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CAPÍTULO VIGÉSIMO SEXTO

No documento livro2 (páginas 92-94)

CAPÍTULO VIGÉSIMO SEXTO

DE ALGUMAS COISAS NOTÁVEIS QUE FEZ TRISTÃO VAZ DA VEIGA E COMO ERA TRATADO PELOS VIZO-REIS DA ÍNDIA E POR EL-REI, QUE O FEZ DO SEU CONSELHO;

COMO OS GOVERNADORES O FIZERAM CAPITÃO DA TORRE DE S. GIÃO

No ano de mil e quinhentos e setenta e oito se embarcou este generoso capitão Tristão Vaz da Veiga da Índia, na nau S. Pedro, para este Reino. Perdeu-se nela nos baixos de Pero dos Banhos, que estão em cinco graus e meio da banda do Sul. O que naqueles baixos lhe sucedeu, o modo como fez fazer outra nau, em uma ilha deserta, dos pedaços da nau perdida, o como o (sic) botaram ao mar, e como se mantiveram na ilha, os trabalhos que nela passaram e na viagem até tornar à Índia, foi coisa de que também se pudera fazer uma particular história para louvor de Deus, que tamanhas mercês lhe fez naquela perdição e triste naufrágio, em que lhe foi necessário usar de grandíssimas e sotis (sic) invenções e artifícios para fazer trabalhar cinco meses e meio contínos (sic), que na ilha estiveram, trezentas e sessenta e tantas almas e, ainda assim, lhes faltava o tempo, e, se alguns deles não trabalharam, todos perderam. Chegaram na nova nau a Cochim, donde escreveu a Goa ao Vizo-Rei D. Luís de Ataíde, que, então, da segunda vez governava a Índia.

Tanto que o Conde de Atouguia, Vizo-Rei, soube em Goa que era tornado a Cochim, per muitas cartas suas apertou com ele, com grande instância, que ficasse na Índia e se não tornasse a embarcar para o Reino, metendo nisso por terceiro ao Arcebispo de Goa, D. Anrique de Távora, que, ao tempo, estava em Cochim, e ao Provincial da Companhia de Jesu, (sic), e a outros religiosos e pessoas graves, oferecendo-se dar-lhe a conquista do Reino e fortaleza perdida de Maluco, que lhe el-Rei mandava que fizesse, ou a empresa da conquista do Achém a Samatra, se ele não fosse em pessoa a fazê-la, e, indo em pessoa, lhe oferecia ficar ele governando a Índia. A nada disto acudiu e se veio para este Reino, onde chegou o ano de setenta e nove.

O como os Vizo-Reis da Índia o tratavam nela e a confiança que dele tinham, bem o mostram três provisões que levou de três Vizo-Reis da Índia, quando foi fazer as viagens da China. A primeira foi do Vizo-Rei D. Antão de Noronha, no ano de setenta e cinco, a segunda do Vizo-Rei D. Luís de Ataíde, do ano de sessenta e nove, da primeira vez que governou a Índia, e a terceira do Vizo-Rei D. António de Noronha, do ano de sessenta e três, em que o declaravam por capitão-mor na Sunda, China e Japão, para onde ia, como el-Rei o tinha feito, e nos outros portos e partes por onde passasse, quase Vizo-Rei, como qualquer, e com tudo isso mais se presava ele de nunca lhe ser necessário usar de alguma destas provisões, que dos Vizo-Reis lhas passarem (sic), aos quais foi sempre imediato, que só eles tinham jurdição nele, sem quererem que outrem a tivesse.

No ano de sessenta e nove, que chegou a Portugal, lhe cometeu el-Rei D. Anrique que fosse ser Capitão de Arzila; escusou-se; e, porque ele ouvia mal, pediu-lhe tempo para lhe responder por escrito; e respondeu desta maneira:

«A dor, que tenho de não servir a Vossa Alteza no que me manda, é a maior pena que, por isso, se me pode dar. As razões de o não poder fazer são estas: Se Arzila, onde Vossa Alteza me manda, estivera cercada, ou houvera certeza de que o havia de ser, de muito boa vontade fora servir a Vossa Alteza nela, mas as coisas deste Reino e de África estão em estado que nenhum receio se pode ter disso pôr; e não é razão que Vossa Alteza me tenha ocupado num lugar de guerra, não a tendo; que meus trabalhos passados parece que obrigam a Vossa Alteza a querer que gaste eu o que me fica da vida, servindo-o em grandes perigos, se os houver, ou descansando, para o poder melhor fazer quando eles sobrevierem. Arzila é um lugar que todo homem entende que Vossa Alteza o tem somente para o largar em tempo conveniente, pois está claro que de nenhuma coisa serve a estes Reinos, senão de os fazer

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pensionairos em sessenta ou setenta mil cruzados, que se gastam nele. Não deve Vossa Alteza de querer de mim, que tantos lugares defendi e ajudei a defender a Mouros, que lhe vá agora entregar este, que é coisa que eu em nenhuma maneira poderei acabar comigo. Afora isto, tenho cunhadas e sobrinhas viúvas e solteiras, cujos pais e maridos são mortos em serviço de Vossa Alteza, e Lourenço da Veiga, meu irmão, ocupado nele no Brasil; as quais todas pendem de mim só, e em tempo que Deus nos está castigando com pestes e ameaçando com outras coisas, não é razão que Vossa Alteza queira, deixando tantas coisas desamparadas, servir-se de mim em coisa para que bastam outros homens. E, finalmente, porque entendo que não cumpre a serviço de Vossa Alteza, nem convém a minha honra ir eu a Arzila, peço muito por mercê a Vossa Alteza que escuse de mo mandar, e que, pois cá se oferecem perigos maiores e mais perto, Vossa Alteza me não queira arredar tanto de si».

No fim da petição que deu de seus serviços a el-Rei D. Anrique em Lisboa, quando veio da Índia, a qual depois tornou a dar a Sua Majestade em Elvas, lhe dizia que mais lhe devia Sua Majestade pela isenção e liberdade com que falara e aconselhara sempre aos seus Vizo-Reis na Índia, que pelos serviços que lhe nela fizera, sendo tão abalizados, de tal maneira falava com os Reis e tão liberto, e tanto respeito lhe tinham eles.

O mesmo Rei D. Anrique, estando em Almeirim para fazer as Cortes que aí teve, parecendo-lhe razão que entrasse ele nelas, pois se haviam de tratar matérias tão graves, o fez do seu Conselho, sem ele per si, nem por outrem lho pedir; esteve nestas Cortes e nelas foi um dos trinta eleitos do estado da Nobreza.

Durando as Cortes em Almeirim, a Câmara da cidade de Lisboa fez lembrança aos Governadores da importância da Fortaleza de S. Gião, nomeando-se três pessoas que lhe parecia que podiam bem ter cargo dela, e estes foram D. Diogo de Sousa, que hoje é vivo, pessoa de tantas qualidades, o outro D. Diogo de Meneses, Governador que fora da Índia, que o Duque de Alva depois mandou degolar em Cascais, e o outro foi ele, a quem os Governadores encarregaram dela, tomando-lhe a menagem e juramento costumado.

Nesta fortaleza esteve, fortificando-a com muito trabalho de sua pessoa, até D. António (158), Prior do Crato, se alevantar em Santarém, o qual, vindo a Lisboa, o apertou com muitas cartas e recados por pessoas graves, estando já recebido por Rei, que lhe entregasse a dita fortaleza, o que não fez per muitos dias; antes escreveu a Setúval aos Governadores, pedindo-lhe o provessem das coisas necessárias para defensão da fortaleza, como muitas vezes lhe tinha pedido, antes de D. António se alevantar, os quais lhe não mandaram coisa alguma e se foram, com medo de D. António, para Castela, deixando-o sem pólvora, sem água e sem gente; e tornando D. António de Setúval a Lisboa, o tornou apertar que lhe desse a fortaleza, e vendo ele que ele estava recebido por rei em Lisboa e que não tinha na fortaleza mais que sessenta homens, a maior parte dos quais tinham suas mulheres e filhos nos lugares derredor e desejando de se entregar, havendo naquele tempo com toda inteireza e singeleza de ânimo defendido aquela fortaleza pelos Governadores, que lha entregaram, vendo também que não tinha munições nem mantimentos para se defender, lhe escreveu uma carta em que lhe entregou a dita fortaleza, da qual lhe não fez menagem, nem juramento. Per algumas vezes o viu e lhe aconselhou sempre que se entregasse a Sua Majestade, que estava perdido e não tinha com que se defender, que não quisesse ser ocasião de se perder e saquear Lisboa e todo o Reino. E sempre lhe respondeu que nisso andava e disso tratava, e que o havia de fazer andando o tempo; veio o Duque de Alva a cercá-lo e, depois de o bater três dias, teve modo de per umas mulheres, que fingiam ir ver uma filha e genro, que na fortaleza tinham, lhe mandou uma sentença, dado (sic) em Crasto Marim pela maior parte dos Governadores, a quem ele tinha feito a menagem da fortaleza, na qual julgavam o Reino por El-Rei Filipe, Nosso Senhor, e lhe mandavam entregá-la ao Duque, desobrigando-o da menagem e juramento que tinha feito. Vendo isto, lha entregou com consentimento de todos os que nela estavam. No processo de todas estas coisas, desde que chegou da Índia até a entrega desta fortaleza ao Duque de Alva, houve muitas coisas (159) mui notáveis, dignas deste excelente capitão, que são

compridas para eu contar. O cronista destes Reinos devia fazer delas copiosa relação, com que pudera enriquecer e realçar sua Crónica Real.

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