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CAPÍTULO QUADRAGÉSIMO QUARTO ( 315 )

No documento livro2 (páginas 147-150)

COMO FOI SAQUEADA A CIDADE DO FUNCHAL POR FRANCESES, COSSAIROS LUTERANOS, SEGUNDO A INFORMAÇÃO DOS MORADORES DA PARTE DO SUL (316)

Não há quietação nem descanso nas coisas deste mundo; antes, quando parece que o há maior, está tudo quanto ele tem em vésperas de maior ruína e presto se torna a sua quietação desinquietação, e o descanso trabalho, e alegria tristeza, o riso choro, o ganho perda, o contentamento pesar, o gosto da vida um desgostoso enfadamento dela e um importuno avorrecimento de quanto nela se possui, porque uma só repentina e salteadora mudança muda, desbarata, consume e põe por terra toda sua firmeza. Não (317) somente vemos isto nos estranhos e vizinhos, mas em nossas casas, nos nossos lares, debaixo de nossos telhados experimentamos muitas vezes semelhantes misérias, sem acabarmos de crer, nem entender, que ninguém em seu estado e descanso pode estar seguro. Mas, para que melhor vigiemos, pois vemos arder as casas de nossos vizinhos, que estão tanto à porta, vos contarei, Senhora, um cruel estrago e um desaforado roubo, que desaforadas consciências e diabólicos ministros nesta ilha da Madeira, de que vou contando, fizeram, estando a cidade do Funchal no mais alto e próspero estado que podia ser, mui rica de muitos açúcares e vinhos, e os moradores prósperos, com muitas alfaias e ricos enxovais, muito pacífica e abastada, sem temor nem receio do mal que não cuidavam.

Descuidados os naturais de a fortuna virar a vela de sua prosperidade, foram saqueados dos luteranos, como agora contarei, conforme à informação que disso tenho dos da parte do Sul, e depois direi a dos morados (sic) da banda do Norte, ainda que ambas, em algumas coisas, vão Norte e Sul uma da outra, pelo que direi ambas, pois não sei adivinhar qual a certa, e de cada uma delas podereis tomar e aceitar o que melhor vos parecer, suprindo o que uma calou com o que outra diz.

Aos três dias de Outubro do ano de mil e quinhentos e sessenta e seis, véspera do seráfico S. Francisco, aportaram a esta ilha da Madeira oito (sic) (318) poderosos galeões de França, em

que vinham por todos mil soldados arcabuzeiros, afora outra gente do mar, com tenção de saquear a dita cidade, pela fama que de sua riqueza soava, no porto da qual não ousaram desembarcar e foram deitar âncora na Praia Formosa, uma légua abaixo do Funchal, que terá como um quarto de légua de areia, e tem a terra tão alta, que, ainda que sejam naturais, não podem subir senão pela rocha, por estreito caminho, e perigoso, e os estrangeiros com piloto da terra. Vinha por capitão-mor destes cossairos Monseor (sic) de Moluco (319), gascão de

nação, e, como vinham apercebidos para o efeito que tiveram, desembarcaram sem resistência alguma, porque não havia suspeita que queriam cometer a cidade, pois não havia guerra antre França e Portugal; mas, como eles eram alevantados e luteranos, deram-se tanto à pressa aquele próprio dia, que desembarcaram às nove horas dele, marchando logo por terra toda esta légua, que disse, que, quando foi à véspera, estavam já na cidade, onde não acharam mais resistência que na entrada dela, em uma igreja de S. Pedro, por donde era seu caminho direito, onde o Capitão e Governador, Francisco Gonçalves de Câmara, logotente de seu sobrinho, com o alvoroço da nova que eram entrados os imigos e vinham perto, com pouca gente, que com muita pressa pôde ajuntar, lhe saiu ao encontro e dali, da sua estância, que tinha daquém da ribeira de S. Pedro, tendo os franceses defronte, lhe deteve e defendeu o passo da ponte por espaço quase de uma hora, mandando-lhe tirar um falcão, e, segundo alguns dizem, dando o pelouro em uma pedra, se quebrou uma racha, que foi dar em uma perna do Capitão-mor francês, de que morreu depois na fortaleza, dali a três dias; outros dizem de sua morte outra coisa, como adiante direi.

Em este tempo, subiram os imigos pela ribeira arriba até S. João, e, defronte, estava um caminho por uma rocha, não visto nem cuidado dos naturais, que tinha a saída acima em terra

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chã, junto do moesteiro das freiras; e os que por este atalho subiram cercaram o moesteiro, e um Sebastião Mendes, natural da mesma ilha, achando-se dentro, tendo as portas da cerca fechadas, atirou três ou quatro tiros, para que os imigos entendessem haver dentro, na cerca do moesteiro, gente de guerra, o que não estava, e, subindo acima do muro um dos imigos, para descobrir a gente que dentro podia estar, o mesmo Sebastião Mendes, que nesta hora (320) estava subido no campanairo, vendo-o assomar sobre o muro, o derribou com um tiro de

arcabuz; pelo que, cuidando os franceses haver gente de guerra dentro, correram à cidade e largaram o moesteiro, com tenção de tornarem a ele depois de tomada a fortaleza. As freiras se saíram, então (321), fora, com cruz alevantada, sem impedimento de pessoa alguma, levando

consigo o guardião, Fr. Baltezar Curado.

Descendo a outra manga (322) dos franceses abaixo, à fortaleza (pela resistência que dito

tenho), indo já pela freiguesia de S. Pedro, vinham entrando e matando a gente, a ninguém perdoando, antre os quais mataram a Fr. Álvaro de Miranda, frade de S. Francisco, na Carreira dos Cavalos, com uma lança e uma adarga nas mãos, dizendo aos naturais: «Hoje é o dia em que havemos de mostrar sermos filhos de nossos pais; lá vos havinde», e, em dizendo isto, veio um pelouro perdido e o derribou morto no chão, até chegarem defronte da fortaleza, onde já acharam a companhia que pelo moesteiro havia ido, e ambas juntamente acometeram, estando já recolhido nela o Capitão Francisco Gonçalves de Câmara, com alguma gente, em a qual nenhuma resistência houve, porque, ainda que nela havia muita artilharia, não tinha pólvora, nem pelouros, mas, sem embargo de toda esta fraqueza, à entrada dela, pela janela da sala da banda de S. Francisco, entrando o Capitão dos franceses, dizem alguns que, estando Gaspar Correia, homem fidalgo e rico, natural da mesma terra, defendendo o passo da janela, lhe deu com uma alabarda per uma coxa, com que logo o derribou, e durou três dias, depois de ferido.

E sendo a fortaleza rendida, por não haver nela gente de peleja, mais que vestidos com seus capuzes e espadas na cinta, os quais se haviam nela metido, mais cuidando poderem salvar sua pobreza, que consigo haviam levado, que defendê-la. Depois disto, assossegados, alevantaram no mesmo dia e instante por Capitão-geral a Fabião de Moluco, de idade de vinte anos, irmão do capitão morto, que (como alguns dizem) um deles era Visconde de Pompador, ou de Pompada.

Antre os que morreram na fortaleza foram Gaspar Corrêa, todo crivado de pelouros, por haver ferido ao Capitão-mor, e Luís da Guarda, alcaide da dita cidade do Funchal, Martim Gonçalves, clérigo, um frade do Cartaxo, da ordem de S. Francisco, e outros, a que não soube o nome, que por todos foram oitenta, quarenta nobres e quarenta do povo, aos quais todos despiram nus, achando-lhe muito dinheiro e peças de prata e ouro, e os deitaram do baluarte das Fontes no mar. E o Capitão Francisco Gonçalves de Câmara foi muito ferido dentro na fortaleza, onde se havia recolhido com sua mulher, D. Caterina Mondragão, acompanhada com muitas mulheres da terra, às quais se não fez agravo nenhum, antes serviam os imigos a Dona Caterina como ela merecia.

Mataram na entrada da cidade, té (sic) ficarem em posse dela, quase duzentos portugueses, e dos seus morreram cinquenta e o Capitão-mor.

A Francisco Gonçalves de Câmara, pelo que fez nesta entrada e por outros serviços, deu el-Rei o hábito com tença, e que não pagasse por três anos, e, segundo outros dizem, por oito, dízimo nem quinto de sua fazenda, que boa parte possui, no termo do Funchal, de açúcares e vinhos.

Ao outro dia, à noite, depois da entrada dos franceses, foi ter António de Carvalhal, com quase quinhentos homens, que ajuntou da banda do Norte, aposentando-se na ribeira de Água de Mel, na quintã de Francisco de Betencor de Sá, meia légua da cidade, e mandou recado aos das vilas de Machico e de Santa Cruz que se ajuntassem com suas armas em o pico de Lopo Machado, sobre a ermida de Nossa Senhora das Neves, determinando-se o dia em que podiam uns, por uma parte, e ele, pela sua, dar em os imigos.

E, não vindo a efeito a determinação de António de Carvalhal com os mais, por não terem outras armas senão meias lanças e espadas ferrugentas e serem homens pouco experimentados na guerra, e estarem os imigos já fortalezados na cidade, os quais, como mais destros, se começaram a desmandar, fazendo algumas saídas pelos montes, como foi, indo depois à igreja de Nossa Senhora do Monte, meia légua da cidade à banda do Norte, um francês, tomando a imagem da Senhora (que é de vulto de pau), a despiu, dando com ela, para

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a despedaçar, em uns degraus de pedra forte; os próprios degraus se fizeram pedaços, ficando ela inteira, sem quebrar coisa alguma, mas não tardou muito que quem tal insulto cometeu não levasse a paga, porque, tornando-se ele para baixo, topou com um homem em sua casa, chamado António Mendes, que dizem ser pastor, o qual lhe disse, vendo-o só, apartado dos outros, que entrasse e tomasse o que quisesse, e, em se virando o francês, lhe deu o pastor com um manchil, que trazia, e o fendeu pela cabeça, de que logo ali morreu, e no mesmo lugar lhe queimaram os portugueses depois o corpo, cuja alma queimam e queimarão os demónios eternamente no Inferno, onde jaz sepultado. Foi depois, por este feito, este pastor armado cavaleiro pelo Capitão Simão Gonçalves de Câmara e mandado a África, por ser homem valente, com seu filho, Rui Dias de Câmara, que lá foi fronteiro muitos anos. Também desmandando-se outro francês na ermida de Nossa Senhora das Neves, à banda do Nordeste, despiu a Senhora e roubou sua igreja, ao qual saiu ao caminho um português, homem fidalgo da geração dos Freitas, e o matou, tomando-lhe os vestidos que levava da Senhora.

Não somente houve estrago nos templos e coisas da cidade, mas não faltaram também trabalhos nos campos e serras, porque quem cuidava achar nelas abrigo achava muitos choros e fomes, e moças donzelas e formosas, sem lembrança nem socorro de pai, nem de mãe, com os seus vestidos de seda rotos dos matos por onde caminhavam, sem saberem por que parte fugiam, nem terem quem as guiasse, correndo-lhe o sangue dos pés, não costumados a tais caminhos, por serem de nobre geração, e outras paridas no ermo, sem lume, nem companhia alguma, nem com que se sustentar a si, para poder criar seus tenros filhos, e outras comendo à sexta-feira carne, e ao sábado sem pão, sem saberem parte de seus maridos, se eram vivos, nem os maridos delas, o que era ainda mais para chorar, e muito maior mágoa e morte viva que a morte dos mortos e perda das fazendas.

Assim ficaram os naturais desterrados e os cossairos senhores da cidade, onde estiveram de assento onze dias (323), nos quais carregaram as naus de quanta riqueza havia na ilha, que ali principalmente estava, não podendo levar muito açúcar e ricos e odoríferos vinhos, por lhe não caberem nas naus, que abarrotadas estavam de móveis de muito preço, porque, pela maior parte, pelo trato dali, a mais e maior riqueza daquela terra eram jóias e ricas peças de móveis ricos, que mandavam trazer de Frandes e outras partes pelos contratantes e forasteiros, a troco de mercadoria da terra e de suas novidades, sem estimarem, nem sentirem a compra e custo de semelhantes coisas, ainda que custosas; porque casa houve de que levaram alcatifa, que custou e valia oitenta mil réis.

No rol da confissão, no ano de 1552, se acharam na cidade do Funchal, antre negros e negras e mulatos cativos, dois mil e setecentos, e, depois, no mesmo ano, foram ter a ela quatro navios com trezentos escravos, que fizeram por todos três mil.

Quando saquearam os franceses a cidade do Funchal, indo, tão carregados de fato, quase metidos no fundo, deixando muita riqueza na terra, que não puderam levar, de vinhos e peças ricas de móvel, levaram mais de trezentos negros consigo, que lhe não aproveitavam, pois lá em França há muita gente da terra que serve por pouco preço, pelo que há infinitos serventes, sem terem necessidade do serviço dos negros, que (como se diz) são lá todos forros.

Queimaram umas casas grandes de dois sobrados que estavam juntos das casas do Bispo, que tinham além de sessenta pipas de vinho, e nos sobrados muito ouro e prata, e muitas peças de pano fino, e grande cópia de alfaias de casa, que ali de muitas tinham juntas, pelo não poderem embarcar com a pressa ao recolher, pelo receio que tinham da vinda da armada de Portugal, e por estarem detrás da ilha António de Carvalhal, com quatrocentos ou quinhentos homens, para vir sobre eles, e Leomelim e o Freitas com muita gente; puseram fogo às ditas casas e queimaram vinho e tudo o que nelas estava; e tiravam o torno às pipas, como lhe não contentava; não queriam comer senão galinhas e galipavos, fazendo mais perda em tudo que o proveito que levavam. E ao recolher, matavam os franceses toda a gente da terra que os ia ver embarcar, sem perdoar a ninguém, nem a mulheres nem mininos, nem a velhos nem a moços, nem a negros e escravos, porque de todos se temiam. E no fim dos onze dias se fizeram estes franceses à vela, sem fazer muito dano nas pousadas, senão nos templos, onde queimaram e espedaçaram as imagens, desfizeram altares e profanaram relíquias, fazendo mais males por obras do que se podem de homens imaginar, nem de cristãos crer, nem por palavras contar (324).

Capítulo Quadragésimo Quinto 139

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