• Nenhum resultado encontrado

CAPÍTULO QUADRAGÉSIMO NONO ( 372 )

No documento livro2 (páginas 173-177)

COMO O CAPITÃO SIMÃO GONÇALVES DA CÂMARA FOI FEITO CONDE DA CALHETA, E DE OUTRAS MERCÊS QUE LHE EL-REI FEZ, E DE SUA IDADE, COSTUMES E

FALECIMENTO (373)

Pelos serviços que o Capitão Simão Gonçalves de Câmara a el-Rei tinha feitos e pelos seus merecimentos, além dos que no discurso desta história tenho dito de seu pai e avós, lhe fez Dom Sebastião mercê de o fazer Conde de Vila Nova da Calheta, da sua ilha da Madeira, no ano do Senhor de mil e quinhentos e setenta e seis, e lhe deu os ofícios do dito Condado, com se chamarem os ditos oficiais, em todos os autos e escrituras, termos, mandados pelo Conde nosso Senhor e por seu filho herdeiro, depois que Deus for servido levá-lo desta vida.

E, porque no Funchal (cidade que seus avós fundaram) havia vinte e um tabaliães do judicial e oito das notas e seis inquiridores, houve el-Rei Dom Hanrique por bem no ano de mil e quinhentos e setenta e nove, por certos respeitos que a isso o moveram e por mais serviço de Deus, reduzi-los em dez escrivães do judicial e quatro notairos e três inquiridores, que agora servem. E em satisfação do que lhe tirou e desmembrou da sua data e apresentação, lhe deu também os ofícios dos dois escrivães dos órfãos da cidade, e o ofício do meirinho da serra, da jurdição do Funchal, e o ofício do escrivão da almotaceria, e das armas, que fosse da sua apresentação, e, além destes, todos os do judicial desta sua jurdição.

Tinha o Conde cada ano quatro contos de renda bem feitos, e os melhores e bem pagos que há no Regno, em que entrava a renda dos moinhos, a qual não se paga em trigo, que se come do gorgulho, nem em outros frutos, como têm muitas comendas de Portugal, senão em dinheiro de contado; e foi um dos Senhores que melhor tinha provida sua casa e fartos os criados, que há no Regno todo (374). Por seus vassalos se intitulava desta maneira: o Conde

Simão Gonçalves de Câmara, do Conselho de el-Rei Nosso Senhor, Capitão e Governador da Justiça na ilha da Madeira, na jurdição do Funchal, Vedor de sua Fazenda em toda a dita ilha e na do Porto Santo, Senhor das ilhas Desertas, etc. E com el-Rei em suas provisões e cartas lhe poer Dom Simão Gonçalves, ele não queria aceitar o dom, nem o consentia aos filhos, que o têm por direito.

No ano de mil e quinhentos e setenta e oito lhe deu o ar e lhe tolheu um braço e perna, pela qual razão foi impedido da doença para alguns actos corporais, mas não que perdesse um ponto do juízo, para governar, e de memória, para reger e prover tudo, e em uma cadeira, onde se fazia assentar, foi sempre tão temido e venerado, assim doente e velho, como quando era são e mancebo.

Teve de idade sessenta e oito anos, os quais perfizera acabados dia da Vera Cruz, de Maio do ano de mil e quinhentos e oitenta, se a morte o não levara alguns dias antes. Dos quais, governou a ilha quarenta e quatro anos, com muito aplauso do povo.

Foi homem que sempre amou a verdade e perseguiu malfeitores. Teve grande e rara memória, porque aquilo que viu, ou uma vez leu e ouviu, cinquenta anos atrás, assim o tinha representado nela presente, como se passara ontem. Foi mui prudente e de muito primor, grande conselho, católico e amigo de Deus, e, pela honra e fé da Santa Madre Igreja, se soubera quem sentira mal dela, ou não seguira seus preceptos, o castigara e prendera e disseram à Igreja, por mais obrigações que lhe tivera.

Foi muito cortês e agradecido; fazia muita honra aos homens e todo género de pessoa agasalhava, principalmente a sacerdotes e ministros da Igreja, a que sempre teve muita reverência. Era amigo de seus criados e de seus aios (375) e a todos trabalhava por casar

honradamente e ricos, por não terem necessidades, e lhe dava ofícios na ilha, que todos eram seus e de sua apresentação, como já disse. Foi homem mui lembrado e agradecido dos

Capítulo Quadragésimo Nono 163

serviços que lhe faziam, pagando muito bem o trabalho alheio, assim a quem o servia, como aos mecânicos que lhe faziam obras, tratando-os com muito gasalhado e cortesia, com que todos, se ele quisera, folgaram de o servir de graça, cuidando que ainda lhe ficariam devendo dinheiro, amor e obediência.

E, com ser viúvo vinte anos, pouco mais ou menos (porque morreu a capitoa Dona Isabel de Mendonça em treze de Setembro de mil e quinhentos e sessenta e um anos), ficando ainda em idade para poder casar, o não quis fazer.

Nunca estranhou coisas humanas, principalmente cometidas por fraqueza, perseguindo e estranhando muito as cometidas por malícia ou engano. Doutrinou sempre seus filhos, enquanto meninos, em muito virtuosas artes, instruindo-os na virtude e castidade, donde depois vieram dar no que se sabe dos seus costumes e vida. E, sobretudo, tinha em muita veneração os pregadores e religiosos, e toda a pessoa virtuosa (376). Era muito amigo de Deus e devoto de ouvir missa, não somente em todos os dias de obrigação da Igreja, mas em outros da semana, e, por ter seus aposentos perto do mosteiro de São Francisco, cumpria bem com esta sua obrigação e devação, indo lá muitas vezes visitar os religiosos da casa, com que particularmente conversava, mostrando-lhe entranhável amor, que procedia do divino que em seu peito ardia, com que lhes fazia muitas esmolas e boas obras, como também as mandava fazer em sua casa a todo género de pobres, com muita caridade e liberalidade, como convinha a seu nome e devação; além das quais, fazia outras, extraordinárias, a particulares pessoas, pobres e honradas, vestindo-as de custosos panos; muitos dos quais comiam com ele, igualmente, à sua mesa, ao menos ao jantar, em que os importunava que comessem bem, como ele comia.

Ele e a Capitoa (que também era inclinada a obras de caridade) faziam muitos concertos, e, se casava alguma pobre e por causa da pobreza o marido a não queria receber, logo lá ia, ou os mandava chamar, acabando tudo, suavemente, com boas palavras e grossas dádivas de dez, vinte, trinta mil réis, segundo a qualidade dos desposados.

Era inclinado a ter sua casa, em que morava, sempre acompanhada, para o qual mandou fazer dos muros adentro um jogo de pela, em que gastou mais de quinhentos cruzados, onde iam folgar muitos da cidade e de toda a ilha, e, por este e por outros desenfadamentos que tinha e ordenava das portas adentro, sempre estava cheia sua casa de gente de toda sorte, tratando e falando a todos com cortesia, sem consentir que pessoa alguma tivesse a cabeça descoberta quando com ele falava, ainda que fossem moços dos oficiais, que iam buscar o prémio de seus trabalhos, aos quais logo mandava pagar e não havia de dizer «tornai cá», nem «Fuão tem cargo de pagar isso», como alguns senhores usam, e, se alguma vez remetia a outrem que pagasse, havia ele de saber depois se era cada um pago de seu jornal.

Amava tanto a todos, e de todos era tão amado, que de boa vontade ofereceriam as vidas por ele, como se viu quando uma vez veio surgir ao porto do Funchal, com sete galeões muito poderosos, um cossairo de França, chamado Pé de Pau, depois de ter roubada a ilha da Palma, uma das Canárias; o qual visto pelo dito Capitão Simão Gonçalves de Câmara e reconhecida a armada dos contrairos, com muito esforço mandou logo despejar seis naus dos franceses, que estavam no porto carregando de açúcar, e as encheu de gente portuguesa e com muitas munições de guerra, enviando batéis com recado ao dito cossairo que não quisesse sair em terra com sua gente, porque ele estava aparelhado para castigar a quem lhe quisesse fazer agravo; ao que o Pé de Pau respondeu que mais queria servi-lo que agravá-lo, e assim o cumpriu, ainda que de sua licença saíram em terra a comprar mantimentos e vender muitas coisas que traziam (377) duzentos franceses, trazendo a Jaques Soria por seu capitão

para os castigar, se se desmandassem. E, em oito dias que esteve surto no porto Pé de Pau, o Capitão Simão Gonçalves vigiava e mandava vigiar a cidade, de noite, com suas estâncias, sem embargo da amizade e paz que o cossairo lhe prometera; e, passando em uma noite muito escura, por uma porta da vigia um negro de ruim lingoage, cuidando as vigias que era língua francesa, deram rebate ao Capitão, o qual mandou dar repique no sino e, ainda que era meia-noite, em que todos ordinariamente repousam, em menos de uma hora se ajuntaram com seu Capitão quase quatro mil pessoas, em que provou o amor que todos lhe tinham, porque onde o ele há está toda liança.

Servia-se com os filhos dos melhores e mais honrados da terra e, se eram tais, fazia-lhe muito bem, assim no tratamento de suas pessoas, como em os casar rica e honradamente; e, também, se se desmandavam em alguns vícios, ou em quererem tratar mal alguma pessoa de

Capítulo Quadragésimo Nono 164

palavra ou obra, ainda que fosse muito pobre e de menos valia, castigava-os muito bem por sua mão e, se se não emendavam, os deitava fora de casa.

Sempre tinha sua estrebaria cheia de bons cavalos e mulas, em que os seus amos e pessoas honradas tinham muito certas as cavalgaduras em qualquer tempo, para onde quer que necessárias lhe fossem.

Dava este Capitão a todo homem cadeira e, acabando de comer, se ia assentar à mesa com os seus moços e lhe perguntava se queriam comer mais ou outras iguarias. Somente estranhava aos homens, a que mandava dar cadeira, se tinham alguma falta, como bulir com os pés, ou trocá-los, ou outras coisas, descuidos ou despejos que diante senhores se não usam. No mais era muito cortesão e, às vezes, muito colérico, quando convinha. Não bebia vinho, senão água serenada em poços; não trazia de inverno vestido mais que sobre a camisa um roupão de pano fino, e de verão um de chamalote; o mais do tempo sem nada na cabeça, por ser muito cálido. Falava atabalhoadamente; era homem que buscava todos os modos de passatempo e folgava de o conversarem; e visitava aos mais da terra, porque, estando só, se dormia logo.

Era afeiçoado a ver folgares, touros, lutas e jogar canas e todas as mais festas e jogos para alegrar o povo; e nos dias de lutas, principalmente nos de São Sebastião e São Brás, se ajuntavam no terreiro, defronte de suas casas, muita gente de toda a ilha, e, se vinha algum grande lutador e havia outro que lhe dava duas quedas, lhe mandava dar a capa que tinha coberta, além de grandes fogaças, que de sua casa estavam prestes, com marrãs mortas, e também algum dinheiro para todos os lutadores. Em todas as festas principais do ano, principalmente na do Natal, havia em sua casa custosas consoadas, com ricas frutas e curiosos jogos e autos de toda sorte.

Antre outras virtudes e bons costumes, que tinha (como tenho dito), não bebia vinho, mas, como era homem grande e grosso, comia muito, porque a natureza lho requeria, e nada era avaro para consigo nem com outrem, contra a condição dos que têm este vício de avareza, que muitas vezes até para si são escassos.

Não era interesseiro em suas rendas e prois, que da capitania lhe podiam vir, mas muito favorável ao povo e liberal em seus partidos, em tanta maneira, que foi parte principal em se haver uma provisão de el-Rei, que tem a ilha, em que Sua Alteza há por bem que se lhe não pague nenhum direito de qualquer coisa de mantimento que vier para a terra, de fora, como são carnes, azeite, trigo, queijos e outras semelhantes, nem consentiu haver dízimo, de lenha, nem conhecença, em as quais coisas perdia cada ano, de sua redízima, mais de duzentos mil réis, com que a ilha fica muito favorecida e melhorada no preço das ditas coisas, e mais abastada e melhor provida delas, por não haver nela tributo nem direito, por respeito deste liberalíssimo Capitão, bem contrário do que alguns senhores costumam usar em suas terras. E, não contente com isto, não consentiu haver taxa no povo para fortificações da terra, e, as que se faziam, trabalhava com el-Rei que as mandasse fazer à sua custa, ou das imposições. Também houve uma provisão de Sua Alteza que os navios da ilha se não possam tomar para nenhuma parte, ainda que sejam necessários para o serviço de el-Rei, e por isso a terra tem continuamente dez ou doze navios, que a provêm do necessário de todas as partes.

Arrendava seus moinhos a rendeiros por preços medianos, onde há casa de peso para pesar o trigo que se vai moer e se torna a pesar a farinha, e, se acaso havia falta nos moleiros, logo os mandava ou deixava castigar, sem querer que se dissimulasse nada com eles em seus erros, nem com os rendeiros, se se descuidavam em ter bem apercebidas as moendas, para que o povo não fosse roubado, nem enganado com ruins e mal aproveitadas farinhas, além de os moleiros restituírem logo a farinha que faltava; em todo o qual sempre mostrou ser justo e liberal; e de qualquer destas coisas, onde quer que estão, por muito bem que se diga, mais é (378).

Teve mui grande casa e muitos e honrados criados, aos quais sempre honrou e estimou muito, fazendo deles muita conta, folgando de ser compadre de seus filhos e acompanhá-los em suas vodas, achando-se (como já disse) em desposouros e casamentos que ele mesmo ordenava, e honrando todos pessoalmente. Com as quais obras ganhava a vontade dos cidadãos e do povo, que o tinha em muita veneração, obedecendo com muito amor a seus mandados. Era mui prudente no conselho e diligente na execução dele e suave na conversação; finalmente, ele foi um homem onde Deus ajuntou muitas coisas boas, que por muitos se acham repartidas.

Capítulo Quadragésimo Nono 165

Faleceu este ilustre e grandioso primeiro Conde da Calheta e quinto Capitão da ilha da Madeira, Simão Gonçalves de Câmara, segundo do nome, em uma sexta-feira, quatro dias do mês de Março da era de mil e quinhentos e oitenta anos, da mesma doença de parlesia, que havia dias que tinha, e foi enterrado no mosteiro das religiosas de Santa Clara da cidade do Funchal, junto das sepulturas de seus antecessores, com grande pranto e sentimento de todo o povo que, pela perda de tão bom e amado senhor, ficou cheio de muita dor e saudade (379).

Capítulo Quinquagésimo 166

No documento livro2 (páginas 173-177)