CAPÍTULO VIGÉSIMO TERCEIRO
DE UMA GRANDE VlTÓRlA QUE O CAPITÃO TRISTÃO VAZ DA VEIGA TEVE NA CHINA DE UM PODEROSO COSSAIRO CHIM, E COMO DEIXOU QUASE ACABADA UMA FORTALEZA NO PORTO DO NOME DE DEUS, ONDE OS PORTUGUESES ESTÃO NA
CHINA
Fazendo este capitão suas viagens na China, onde, até então, quase não queriam consentir os portugueses por comércio, deixou feitas paredes, que podiam muito bem ter nome de fortaleza, consentidas dos mandarins da China, que, até aquele tempo, com trabalho e peitas os deixavam fazer uma casa de palha; e a coisa foi desta maneira. Chegou ele de Japão ao porto do Nome de Deus, onde os portugueses estavam na China, na entrada do ano de sessenta e oito e achou nela por capitão-mor D. António de Sousa, que fora fazer a viagem por D. Diogo de Meneses, e, porque os direitos não eram ainda feitos, e sem isso se não faz fazenda, não se pôde aviar a tempo de poder passar à Índia, nem a Malaca. Foi-lhe forçado ficar invernando na China.
Andava nela havia muitos anos um cossairo, de nação chim, que, começando de pequenos princípios, estava, então, tão poderoso, que era senhor de todo o mar dela, e, como não tinha quem lhe estorvasse acabar de o ser senão os portugueses, determinou de vir sobre a povoação, em que eles aí viviam, e, para isso, escolheu o tempo em que nela achasse menos gente, que é partido o capitão-mor para Japão. São, então, todos os navios da monção passada idos para fora, e os da que vem não são chegados.
A doze de Junho apareceu diante do porto com perto de cem velas, em que haveria mais de quarenta navios muito grandes, e veio surgir obra de uma légua do porto; ao outro dia, em amanhecendo, veio a desembarcar em terra; haveria na povoação menos de cento e trinta portugueses, em que havia alguns muito velhos e outros muito moços; deles mandou Tristão Vaz da Veiga à sua nau, que no porto tinha, trinta e cinco ou quarenta para a defenderem e ele, com os que ficavam, se foi a receber os imigos fora da povoação um pedaço e aí esperou que se alargassem das suas embarcações e, como os teve arredados delas, deu neles, e prouve a Nosso Senhor que, sendo três ou quatro mil homens, em que havia de mil e quinhentas espingardas para riba, e eles tão poucos, que não chegavam a noventa portugueses e os seus escravos, lhe deu vitória deles e os fez embarcar quatro vezes naquele dia, com lhe matar muita gente e lhe tomar muitas espingardas e armas, que deixavam, por ficar mais leves, e com tanta pressa, que se lhe viraram algumas embarcações das em que vinham e se afogaram muitos.
Parece que foi coisa toda de Deus esta vitória, porque ver que num campo muito largo e de outeiros muito grandes quatro portugueses, que, quando chegavam ao alto, se não podiam ter em pé, faziam fugir tanta gente, não parece coisa senão toda sua. Não lhe custou esta vitória tão barata, que lhe não matassem treze ou catorze homens, três deles portugueses e os outros escravos; feriram-lhe quarenta ou cinquenta de uns e de outros; à sua parte lhe couberam duas espingardas, mas ambas lhe fizeram pouco dano.
Este dia lhe ficaram os imigos cobrando medo, de maneira que não ousaram mais de os cometer senão de muito longe. Intentou, então, seu capitão ver se lhe podia tomar a nau e pelejou com ela per dois ou três dias, primeiro com navios de remo, trabalhando de a meter no fundo com artilharia, que meteu neles, e, depois, com seis navios, os maiores da sua armada, encadeados uns nos outros, cometeu abalroá-la, mas os que estavam nela lha defenderam de maneira que ele ganhou tão pouco no mar como na terra e numa parte e na outra perdeu seiscentos homens, segundo depois se soube. Teve-os assim oito dias, nos quais esteve Tristão Vaz com sua gente sempre de dia e de noite no campo, com assás trabalho, fora da
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povoação, para que lha não queimassem, porque é ela muito grande e mui espalhada e as casas são de madeira e de palha.
No fim deles lhe mandaram os mandarins de Cantão um homem com chapas que não pelejassem com Tristão Vaz, e a ele que não pelejasse com o cossairo, que ia para obedecer a el-Rei da China; este homem dos mandarins andou da sua armada para o campo, onde Tristão Vaz estava, com recados, e consertou as pazes antre eles; como foram feitas escreveram-se algumas vezes e mandaram presentes um ao outro, e foi-se, coisa que Tristão Vaz desejava, porque, além da povoação estar a muito perigo, chegava-se o tempo de virem os navios da outra costa, que, como vêm de diversas partes, chegam cada um per si, e estava receoso de o ver tomar alguns, sem lhe poder valer.
Partido ele deste porto, foi-se na volta de Lamao, que é uma ilha arredada sete ou oito léguas da povoação dos portugueses, que nela estava determinado ver-se com os mandarins de Cantão para fazerem seus partidos; e, como cossairo sagaz, andou-os entretendo com esperanças de se reduzir à obediência de el-Rei, para fazer o que fez, que foi ir dar na cidade de Cantão, que é muito grande e nobre, saqueou-lhe os arrabaldes todos e queimou-lhos, tomou-lhe toda a armada, que tinha no rio e varada, que eram mais de cem navios, em que havia muitos muito grandes; escolheu os melhores deles, queimou os que lhe não serviram, e teve-os assim de cerco quinze ou vinte dias. Veio esta nova a Macau a Tristão Vaz, e, juntamente, diziam que haviam de tornar outra vez sobre os portugueses.
Era já neste tempo chegado D. Melchior Carneiro, que el-Rei D. Sebastião mandou por bispo daquelas partes; pareceu, então, a todos que deviam fazer algum forte na povoação para se defenderem, até virem os navios da outra costa e ajuntar gente na terra. O Bispo e os padres da Companhia aconselhavam a Tristão Vaz que a (sic) mandasse fazer e incitavam aos homens que o ajudassem; e, como ele pretendia que o forte, que se fizesse, não fosse somente para remédio da necessidade presente, ordenou que fosse de parede de taipa.
Começou de pôr as mãos à obra e fez-se muita em poucos dias, com a boa ordem que nisso teve; ajuntou todos os portugueses de cinco em cinco e de seis em seis, metendo os ricos com os pobres e os de muita família com os de pouca, para que ficassem iguais numa coisa e na noutra, e fez destas vinte companhias, dando cuidado de cada uma ao que deles lhe parecia mais diligente, fazendo dez companhias destas da mesma maneira dos cristãos da terra, e a cada uma delas repartiu um pedaço de muro. Os padres da Companhia e os de S. Pedro também fizeram sua parte; cresceu a competência de maneira antre eles que cada um havia a obra por sua própria e tinha por honra acabar primeiro seu lanço. Desta maneira, não havendo apercebimento algum, com as portas das tábuas, que despregavam delas, dentro em dezasseis dias se fizeram duzentas e setenta e uma braças de parede de taipa, de seis palmos por baixo e cinco e meio por cima e catorze e quinze de alto.
Andando assim na força deste trabalho, ainda lhe foi necessário, a Tristão Vaz, mandar dar noutro cossairo, que, com vinte e três navios, andava roubando aquela terra, tão perto da povoação, que impedia virem os mantimentos. Pediram-lhe este socorro com muita instância os mandarins; mandaram alguns navios ao porto; mandou Tristão Vaz meter em quatro deles cinquenta portugueses e alguns cristãos da terra e escravos; partiram em anoitecendo de Macau; de madrugada, deu no ladrão, tomou-lhe onze navios dos vinte e três, que tinha, com muita gente e munições; os doze se acolheram, por mais ligeiros.
Em tanto é tido o valor dos portugueses em todalas partes, que um Rei de tamanhos Reinos, como os da China, não é poderoso contra um cossairo, que se lhe levanta, sem ajuda e favor do braço português; têm eles caído tanto nesta verdade, que um dos trabalhos, que os capitães-mores da China têm agora, é escusarem-se de lhe darem estes socorros, que muito amiúde lhe pedem.
Tornando às paredes, há nelas quatro baluartes quadrados, e a pressa não sofreu fazerem-se em outra forma, com uma cava por fora, que se fez da terra, que se tirou para as paredes e o sítio, da maneira que, desejando Tristão Vaz de fazer um recolhimento pequeno, para o acabar mais depressa, não o pôde traçar de menos de quatrocentas braças de circuito, por causa de um outeiro, que está sobre o porto, que, não o metendo dentro, ficava-lhe tudo o que fizesse muito sujeito, e também por outra parte era necessário não ser pequeno, porque aquela povoação vai crescendo muito (140). Há já nela muitos casados, assim portugueses
como da gente da terra, e havia naquele porto neste tempo cinco mil almas cristãs, que não podem caber em pequeno lugar. Era uma piedade, enquanto o ladrão ali esteve, ver andar
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tantos mininos (sic) e tantas mulheres desagasalhados, sem terem onde se recolher; ao menos, Tristão Vaz houve deles tanta, que, não estando por capitão-mor, ainda que o pudera ser, conforme a uma provisão de el-Rei D. Sebastião, enquanto não houvesse outro, deixou a sua nau, em que tinha toda sua fazenda, que não era pouca, bem receoso de lhe acontecer desastre, e quis antes defender em terra a eles, que os houve por fazenda mais para estimar que a que ele tinha na sua nau. Não acabou toda a obra até a cerca ficar cerrada, por arrecear que os mandarins o não consentissem; contentou-se com fazer o lanço dito, porque o que ficava por fazer é pela banda do mar, onde cada homem tem feito seu cais, à sua porta. Determinava ele de os obrigar que os alevantassem de maneira que lhe ficassem em cais e em muro; e o que, então, fez fazer nela abastava para se defender e muito facilmente acabaria de se fortificar.
Estando a coisa neste estado, chegou Manuel Travassos por capitão-mor e bem quisera acabar a obra, mas entendeu que os mandarins de Cantão, por então, não tomariam bem acabar-se de fazer a fortaleza, e a Tristão Vaz assim lhe pareceu, que havia de sobreestar até haver outra ocasião; e esta ficava o capitão-mor esperando; e, por entanto, estando Tristão Vaz ainda na China, se ordenou num ajuntamento de todolos portugueses que dos navios que viessem ao porto se tirasse um cerco tanto cada ano, para se sustentarem aquelas paredes e haver depósito de pólvora e munições para o que fosse necessário. Prazerá a Nosso Senhor que será aquilo começo de os Reis de Portugal virem a ter naquelas partes muitas fortalezas e cidades; e foi uma grande boa ventura ser Tristão Vaz o que as começou a fazer nela, porque ali está aparelhada uma mui grande conquista, assim espiritual como temporal, que a esta se há-de seguir a outra, e sem ela, se não for por via de milagre, se tem por impossível. São muitos reinos muito grandes e ricos, de terra muito fértil e sadia e de gente muito fraca e tiranizada, que de puro medo obedecem ao seu rei, sem lhe terem nenhum amor.