Abreu, filha de João Fernandes, senhor da Lombada do Arco, da ilha da Madeira, de que não houve filhos. Com uma irmã da qual, chamada Águeda de Abreu, filha do mesmo João Fernandes, casou João Esmeraldo, de nação genoês (225), senhor da Lombada de seu nome na mesma ilha. Também tenho dito que, da freiguesia (sic) da Madalena a um quarto de légua, está a Lombada que foi de Gonçalo Fernandes, marido de Dona Joana de Sá (226), camareira-mor da Rainha Dona Caterina, e

outro quarto de légua além desta Lombada de Gonçalo Fernandes, da Serra de Água, para a parte do Ocidente, está outra Lombada, que se chama o Arco, que foi de João Fernandes, pai destas duas irmãs, que agora disse, irmão do dito Gonçalo Fernandes, pai de António Gonçalves de Câmara, monteiro-mor de el-Rei, primo com-irmão das mesmas duas irmãs.

Isto pressuposto, nestas duas lombadas, antre os moradores delas, aconteceu o que, Senhora, vos contarei, para verdes e apregoardes melhor pelo Mundo a prudência e virtude das mulheres e a valentia e esforço dos homens, e as grandezas desta ilha da Madeira, tão grande e rica e poderosa em suas coisas, como magnífica e ilustre em seus moradores (227).

No ano de mil e quinhentos e trinta e um, porque Dona Isabel de Abreu, mulher que foi de João Roiz de Noronha, filho do Capitão Simão Gonçalves, por falecimento do dito seu marido e de seu pai João Fernandes, estava viúva e rica e possuía a Lombada do Arco, o que vendo António Gonçalves de Câmara, que morava ali perto, por ajuntar estas duas fazendas, que eram mui grossas, lhe veio a querer bem, desejoso de casar com ela. E dizem que, por meios de uma moura, de casa de Dona Isabel, privada sua, que, por certo dinheiro, lhe deixou uma janela aberta, teve maneira com que entrou de noite com ela, com tenção de a receber por mulher.

Vendo-se Dona Isabel salteada dele, como era mui virtuosa e discreta, dissimulou com ele, dizendo que lhe não convinha fazer casamento daquela maneira, que ela queria ser sua mulher e ao outro dia, pela manhã, a viesse receber, para o qual haveriam depois rescrito de Roma; com estas e outras palavras vencendo-se António Gonçalves, se tornou sem tocar nela e, ajuntando ao outro dia perto de cinquenta homens de cavalo da Ponta do Sol e Ribeira Brava, que logo acudiram a seu chamado, foi com grande pompa e aparato para a receber, como lhe tinha dito, mas ela zombou dele, fazendo-se forte em suas casas com sua gente, que tinha muita. Achando-se António Gonçalves zombado, injuriado e afrontado, se tornou para sua fazenda, embarcando-se dali a poucos dias para Lisboa, onde andou dois anos, a cabo dos quais se tornou para a ilha.

Aconteceu um dia que, fazendo Dona Isabel uma romaria, ou (como outros dizem) indo de sua casa, ricamente ataviada e muito acompanhada, para a Calheta, a um baptismo, para que a convidaram, passando por junto da fazenda de António Gonçalves, por ter por ali o caminho, sabendo-o ele e tendo para si que se lhe mostrava e queria já consentir no casamento (porque quem ama tudo suspeita), ajuntando muito prestes muita gente com muitas armas, que lhe não faltavam, se foi ao caminho e, tomando a mula, pelas rédeas, em que ia Dona Isabel, a levou e

Capítulo Trigésimo Sexto 109

meteu em suas casas contra vontade de seus parentes e dos seus, especialmente não consentindo nisso Águeda de Abreu, sua irmã, mulher de Cristóvão Esmeraldo; de que logo foi recado à cidade e, vindo o Ouvidor da Capitania do Funchal com muita gente, por não estar, então, o Capitão na ilha, achou António Gonçalves com outra tanta mui armada, sem lhe querer obedecer enquanto ele mandava, fazendo-se forte em suas casas, às quais, querendo o ouvidor chegar por força, se começou travar uma escaramuça temerosa e perigosa antre ambas as partes, pondo-se o risco de haver antre uns e outros muitas mortes; o que vendo António Gonçalves e Dona Isabel, por evitar tanto dano, de que seriam causadores, saíram ambos a umas varandas, donde falaram ao Ouvidor, perguntando-lhe que queriam, que ele estava com sua mulher, dizendo Dona Isabel o mesmo, que estava com seu marido e bem se podia tornar embora.

Despedindo-se o Ouvidor com isto e tornando-se já para o Funchal, disse Dona Isabel a António Gonçalves que, pois vinham ali com o Ouvidor muitos parentes seus e amigos, não era razão que se tornassem, sem comer, tão comprido caminho e, já que tudo estava em paz, os convidasse; parecendo bem estas palavras a António Gonçalves, mandou logo abrir as portas, dizendo que entrassem todos para comerem e descansarem.

Entrando o Ouvidor com sua gente, alcaides, meirinhos e juízes de todas as vilas e lugares daquela capitania na sala, arremeteu Dona Isabel e apegou-se com ele, dizendo e aqueixando-se que, forçosamente, a tinham naquela casa, que lhe valesse com justiça. Trouxe-a, então, o Ouvidor consigo, com obra de cento e cinquenta homens de guarda, para o Funchal, e, por ser tarde, se foram aposentar na fazenda de Cristóvão Esmeraldo, marido que fora de Águeda de Abreu, irmã desta Dona Isabel.

Vendo-se António Gonçalves, com aquele virtuoso e prudente engano, esbulhado de sua posse e despojado da esposa, que tanto amava e desejava, naquela noite ajuntou oitenta homens bem armados da Ribeira Brava e Ponta do Sol e Calheta, antre os quais entravam muitos fidalgos, seus amigos, e muitos homiziados, alguns por mortes de homens, e outros, ladrões, que vinham emmascarados (sic), por não serem conhecidos, com grande cópia de mantimentos, e, não contente com isto, mandou buscar à cidade (sem haver que lho tolhesse, por estarem ali todos os oficiais da justiça como presos) dois falcões pedreiros, com muita pólvora para derribar as casas onde estava o Ouvidor com Dona Isabel e sua gente, alguma dela posta em campo, fazendo-se forte ao derredor delas.

E António Gonçalves, com os seus em seu cerco, mui determinado com mão armada de lhe fazer muitos danos, até lhe tomar as águas, que vinham para a fazenda, e mandar cevar os falcões e atirar à câmara, onde Dona Isabel estava, tendo no campo sua gente de guerra com esta estância de artilharia, bandeira arvorada, acometendo com tudo isto, a som de tambores, as casas de Águeda de Abreu, e foi tal o desafio, que se acharam quatro irmãos, dois da banda de António Gonçalves e outros dois do outro bando, com que parecia mais que civil batalha; mas, vendo os fidalgos da parte de Dona Isabel as perdas e danos, que desta briga resultavam, e mortes, que a muitos podiam recrescer e suceder ao diante, havendo seu conselho (como se estiveram retidos em África, sem esperar socorro), visto a desordem da maneira que acometia António Gonçalves, depois de disparada a artilharia, intervindo nisso alguns parentes dela, vendo também que não parecia mal o casamento antre duas tão abalizadas pessoas, começaram de haver correios e recados e tratar pazes antre eles e, havendo já oito dias que estavam cercados, vieram, finalmente, a concerto de suceder (228)

Dona Isabel, pelas amoestações (sic) que seus parentes e não parentes lhe fizeram, ao que António Gonçalves de Câmara pretendia. Mas, não se querendo ele confiar mais a terceira vez dela, como bem experimentado já dos outros dois enganos, senão determinado de a levar consigo a seu arraial, deu-lhe ela, então, três fidalgos em arreféns, com promessa de ao outro dia se irem receber à sua fazenda, o que foi cumprido e feito, acompanhando-os a ambos mais de duzentos de cavalo.

Chegada Dona Isabel de Abreu e António Gonçalves de Câmara a sua fazenda e recebendo-se ambos, foram feitas grandes festas e vodas (229), em que comeram todas aquelas pessoas que os acompanharam.

Estavam na sala primeira dos seus paços quatro potes de prata fina, em quatro cantos dela, que levaria cada um deles três almudes de água, com quatro púcaros de prata, cada pote com o seu, presos com cadeias do mesmo; e toda aquela gente honrada, que se achou naquele banquete, que seriam mais de duzentas pessoas, afora outros e servidores, que eram mais de

Capítulo Trigésimo Sexto 110

outros tantos, comeram todos em baixela de prata, sem se antremeter no serviço coisa de barro, nem estanho, onde se gastaram ricos e esquisitos manjares de toda sorte, como os sabem muito bem fazer as delicadas mulheres da ilha da Madeira, que (além de serem comummente bem assombradas, muito formosas, discretas e virtuosas) são estremadas na perfeição deles e em todalas invenções de ricas coisas, que fazem, não tão somente em pano com polidos favores, mas também em açúcar com delicadas frutas.

Contudo, não consentindo neste casamento Águeda de Abreu, nem sendo contente de sua irmã se ir com António Gonçalves, uns dizem que, daí a poucos dias, fretou um navio e se foi a Lisboa; outros dizem que escreveu este caso a seu marido, que lá estava, na Corte; outros que já neste tempo era viúva e em pessoa se foi queixar ao Regno, e, entrando no Paço, chamou «aque (sic) d’el-Rei», e, tendo portaria para falar, como era muito discreta e grave, e mulher entrada na idade, com grande sentimento contou a el-Rei tudo o que passava e a afronta que lhe fizeram em sua fazenda, e como lhe tomaram as águas, com que moíam, e quiseram derribar as casas, contando outras forças e injúrias.

Outros dizem que não foi, mas que pôs grande diligência, com que fez saber a Sua Alteza tudo quanto passava (tanto esquecimento tem uma coisa que parece acontecer ontem, que já hoje há dela tantas opiniões tão diversas), de maneira que, com suas inteligências, que teve neste caso (ou fosse ao Regno ou escrevesse), acabou tanto com el-Rei (que era amigo de fazer justiça e desafrontar agravados), que, estranhando muito isto e querendo castigar a António Goncalves, logo mandou um corregedor à ilha, que era desembargador e doutor, chamado Gaspar Vaz, e um meirinho, que chamavam o Carranca; uns dizem que com cento, outros que com trezentos homens, soldados de sua guarda, para o prenderem, o que sabido por ele, secretamente mandou levar sua mulher Dona Isabel, ao moesteiro das freiras do Funchal e se pôs a monte com muita companhia.

O desembargador, como era homem bem inclinado, fazendo seus autos e tirando suas devassas, se tornou para o Regno sem poder prender a António Gonçalves, que muito prestes deu consigo em Canária, e daí em África, onde serviu a el-Rei muitos anos com muita gente e cavalos, à sua custa, e por rogos e petições de sua mãe, que era camareira-mor da Rainha, se foi pacificando a coisa por tempo (que é o que tudo cura) e, ainda que muitos dos de sua companhia foram desterrados e sentenciados à morte, por António Gonçalves (como alguns dizem) se embarcar em um navio, em que foi com socorro ao Cabo de Gué, na opressão em que estava aquele ano de mil e quinhentos e quarenta, em que foi ganhado dos mouros, que ele já achou tomado, e por outros serviços, que em África fez a el-Rei, com muitas despesas, e por intercessão de sua mãe (230), que trabalhou muito em seu livramento, houve de el-Rei perdão e que se livrasse por justiça, o que ele fez, vindo-se de África meter no castelo e prisão, e, chamando-se às ordens, foi livre, sendo seu juiz o Arcebispo do Funchal, Dom Martinho de Portugal.

Não houve António Gonçalves filhos de sua mulher, Dona Isabel, que viveu com ele alguns anos, no fim dos quais faleceu da vida presente. E no tempo que estas coisas aconteceram, estava a mãe do Capitão na ilha e, não estando ele presente, mandava seu ouvidor por ele.

Depois de viúvo, António Gonçalves de Câmara (por concluir aqui logo toda sua história, ainda que era o que se segue de tempo futuro a respeito do em que isto atrás dito passou) foi à Corte, onde andou alguns anos. E no de mil e quinhentos e cinquenta e cinco, pouco mais ou menos, tornou de Lisboa à ilha da Madeira (já em tempo do Capitão Simão Gonçalves, que foi depois Conde da Calheta), casado segunda vez com Dona Margarida de Vila Verde, dama da Rainha, filha de Dom Pedro de Vila Verde, capitão dos ginetes, trazendo-a consigo, para o recebimento da qual mandou el-Rei ao Capitão do Funchal que se fizessem muitas festas e não trabalhassem seis dias, para mais as solenizarem, o que tudo se fez com muita diligência e amor, ajuntando-se cavaleiros de toda a ilha, ricamente guarnecidos, trazendo com os mais deles dois e três cavalos a destro, com ricos jaezes e suas cobertas, e moxilhas (sic) de veludo, e cabeçadas, e esporas douradas, cada um com dois, três, quatro, cinco e seis criados, todos vestidos de libré de seda de várias cores e modos; porque, como se ajuntavam de todas as partes da ilha, cada um, a porfia, inventava novas invenções e trajos para vestir mais galante e, como se põem os olhos muitas vezes mais nos criados que nos senhores, esmeravam-se em tudo.

Além dos da cidade, que foram muitos e galantes, da vila de Santa Cruz vieram dez ou doze muito bem ataviados, e de Machico e das mais partes da sua capitania, que havia de ser contra

Capítulo Trigésimo Sexto 111

bando dos da capitania do Funchal, vieram muitos e destros cavaleiros, antre os quais vinha Francisco de Leomellim, filho de Pero de Leomellim, do Porto do Seixo, perto de Santa Cruz (como já fica dito), o qual havia dois anos que era chegado de África, onde, dantes, alguns estivera cativo (sic), e, tendo seu pai juntos quinze mil cruzados para seu resgate, quis Nosso Senhor que fugiu com o mouro de sua guarda. Veio este cavaleiro às festas ricamente vestido, com três poderosos cavalos, que todos cansou na escaramuça e jogo de canas, em que se estremou antre todos, porque era tão destro no jogo delas e tão bem se adargava, que lhe não dava cana, nem nas unhas do cavalo.

Antre eles, houve outros, do outro bando, dos Betancores, da Ribeira Brava, que mui bem o imitavam. Fizeram-se grandíssimas festas de muitas lutas, de ricos prémios, grandes fogaças, grossas dádivas, que dava o Capitão Conde a quem derribava algum grande lutador, por ele ser muito afeiçoado à luta.

Ordenaram-se muitas soiças (231) de arcabuzeiros, e danças, em que iam os mais vestidos

de seda, por mandar el-Rei que os vestidos dela, que para estas festas se fizessem, pudessem todos trazer depois sem pena, até se romperem; pelo qual gastaram neles, à sua parte, somente os oficiais mecânicos mais de dois mil cruzados, ainda que o Capitão da sua bolsa supria a todas as partes. E a maior parte das comidas para a gente, que vinha de fora às festas, toda foi à sua custa.

Acabadas as festas, se foi António Gonçalves de Câmara e sua mulher, Dona Margarida de Vila Verde, para a sua Lombada do Arco, que é uma grossíssima fazenda, onde se dizia que ajuntara sua mulher uma pipa de dinheiro em pouco tempo, porque tinha na fazenda vendas de todas as coisas, para que os que trabalhavam nela não as fossem comprar fora; mas António Gonçalves, que mais sabia espalhar que ajuntar, não negando nada a todos, não deixava sempre de usar de sua magnífica condição, nobre e grandiosa, porque mais gosto tem o liberal em espalhar que o avaro em ajuntar.

Capítulo Trigésimo Sétimo 112

CAPÍTULO TRlGÉSIMO SÉTIMO (232)

DA VIDA E FEITOS DO QUARTO CAPITÃO DO FUNCHAL, JOÃO GONÇALVES DE CÂMARA, TERCEIRO DO NOME

João Gonçalves de Câmara, terceiro do nome e quarto capitão, veio a segunda vez governar a ilha no ano de mil e quinhentos e trinta e dois, porque, por renunciação do pai, quando com ele foi ao Porto, ficou por logotente um seu ouvidor, que trouxe do Regno para este efeito, que se chamava Francisco Jorge.

Foi este Capitão João Gonçalves dos bons cavaleiros de seu tempo, e mui privado e accepto (233) a el-Rei. Quando foi, em vida de seu pai, na tomada de Azamor, levou consigo da

ilha da Madeira duzentos homens de cavalo e seiscentos de pé (como já fica dito) e partiu do Funchal com vinte navios e uma caravela de mantimentos e, indo ter a Lisboa com esta gente, foi beijar a mão a el-Rei, que lhe fez muita honra. E por se virem para ele muitos criados seus, lhe mandou el-Rei dar mais duas naus e quatro caravelas bem armadas, com a qual frota foi em companhia do Duque de Bragança, que, chegados à barra do rio de Azamor, por o tempo lhe ser contrário para entrar pelo rio, foram desembarcar a Mazagão, que é duas léguas da barra de Azamor, onde, ao desembarcar da gente, pelo perigo que havia dos muitos mouros que queriam tolher a desembarcação, foi dada a guarda do campo a este grande Capitão João Gonçalves de Câmara, a qual teve de maneira que a gente desembarcou sem perigo dos mouros, que muitos havia pelo campo. E ao dia seguinte (que era de menos perigo) se deu a guarda do campo ao Conde de Borba e ao capitão dos genetes (sic), e daqui se foram à cidade de Azamor e a tomaram, como se relata copiosamente, e por singular estilo, na Crónica de el-Rei Dom Manuel. E neste campo e entrada mostrou João Gonçalves obras de magnânimo capitão e excelente cavaleiro, e liberal senhor com dar mesa a todos os fidalgos que a ela quisessem comer, além de sustentar a gente, que levava mui custosamente e com muito aparato, tratando a todos com muita cortesia, qual se esperava de tão ilustre pessoa.

Depois de ser tomada a cidade de Azamor, porque o Duque de Bragança se foi para o Regno, deixou por Capitão dela Dom João de Meneses, o qual, como era generoso (234), no

ano seguinte de mil e quinhentos e catorze, em Abril, determinou em companhia de Nuno Fernandes de Ataíde, Capitão de Safim, ir buscar os alcaides de el-Rei de Fez e Miniques (235) ao pé da Serra Verde, em terra de Duecalla, e levou consigo oitocentas lanças e mil homens de pé, com os capitães que estavam em Azamor, antre os quais foi João Gonçalves de Câmara, com toda sua gente da ilha, e Rui Barreto, e o Regedor João da Silva, e Álvaro de Carvalho, com a gente que tinham (236). Chegados quatro léguas do arraial dos alcaides, veio ter com eles Nuno Fernandes de Ataíde, e logo ali acordaram que no quarto da prima dalva (sic) (237) dessem sobre os alcaides, que tinham gente sem número, que fizeram para vir cercar

Azamor.

Caminhando assim toda (238) uma sexta-feira de Endoenças, ordenaram suas batalhas em cinco azes, das quais as três eram da gente de Dom João, ele em uma, João Gonçalves de Câmara em outra, e João da Silva, Rui Barreto com Álvaro de Carvalho na terceira; e Nuno Fernandes com sua gente nas duas (239).

Tocadas as trombetas abalaram contra os mouros, que em quatro batalhas esperavam os

No documento livro2 (páginas 119-126)