CAPÍTULO QUADRAGÉSIMO SEGUNDO
DA VIDA DE D. LUÍS DE FIGUEIREDO DE LEMOS, BISPO DO FUNCHAL, QUE AO PRESENTE GOVERNA O BISPADO (293)
Quem ouvir o que agora acabei de dizer do Bispo passado cuidará que não se poderá achar outro seu igual; mas, como Deus é todo poderoso e bom, não só para fazer um bom, senão muitos, e nunca deixou o Mundo desamparado de um caudilho que logo o não provesse de outro, como a Adão sucederam os Patriarcas, seus descendentes, de um em outro até Noé, e de Noé seu filho Sem, e dele outros que governaram a Terra, e em sua Igreja Católica Romana, depois de S. Pedro, sucederam outros santos e supremos padres na sua Cadeira, a todas as da Terra superior, assim na da ilha da Madeira, após um bom prelado, pôs outro em nada a ele segundo, de mais experiência no governo e maduro conselho, ornado de outras heróicas e abalizadas partes, como se verá no que dele irei dizendo.
Porque, por renunciação do bispado do Funchal que fez o Bispo D. Hierónimo Barreto, por lhe dar Sua Majestade o do Algarve, lhe sucedeu nele D. Luís de Figueiredo de Lemos, de grandes letras e virtudes, que agora a governa. O qual é filho de Miguel de Figueiredo de Lemos e de Inês Nunes Velha, sua mulher, ambos de ilustre progénia, como contarei, quando tratar da ilha de Santa Maria, donde ele é natural, da qual, inda que pequena, saiu coisa tão grande, como é este senhor, em virtudes, letras e condição, que o extremou Deus para honra e louvor seu e das ilhas todas dos Açores, pois foi o primeiro Bispo natural, que delas saiu e nelas nasceu, tão benemérito do tal cargo e de outros muitos maiores.
Nasceu este senhor na Vila do Porto, da ilha de Santa Maria, em uma sexta-feira, vinte e um de Agosto da era de mil e quinhentos e quarenta e quatro. Antes de seu nascimento, havendo dois anos que sua mãe era casada, por logo não haver filhos, lhe disseram algumas nobres parentas suas que, por ela ser mulher de dias, já não havia de parir, ao que respondeu que não era velha para deixar de parir, e não desejava mais que parir um só filho e fosse Bispo, o que parece que foi profecia ou pronóstico do que havia de ser, pois dali a um ano o pariu. E, ainda que depois houve (afora ele) quatro filhos machos e cinco filhas, todos os quatro, sendo já quase homens, faleceram, um na Índia, em serviço de el-Rei D. Sebastião, de cuja casa era seu moço de câmara, e os outros faleceram na mesma ilha, e uma das filhas; e a ele só guardou Deus para muito se servir dele em muitos cargos, que teve e pode ter.
Sendo este senhor de idade de cinco anos, o pôs seu pai na escola aprender a ler e escrever e, chegando a doze anos, aprendeu Gramática na mesma ilha, com um bom mestre, chamado João Roiz da Veiga, castelhano, e na terra e em Vila Franca, desta ilha de S. Miguel, onde o mestre se passou, aprendeu com ele até cinco anos; sendo de dezassete, se foi a Lisboa, onde aprendeu no Colégio de Santo Antão mais dois anos, em que também ouviu Retórica e Grego, em as quais coisas aproveitou tanto, que levava a seus condiscípulos lugares e prémios.
Dali se passou a Coimbra, onde, ouvindo oito anos contínuos Cânones e Leis, se graduou com grande aplauso dos mestres e doutores daquela Universidade, e fez o auto da aprovação em lugar do licenciamento, conforme aos estatutos da Universidade; e os tais gozam dos mesmos privilégios e acabam o estudo; esta ordem têm quase todos, senão (294) os que são
muito ricos ou querem seguir as escolas, que (?) gastam mais tempo e dinheiro nos graus. Antes de tomar ordens, depois de ele ter tomado o grau de bacharel em Cânones, aquelas férias foi a Lisboa. E pousando com D. Luís Coutinho, filho de D. Francisco Coutinho, Comendador que ao tal tempo era da ilha de Santa Maria, muitas vezes, como ele era seu parente, latino e curioso, tratavam nas letras e em seus negócios e, como D. Luís via que ele já era bacharel e dizia que havia de ser clérigo, pareceu-lhe que errava e que melhor era ser leigo
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e servir a el-Rei, tratando de o persuadir muito a isso, pelo que lhe desejava, e, antre outras muitas rezões (sic), dizia que, sendo leigo, tinha mais certo o caminho de valer e ter bem de comer, por, como ele era homem de qualidade, el-Rei se havia de servir dele logo e chegaria a ser Desembargador do Paço, pois esta via era corrente e certa em tais pessoas, mas por clérigo tudo era mais duvidoso, e que não lhe negava que poderia ser bispo, mas já aqueles quinze anos o não podia ser. Puderam tanto as rezões de D. Luís, que lhe tirou a determinação de ser clérigo e ficou nisto perplexo.
Assim tornou para Coimbra e chegou a escrevê-lo a seu pai, o qual, vendo isso, o reprendeu (sic) grandemente por carta, e com isto se resolveu; antes da reposta (sic) de seu pai passaram muitos meses, nos quais encomendou a Deus o negócio, pedindo-lhe que o determinasse no que fosse mais seu serviço, tomando a S. Pedro por intercessor, e todas as vezes que ia por onde estava sua imagem, como passava muitas pelo Colégio de S. Pedro, cuja imagem está em cima da porta, ainda que fosse com estudantes, depois de tirar o barrete, interiormente lhe fazia oração, pedindo-lhe que inspirasse nele se havia de ser de sua Ordem; daí a poucos tempos, com isto e com a carta de seu pai, se resolveu firmemente e tomou ordens de Epístola; parece que foi inspiração do Santo, porque logo teve sua igreja e sempre usou da jurdição sua, e, depois da igreja de S. Pedro, foi para a do Salvador, e da do Salvador foi para a de Nossa Senhora da Assunção, de que é a advocação do Funchal, como é o orago da igreja de Santa Maria, em que foi baptisado.
Há se de notar que este senhor, estando em Coimbra já bacharel, antes de ter de todo acabado o estudo, tendo el-Rei D. Sebastião encomendado ao Bispo D. Gaspar de Faria que buscasse um homem para a ilha de S. Miguel, em que estivera para a dividir do bispado de Angra e fazer dela uma administração, por importar muito o governo dela, estimulado o Bispo de el-Rei, por cartas, que provesse de quem governasse esta ilha, mandou saber a Coimbra que estudante canonista haveria lá do bispado que servisse; apontaram-lhe nele, pela fama que corria de suas letras, virtude e bom exemplo, com que todos e mui graves letrados afirmavam que havia de fazer muito fruto na Igreja de Deus; mandou-lhe pedir, então, que quisesse ir para a dita ilha, fazendo-lhe grandes promessas, no que ele se não resolveu; e alguns seus mestres o tiravam disso, que não viesse às ilhas, pelo concepto que dele tinham.
Estando a coisa nestes termos, escreveu-lhe seu pai que se ordenasse, pois já era agraduado, para o que fez em Coimbra papéis de vita et moribus, autorizados com testemunhos de alguns dos seus mestres, e os enviou a seu pai, para mandar pedir ao Bispo reverendas para todas as ordens.
Sucedeu que vindo os papéis ter a esta ilha de S. Miguel em tempo que aqui estava o Bispo, seu pai se achou na Ponta Delgada, também, e falou ao Bispo mostrando-lhe os papéis. Como o Bispo entendeu que ele era o seu filho, de que tinha informação, e mandando pedir o acima, folgou muito e logo chamou o escrivão da Câmara, mandando-lhe que passasse reverendas para todas as ordens; e, praticando mais com seu pai, lhe descobriu sua tenção, pedindo-lhe que lhe escrevesse que viesse. Respondeu que não lhe parecia teria efeito, porque seu filho havia de ficar no Regno, por um seu tio, seu irmão António de Lemos, Prior de Recardães, desejar de lhe dar as suas igrejas; e também ele queria que seu filho servisse a el-Rei, como seus avós, mas que não deixaria de lhe escrever, agradecendo-lhe tudo.
Vendo o Bispo a dificuldade de seu pai, depois mandou ao escrivão da Câmara que fizesse as reverendas para ordens de Epístola e Evangelho somente, e que as de missa reservava, assim por justos respeitos, serviço de Deus e descargo de sua consciência; tornando seu pai ao outro dia visitá-lo, lhe tornou o Bispo a encomendar que lhe escrevesse; e, dando-lhe o escrivão da Câmara as reverendas para Epístola e Evangelho somente, queixou-se, dizendo que o Bispo mandara que as fizesse para todas as ordens, e tornou ao Bispo, o qual lhe disse que, para seu filho vir, tornara a mandar aquilo; desta maneira lhas enviou, e tomou ordens de Epístola em Portalegre do Bispo D. André, e tornou a Coimbra concluir seus autos, donde aquele verão se espediu (sic) com tenção de não vir às ilhas, e requerer despacho.
Era já a armada partida e, chegando a Lisboa, a achou arribada; ali, dois seus parentes lhe persuadiram que viesse com eles ver seu pai e mãe, e que tornaria nela; dando conta disso a D. Luís Coutinho, que morreu com el-Rei D. Sebastião, pareceu-lhe bem, encomendando-lhe que tornasse logo, para requerer; e, vindo à Terceira para se ordenar e agradecer ao Bispo a vontade que tinha de lhe fazer mercê, estava esperando ainda por ele. Então o mandou a esta ilha de S. Miguel, havendo um ano que esperava com a igreja de S. Pedro, da cidade da Ponta
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Delgada, para lha dar, como deu, e o fez juntamente Ouvidor do Eclesiástico de toda a ilha, dizendo-lhe que el-Rei lhe tinha encomendado esta ilha e que buscasse um homem de confiança que a governasse, fazendo-lhe o Bispo muitas promessas e abundâncias.
Depois do Bispo D. Gaspar de Faria falecido, tornou a Lisboa, onde tomou ordens de Evangelho e missa e, vendo-o, algumas pessoas graves disseram que havia de montar muito. Falou a el-Rei D. Sebastião, pedindo-lhe que o tomasse por seu desembargador, por ser homem letrado nobre, e que seus avós sempre o serviram; remeteu-o ao doctor Paulo Afonso, ao qual deu seus papéis; saiu com despacho, em que o tomou Sua Alteza por seu capelão; com o melhor foro da Casa do Rei e com a maior moradia costumada, s. (295) mil réis por mês, alqueire de cevada por dia, uma vestiaria cada ano.
Foi-se depois a Coimbra e a visitar seu tio; estando lá, teve recado que em Lisboa se tomava secreta informação dele por mandado de el-Rei; tornou a Lisboa, falou ao licenciado Marcos Teixeira, porque lhe disseram que isto correu; disse-lhe que falasse ao doutor Paulo Afonso, e que havia boa informação e el-Rei se queria servir dele; foi falar a Paulo Afonso; disse-lhe, depois de outras palavras, se queria passar o mar, a servir a el-Rei, e, como ele não sabia o que era e aquilo se lhe perguntava confusamente e de repente, interiormente sentiu uma grande repugnância, e, assim, respondeu com uma velocidade e veemência não costumada que, se fosse para passar o mar longe e passagens perigosas, por nenhum modo iria, mas, para perto e sem perigo, o faria (representando-se-lhe logo nesta reposta a ilha da Madeira, aplicando-se-lhe a vontade a isso, quase pronosticando o sucesso (296)). Tornou-lhe Paulo Afonso: «Como é passar o mar, logo é perigo.» Disse ele: «Para perto não». E vendo sua repugnância, disse que se ofereceria outra coisa coisa (sic) (297). Depois se soube que era inquisidor da Índia, porque el-Rei queria mandar dois, e ele fosse o presidente, se quisesse ir; e assim era rezão.
Correndo alguns dias, lhe tornaram a dizer, pois não queria ir para a Índia, que para o Regno era necessário, e assim estava assentado. Continuou com Paulo Afonso, que tinha dele grande concepto, o qual daí a dias lhe mandou recado que se detivesse e, falando-lhe, disse que esperasse certos dias, porque tinha mandado recado e escrito sobre ele ao Cardeal D. Henrique, lnquisidor-mor, que ao tal tempo estava em Évora, e levara as cartas um Manuel Antunes, secretairo do Conselho Geral da lnquisição, e lhe encomendara a brevidade da reposta.
Esperou aqueles dias e outros tantos. Continuando com Paulo Afonso, dizia-lhe que não podia tratar, que esperasse, e, tardando e fazendo-se prestes a armada, se determinou mais na resolução e importunou a Paulo Afonso que o deixasse vir, por lhe revelar a vinda, e que Sua Alteza lhe desse licença para isso e o despachasse como a quem tornava, porque a armada estava de partida e depois, sem ela, não poderia vir, e que aviaria seus papéis, e, se, entretanto, viesse recado do Cardeal e ele fosse necessário, deixaria tudo e faria o que Sua Alteza lhe mandasse.
Com esta rezão se aquietou Paulo Afonso, persuadindo-lhe que não tornasse para as ilhas, que o despacho que el-Rei lhe queria dar importava mais, repetindo isto três vezes, tornando-lhe que assim o faria, mas que queria estar aviado. Então, o despachou el-Rei, mandando-lhe, por sua provisão, que levava gosto de tornar a servir em S. Miguel enquanto o bispo (298) estava vago, e que lhe faria mercê cada vez que lha pedisse, havendo respeito à boa informação que tinha dele. Então, lhe disse Paulo Afonso que importava muito o governo desta ilha e que el-Rei estivera para fazer nela uma administração; desta maneira houve licença e despacho para tornar, com a condição acima de fazer o que Sua Alteza mandasse, antes que a armada fosse partida.
O Cardeal não mandava reposta, porque estava para vir a Lisboa espedir-se de el-Rei, que ia para África, e, tendo seu fato embarcado e a armada prestes, chegou o Cardeal a Enxobregas, um dia à tarde; ao outro, às onze horas, havendo somente meia que lhe estava embarcado, com o Capitão de Santa Maria, Braz Soares de Sousa, e, para dar a armada à vela, chegou ao navio recado de Paulo Afonso que não se embarcasse e lhe fosse falar às duas horas, mas, como ele já estava daquela maneira e para dar à vela a armada, seu fato e moços embarcados, teve conselho que respondesse como já por então, não era possível e que depois tornaria, porque lhe diziam que era mais sua honra tornar chamado. De todos estes sucessos escapou por vir governar as ilhas; parece que Deus assim o queria, e se servia disso.
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Escusando-se assim, por temer viagem tão comprida e perigosa e não contentar a seu pai e mãe, que o queria ter mais perto, se tornou para esta ilha de S. Miguel com a igreja e ouvidoria, que dantes tinha; os quais cargos serviu tão bem e com tanta inteireza e prudência, que, provido o bispado do Bispo D. Pedro de Castilho, merecedor de grandes coisas, estando na cidade de Angra e vagando a dignidade de adaião, o mandou chamar e lha deu, mandando-lha negociar a Portugal e a Roma.
Estando com esta dignidade, passou o Bispo D. Pedro a visitar a esta ilha de S. Miguel, trazendo-o consigo por seu visitador e, visitando esta e a de Santa Maria, se cerrou a ilha Terceira e alterou por parte de D. António, pelo que não puderam tornar a ela. Então o fez o Bispo seu vigairo geral e provisor e, depois, indo-se para o Regno, Governador do bispado, com aprovação de Sua Majestade, porque, sendo eleito o Bispo D. Pedro para Leiria, tinha el- Rei ordenado que se pedisse provisão ao Papa para ele gorvernar o bispado de Angra
Auctoritate (299) Apostolica. E, porque depois sucedeu eleger Bispo de Angra, cessou isto e, quando o Bispo D. Pedro de Castilho se quis ir para o Regno, ele lhe disse que também queria ir com ele, e o Bispo lhe tornou que não podia ser e que um deles havia de ficar no bispado. O qual cargo de governador teve algum tempo nesta ilha de S. Miguel, até que se passou à ilha Terceira, depois de ser tomada pelo Marquês de Santa Cruz e reduzida ao serviço de Sua Majestade.
E lá governou também o dito bispado com cargo de provisor e vigairo geral, com tanta prudência, saber, mansidão, antre o golfo de tantas alterações e contendas, assim no eclesiástico como no secular, que, correndo a fama de suas coisas tão bem feitas e acertadas, logo no Maio seguinte teve avisos, por duas ou três cartas do Bispo D. Pedro de Castilho, que Suas Majestade e Alteza estavam bem informados dele e que se apercebesse que havia de ser cedo chamado para coisa de honra e proveito, e, quando foi aquele ano a armada em que vieram os frades tomar as casas pela Observância, tornou-lhe o Bispo a escrever que lhe parecia que Sua Majestade o mandava chamar naquela armada e, se não fosse, assim devia ser quando viesse o Bispo de Angra, que se esperava vir de Setembro por diante, e que estivesse aviado para ir na embarcação em que ele viesse.
Dilatou-se a vinda do Bispo, dilatou-se chamarem-no, em Portugal se suspeitou que era para o Bispado de Cepta (300), que estava ao tal tempo vago; sucedeu apropinquar-se a
vacatura da do Funchal e nele a proveram, porque entendo que Deus quis antes que ele o fosse governar, para melhor o servir e salvação de sua alma e de suas ovelhas.
Também o Arcebispo de Lisboa, D. Jorge de Almeida, que Deus tem, inquisidor-mor, tinha dele informação e notícia, e no tempo acima, quando ele estava em Angra, soube que determinava de o chamar para a lnquisição, se se não metera em meio o provimento que el-Rei fazia do bispado; e, então, lhe mandou Sua Majestade do Reino a eleição do dito bispado do Funchal, e foi chamado, para se mandar confirmar por Sua Santidade.
Partiu da cidade de Angra no mês de Agosto para Lisboa, embarcado na armada que vinha da Mina, de que era capitão-mor Bernardim Ribeiro Pacheco, e, chegado ao Regno, foi recebido com muitas honras do Cardeal e dos Senhores do Governo, que, com muito aplauso, tratavam todos suas coisas; quando foi beijar a mão ao Cardeal, lhe mostrou Sua Alteza (301);
folgou muito com sua vinda, dizendo-lhe que Sua Majestade estava informado de como havia procedido em seu serviço.
Foi este senhor eleito Bispo do Funchal no mês de Março de oitenta e cinco; partiram suas letras para Roma a cinco de Outubro do dito ano e chegaram a Lisboa a cinco de Março de oitenta e seis; mandou-lhas o secretairo de Sua Majestade, Lopo Soares, dia de Cinza da mesma era, estando ele ao ofício em Santa Catarina de Monte Sinai. Consagrou-se Domingo da Rosa, que é o quarto da Quoresma (sic) da mesma era, no mosteiro da Trindade, em Lisboa, sendo de idade de quarenta e um anos e seis meses, a qual ofício esteve muita gente e durou muito tempo, por ser grande. Consagrou-o o Bispo daião da Capela de el-Rei, D. Manuel de Ciebra, Bispo que foi de Ceita (sic) e ora é da Capela, e deputado da Mesa da Consciência; um dos padrinhos foi o Bispo novo de Ceita, D. Diogo Correa, cunhado do secretairo Lopo Soares; o outro padrinho foi o Bispo Zelandês, que há muito tempo está acolhido de sua terra neste Regno. Deu de jantar a mais de cento e cinquenta pessoas, no que tudo houve muita abastança de todo género de pescados e esquisitas (sic) manjares e muitas coisas doces; juntou ali D. Jerónimo Coutinho, Comendador da ilha de Santa Maria, que foi por capitão-mor da armada da Índia o dito ano de oitenta e seis, e D. Afonso de Noronha, filho de
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Dona Joana de Vilhana (sic), filha de Dona Filipa de Noronha, e D. Jerónimo Lobo, e D. Manuel de Castro, e outros fidalgos, em que fez muito custo.
Mandou procurações para tomarem por ele posse do bispado ao adaião Dom Francisco Hanriques, pessoa de muito ser e nome, e em sua absência, ao doutor Gonçalo Gomes, mestre-escola da Sé, teólogo de boa doctrina e exemplo, que servia de provisor; partiram os papéis de Lisboa domingo de Pascoela, chegaram o sábado seguinte ao Funchal, logo ao domingo de Pastor Bonus, antes da terça, junta toda a cidade, por o adaião estar enfermo, tomou o dito mestre-escola a posse, no qual dia se celebrava na mesma Sé a festa da