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CAPÍTULO TRIGÉSIMO TERCEIRO ( 197 )

No documento livro2 (páginas 111-113)

DOS PRIMEIROS BISPOS, QUE FORAM À ILHA DA MADEIRA, E AJUDA QUE DEU O CAPITÃO SIMÃO GONÇALVES NA TOMADA DE AZAMOR, E DA CRIAÇÃO DO BISPADO

DA CIDADE DO FUNCHAL E PRIMEIRO BISPO PROPRIETÁRIO DELA. E DE UMA ESCONJURAÇÃO QUE FEZ O PRIMEIRO MESTRE ESCOLA A UMA FANTASMA (198)

Neste mesmo ano de mil e quinhentos e oito veio à ilha da Madeira, por ordem do convento de Tomar, um Dom João Lobo, Bispo de anel, que foi o primeiro que entrou nela. E porque el- Rei Dom Manuel, depois de ter feito cidade no Funchal, determinou suplicar ao Papa que criasse na ilha Sé de dignidades e cónegos, enquanto isto não tinha efeito, ordenou o Vigairo de Tomar mandar este Bispo (como mandou) para crismar e dar ordens e executar todos os ministérios competentes ao Bispo, enquanto o não era o mesmo Vigairo, que el-Rei tinha em vontade apresentar e eleger na criação da Sé do bispado. Com a vinda deste Bispo, desistiu o de Tânger do requerimento, que fazia, e de vir à ilha, como ordenava (199). E, chegado o Bispo Dom João, o foram receber o mestre frei Nuno Cão com toda cleresia, e lhe fizeram muitas festas, por ser o primeiro que na ilha fez ofício em pontifical.

Depois de andar a ilha toda, não como visitador, senão provendo as igrejas e vilas dela, para crismar, benzer ornamentos e consagrar cálices, correndo a terra, na Lombada do Esmeraldo consagrou a igreja, que está naquela fazenda, e foi a primeira que consagrou na ilha. E, depois de estar algum tempo nela, fez volta para o Regno, deixando as coisas do bispado e das igrejas em bom regimento e ordem.

E no ano seguinte de mil e quinhentos e dez vieram os mouros cercar Safim, donde mandou o capitão Nuno Fernandes pedir socorro à ilha, e, porque o Capitão estava na corte, a Capitoa ordenou uma boa companhia de gente luzida, de que foi por capitão Manuel de Noronha, irmão do mesmo Capitão Simão Gonçalves, como dito tenho, quando falei em Manuel de Noronha.

Ordenou el-Rei Dom Manuel mandar tomar a cidade de Azamor no ano de mil e quinhentos e treze, para o qual negócio elegeu Dom James, seu sobrinho, Duque de Bragança, o qual levou, afora a gente do mar, dezoito mil homens de pé, de que os quinze mil iam a soldo de el- Rei, e os três mil eram do Duque, que fez vir das suas terras. A esta jornada o Capitão Simão Gonçalves de Câmara mandou seu filho herdeiro, João Gonçalves, com vinte e um navios, seiscentos homens de pé e duzentos de cavalo, de que os oitenta eram criados seus, encavalgados à sua custa, e os demais seus parentes e achegados, que todos iam debaixo da bandeira deste seu filho e ele lhes dava de comer, assim a estes, como a todos os fidalgos, cavaleiros e escudeiros que queriam ir à sua mesa.

E conquanto o Duque de Bragança é tão grande senhor e poderoso, como se sabe, não levou mais que três mil homens à sua custa, e Simão Gonçalves de Câmara mandou esta armada com a gente que tenho dito, onde foram mui nobres cavaleiros, daqui se pode coligir quão liberal sempre foi e quão zeloso do serviço de el-Rei, principalmente no que tocava ao de Deus contra os infiéis, e nestas larguezas e magnificências gastava sua fazenda, porque seu grande coração aspirava a coisas árduas, grandes e de capitão valoroso. E isto só encomendou a seu filho, que nos trabalhos fosse companheiro, e no tratamento e gasalhado brando, nos cometimentos o primeiro, no fazer das mercês pródigo. O que o filho mui bem tomou, porque, além de fazer nesta jornada grandes gastos, tratou a todos, com muita cortesia e brandura, fazendo-lhe também muitas mercês, e, por isso, ganhou a vontade dos homens, que o serviam com muito amor. Depois de ganhada a cidade de Azamor, deixou-se ficar nela com sua gente, com a qual se achou em perigosas entradas e honrosos recontros com os mouros, como em seu lugar se dirá.

Capítulo Trigésimo Terceiro 101

No ano seguinte de mil e quinhentos e catorze, a suplicação de el-Rei Dom Manuel, foi criada a Sé da cidade do Funchal pelo Sumo Pontífice Leão décimo, aos doze dias do mês de Junho do dito ano, e foi nomeado por Bispo, nesta criação, Dom Diogo Pinheiro, vigairo que fora da vila de Tomar, da Ordem e Cavalaria de Nosso Senhor Jesu Cristo, do mestrado da qual era a ilha da Madeira (200). E este foi o primeiro Bispo proprietário que houve na dita ilha.

E, depois de confirmado o bispado, e consagrado, mandou tomar posse ao Funchal, e, investido nela, a presentação de el-Rei, foram feitos e confirmados quatro dignidades e doze cónegos, que na mesma criação vinham que se fizessem para serviço da Sé, a qual governou este prelado com muita justiça e virtude e edificação, ainda que nunca foi à ilha. Mas no ano de mil e quinhentos e dezasseis (por ele ser ocupado no serviço de el-Rei, que era desembargador do Paço e impedido com negócios do Regno) mandou à cidade do Funchal um Bispo, que se chamava Dom Duarte, que, por ele não poder vir, crismou e deu ordens e regimento na Sé, e executou outros ministérios competentes a seu ofício e cárrego. E consagrou a Sé da cidade do Funchal, um dia de São Lucas, dezoito de Octubro (sic), com muita solenidade, e benzeu um dos sinos que puseram na torre da mesma Sé e fez outras coisas muito necessárias.

Este primeiro Bispo, Dom Diogo Pinheiro, mandou à ilha seu provisor e vigairo geral, e governou o bispado doze anos, no fim dos quais faleceu na era do Senhor de quinhentos e vinte e seis (201), sendo homem de boa idade. E em seu tempo suplicou ao Papa, com aprazimento de el-Rei, para acrescentar mais na Sé e fazer uma dignidade mestre-escola, que foi um João Roiz Borio (o primeiro que este cargo serviu), para a dita Sé ser bem servida, porquanto a terra multiplicava em fertilidade e frequência de muitos mercadores e multiplicação do povo.

Este primeiro Mestre-escola, João Roiz Borio, foi homem ciente nas coisas necessárias a seu cargo e, sobretudo, mui esforçado de sua pessoa, pelo que, andando naquele tempo uma fantasma no mosteiro das freiras da cidade do Funchal, que tinha assombradas as madres do convento, que não podiam dormir com os terramotos que fazia na igreja e no mosteiro, de tal maneira, que se atreveu uma noite, revestido, com o Santíssimo Sacramento nas mãos, i-la esconjurar, em que teve assaz trabalho, ficando depois muito atromentado (sic) de medo, como alguns dizem; dizendo também o povo (que sempre acrescenta nas histórias, não sei com quanta verdade) que se pusera a este trabalho por livrar um irmão da Cadeia, que estava sentenciado à morte, e por isso lhe foi perdoado. E veio a fantasma falar com ele de sorte que mandou desenterrar um certo homem honrado e virtuoso (que dizem ser fidalgo de geração), que era morto e ali enterrado, o qual, depois de tirado dali, o foram enterrar em um caminho, acima do mosteiro, que vai para o norte, em umas chãs de terras que chamam a Achada, antre vinhas, e hoje em dia está uma cruz de pau, posta no lugar onde enterraram os ossos deste defunto. De maneira que nunca mais apareceu, nem fez terror, como dantes fazia. Pode ser que o Diabo (como às vezes costuma), por infamar este homem, tomaria aquele corpo fantástico e se faria em sua forma, porque era muito virtuoso em sua vida; outros dizem que na hora da morte duvidara do Santíssimo Sacramento, que, por isso, lho acharam na boca, quando o desenterraram, e outras coisas particulares, que neste caso se contam, que eu (por não saber a certeza delas) não conto (202).

Capítulo Trigésimo Quarto 102

No documento livro2 (páginas 111-113)