CAPÍTULO VIGÉSIMO SEGUNDO
DE DIVERSOS SERVIÇOS QUE O CAPITÃO TRISTÃO VAZ DA VEIGA FEZ À COROA NA ÍNDIA ORIENTAL E NO CERCO DE MAZAGÃO, E EM OUTRAS PARTES
Vindo ao processo da vida deste valoroso capitão Tristão Vaz da Veiga, de nove anos começou ir ao paço e servir de moço-fidalgo de el-Rei D. João o terceiro, que está em glória, e nele se criou, servindo o Príncipe D. João, seu filho, até entrar em idade de dezasseis anos, em que se embarcou para a Índia, no ano de cinquenta e dois, e nela o serviu por discurso de muitos anos em coisas mui importantes, que contá-las pelo miúdo fora processo largo. Apontarei brevemente algumas das mais notáveis em que se achou, em todas as quais foi sempre capitão de fustas, galés, galeões e naus, capitão-mor de armadas e capitão de fortalezas, ou capitão-geral em uma só. Foi no ano de cinquenta e três, por soldado do Viso- Rei D. Afonso de Noronha, de Goa até Diu a socorrer Ormuz, que estava cercado de galés de Turcos, e de Diu, tornando-se o Viso-Rei, mandou ao socorro dela com boa parte da armada a D. Antão de Noronha, seu sobrinho, que depois foi também Viso-Rei da Índia, e em Ormuz (por ele entrar a ser capitão da fortaleza) entregou a armada a D. Diogo de Noronha, com o qual se achou, quando pelejou com quinze galés de Turcos, que desbaratou e fez fugir para Bassorá, tomando-lhe duas naus de munições que consigo traziam; assim que nesta só viagem foi soldado destes três capitães Noronhas.
Deste ano de cinquenta e três até o de sessenta, em que se veio para Portugal, serviu em diversas coisas e se achou em partes, onde pelejou muitas vezes no mar e na terra; andou de armada na costa do Malavar (sic) em tempo do Viso-Rei D. Pedro Mascarenhas, e ele o mandou dar mesa aos soldados na fortaleza de Diu. Achou-se nas guerras da terra firme, sendo governador Francisco Barreto, na batalha de Pondá e em todas as mais coisas que sucederam per espaço de ano e meio que a guerra durou, no qual tempo deu mesa em Goa a duzentos soldados, por mandado do mesmo governador.
Em tempo de Francisco Barreto, foi de armada ao estreito de Ormuz por capitão de um galeão, sendo capitão-mor D. Álvaro da Silveira, filho do Conde da Sortelha, em que andaram muitos meses; e depois, por mandado do mesmo Francisco Barreto, foi a socorro da fortaleza de Chaúl, de que era capitão Garcia Rodrigues de Távora, que estava cercada do Iniza Maluco, e foi o primeiro que em um navio ligeiro com quarenta homens lá chegou de Goa, e nela esteve até que o mesmo governador chegou de Goa com toda armada e fez alevantar o cerco; e daí, por seu mandado, foi com gente correr as terras de Baçaim e socorrer a fortaleza de Assarij, donde tornaram a Goa, que, então, acharam de guerra, como atraz disse.
Achou-se com o Viso-Rei D. Constantino na tomada de Damão e, per seu mandado, ficou na mesma fortaleza, dando mesa a duzentos soldados, sendo capitão dela D. Diogo de Noronha; e, per seu mandado, foi a socorro da fortaleza de Velsar, que estava cercada de muita gente de pé e de cavalo de Cambaia, e com muito perigo a socorreu e descercou; e depois, em companhia do mesmo D. Diogo de Noronha, se achou per duas vezes no desbarate de muita gente de pé e de cavalo, em que havia muitos abexis (139), turcos e outros
estrangeiros nas mesmas terras de Damão.
No ano de sessenta, se veio da Índia para este Reino por capitão da nau Tigre, que o Viso- Rei D. Constantino lhe deu, não sendo de vinte e quatro anos, vindo no mesmo ano nas mesmas naus muitos fidalgos muito principais.
Andando em Portugal em seu requerimento, sucedeu o cerco de Mazagão o ano de sessenta e dois, ao qual a Rainha D. Caterina, que, então, governava, o mandou de socorro; e para isso lhe deram uma caravela da armada, que andava no estreito de Gibaltar (sic), na qual foi e levou alguns fidalgos e mundos (sic) criados de el-Rei e seus; e foi o primeiro navio que lá
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chegou de socorro de Lisboa; no dia do primeiro combate foi ferido de uma arcabuzada pela garganta; e quanto para a defensão daquela fortaleza montou sua pessoa e conselho digam-no os que se nela acharam e também o diriam as cartas que lá teve da Rainha e do Cardeal D. Anrique, e de outras pessoas insignes.
No mesmo ano, tendo a Rainha D. Catarina recado que ia uma armada grossa de ingreses à Mina, o mandou por capitão-mor de outra no galeão S. Mateus, que era um navio de quinhentos tonéis, com mais quatro caravelas e duas galés, que era a maior armada que até então fora àquelas partes; na qual partiu de Lisboa e, sendo arredado da costa mais de cem léguas, lhe deu uma tormenta tão rija, que forçou a todos os navios da sua companhia arribarem, e ele o fez também depois de ficar só, e, porque a mesma tormenta deu à armada inglesa e a desbaratou, se assentou mandar-se outra armada mais pequena, e se escolheu para isso outra pessoa, e ele ficou.
O primeiro despacho que teve, governando a Rainha D. Caterina, foi a capitania da fortaleza de Chaúl, que não aceitou; deu-lhe, então, duas viagens de capitão-mor da Sunda, China e Japão, com as quais foi para a Índia no ano de sessenta e quatro, em companhia do Viso-Rei D. Antão de Noronha. Estas viagens da China estavam, então, em grandíssima reputação, tanto que até aquele tempo a ninguém se tinha dado mais de uma, e esta se dava a fidalgos mui principais, que a D. João Pereira, filho segundo do Conde da Feira, se deu uma só, e a João de Mendoça Jehu (sic), que depois foi governador da Índia, outra, e a D. João de Almeida, irmão do contador-mor, outra, e a outros fidalgos de tanta qualidade como estes se deu também uma só a cada um.
Chegado à Índia, foi entrar nas suas viagens no ano de sessenta e cinco, e, depois de vir de Japão no ano de sessenta e oito, teve, na China, no porto do Nome de Jesus na ilha de Amacao (sic), onde está a povoação dos portugueses, uma briga muito grande com um Alevantado muito poderoso, do qual teve vitórias muito notáveis, com grandes perigos de sua pessoa, em que Deus lhe fez muitas mercês, parte do sucesso da qual direi brevemente.