DOS FILHOS QUE TEVE O CAPITÃO SIMÃO GONÇALVES DA SEGUNDA MULHER, E COMO CESSOU MILAGROSAMENTE A PESTE QUE HOUVE NA CIDADE DO FUNCHAL
POR INTERCESSÃO DE SANTIAGO MENOR, QUE FOI ELEITO POR PADROEIRO; E COMO E ONDE FALECEU O CAPITÃO E DE OUTRAS COISAS QUE NA ILHA
ACONTECERAM (215)
Foi casado Simão Gonçalves de Câmara a segunda vez com Dona Isabel da Silva, filha de D. João de Ataíde, que foi Regedor da Justiça, filho herdeiro do Conde de Tarouca (216), com a
qual casou per dote e arras e dela houve os filhos seguintes: João Gonçalves de Ataíde, que morreu mancebo, sem casar, e houve mais Luís Gonçalves de Ataíde, que ainda vive, senhor da ilha Deserta, casado com Violante da Silva, filha de Francisco Carneiro, secretário que foi de el-Rei, o qual ofício não serviu por ser surdo, e, por ele, o serviu seu irmão Pero de Alcáçova; dela houve João Gonçalves de Ataíde e Martim Gonçalves e outros mancebos de muita esperança, por seu valor, discrição e arte.
Houve mais o Capitão Simão Gonçalves três filhas desta segunda mulher, que se chamaram Dona Breatiz, que hoje vive freira no mosteiro de Santa Clara do Funchal, mulher mui antiga, dotada de toda a virtude e um dos esteios desta santa casa, onde foi muitas vezes abadessa; as outras haviam nome Dona Isabel de Noronha e Dona Maria de Noronha, também freiras professas do moesteiro do Funchal, onde as meteu seu pai com boas rendas, que para isso lhe aplicou, em que viveram sempre mui virtuosa e santamente.
Teve mais o Capitão Simão Gonçalves um filho natural, que hoje em dia vive, que se chama Francisco Gonçalves de Câmara, o qual, ao presente, é Capitão-geral da Guerra por provisão de el-Rei, pelo assim pedir o Capitão Conde, seu sobrinho, por sua indisposição. É homem mui ardiloso em todos os exercícios de guerra, mui temperado e de muita virtude, e pouco mimoso; foi criado em aspereza, fora das delícias de seus irmãos, pela qual razão é sofredor de trabalhos e mui esforçado cavaleiro, como mostrou na entrada dos franceses na cidade do Funchal, onde feriu mui honrosamente o capitão francês Visconde de Pompador na entrada da fortaleza, servindo de Capitão-geral (como servia e agora serve) em absência e por falecimento de seu sobrinho, onde mostrou ânimo de valoroso capitão, e por tal lhe deu el-Rei o hábito com certa tença e que não pagasse por oito anos quinto e dízima de sua fazenda, que boa parte possui no termo do Funchal, de açúcares e vinhos. Por morte de seu pai, o Capitão João Gonçalves, seu irmão, o casou rico com Dona Francisca de Velosa, da qual não houve filhos.
No ano de mil e quinhentos e vinte e um, quando el-Rei Dom Manuel faleceu, havia no Funchal grande mortindade (sic), de peste, de que Deus nos livre; e, porque havia anos que andava na cidade, o Capitão Simão Gonçalves e a Câmara, por sortes, elegeram por Padroeiro da mesma cidade o Apóstolo Santiago Menor, no cabo da qual lhe fizeram uma boa casa, onde foram em procissão, e, porque, sem embargo disso, a peste não cessava, no ano do Senhor de mil e quinhentos e trinta e oito inspirou Deus em todos, em um coração e vontade, que não houvesse guardas mores, nem pequenas, e na mesma procissão, que se fez por seu dia, o primeiro de Maio, lançaram pregão que todos os feridos deste mal e sãos fossem juntamente, misturados, à sua casa, onde lhe ofereceram no altar as varas dos guardas, que hoje aí estão por memória, e, quando tornaram, vieram os feridos todos sãos; e daquele dia até hoje, pelos merecimentos do bem-aventurado Santiago Alfeo (sic) (217), não houve mais peste na ilha da
Madeira; bendito seja o Senhor, pelo que se faz, em lembrança desta mercê, muita festa a este Santo por seu dia, como que fora dia de Corpo de Deus.
Sentindo-se já Simão Gonçalves de Câmara vencido da idade (posto que nada o vencia), vendo que seu filho era já casado e tinha muitos filhos, e era de muita idade, e pelo amor que lhe tinha e ele merecia, rogou-lhe que quisesse governar a ilha e que ele se contentava com
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uma certa porção cada ano, porque se queria recolher no fim de seus dias, para sua quietação, em um lugar afastado dos negócios do governo e da mesma ilha, com seu filho Manuel de Noronha, que, então, residia no Porto e tinha lá boas rendas de igrejas, com o qual propósito renunciou o governo da Ilha por sua procuração em seu filho, João Gonçalves de Câmara (218).
E na era de mil e quinhentos e vinte e oito veio tomar posse da ilha seu filho, que residia na Corte. E no mesmo ano foram ambos para a cidade do Porto, e o Capitão velho, Simão Gonçalves, se foi aposentar em Matosinhos com seus criados, que para isso escolheu, de que confiava muito, pelo amor que lhe eles tinham, onde esteve um ano; e, conquanto estava apartado dos negócios humanos, nunca se apartou dele aquela grande e liberal condição, que sempre nele morou, e quando lhe mandavam o dinheiro para sua despesa, fazia-o contar perante si por seus criados, que ao circuito dele estavam, e, antes que dele se apartassem (219), ali logo o repartia, a quem dava vinte, a quem quarenta, a quem cem cruzados; e, assim,
muitas vezes os despendia, sem lhe ficar para sua despesa vintém, que era causa de os tornar a pedir emprestados aos mesmos criados, até que lhe tornasse a provisão, de que ele para si resguardava a menor parte.
Antre esta fama de grandezas e liberalidades, salteado o felicíssimo Capitão Simão Gonçalves de Câmara da temerosa morte, que a ninguém perdoa, deu fim a seus dias na entrada do ano de mil e quinhentos e trinta, dando sua alma a Deus, que lha dera, em idade de sessenta (220) anos, dos quais governou a ilha vinte e seis, ditosamente. Mandou que seus
ossos fossem trasladados e trazidos à ilha e postos no convento de Santa Clara, na capela onde jaz seu pai e avô; os quais, quando chegaram ao Funchal, foram levados ao moesteiro com muita solenidade pelo reverendo Cabido da mesma cidade e por toda a cleresia e religiosos, que havia na terra, e lhe fizeram as exéquias funerais com muita majestade e cerimónias, misturadas com muitas lágrimas, que todos por ele derramavam, porque foi comummente benquisto e amado do povo.
Na corte estava João Gonçalves de Câmara, seu filho, ao tempo que faleceu, e logo, no ano seguinte, se fez prestes para ir à ilha governar a capitania.
Morreu Simão Gonçalves tão pobre, que, por sua morte, esteve num ponto e termo a ilha de se vender a capitania dela por dívidas que tinha, das quais era uma as arras que havia de tornar de sua mulher a Luís Gonçalves de Ataíde, seu filho, e, por este respeito, foi necessário desmembrar desta capitania a ilha Deserta, que era do morgado; e, porque Luís Gonçalves de Ataíde se contentou com ela, lhe foi dada pelo dote e arras de sua mãe Dona Isabel da Silva. segunda mulher do dito capitão Simão Gonçalves; a qual ilha Deserta ele agora possui, e rende duzentos mil réis um ano por outro, e muito mais rendera, se fora granjeada (221), mas,
porque os feitores, que a negoceiam, são liberais esperdiçadores do que lhe não custou dinheiro, estes duzentos mil réis, um ano por outro, piedosamente vêm à mão do dito Luís Gonçalves de Ataíde.
Foi Simão Gonçalves homem prudente, de claro e bom juízo; as mais das coisas, que intentou por seu parecer, lhe sucederam bem (222). Foi músico de vontade, pelo que teve grande capela de estremados cantores e tangedores, a que fazia grandes partidos. Era mui caridoso e fez, enquanto viveu, muitas esmolas e, sobretudo, era muito devoto das chagas de Nosso Senhor Jesu Cristo, e quem lhe rogava por elas lhe concedia tudo, posto que fosse muito. Foi grande perseguidor dos mouros, na destruição dos quais, para lhe fazer guerra, gastou muito de sua fazenda em armas, soldados e armadas, com que, contra eles, acudiu em África por serviço de Deus e de seu Rei, como no discurso desta história fica dito; pela qual causa, el-Rei lhe deu um alvará de lembrança para ser conde, com lhe dar a cidade de Safim para si e para um filho, o qual alvará se perdeu, e no requerimento de seus serviços o grande João Roiz de Sá deu testemunho disso, que o vira per uma carta. em que afirma ser verdade. E, pelas obras pias que fez e devação que tinha às Chagas, lhe prosperou Deus sempre todas suas coisas, e é de crer que, por sua misericórdia, lhe daria a glória.
Por morte do Bispo Dom Diogo Pinheiro, o primeiro que foi na ilha da Madeira e de toda a costa, desde o Cabo do Bojador até às Índias inclusive, e das Ilhas dos Açores e do Cabo Verde, e de todas as terras descobertas e por descobrir, ficou sede vacante até o ano de mil e quinhentos e trinta e sete, que foi por espaço de dez anos, pouco mais ou menos; nos quais, por dissenções e desavenças que houve no Cabido e capítulos que se deram a el-Rei uns dos outros, (cujo instrumento principal dizem ser o Arcediago Amador Afonso), el-Rei Dom João terceiro, vendo estas desordens, mandou fazer saber ao Cabido que, para mais serviço de
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Deus, queria fazer lá no Regno um provisor para governar o bispado e para despachar as apelações que iam das ilhas e da Índia, porque era grande opressão, que se dava às partes, irem à ilha para proverem nelas os visitadores e Cabido, o qual, consentindo no que pedia el-Rei, se fez, então, um provisor em Lisboa, que se chamava Afonso Mexia, que foi pouco tempo. Depois se fez outro, que havia nome Custódio Dias, que foi Bispo de anel, que também teve o cargo pouco. E logo se fez outro, que se dizia António Machucho, em cujo tempo foi ter à ilha da Madeira por daião Gaspar de Carvalho.
Neste ano de mil e quinhentos e trinta e um foi da cidade do Funchal Simão de Miranda com uma boa companhia de soldados, que mandaram os da Câmara da cidade à sua custa, de que ele foi por capitão, não estando o Capitão na ilha, e el-Rei escreveu à Câmara uma carta de agradecimentos por este socorro, que mandaram a Cabo de Guel.
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