CAPÍTULO VIGÉSIMO QUARTO
DE DUAS NOTÁVEIS VlTÓRIAS QUE TRISTÃO VAZ DA VEIGA TEVE, UMA DA ARMADA DE EL-REI DO ACHÉM, E OUTRA DOS JAUS QUE PUSERAM CERCO A MALACA, SENDO
ELE CAPITÃO DELA
Depois, no processo das viagens que Tristão Vaz fez à China, sucedeu ter no mar uma milagrosa vitória de uma muito poderosa armada de el-Rei do Achém, em que recebeu grandíssimas mercês de Deus.
Após esta, sucedeu na capitania de Malaca, e, sendo capitão, teve dois cercos, um de Jaus (141), outro de Achéns; também Deus lhe fez notáveis mercês. Destes três sucessos,
abreviados em elegante estilo (que aconteceram em tempo de António Moniz Barreto, governador que foi na Índia), em que vai a história breve, dizendo a verdade e substância da coisa, sem se deter em contar golpes, fez o doctor e curioso Jorge de Lemos um livro, que se imprimiu em Lisboa no ano de oitenta e cinco, ao qual me remeto (142). E são tantas e tão
grandes as façanhas que fez em armas, com forças, ânimo, prudência, estremados conselhos e ardis de guerra, que não só um breve livro, mas muitos mui compridos e uma copiosa e notável crónica se pode fazer de seus heróicos feitos, do qual livro notei algumas cifras, que agora contarei.
No primeiro cerco de Malaca se há-de notar que, depois que na Índia Oriental o Iza-Maluco e o Hidalcão e Cota-Maluco, reis mouros da província do Decão, se conjuraram contra o nome cristão e portugueses, que lá estavam, e assentaram para este efeito parcialidade com o Samorim de Calecut e com o tirano da ilha de Samatra, chamado Achém, para, por mar, com suas armadas, e, por terra, com seus exércitos, fazer cada qual num mesmo tempo a guerra que pudessem às fortalezas chegadas a seus Reinos, que os Portugueses sonhavam. Determinado o ano em que o haviam de pôr por obra, desceu nele o lza-Maluco sobre Chaúl, o Hidalcão sobre Goa (donde o Vizo-Rei D. Luís de Ataíde presidia), o Samorim sobre Achale e o Achém sobre Malaca. E, sendo destruída a armada do Achém pela armada de que era capitão-mor Luís de Melo da Silva, com que se encontrou, deixou, por então, de cercar Malaca, e reforçando sua armada e provocando a Rainha do Reino de Japara, poderosa em senhorio naquela região de Jaoa (143) proibisse (sic) aos seus ir com mantimentos a Malaca, e o ajudasse a cercá-la, o que ela começou a ordenar, defendendo os mantimentos e preparando-se para ajudar nesta empresa.
Mas o Achém, com socorro do Cota-Maluco, um dos da liga, não esperou pelo da Rainha e, logo, no ano seguinte, da era de setenta e três, foi aportar em Malaca, a treze de Outubro, em uma armada de noventa e tantas velas, em que entravam vinte e cinco galés, trinta e quatro fustas grandes, com muitos navios, outros, a que chamam lancharas, e algumas embarcações mais pequenas, e em todas vasilhas e naus de seus bastimentos levaria sete mil homens de peleja. Na noite que esta frota chegou, desembarcou o Achém da banda de Malaca e, mandando pôr fogo a essa povoação, que toda ardera, se logo não sobreviera uma grande chuva, daí a dois dias pelejou esta armada com as naus que estavam no porto, trabalhando polas queimar pelo escuro, mas vendo que lhes não fazia dano, antes o recebia, se foi com a mor parte dela ao rio de Muar, cinco léguas de Malaca; dele mandava até a ilha Grande, que dista duas léguas desta cidade, tolher a entrada aos navios que iam com mantimentos, com muita vigilância, que nem a pescar saíam da terra os pescadores, que era o mais apertado e trabalhoso cerco que podia ser, por Malaca se não sustentar senão de mantimentos que de fora lhe vão, e não lhe terem entrados nenhuns havia dias, afora outras muitas calamidades que antre si padeciam, e sobretudo sem esperança de socorro da Índia.
Estando, assim, Malaca tão afligida e fraca, Deus, que acode nas maiores pressas, moveu o coração do Vizo-Rei, que fez ir Tristão Vaz da Veiga, quase na fim da monção, na sua nau, não
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se esperando já nenhuma nesse tempo, porque, sendo ele vindo o ano atrás à Índia da China, onde acabou as duas viagens de Japão (de que lhe el-Rei D. Sebastião fizera mercê por seus serviços, por importar, então, cem mil cruzados cada uma), soube como mandava el-Rei navegar de Malaca para Portugal uma nau com pimenta do Sul e mais drogas, que nele havia; pelo que se contratou com o Vizo-Rei D. António de Noronha (que no governo tinha sucedido a D. Luís de Ataíde) por ir a Sunda fazer dez mil quintais de pimenta.
Feito o contrato, partiu de Goa na sua nau nos derradeiros dias de Setembro de setenta e três, com muitos soldados de sua obrigação, e levou nela D. Francisco Anriques, provido da capitania de Malaca, por ele lhe caber entrar, o qual, tomando a posse a dois de Novembro, aos três convocou a conselho, o Bispo da mesma cidade e os vreadores dela e alguns fidalgos, e outras pessoas principais, para nele consultar do remédio que se poderia ter para lançar a armada dos imigos donde estava. E assentado que o melhor e mais assazoado (sic) era expedir-se Tristão Vaz da Veiga na sua nau, com alguns navios mais, que se lhe negociariam, lhe pediu o Capitão (todos presentes) quisesse ir servir naquela tão duvidosa e arriscada empresa, com que o convidava; pois de o assim fazer podia resultar (como se cuidava) reviver o povo, que via agonizar e fenecer, sem golpe ainda de terçado dos Achéns, que tão afiado o traziam, para, depois daqueles ensaios da morte, da defeza cruel dos mantimentos, o passarem todos pelos fios dele.
Praticados também outros danos, que podiam fazer os Achéns, vendo Tristão Vaz o estado em que a cidade estava e a eficácia, com que se lhe pedia fosse com tão pouca armada pelejar com outra sem comparação maior, assentou ir nela, havendo que lhe não atribuiria ninguém a temeridade própria pelo perigo presente, e sabido em que se ia meter, senão à confiança que em Deus punha, por cujo serviço se arriscava, porque a armada, que se lhe dava, era a sua nau, e um galeãozinho de um mercador de Cochim, e três galeotas velhas sem apostiças, e cinco fustas, umas e outras desaparelhadas, mal marinhadas e peor petrechadas, sem haver em cada uma mais que duas arrobas de pólvora, de bombarda e meia de espingarda, com muito pouca artilharia, sem comitres, e a chusma era de escravos, que os moradores para este efeito emprestaram, sem terem nenhuma disciplina da navegação, por uso ou engenho. E em todas e na nau e no galeão se embarcaram trezentos soldados de Sardos, e sem paga. Assim partiu a 15 de Novembro, com tão fraco aparelho e poder contra o grande do inimigo, protestando nunca pedir a el-Rei satisfação pela boa fortuna deste serviço que lhe ia fazer, se lha Deus desse, confessando-se e comungando, e ordenando, antes que partisse, as coisas da sua alma, e dispondo o mais que para aquele transe lhe pareceu necessário.
O dia que partiu surgiu três léguas da cidade, para acabar de recolher a armada, que não saiu logo toda com ele, ou pelo pouco gosto que tinha de o seguir em jornada tal, ou pelo aviamento vagaroso que se lhe dava, pela falta que de de (sic) tudo havia. Ela junta, mandou fazer sinal, e levando-se em rompendo a menhã (sic), navegou para o Rio Formoso, que está doze léguas de Malaca, por lhe afirmarem as espias que estava nele a armada imiga. Tanto que a descobriu, viu assomar a dianteira dela, que seria de vintantos (sic), navios ligeiros; deixando a Manuel Ferreira por capitão da sua nau, com instrução do que devia fazer no conflito, se meteu em uma galeota das que consigo levava, que era de Aires Pinto, para ordenar a sua armada e animar os soldados, (por que, vendo-o antre si tão companheiro, como cada qual deles, pelejassem mais confiados) e principalmente por lhes dar a entender em seu bom semblante que não era tão espantoso o imigo, como se em Malaca pintava, pois queria achar-se com eles, não só como seu capitão-mor, mandando da sua nau, senão também como soldado, pelejando numa galeota com a espada na mão, e correndo o alcance deste garfo da armada, a voga arrancada (porque entendia que, se a desbaratasse, ficava mais fácil o desbarato da que restava), se ajuntou ela toda e foi velejando para fora apavorar e atemorizar a armada portuguesa.
Entendendo o capitão-mor Tristão Vaz da Veiga, pelo muito discurso que tinha da guerra, que na determinação sua estava o temor dos imigos e na dúvida confiança, lembrou aos capitães e soldados suas obrigações e os exortou, persuadiu e moveu à peleja e, alvoraçando-os com palavras animosas, se fez logo na volta deles; e, indo pouco menos de uma légua, viraram, parecendo-lhes que poderiam tomar o balravento à nossa armada.
Tristão Vaz, pronosticando a tal princípio um fim felice, bradou, por acrescentar os espíritos aos companheiros que arreceavam os mouros a batalha, pois com tanta ventage (sic) se queriam também valer do vento, afirmando-lhes mais que isso mesmo o levava ajudar-se da sua nau e do galeão para os render a pouco custo. Unida, pois, esta pequena armada à nau e
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ao galeão, descaiu o Achém com a sua sobre ela e, ficando ambas encaradas e fronteiras, se tratou (sic) uma muito crespa e belicosa batalha.
O capitão-mor pôs a proa da galeota, em que ia, na galé da capitaina do Achém, tão descompassada de grande, que foi maravilha poder-se desbaratar com duzentos homens de peleja, que nela trazia, e os sete navios mais de remo nas outras galés, que os cometeram. Mas Deus, que, manifestamente, pelejava pelos seus fiéis, quebrantando e abatendo a feroz arrogância deste imigo, as desbaratou de modo que fugiram todas, vendo perdido o pendão do seu general e virar a galé destroçada, deixando quatro galés abrazadas e sete embarcações, outras de serviço, que traziam por popa, cada uma sua, e mais para se reformarem e se cevarem de gente, quando dela tivessem necessidade.
E, porque se armava da banda de Samatra um tempo borrascoso e desconversável e a noite se chegava, se abrigou Tristão Vaz com a armada de remo ao socairo da nau e do galeão, porque a escuridão e o cansaço da briga e o descuido de soldados vitoriosos não fossem causa de algum infame desastre; e, por celebrar mais a vitória que Deus lhe tinha dado, se deixou estar nesta paragem três dias, com mais resguardo, cuidado e ordenança do que inda a tivera em cometer o imigo, esperando para cada (sic), quando o ele quisesse, tornar a buscar, o qual perdeu setecentos homens de peleja, entre mortos sós cinco soldados, e feridos cinquenta; donde se pode coligir que no espírito veemente, como diz o salmista, venceu este grande capitão Tristão Vaz da Veiga a armada do Achém, e não no poder humano, com que pelejou. Acabados os três dias, mandou voltar as bandeiras para Malaca, com muitos sinais de alegria, e ela a teve assaz com sua chegada e com a certeza de sua tão assinalada vitória.
No segundo cerco de Malaca, sendo capitão o mesmo Tristão Vaz da Veiga, não eram passados muitos meses depois do assombramento mortal da armada do Achém, evaescido (sic) e desfeito, quando sobressalteou outro assaz nocivo a este cansado e miserável povo. Porque a Rainha de Japara, que tinha prometido a este imigo ajudá-lo na conquista de Malaca (como no intervalo de tempo que ele gastou, de sôfrego e cubiçoso, em a guerrear, havendo que a poderia tomar sem sua ajuda, estivesse ordenando a gente que havia de mandar para ela), a mandou de indústria tanto que a teve ordenada e prestes, conquanto sabia de seu destroço e desbarato; que havia que não poderia recolher-se tal, que peor não ficasse a cidade e, pela mesma rezão (sic), que lhe seria mais fácil tomá-la e defendê-la com seu poder ao próprio Achém; levada desta imaginação, que revelou e comunicou aos seus capitães, mandou navegar uma armada de quase de trezentas velas, em que entravam setenta ou oitenta juncos (que são naus à sua usança de trezentas, quatrocentas e quinhentas toneladas), e outras embarcações, que chamam calaluses, com quinze mil jaus de peleja, gente escolhida e de nação soberba, de que era o general que aí dá mão regedor principal do seu Reino; e chegou a Malaca a cinco de Outubro do ano de setenta e quatro.
Quis Deus nestas angústias e aflições tomar por instrumento do alívio delas Tristão Vaz da Veiga, porque, sendo partido, depois de desbaratar a armada do Achém, para a Sunda a cumprir com a obrigação de seu contrato, aconteceu não achar lá comodidade para isso e voltar a tempo que pudesse servir neste cerco; porque D. Francisco Anriques, por sua doença, de que faleceu em Novembro do mesmo ano de setenta e quatro, tinha cometido em sua vida o governo da fortaleza a Tristão Vaz e nomeado em seu testamento por capitão dela, por virtude de uma provisão do Vizo-Rei, contendendo, contudo, por seu falecimento o alcaide-mor Pero Carvalho pertencer-lhe a capitania, por rezão de seu cargo, e o licenciado Martim Ferreira também, por ser veador da Fazenda, se pôs a questão, em parecer do Bispo e de alguns religiosos e pessoas principais, diante do Santíssimo Sacramento, e depois de ventilada e discutida antre eles, saiu eleito Tristão Vaz que, começando fazer seu ofício como via que o pedia a importância do cerco, avisou logo dele por suas cartas, pola via de Charamandel (144),
a António Moniz Barreto, que de Dezembro de setenta e três sucedera na governança da Índia a D. António de Noronha. O qual, sabida por ele a nova do cerco na fim de Fevereiro, espalhou com muita brevidade cartas a diversas partes, para que mandassem muitos mantimentos a Malaca, e assim o fizeram todos, e tanto insistiu o Governador nisto, pela experiência que tinha dos dois cercos de Diu, e do de Mazagão, e de outros muitos transes em que se achara, que pediu para isso à Câmara de Goa vinte mil pardaus de empréstimos, dando para segurança da paga a Duarte Moniz, seu filho, de sete ou oito anos, em penhor, e mandou uma armada para socorro de Malaca, e por capitão-mor dela a D. Pedro de Meneses, que partiu de Goa aos dezassete de Abril, com quinhentos soldados, e D. Miguel de Castro provido da capitania
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dessa fortaleza, com cem soldados, e Francisco de Melo com outros tantos em outra nau, em que ia fazer a viagem de Japão e devia, forçado, tomar Malaca.
A gente da banda de Malaca, quando os Jaus chegaram, estava toda recolhida na fortaleza e a da banda de Ilher por recolher; desta desembarcação, fora de toda a povoação e tão subitamente, que entraram até a porta da fortaleza, junto ao baluarte Santiago, sem acharem resistência, mataram neste furioso ímpeto alguma gente da terra, homens e mulheres, e D. António de Castro, que acudiu ao rumor, acelerado, desarmado, com dez soldados; a menhã já clara se desembarcou o campo, e foi-se o General chegando com ele à fortaleza e, depois de alojado, assentou seus arraiais ao contorno dela, em lugares mais apropositados para seu intento, fazendo suas estâncias e tranqueiras; uma, que estava a trinta passos do baluarte S. Domingos, quebravam os de dentro as avessadas pela tomar.
Tristão Vaz proveu logo os baluartes de capitães, soldados e gastadores e mandou pôr em ordem a artilharia, cometendo a guarda da pólvora a pessoas de confiança, assim por quão perigosa ela é, como também por pouca e as casas todas serem cobertas de palma seca, e espalhou muitos jaus, que na terra havia casados e com filhos, pelos baluartes, antre os soldados, longe donde tinham suas habitações: os de um bairo (sic) (145) no baluarte de outro, que mais remoto lhe ficava, e os de outro noutro, dividindo e apartando os parentes e amigos, com lhes dar a entender que esse era o estilo da guerra, porque juntos não imaginassem alguma treição (146) e conspirassem para dar entrada aos imigos, cujos parentes e amigos
eram muitos deles. Isto feito, se recolheu certa cópia de soldados, para acudir com eles onde fosse necessário e, por cevar os mais, pelo alvoroço que neles via, mandou a João Pereira e ao licenciado Martim Ferreira dar nesta tranqueira com cento e cinquenta soldados, fiando a dianteira de Diogo Lopes, que tinha por sobrenome o Soldado. Saíram e tomaram-na, matando setenta jaus, e ferindo muitos outros, e fazendo fugir os mais. Vieram-se à fortaleza com esta vitória, desmanchada e queimada a tranqueira, e com sete berços, que nela tomaram.
Consirando (147) os jaus que a sua salvação estava nas suas embarcações, pelos almazens
que aí traziam e, porque nelas se haviam de tornar, se lhes a fortuna fosse adversa, meteram-nas com águas vivas no rio dos Malaios, pouco mais de meia légua da fortaleza. Visto seu fundamento, em que nenhum resguardo tiveram, mandou Tristão Vaz buscá-los ao rio por João Pereira, com uma galé e quatro fustas e alguns batéis e manchuas; chegando, queimou trinta e tantos juncos e outros navios, que estavam todos bem providos de mantimentos, de que se tomaram alguns, que foi boa ajuda para os cercados; não pôde entrar o rio mais a pôr o fogo aos outros, que ficaram, porque, de águas quebradas e mortas, é mau de navegar, por ser muito aparcelado e a barra baixa. Por esta destruição cerraram os Jaus a barra e a fecharam com grades de madeira, e atravessaram o rio com uma estacada, e ao longo dela fizeram uma tranqueira para se defender, fabricando sobre navios alguns castelos de pau, para os chegarem ao baluarte de Santiago e o queimarem.
Mandou Tristão Vaz João Pereira lá em batéis apavesados e alguns balões e manchuas (porque deste rio se provia a cidade de muitas coisas e refrescos, que ele, em si, tem); foi, tomou a tranqueira, desfez as estacadas e queimou os castelos, e, como os Jaus entendiam o muito que lhes importava ser senhores do rio, porque impediam com isso não se aproveitarem os da fortaleza dele, e eles, que lograriam tudo o que dava, empregaram todas suas forças em o fortificar, para o que numa noite o cruzaram com outras estacadas muito grandes, e com tranqueira e gente, assestando nela artilharia miúda, para sua defensão.
Tornou Tristão Vaz mandar João Pereira nos batéis e manchuas e, remetendo à tranqueira, se retirou com morte de dois homens e alguns feridos, e um deles era Manuel Ferreira, que ia por capitão num dos batéis, a que se lhe deram três perigosas frechadas. Insistindo, contudo, Tristão Vaz em se tomar, mandou a Fernão Peres de Andrade se metesse no rio em uma naveta artilhada, com arrombadas por amor de sua artilharia, e levou consigo os batéis, bem consertados, e outras embarcações; metendo-se, houve ao abalroar uma crua e aporfiada briga, que durou espaço; todavia, foi ganhada a tranqueira, desfeitas as estacadas e morta muita gente, ficando o rio por nosso.
Custou cada uma destas saídas três até quatro soldados; e não custar mais, sendo os Jaus, com que iam pelejar, tão esforçados, como são, foi por querer Deus guardar aos seus, e também porque, além de não terem muita notícia da arte militar, os atalhava Tristão Vaz, antecipando-os com armada, com que mandava dar neles, primeiro que se pusesse de todo por obra qualquer que fantasiavam e maquinavam, para poder, depois de seguros os
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alojamentos, arvorar escadas e tomar a fortaleza a escala vista, porque tinham naquele tempo os muros muito baixos e em muitos lugares não havia senão paus, que cingiam de um baluarte ao outro, e os Jaus não usam de artilharia grossa para com ela bater, porque tudo cuidam que podem render a puro braço, sem artifício nenhum.
Mandou o Capitão Tristão Vaz a João Pereira se deixasse estar com a armada de remo e com a naveta na boca do rio, para lhes não poder entrar socorro de mantimentos, dos quais indo eles tendo falta, e vendo a porta fechada aos que de fora esperavam e o pouco nojo que podiam já fazer à fortaleza, conjecturando pelo intentado, mandou o Dato (que é como bispo antre eles) pedir pazes com muitos cumprimentos e perdões do cerco, dando que mais