COMO FOI DESENCRAVADA A ARTILHARIA GROSSA DA ILHA DA MADEIRA POR UM GASPAR BORGES, GRANDE E ENGENHOSO ARTÍFICE (351)
Estando com toda esta artilharia grossa encravada e atupida e, com tais avisos e em tal necessidade, procurando remédios como se desencravasse, e havendo-se já sobre isso tomado parecer com todos os capitães que na armada vieram, e com os homens principais e de muitos anos da Índia e de Itália, não podendo de sua indústria dar ordem a desencravar nem desatupir as ditas peças, foi dito ao Capitão João Gonçalves de Câmara que, se um Gaspar Borges, grande e engenhoso artífice de coisas de ferro e de outras matérias, que, então, estava na ilha, as não desencravasse, não acharia outrem que lhe desse a elas remédio, pelo qual o mandou chamar. E, dizendo-lhe o que dele queria e esperava, que era ver desatupidas e desencravadas aquelas peças tão grossas de artilharia de bronço, de cuja obra dependia a defensão daquela cidade, sobre o qual disse estar informado que só ele, antre todos os que naquela ilha estavam e na armada haviam vindo, lhe podia dar remédio, lhe respondeu Gaspar Borges que lhe era necessário ver bem as peças, para dizer se era possível desatupi-las e desencravá-las. Disse-lhe o Capitão que as visse logo.
Vendo-as, apalpou com um cinzel as brocas e achou serem de aço temperado, muito rijas, e estarem cravadas com tanta força, que os buracos das escorvas, que dantes eram redondos, estavam quadrados pola força das brocas, que quadradas eram; conjecturou consigo que com uma de duas maneiras era possível desencravá-las, e, tomando bem o pulso à coisa, oferecendo este caso a Deus, que dá tudo, achou o remédio como e com que as havia de desencravar e desatupir, sem ver impedimento algum para se deixar de pôr em execução seu intento.
E logo foi ter com o dito Capitão, que com muitos senhores e capitães o esperava ao Varadouro, e dizendo-lhe que as peças teriam remédio, se foi o Capitão a ele com os braços abertos, e, abraçando-o, o alevantou no ar, dizendo: «Grande alegria e contentamento é o que me destes; pois assim é, dizei-me quanto vos hei-de dar polas restaurardes de modo que possam servir como dantes». Disse-lhe que bem merecia o que valia a melhor peça delas, mas que se contentaria com mil cruzados, porque com menos lhe não pagavam. Disse o Capitão: «Jesu, Mestre! Eu cuidei que com trinta cruzados vos pagava». Respondeu: «Senhor, esses hei eu mister para fazer os instrumentos com que se hão de desencravar». Disse, então, o Capitão: «Desse-vos logo o dinheiro que houverdes mister para esses pertrechos (sic) que dizeis, e olhai que fazeis nisto um notável serviço a El-Rei Nosso Senhor, e que vos há-de ser bem pago». Ao que respondeu que o serviço ele confiava em Deus de o fazer do modo que era necessário e que assim esperava também alcançar o prémio conforme a sua indústria e trabalho. Estavam presentes a tudo isto mais de duzentas pessoas, assim capitães, como outros fidalgos.
E, logo, se pôs em obra de levar as duas peças (que junto da água, ao Varadouro, estavam), com muitas juntas de bois, à fortaleza, onde as mais estavam, e, sendo lá, e ele com elas, Francisco da Câmara, que ainda não saía fora de casa por estar ferido e maltratado dos franceses, o mandou chamar, para conhecer quem era o que havia de fazer coisa que todos e ele duvidavam. Indo ante ele, que, com mais de outros quarenta fidalgos, estava assentado em uma grande sala, e outros em pé, lhe disse:
«Mestre, todos folgamos (352) muito com a boa nova que destes ao senhor Capitão João Gonçalves, e eu mais que todos a estimo, pelo muito que me cabe em ver tornadas a seu uso as peças da artilharia deste baluarte, que, segundo me dizem, estão perdidas, para não prestarem mais, se vós as não desencravais e desatupis, sendo tão necessárias para a defensão desta cidade e as melhores do Reino; mandei-vos chamar para vos conhecer e, já
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em vos ver, entendo, e tenho por sem dúvida, serem as peças todas remediadas, no que fazeis a El-Rei Nosso Senhor muito serviço, e a esta cidade mui grande amizade, e, além de tudo, escusais despesas e gastos, que em as levar a fundir ao Reino se haviam de fazer, pois para outra coisa, sem vós, não prestam; o que todo vos há-de ser bem pago e agradecido, e eu, porque assim o espero, que as haveis de dar prestadias, como dantes eram, além do que EI-Rei Nosso Senhor e o senhor João Gonçalves de Câmara, Capitão desta ilha, que vos encarregou (353) nesta obra, vos derem, vos prometo trinta mil réis para calças, e olhai que diante todos estes senhores vo-los prometo; portanto, ponde os ombros à obra e levai-a com presteza avante, e o dia que acabardes de desencravar todas as peças vinde aqui, que eu vos darei os trinta mil réis que vos prometo, assim como dito é».
Disse Gaspar Borges que beijava as mãos de Sua Mercê pola mercê e a aceitava, e que tivesse por certo que, tendo saúde, as veria cedo desencravadas e aproveitadas da maneira que dantes eram, ainda que era bem dificultoso negócio, por serem com brocas de aço temperado cravadas.
Logo, ao outro dia, lhe mandou dar o Capitão João Gonçalves de Câmara seis mil réis para preparar os instrumentos com que se haviam de desencravar, e, acabados, começou por um dos caminhos e meios dos dois que tinha imaginado, o primeiro dos quais foi em vão, porque com ele não se puderam desencravar, ainda que foi disposição e melhor preparação do que se esperava para pola outra via se desencravarem, a qual preparação foi desta maneira.
Fez tão descobertas as brocas, que nos tiros estavam, como dois dedos, cavando no bronço com cinzéis em quadra, de modo que ficasse como escorva para se cevar por ali com o polvorinho e pudesse caber uma tenaz de malheiro, ainda que era mais grossa, as bocas da qual fez de aço bem picadas, fazendo fazer e trazer uma polé de aspas, pela qual puxavam oito homens, estando os tiros cobertos com fogo de grossa lenha, os quais, sendo tão quentes como convinha, apegando com a tenaz na broca, puxando os homens, não se fez coisa alguma no tirar das brocas; os tiros estavam escorados e, ainda que o não estiveram, por serem de cento e quarenta e cinco até cento e cinquenta quintais cada um, por sua grandura e peso, podiam deixar de ser escorados, mas antes consentiam arrastar-se puxando e aferrando bem com a tenaz polas brocas, que desencravar-se. Fez o mestre isto de noite, por lhe aplicar melhor o lume, certificando o Capitão João Gonçalves de Câmara dele, que o fogo lhes fazia mais proveito que pedra, porque, ao menos, gastava o salitre e sujidade que em si tinham.
Como o Capitão João Gonçalves e Francisco Gonçalves, seu tio, com os mais capitães, vissem que daquela sorte não se pudera desencravar a artilharia, (ainda que Gaspar Borges já a este tempo a tinha desatupida (354), desconfiaram todos de a ele desencravar; mas, rindo-se
ele, lhes dizia com alegre rosto: «Certo que agora quero obrigar a cabeça a El-Rei Nosso Senhor e a Vossa Mercê que as hei-de dar desencravadas, e as brocas na sua mão, e as que quiser que se convertam em pó ficarão assim nele convertidas, e as que quiser tirar inteiras já digo que inteiras as hei-de dar nas mãos de Vossa Mercê e do senhor capitão Francisco Gonçalves de Câmara, por não perder a promessa de Sua Mercê dos trinta mil réis». Do que todos zombaram e se foram descontentes.
Teve o mestre cuidado de fazer suas águas fortes muito mais que as da botica, comprando cera e fazendo seus vasos, tendo tudo a ponto. E não quis aqueles três ou quatro dias ir ao Paço dos Capitães; só o capitão Alexandre Moreira, que lhe era mui afeiçoado, ia à sua tenda, por se desenfadar e falar castelhano com ele, e também italiano, e outras vezes o mandava chamar ao cubelo, onde tinha seu alojamento e pousada, e aí lhe rogava que lhe declarasse como havia de tirar aquelas brocas dos tiros, que o tinha por impossível, ele e os mais capitães, ainda que havia certificado ao Capitão João Gonçalves que, sem falta, pois ele lhe havia oferecido a cabeça, lhas daria tiradas fora.
Respondeu-lhe o mestre que, em lhe oferecer a cabeça, se perdia pouco perdendo-a e mais se perdia em não se aproveitarem aquelas tão grossas e necessárias peças, mas que, assim como lho tinha prometido, o havia de cumprir, com ajuda do Senhor, e que estudassem em lhe dar bom galardão de tão proveitosa obra, como lhe fazia, e tão difícil a todos, e, pois haviam visto com que arte e indústria as havia desatupido, que assim com outra melhor as daria desencravadas, e que, se Suas Mercês entenderam alguma coisa de Filosofia, lhes provara, por regras e princípios necessários de outorgar, como não podia ser o contrário, senão serem desencravadas as peças e tiradas as brocas com os dois dedos, que lhe amostrou da sua mão, mas que, como careciam de entender princípios, conclusões e pressupostos, não era muito
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negarem o que, se entenderam, haviam de conceder; e que, pois isto tinha (355) já chegado a
termos de ele obrigar a cabeça e redundava o bem desta obra em serviço de el-Rei e tão grande proveito daquela cidade, que avisasse e pedisse ao senhor João Gonçalves de Câmara, a cujo cárrego estava o prover em todo, mandasse fazer portas e fechar o baluarte, porque não havia de estar aplicando as coisas com que se haviam de desencravar à vista de ninguém, por não dar matéria a que se falassem ignorâncias, e, como estivessem fechadas, em breve espaço veria feito o que tanto desejava.
Vindo o mestre a sua casa, depois de passado isto pela manhã com Alexandre, a horas de jantar, foi chamado de parte do Capitão João Gonçalves, ao qual achou jantando com Alexandre e com todos os capitães. Fez-lhe muito gasalhado, rogando-lhe declarasse o como havia esta segunda e última vez de desencravar as ditas peças, ao que respondeu que a Sua Mercê não convinha saber o como se haviam de fazer, senão recebê-las acabadas para lhe gratificar e pagar bem seu serviço, como lhe tinha prometido, o qual veria sem falta acabado de fazer, assim como ele se tinha (356) oferecido, para o qual lhe mandasse dar o baluarte fechado, como ao capitão (357) Alexandre havia pedido avisasse a Sua Mercê, e, desta maneira, brevemente seriam todas as peças desencravadas.
Foi tanto o que matinou que lhe revelasse o como havia de pôr isto em efeito e com quê, e tanto o que o persuadiu o capitão Alexandre que o fizesse, por dar gosto ao dito João Gonçalves e a todos os circunstantes, que lhe foi forçado revelar-lho. Mas primeiro lhe disse que, já que lhe faziam força em declarar seus segredos, se tinha por ditoso em dar primeiro o todo que a parte, e, pois assim eram servidos, havia de ser com seu encárrego, e lhe haviam de conceder certos pressupostos e conclusões necessárias, das quais lhe proporia poucas e as mais claras para que o entendessem, e, entendidas, concederiam o que todos os que sabem concedem. Assim o começaram todos a escuitar, e ele começou a dizer:
«O primeiro que quero e convém que concedam é: que toda a coisa, que se move, há-de ter movedor dentro de si que a mova, ou fora de si». Disseram que o não entendiam. Disse-lhes: «Todo animal tem movedor dentro de si para se mover, o qual animal morto, fica o corpo sem mover-se e o movimento fora de si, como a pedra, quando é movida com o braço que a tira ou deita fora do lugar onde estava». Disseram que assim era. Disse-lhes mais: «Toda a coisa que vem de potência em acto e de não ser a ser há mister coisa que a tire da tal potência e lhe dê tal ser, e, se tem impedimento, o que tira o tal impedimento se diz tirar da potência em acto». Não entenderam esta.
Disse-lhes: «O que Vossas Mercês querem eu o tenho em mim, que entendo-o como a coisa que pedem há-de ser; o impedimento é dilatar o que hei-de fazer, ou não o querer fazer, de modo que, havida a matéria e posta em obra, se tira o defecto (358), e assim sai a coisa de potência em acto e do não ser a ser, pois em mim está o entendê-la e o poder fazê-la, ainda que o meu poder seja limitado, não mais de para fazer quanto me é outorgado».
Entenderam e concederam que era assim, mas que inda não estavam satisfeitos. Respondeu: «Ainda não têm razão de o estar; mas, por que melhor o entendam, hão-de conceder que quatro são a metade de oito e cento a metade de duzentos». Disseram: «Assim é». «Pois parece a Vossas Mercês, lhes disse ele, que, se alguém negasse que quatro não eram a metade de oito e cem a metade de duzentos, que se podiam bem rir do tal e tê-lo por puro ignorante»? «Sim», disseram eles.
Disse ele: «Pois assim é do que negasse o que digo, havendo concedido que aquele, que pode e quer, tem poder de tirar a coisa da potência em acto e do não ser a ser; e este que a tira de sua privação, que é do não ser a ser, é o obrador, e a substância, ainda que seja substância criada, como é o homem, a imitação de Deus, que é substância incriada e é o que tirou todas as coisas do não ser ao ser, vendo que o ser daquelas era melhor que a privação delas, e que é causa eficiente e preservante por quem todas as coisas são regidas e governadas, uma causa necessária de ser, sem o qual nenhuma coisa pode ser, e assim todas as coisas são por ele; este Senhor teve por bem dar ao homem entendimento, que veio dele, com o qual contempla as coisas e as alcança e compreende, tanto quanto é possível à natureza criada. E, pois, fica já dito o que foi necessário conceder, agora quero declarar a Vossas Mercês o remate de como, não por milagre, senão naturalmente, por coisas palpáveis, visíveis e naturais, se hão-de desencravar e tirar as brocas das peças, que tão difícil parece, e assim o é ao que não entende».
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«Hão-de saber e conceder o que a todos, em geral, é notório e visto: cair raios de fogo do Céu (onde algumas vezes vêm pedras que chamam de corisco), os quais raios, se acontece caírem e darem em algum sino de metal, o derretem, mas a corda no sino, nem a correia de couro, com que está atado o badalo, nenhum dano recebem; e já se acharam homens mortos de raios com o ouro e prata, que dentro nas bolsas tinham, derretido, ficando sãs as bolsas e os cordões delas inteiros».
Perguntaram os capitães por que causa aquele raio fazia aquilo, desfazendo o rijo e duro, sem fazer dano ao fraco e brando; aos quais respondeu que era sua propriedade aquela de ofender e obrar com maior força onde achava mais resistência, o que lhe vinha da própria natureza do fogo de que era o dito raio. «Pois, aplicando isto a nosso propósito, hão-de saber que os materiais e águas com que hei-de tirar e gastar as brocas da artilharia (que agora estão mais dispostas para isso por estarem já destemperadas e capazes de se poderem melhor gastar, pois, caminhando para este fim, foi a causa por que aguentei as peças de bronço naquele lugar onde me era necessário), as águas fortes (torno a dizer), que para isto hei-de fazer e aplicar às mesmas brocas, são da mesma natureza de que é o raio, com tão grande ímpeto expelido, e com a violência e força do mesmo fogo lançado para baixo, posto que estoutra água e composição seja cá artificialmente feita, todavia, são de uma natureza, e, assim, gastam estas águas fortes as coisas mais rijas e se conservam e estão quietas na coisa branda; e, para mais clareza desta verdade, saibam que tenho já feitos tantos vasos de cera quantas são as peças que se hão-de desencravar, para em eles estarem as águas fortes estilando-se e caindo pouco a pouco por aquelas espirações que as brocas fazem antre os ângulos e quinas das quatro quadras em aqueles côncavos, que a broca, por ser quadrada, não encheu de todo; e agora tenho já feitas as ditas águas fortes postas em redomas de vidro, que é matéria a que a água forte nada empece. E, porque não é necessário trazer mais provas para esta obra, pois as ditas sobejam, Vossas Mercês se dêem por satisfeitos de sua dúvida, e creiam que as coisas artificiais também são naturais em suas operações, e não esperem que os homens façam milagres, que só Deus os pode fazer. E assim não há que nisto o senhor Capitão João Gonçalves da Câmara e Vossas Mercês mais queiram saber, nem me deter».
Ao qual o dito Capitão disse que já não tinha dúvida alguma mais de que ficariam os buracos das escorvas muito maiores que dantes, pelo que foi necessário tornar-lhe a replicar e dizer o dito Gaspar Borges que já lhe tinha provado que aquelas águas, que ele havia de aplicar, não empeciam, nem ofendiam senão a seu contrário, e que, destas três matérias, cera, bronce e aço, o aço era o mais forte e portanto as águas fortes, daquele modo compostas, ofendiam a ele, e ao bronce não, estando ambos juntos, pelo que ficariam os buracos das escorvas da maneira e tamanho que dantes eram. E assim foi. Acabaram, então, de crer ser possível desencravá-las. E Alexandre disse ao Capitão João Gonçalves que oferecia sua cabeça por ele.
E mandando fazer portas ao baluarte, se lhe deu e entregou fechado, para que pusesse em execução a obra, em que pôs tanta diligência, que, dentro em três somanas (sic) depois disto deu todas as sete peças e a quebrada, acabadas de desencravar de todo, e tiradas as brocas com a mão, gastadas todas ao redor quanto foi necessário comer-se para saírem com a mão, ou com dois dedos.
E uma delas, que fez converter em pó, deixou ficar para mostrar ao Capitão e a todos aqueles senhores, como lhes tinha (359) dito; e as sete brocas, tiradas fora, todas, uma manhã,
levou ao Capitão João Gonçalves de Câmara, que encontrou, indo da Sé com uns noivos, por padrinho de um tambor que aí se casou, acompanhado de muita gente principal e capitães, e diante de todos, e de Francisco Gonçalves da Câmara, seu tio, lhe pediu alvíssaras; e dizendo ele: «De quê?» Respondeu: «Do que Vossa Mercê tanto desejou, e o senhor Francisco Gonçalves de Câmara, que já sua artilharia é desencravada, como eu prometi; eis aqui as brocas tiradas somente a mão.
Tomou-lhe, então, o dito Capitão João Gonçalves as brocas com sua mão, que de dois palmos e quase meio eram de comprido cada uma, e, olhadas e vistas muito bem, lhe disse: «Certo que as alvíssaras vós as mereceis muito boas e que el-Rei Nosso Senhor, além de tudo, vos faça grandes mercês; e as brocas tanto as quero, que as não hei-de soltar da mão até tornar a casa, para as meter em um cofre e mandar a Sua Alteza, e vós, mestre, sereis bem pago».
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E, porque o dito mestre lhe tinha já dito que a outra broca, que havia feito converter em pó, Sua Mercê com os senhores capitães Francisco Gonçalves e Alexandre a fossem ver no mesmo tiro, disse que, tornando donde iam, seriam todos lá, e assim foram. Então, com uma broca, que o mestre para isso tinha feita, começou a furar diante deles e tirou aquele aço, todo em pó, em espaço de três Credos, de modo que ficaram todos espantados e os capitães João Gonçalves e Alexandre o abraçaram com muita festa. Mas nem ele, nem seu tio Francisco Gonçalves, lhe deram nada de alvíssaras, nem os trinta mil réis que para calças lhe tinha (360) prometido. E, antre tantos grandes, só o dayão ... (361) da Costa lhe mandou de alvíssaras um
lombo de porco e antrecostos, que era no tempo deles, e um barril de bom vinho, oferecendo-se-lhe que o ocupasse no que houvesse mister dele. Pero Nunes Florença lhe