DA VIDA E ALGUNS FEITOS DE SIMÃO GONÇALVES DE CÂMARA, CONDE DA CALHETA E QUINTO CAPITÃO DO FUNCHAL (253), SEGUNDO DO NOME, E DE SEU
CASAMENTO
Morto este quarto Capitão João Gonçalves de Câmara, tão ditoso e venturoso em seus esforçados feitos, cujo galardão levou consigo e terá lá no Céu, e com a mui ilustre progénie de filhos tão cavaleiros, sábios e virtuosos, que cá deixou na Terra, seu filho herdeiro, Simão Gonçalves de Câmara, segundo do nome e quinto Capitão da ilha, em idade de vinte e quatro, indo para vinte e cinco anos, indo-se logo para o Regno confirmar na capitania e casar, deixando por seu ouvidor e logotente Gaspar de Nóbrega, foi confirmado nela (254).
No qual ano de mil e quinhentos e trinta e três (sendo seu pai vivo), estando a vila de Santa Cruz de Cabo de Gué, que outros chamam de Guel, em muito aperto, cercada dos mouros que a combatiam, pediu licença ao pai para se achar neste cerco e imitar os altos feitos do tronco ilustre donde procedia e, convocando alguns fidalgos cavaleiros e parentes seus, partiu do porto do Funchal em seis navios, em que levou seiscentos homens para este socorro, todos à sua custa, com muitos mantimentos e gente mui lustrosa.
Chegados ao porto de Cabo de Gué, achou os cristãos mui atribulados do trabalho, que os combates lhe davam, dos mouros, que lhe tinham já morto o capitão da vila, que se chamava Simão Gonçalves da Costa. Porém, com a vinda e socorro do novo Simão Gonçalves de Câmara, cobraram tanto ânimo e esforço, que se deram logo por restaurados e os mouros por vencidos, de quão quebrados tinham os ânimos, porque os imigos, além de terem morto o capitão, tinham derribado um lanço do muro da vila; que, a tardar Simão Gonçalves, tinham as portas da morte abertas e o remédio fechado.
Mas tanto que chegou o novo socorro, como quer que este capitão Simão Gonçalves era mancebo desejoso de se ver em semelhantes recontros, para lustro do que seu coração lhe pedia, com a flor da gente que da ilha levava, arremeteu aos mouros, que logo se afastaram dos muros, sentindo sua vinda. E não somente os fez fugir, senão porque eles tinham feito no pico (que é um padrasto que tem a vila) umas albarradas de pedra ensossa (255), onde tinham
assentada a artilharia e trabucos, de que os da vila recebiam grande dano e cruéis mortes, com muito ânimo e valoroso coração arremeteu ao pico com sua gente e desfez as albarradas, pondo tudo por terra e assegurando os cristãos do dano que recebiam; com as quais obras, desesperados os mouros de tomar a vila com tal socorro, alevantaram o cerco e se foram.
Recolhidos os mouros para suas terras, mandou Simão Gonçalves fazer de novo o lanço da vila que estava derrubado, porque logo levou da ilha uma caravela carregada de cal para o que fosse necessário; e, posta em termos de se poder bem defender, se tornou para a ilha, deixando por Capitão da vila de Cabo de Gué a Rui Dias de Aguiar, seu parente, até el-Rei mandar o contrário e o haver por bem, o que sabido por Sua Alteza, aprovou tudo o por ele feito, com que serviu Rui Dias alguns anos de Capitão até el-Rei mandar Dom Gotterres; e estimou este socorro tanto, que escreveu a Simão Gonçalves cartas de muitos agradecimentos, e que seria lembrado de tamanho serviço.
Acharam-se nesta jornada muitos homens fidalgos, nobres e cavaleiros, da ilha, antre os quais foi da Ribeira Brava Manuel de Barros, e Gaspar Vilela, o qual levou neste socorro quinze homens à sua custa (256), onde esteve cinco meses servindo el-Rei.
E nesta companhia foram também Dom João Hanriquez, Simão de Miranda, João Fernandes de Abreu, Luís Dorca (sic) (257), todos naturais da ilha, e por estes serviços que
Gaspar Vilela fez neste e em outros socorros, em que se achou (como foi na tomada de Tunes com o Infante Dom Luís no ano de mil e quinhentos e trinta e cinco, e no de trinta e um, quando
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foi a Safim com seu irmão Pero de Vilela, e sendo capitão Hierónimo de Melo, onde levaram sessenta homens à sua custa) lhe fez el-Rei mercê do hábito de Cristo com uma comenda, que lhe rende bem no Regno, que ele bem mereceu por estes serviços que fez à Coroa, onde deu mostras de esforçado cavaleiro.
No socorro de Cabo de Gué foram também com o capitão Simão Gonçalves de Câmara Manuel Bogado (258), Lopo Rabelo (sic) e outros muitos nobres, de que não alcancei saber os
nomes.
No ano de mil e quinhentos e trinta e oito, estando este ilustre Capitão Simão Gonçalves de Câmara no Regno por casar, pela fama que corria de sua magnífica condição e heróicos feitos, foi requerido com muitos e grandes casamentos com senhoras de muito estado.
Porém, como ele não queria fazer nada de si sem licença de el-Rei e da Rainha, que o traziam nos olhos, Sua Alteza o casou com Dona Isabel de Mendonça, filha de Dom Rodrigo (259), de Mendonça, Senhor de Moró em Castela, a qual era donzela da Rainha Dona Caterina,
e com ela viera a este Regno, a quem amava como filha.
Foi esta senhora dotada de muita virtude (260), e nela doctrinou seus filhos, sendo muito
católica cristã, emparo (sic) de muitas viúvas e orfãs, e remédio de muitos pobres. E, porque a Rainha a tinha a seu cárrego e lhe queria muito, a deu por mulher a Simão Gonçalves de Câmara, Capitão da ilha.
E o derradeiro dia de Setembro do dito ano, dia do bem-aventurado São Hierónimo, se fizeram os contratos de seu casamento, e se deu com ela um grande dote, que foi tudo estimado em oitenta mil cruzados, que lhe el-Rei deu em juro e em dinheiro e em ofícios, e, além disso, a casa do dito Capitão fora da Lei Mental duas vezes, coisa que raramente se concede. E aos quatro dias do mês de Octubro do mesmo ano de trinta e oito, em dia de São Francisco, foi o Capitão recebido com ela e trouxe-a para sua casa, acompanhada de toda a Corte, vindo-lhe o Infante Dom Luís à parte direita e o Arcebispo de Lisboa à esquerda, com todos os fidalgos do Regno, que se acharam presentes.
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