DO SOCORRO QUE DEU O CAPITÃO SIMÃO GONÇALVES NO TERCEIRO CERCO DE ARZILA, INDO AGRAVADO DE EL-REI PARA CASTELA, E OUTRAS VEZES OUTROS; E DO
PRESENTE QUE MANDOU AO PAPA LEÃO DÉCIMO; E COMO FOI LOUVADO SEU ESFORÇO DO XARIFE (204)
Sendo depois capitão de Arzila Dom João Coutinho, filho do Conde de Borba, el-Rei de Fez e seu irmão Moleinacer, Rei de Meniques (205), vieram a terceira vez cercar Arzila no ano de mil
e quinhentos e dezasseis, com mais de cem mil homens. Dom João Coutinho avisou logo a el-Rei deste cerco, por ser tão temeroso, além de o fazer saber a um feitor, que el-Rei tinha em Málaga, que lhe mandou duzentos homens.
Neste tempo, tinha el-Rei mandado à ilha da Madeira, para a jurdição do Funchal, um corregedor, por nome Diogo Taveira (206), por certas razões que a isso o moveram, em despeito do capitão Simão Gonçalves, que estava na ilha; agravado do qual, determinou de se ir com toda sua casa para Castela, porque, pelos serviços que tinha feitos a el-Rei, não lhe merecia meter-lhe corregedor na sua jurdição, sendo ele governador da justiça em toda sua capitania. E, com este agravo, se embarcou em duas caravelas com tenção de passar a Castela; o qual, indo assim da ilha, acertou com temporal ir ter a Lagos, do Algarve, onde, sabendo deste cerco, mandou apregoar soldo a dois cruzados por mês e se partiu logo para Arzila com setecentos soldados, que ajuntou em três dias, pagos à sua custa, e foi socorrer a vila de Arzila, levando, além disso, muitos mantimentos.
Depois de ser lá, com sua ajuda e de outros fidalgos, que foram ao socorro, e com o que el-Rei mandou por Diogo Lopes de Sequeira, el-Rei de Fez mandou levantar o cerco, tomando caminho para Alcácer Quebir, e, ao tempo que se os mouros quiseram levantar, ficou a cava desfeita e muros derribados por algumas partes; nisto, veio nova da morte e desbarato do capitão Nuno Fernandes de Ataíde, pelo que pareceu ao Capitão de Arzila que os mouros tornariam a continuar o cerco e, pondo Dom João isto em conselho com muitos fidalgos, que aí eram vindos ao socorro, quais deles ficariam e com quanta gente para reformar os muros e cava, alguns, que para isso foram requeridos pelo Capitão de Arzila para ficarem na vila até de todo cessar a necessidade, se escusaram, o que vendo o capitão Simão Gonçalves, se ofereceu ao Conde para ficar em Arzila todo o tempo que fosse necessário, dizendo que para o que cumpria ao serviço de Deus e de el-Rei, seu Senhor, não lhe lembrariam agravos, nem pouparia dinheiro, nem fazenda, e mandou logo apregoar soldo (para fazer mais quinhentos homens) a quatro cruzados por mês, para a paga dos quais mandou trazer dois mil cruzados, o que foi causa e exemplo de ficarem em Arzila mais algum tempo muitos dos que estavam para se ir.
E este oferecimento de Simão Gonçalves não aceitou o Conde do Redondo, Capitão de Arzila, vendo a grande despesa que lá (207) tinha feita e cada dia fazia com a gente que tinha; e lhe respondeu que a todos os outros obrigaria, mas a ele por nenhum caso o consentiria.
Deixando, pois, Simão Gonçalves as coisas de Arzila seguras, se foi a Sevilha, onde el-Rei Dom Manuel lhe escreveu uma carta, com grandes promessas e esperanças de lhe fazer as honras e mercês que tais serviços mereciam, mandando-lhe que viesse logo e tornasse para o Regno, que ele o despacharia conforme a seus merecimentos.
Assim que este capitão foi tão esforçado e liberal e contínuo em acudir aos rebates e cercos de África, e tão leal português e bom vassalo, que, pospondo (208) todo o agravo que de el-Rei
tinha, indo, como foi, para outro Regno, não deixou de oferecer sua pessoa e fazenda para serviço de el-Rei, tendo mais respeito ao que se devia a sua ilustre pessoa que aos agravos de el-Rei, que, a fim (209), lhe logo satisfez, porque (como diz o doctíssimo e reverendíssimo Dom
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Hierónimo Osório, ilustre Bispo de Algarve, merecedor por suas heróicas virtudes e ciceroniana facúndia de muitos maiores coisas), os fidalgos de Portugal hão-se com o seu Rei nos agravos como os mimosos filhos com os pais, que se aqueixam de qualquer coisa deles e fazem grandes casos e queixumes do que lhe fazem; porém, quando o negócio o pede, oferecem a vida pelos servir. Assim foi este agravado Capitão, que maiores eram as queixas, que de el-Rei tinha, do que, na verdade, o caso o pedia; porém, como mimoso filho, foi logo chamado do seu Rei e satisfeito do que pedia e desejava, que assim mereciam seus serviços.
Além destes socorros, que dito tenho, fez outros Simão Gonçalves de Câmara, assim à cidade de Safim como à Azamor e Arzila, por si e por seu irmão, Manuel de Noronha, que a Capitoa despachou e mandou com setecentos homens, gente mui luzida, à sua custa, como já fica relatado. E, assim, acudiu sempre com muita gente e navios a todos os rebates e cercos, que, em seu tempo, houve nos lugares de África, que dito tenho, e no Castelo Real, e do Cabo de Guel e Aguz, Mazagão, Cepta, Tânger, Alcácer Ceguer, ele, em pessoa, ou seu filho herdeiro; ou, quando não podia ir, mandava seus parentes e amigos, no que despendeu de sua fazenda, segundo se achou, por lembrança, nos serviços que alegou, oitenta mil cruzados, dos quais, quando faleceu, ficou devendo cinquenta mil, de que o Capitão Conde, seu neto, pagou dezanove mil, porque já seu pai, João Gonçalves de Câmara, tinha pago a demasia.
E isto, além de gastar sua renda toda nas tais despesas, que, naquele tempo, era a melhor renda de Portugal, tirando a do Duque de Bragança e Mestre de Santiago. E não foi muito de ver e gastar tudo isto, segundo sua condição alexandrina, porque, somente por isso, morreu pobre, por não poupar as despesas que tinha, grande casa, criados mui principais e de grande fausto e primor, e uma capela de muitos cantores e capelães, que competia com a de el-Rei, de que era mestre da capela um Diogo de Cabreira, castelhano, mui destro na arte de canto de órgão e tal, que o próprio Rei lho pediu para cantor para sua capela. E a estes todos dava de comer e todo o necessário.
E tão generoso foi, que, tendo seu filho Manuel de Noronha, Bispo que foi de Lamego, em Roma, que servia de secretário do Papa Leão, despachou da ilha um criado seu, por nome João de Leiria, homem muito honrado, prudente, e gentil-homem, o qual mandou a Roma visitar o Papa com um grande serviço, que, além de um cavalo pérsio, que lhe mandou de muito preço, lhe levava de cabresto um mourisco muito gentil-homem e alto de corpo, vestido em uma marlota de girões de seda; levou mais muitos mimos e brincos da ilha de conservas, e o sacro palácio, todo feito de açúcar, e os cardeais iam todos feitos de alfenim, dourados a partes, que lhe davam muita graça, e feitos de estatura de um homem, o que foi tudo metido em caixas emborulhados (sic) com algodão, com que foram mui seguros e sem quebrar até, dentro, a Roma, coisa que, por ser a primeira desta sorte que se viu em Roma, estimou-a muito o Papa, e cada uma peça, por si, foi vista pelos cardeais e senhores de Roma, sendo presente o Papa, que louvava muito o artifício, por ser feito de açúcar, e muito mais louvava o Capitão que lhe tal mandava, largando muitas palavras perante todos em louvor deste ilustre Capitão.
E recebeu com muita benignidade o embaixador João de Leiria, que foi muito acompanhado com muitos criados, vestidos (210) de veludo preto, à portuguesa, em companhia do qual ia um cónego da Sé do Funchal, chamado Vicente Martins, natural do Algarve, que ia por acessor e secretário da embaixada, para fazer a fala do Papa em latim. Era este cónego a melhor voz de contrabaixa que até seu tempo houve em Portugal, e mui destro no canto, além de ser bom latino; e diante do Papa mostrou sua habilidade na capela, com que foi muito louvado e estimado de todos, e lhe faziam em Roma bom partido por sua fala; contudo, o Papa, por ser do Capitão, lhe fez muitas mercês e lhe deu uma conezia, além da que tinha na cidade de Coimbra, e dois benefícios, outros símplices, que comia em portátiles (sic). E a João de Leiria fez muita honra e mercê, louvando muito as grandezas do Capitão e prometendo-lhe satisfazer as lembranças desta embaixada, que parecia mais de rei que de vassalo seu.
E o Papa escreveu uma carta, por João de Leiria, ao Capitão, a substância da qual era: Que se devia de ter por bem-aventurado, pois lhe deu Deus dera um filho tão virtuoso e de tantas partes, quais tinha Manuel de Noronha de Câmara, ao qual, se Deus lhe desse vida, ele faria grande na Igreja de Deus, por ser disso merecedor. E, sem falta, assim fora, se Deus não ordenara outra coisa com levar o Papa para o regno dos Céus em tempo que Manuel de Noronha veio a Portugal, onde o pudera fazer grande na Igreja, como tinha escrito.
Com esta carta veio mui satisfeito João de Leiria, e muito mais com as honras e mercês que o Papa lhe fez, e, fazendo volta por Génova, daí se passou a Espanha, donde veio ter à ilha; e
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foi bem recebido do Capitão Simão Gonçalves, que sabia mui bem pagar semelhantes trabalhos e disso se prezava, e ficava tão contente de dar quanto tinha, como se possuíra quanto há no mundo, que isto têm os liberais, viverem sempre na vontade ricos e contentes, porque ainda que dêem quanto têm, fica-lhe o que mais vale, que é o contentamento de o ter dado (211).
Com estas e outras obras, dignas de sempre estarem vivas na memória dos homens, tinha tanto nome e fama este Capitão, por toda Europa e África e parte de Ásia, que dizia o Xarife por ele (praticando com os seus xeques e alcaides em coisas de guerra) que, se tivera três capitães como o da ilha da Madeira, tão cavaleiros e poderosos, que se não (sic) (212) contentara com ser Rei de Castela e Portugal, porque nunca veio pôr cerco aos lugares de África, que tinham os cristãos ocupados, que deixasse de achar o Capitão da ilha com sua gente, tão destros e cavaleiros, que era a causa principal porque logo alevantava o cerco, que assim os achava aferrados consigo, como abelhas, sem poder fazer a sua, e se tornava com perda dos seus, pelo esforço e cavalaria deste valoroso capitão.
Testemunho destas palavras foi Inácio Nunes, língua deste Regno, que as ouviu por sua viva voz dizer ao Xarife e deu testemunho disso em um estromento que desta prática tirou, e, por ser homem calificado (213) e de tanta verdade, que por ela servia a el-Rei nas partes de África, faço esta lembrança, por que a tenham os descendentes deste ilustre Capitão e vejam quão excelente foi sempre na cavalaria e liberalidade, com que dava lustro a seus feitos e com que acquiriu (sic) toda esta fama. Porque o dar procede de grande ânimo e, comummente, os homens avaros da fazenda são pródigos da honra, e, pelo contrário, os que têm a fazenda em pouco estimam a honra em muito.
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